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Visão Espírita do Idoso - III

Leda Marques Bighetti

de Ribeirão Preto, SP

Sem esse entendimento, se não forem trabalhados os aspectos levantados, percebidas essas diferenças, manteremos o atual estágio onde as dimensões velho - idoso - idoso velho, permanecem como sinônimos, como padrão de comportamento.

De um modo geral, o idoso contribui para que essa mentalidade permaneça?

Na realidade, essa faceta não se instalou aí nessa fase da vida física. É ela decorrência de todo um fator cultural, onde a criança já vê, no próprio meio que a acolhe, a afirmação desse desprestígio, no qual a idade adulta ou avançada significa marginalização, sofrimento e amargura. Assim incorpora, mantém ou aprofunda esse entender, passando, não só a temer a idade, mas também a morte, como se essa não ocorresse em qualquer fase da existência.

Lá na frente, no tempo que chegará, encontraremos essa criança como o adulto desequipado, buscando desesperado métodos externos de rejuvenescimento, grupos especiais, nos quais seja possível repetir-se a ilusão da mocidade. Desarmonizado interiormente cria, se vê as voltas com os transtornos psicológicos a se exteriorizar em quadros de depressões e angústias esquecido, nunca ensinado ou lembrado de que o fator idade apresentar-se-á como resultado de como cada qual se comportou, isto é, de como foi construída pelos pensamentos e atitudes todo um existir.

Esses dias de passado, já encarado aí como carga que se quer rapidamente alijar, não enriquecerá, nesse futuro, a mente, os pensamentos, as idéias ou as lembranças em luzes com painéis ditosos, criativos, úteis e felizes.

"Atravessar a existência - qual ocorre com aquele que vence as estradas ou águas de um rio - sempre conduzindo com segurança o veículo de que se utiliza, é processo de realização existencial, que produz resultados compatíveis com a maneira de enfrentar o percurso na direção do objetivo".

Dentro desses raciocínios, poderíamos responder que o idoso contribui para que essa idéia de marginalização se intensifique. Em suas atitudes mínimas lamenta-se do:

  • distanciamento da vida ativa - que ele (mesmo sem o saber) se negou desde muito tempo atrás a querê-la ativa agora, pois esperava a idade, como um tempo que daria o direito de mais nada fazer.
  • enfraquecimento das forças orgânicas
  • privação dos provocantes de prazer
  • proximidade com a morte, situações estas não condicionadas a número de anos vividos, uma vez que em qualquer período da vida orgânica, enfermidades, acidentes, conflitos, problemas econômicos e sociais, geram as mesmas conseqüências.

O distanciamento da Vida, é gerado pela perda do encanto, da alegria de viver.

O pensamento ativo que se mantém útil aqui, ali e sobretudo no campo interno, encontra oportunidade de contribuir positivamente em favor dos grupos familiar e social. Afere-se a força de um ser, não pelo vigor físico, mas pela capacidade de administrar a existência, de enfrentar dificuldades, de resolver desafios, de lutar e vencer; idéias, situações e posicionamentos controvertidos.

Essas premissas, não são característica ou resultantes desta ou daquela idade, mas de disposição interior de viver e de participar dos desafios humanos.

Podemos encontrar muitos jovens de constituição orgânica fraca, o que não os impede de crescer e se realizar. O mesmo ocorre com os idosos que podem ser fracos ou fortes, com estrutura mais ou menos equilibrada, sem que isto seja a causa de afetar-lhes o comportamento social, espiritual e humano.

Naturalmente, a prática de exercícios, a alimentação saudável, planos, ideais, pensamentos edificantes, leituras, atividades gratificantes, correspondentes à cada faixa etária, constituem-se como valores que se importantes no decorrer dos dias, se tornam imprescindíveis nos tempos mais avançados.

Ausência e diminuição do vigor físico necessariamente não são paralelos, contingências para que o mesmo ocorra nas áreas do pensamento, da emoção, do desejo de servir e amar.

Já vimos no estudo um, políticos e administradores, escritores, poetas, cientistas, filósofos, estadistas atingindo seus momentos culminantes quando outros haviam deixado de lutar e despertar oportunidade de crescimento. Estes, encolhem-se para esperar a morte, o desaparecer, o dissolver-se no nada. Os primeiros, utilizam-se dos valores que arregimentaram no tempo para se apresentarem mais vitoriosos, felizes, oferecendo ao mundo contribuição duradoura e brilhante.

Como lidar com o estabelecido de que o idoso esquece?

O hábito de pensar e agir desenvolve a memória retentiva, facultado maior número de aprendizados que não se apagam. Permanece o interesse do principal em detrimento das questões secundárias que a seleção natural faculta desaparecer da mente. À medida, porém, que o indivíduo se mantém ágil, exercitando a capacidade de pensar, aberto, interessado, participante nas inovações do tempo, maior se lhe torna o desempenho intelectual. Mesmo que haja uma variação no ritmo, na velocidade, haverá não só a preservação do patrimônio conquistado como também aquisição de novos valores onde o idoso se configura como exemplo para as gerações novas.

Como refletir sobre a privação de prazeres?

Depende também de como se entende o que é prazer. Sua significação não se atém somente ao que agrada em determinado período da existência física mas qualifica-se como sensação ou sentimento agradável, harmonioso, que atende a uma inclinação vital proporcionando alegria, satisfação, contentamento, deleite. Prazer proporciona alegria, bem-estar, satisfação, felicidade, agrado, incentivo, estímulo para o crescimento interior, conforto e paz.

De acordo com essa definição, a escala de valores a respeito do prazer, varia, de acordo com a idade que cada um desfruta: em um momento a volúpia, o grande prazer dos sentidos, noutro arrefece-se este; em outro ainda perdem-se os atrativos, desaparecendo completamente. Há prazeres dos sentidos que exigem imediatas compensações; há prazeres do sentimento que proporcionam inimaginável e duradouro bem-estar.

A busca pelo prazer na juventude e madureza é afligente, busca o ter onde o sexo é priorizado como sua fonte única. Nesse entender a idade avançada acena com a decrepitude e insatisfação, tormento, amargura, revolta e frustração.

No real entender do prazer, ele existirá e atrairá das mais variadas formas que poderão ser vivenciadas nos vários ou conforme o padrão orgânico, onde formas antes desconhecidas de companheirismo, convívio, afetividade, trocas, e prazeres fluem no ser sem a imposição do relacionamento sexual.

Ainda, nesse encadear dos sentidos que se superam, o ser pode nesse entender (ilusório para uns, utópico para outros) descobrir o prazer de encontrar-se, de viver consigo mesmo, experimentando sensações, percebendo um mundo estético pleno de harmonia na satisfação pessoal cada vez mais abrangente. Prazer em tese, não se configura como sensação um momento fugaz, mas frui de dentro do ser, irradiando-se em indescritível paz, entusiasmo, alegria de ser, de estar e de viver.

Há quem associe idade avançada com rabugice. Como refletir sobre isso?

Queixar-se de tudo, ser impertinente, inconveniente, inoportuno, insolente, falar e agir de modo ofensivo, grosseiro, viver de mau humor, zangar-se continuamente, não é privilégio dos anciãos. Pessoas exteriorizando a habituidade dessas posturas são encontradas em todos os períodos da existência! Quantos, dispondo de uma existência pela frente, se exteriorizam em atitudes irritadiças, exigentes ao lado de idosos pacientes, confiantes e gentis. O inverso também procede? Sem dúvida, jovens ternos, pacientes e idosos inconvenientes, mostrando mais uma vez, cada um a se exteriorizar como fruto do trabalho que realizou e ou realiza consigo. Como ainda em tese, não despertos, interessados ou motivados como Espíritos imortais para esse trabalho educativo a realizar-se na essência, é coerente que o idoso se configure como expressivo número a chamar a atenção pelas atitudes da rebeldia rabugenta, descontente e infeliz.

De um modo geral, essas posições refletem esse imenso vazio do ser que se vê diante do nada, no fim que não chega, na família que estigmatiza, marginaliza e põe de lado como algo que estorva e enfeia o ambiente.

Estudiosos apontam que, grande parte das atitudes mais agressivas do idoso, configuram-se como reações para com as atitudes, o pouco caso, o desprezo, o subestimar que sentem ou percebem (mesmo quando não exteriorizadas em palavras e atos) nos demais.

Desse modo, o relacionamento não saudável na família ocasionam ou aprofundam conflitos, implicâncias, cobranças que podem caminhar para agravamentos insustentáveis.

Reflitamos que de modo geral, mas especificamente neste caso, é na família que o processo se desenvolve em clima de sintonia, onde o menosprezo de uns (exteriorizado ou não) provoca reações que reciprocamente interferirão na preservação da saúde física, emocional e mental do grupo familiar.

Nivelou-se nesse grupo, a visão do nada do idoso, no descaso desrespeitoso do grupo, onde todos querem se ver livres uns dos outros, como pesos recíprocos a se tolerarem por obrigação.

Nesse clima, somente aqueles que dispuserem de resistências morais relevantes, suportarão (não se sabe em que condições íntimas) o desrespeito mantido.

Essas "resistências morais relevantes", frise-se, não são conseguidas de uma hora para outra, mas fruto de trabalho pessoal no entender da Vida, na sua função, nos objetivos que cumpre frente ao crescimento do Espírito.

Entender que os dias da existência têm significado especial par o enriquecimento interior, na conquista de patamares elevados para o sentimento e o pensamento, nas ações nobres rumo a plenitude, desperta para que se viva integralmente cada momento, com atividades renovadoras, espírito de combate, alegria e paz. Ainda, em favor de cada um, nesse preparo para dias que estamos ou que chegarão despojar-se da consciência de culpa pelas ações menos felizes que podem ser reparadas; sem cobranças, pelo que gostaria de ter feito ou realizado de forma diferente. Harmonizar-se, agir corretamente, dinamizar no Bem tudo quanto possui orientando os passos, pelos caminhos da Verdade, da Solidariedade e do Amor.

Quem trabalha consigo e se descobre, não mais permanece na indecisão, cultivando pensamentos perturbadores mas marcha em busca da auto-realização em total harmonia íntima.

Conclui-se que, chegar a ser idoso é uma arte e uma ciência, que devem ser tomadas a sério, seja qual for a idade que se tenha hoje, exercitando-as a cada instante, em atitudes positivas do dia-a-dia. Alijar do campo mental o "estabelecido" de que essa etapa espiritual deve ser ociosa, contemplativa, sem movimento e trabalho.

Mas o idoso trabalhar? Todos necessitamos do trabalho, inclusive o idoso com trabalho é lógico adaptado às suas condições físicas e psicológicas. aliás, quanto mais participarmos de uma vida de trabalho, principalmente dirigido à sociedade dos homens, mais esquecemos de nós onde as naturais reações da organização física ficam como que, apagadas, suplantadas, nos planos, nas idéias, no que se planeja fazer aqui e ali na mento que organiza procedimentos ou providências, esperando com euforia as luzes do amanhecer, para poder pôr em pratica, essas novas idéias e planos. É nesse sonhar, arquitetar, planejar constante que se nutre as próprias fontes de energia, quase sempre carentes e necessitadas de renovação.

Estima-se que por volta do ano de 202 teremos no Brasil vinte e sete milhões de idosos e setecentos milhões no mundo. Se entendemos que a vida é semeadura, e que muitos de nós comporá esse número, somente nesse entendimento da Vida e no desenvolvimento das qualidades positivas, teremos estruturas psicológicas dignificantes e bem sedimentadas acrescida ainda, pela compreensão de que chegar a ser idoso acena ainda como fase preparatória de uma nova vida.

Se já somos idoso ou se estamos a caminho, usemos de todo nosso interesse, preparemo-nos para a Vida que prossegue no sem fim dos tempos. Saibamos atravessar o cair da noite com naturalidade e harmonia, afim de colhermos e apreciarmos as belezas de uma nova aurora.

Bibliografia:

  • André, Jorge - Dinâmica Psi - estudo 27
  • Ângelis, Joanna - Despertar do Espírito - estudo 10

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(Jornal Verdade e Luz Nº 180 de Janeiro de 2001)

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