O Livro dos Espíritos

Parte Quarta – Esperanças e Consolações

Capítulo 1 – Penalidades e prazeres terrenos

Felicidade e infelicidade relativas – Perda de pessoas amadas – Decepção. Ingratidão. Afeições destruídas – Uniões antipáticas – Medo da morte – Desgosto da vida. Suicídio

Felicidade e infelicidade relativas

920 O homem pode desfrutar na Terra de uma felicidade completa?

– Não, uma vez que a vida lhe foi dada como prova ou expiação; mas depende dele amenizar esses males e ser tão feliz quanto se pode ser na Terra.

921 Concebe-se que o homem será feliz na Terra quando a humanidade estiver transformada. Mas, enquanto isso, cada um pode garantir para si uma felicidade relativa?

– O homem é quase sempre o agente de sua própria infelicidade. Ao praticar a lei de Deus, se pouparia dos males e desfrutaria de uma felicidade tão grande quanto o comporta sua existência grosseira.

O homem bem compenetrado de sua destinação futura vê na vida corporal apenas uma estação temporária. É como uma estada passageira numa hospedaria; ele se consola facilmente de alguns desgostos passageiros de uma viagem que deve conduzi-lo a uma posição tanto melhor quanto melhor tenha se preparado.

Somos punidos, já nesta vida, pelas infrações às leis da existência corporal, pelos males que são a conseqüência dessa infração e de nosso próprio excesso. Se voltarmos gradativamente à origem do que chamamos de nossas infelicidades terrenas, as veremos, na maioria das vezes, como conseqüência de um primeiro desvio do caminho reto. Por esse desvio, entramos no mau caminho e, de conseqüência em conseqüência, caímos na infelicidade.

922 A felicidade terrena é relativa à posição de cada um; o que basta à felicidade de um faz a infelicidade de outro. Existe, entretanto, uma medida de felicidade comum a todos os homens?

– Para a vida material, é a posse do necessário; para a vida moral, a pureza da consciência e a fé no futuro.

923 O que é supérfluo para uns não se torna necessário para outros e, reciprocamente, conforme suas posições na sociedade?

– Sim, de acordo com vossas idéias materiais, preconceitos e ambição, e todos os caprichos ridículos aos quais o futuro fará justiça quando compreenderdes a verdade. Sem dúvida, aquele que tinha um valor de cinqüenta mil de renda e que agora só tem dez acredita ser bem infeliz, porque não pode mais ter uma grande soma, ter o que chama de sua posição, seus cavalos, criados, satisfazer todas as suas paixões, etc. Acredita não ter o necessário; mas, francamente, achais que ele tem direito de se lamentar, quando ao seu lado há quem morre de fome e frio e não tem um abrigo para repousar a cabeça? O homem sábio, para ser feliz, olha abaixo de si e nunca acima, a não ser para elevar sua alma ao infinito. (Veja a questão 715.)

924 Existem males que independem da maneira de agir e que atingem até o homem mais justo; tem ele algum meio de se preservar deles?

– Ele deve se resignar e suportá-los sem lamentações, se quiser progredir; mas sempre possui uma consolação na sua consciência que lhe dá a esperança de um futuro melhor, se faz o que é preciso para obtê-lo.

925 Por que Deus favorece com os dons da riqueza certos homens que não parecem merecê-los?

– É um favor que se apresenta aos olhos daqueles que vêem apenas o presente; mas, sabei bem, a riqueza é uma prova freqüentemente mais perigosa do que a pobreza. (Veja a questão 814 e seguintes)

926 A civilização, ao criar novas necessidades, não é a fonte de novas aflições?

– Os males desse mundo ocorrem em razão das necessidades falsas que criais. Aquele que sabe limitar seus desejos e vê sem inveja o que está acima de si poupa-se das decepções nessa vida. O mais rico dos homens é aquele que tem menos necessidades.

Invejais os prazeres daqueles que parecem os mais felizes do mundo; mas sabeis o que lhes está reservado? Se desfrutam desses prazeres somente para si, são egoístas, então virá o reverso. De preferência, lastimai-os. Deus permite algumas vezes que o mau prospere, mas essa felicidade não é para ser invejada, porque a pagará com lágrimas amargas. Se o justo é infeliz, é uma prova que lhe será levada em conta, se a suporta com coragem; lembrai-vos dessas palavras de Jesus: “Felizes os que sofrem pois serão consolados”.

927 O supérfluo não é certamente indispensável à felicidade, mas o mesmo não acontece com o necessário. Não é real a infelicidade daqueles que não têm o necessário?

– O homem só é verdadeiramente infeliz quando sofre com a falta do que é necessário à vida e à saúde do corpo. Essa carência talvez ocorra por sua própria culpa; então, deve queixar-se somente de si mesmo. Se for causada por outros, a responsabilidade recai sobre aquele que a causar.

928 Pela especialidade das aptidões naturais, Deus indica evidentemente nossa vocação neste mundo. Muitos males não surgem por não seguirmos essa vocação?

– É verdade, e são freqüentemente os pais que, por orgulho ou vaidade, fazem seus filhos saírem do caminho traçado pela natureza e, por causa desse deslocamento, comprometem sua felicidade. Serão responsabilizados por isso.

928 a Assim, acharíeis justo que um filho de um homem bem posicionado na sociedade fizesse tamancos, por exemplo, se for essa sua aptidão?

– Não é preciso cair no absurdo nem exagerar. A civilização tem suas necessidades. Por que o filho de um homem bem posicionado, como dizeis, faria tamancos, se pode fazer outra coisa? Ele poderá sempre se tornar útil na medida de suas aptidões, se não as contrariar. Assim, por exemplo, em vez de ser um mau advogado, poderia talvez tornar-se um bom mecânico, etc.

O deslocamento dos homens para fora de sua esfera intelectual é certamente uma das causas mais freqüentes de suas decepções. A falta de aptidão à carreira abraçada é uma fonte perene de reveses; depois, o amor-próprio, vindo juntar-se a isso, impede o homem fracassado de procurar recursos numa profissão mais humilde e lhe mostra o suicídio como remédio para escapar do que acredita ser uma humilhação. Se uma educação moral o tivesse elevado acima dos tolos preconceitos do orgulho, ele nunca seria apanhado de surpresa.

929 Existem pessoas que, sentindo-se carentes de todos os recursos, mesmo que a abundância reine ao seu redor, têm somente a morte como perspectiva; nesse caso o que devem fazer? Devem se deixar morrer de fome?

– Não se deve nunca ter a idéia de se deixar morrer de fome porque sempre encontrará um meio de se alimentar, se o orgulho não se colocar entre a necessidade e o trabalho. Diz-se freqüentemente: não há nenhuma profissão humilhante, nenhum trabalho desonra; diz-se para os outros e não para si.

930 É evidente que, isento dos preconceitos sociais pelos quais se deixa dominar, o homem sempre encontrará um trabalho qualquer que o ajude a viver, mesmo deslocado de sua posição; mas entre as pessoas que não têm preconceitos ou que os colocam de lado não existem aquelas que estão na impossibilidade de prover às suas necessidades em conseqüência de doenças ou outras causas independentes de sua vontade?

– Numa sociedade organizada de acordo com a lei do Cristo ninguém deve morrer de fome.

Com uma organização social sábia e previdente, o homem pode carecer do necessário apenas por sua culpa, mas mesmo essas suas faltas são geralmente o resultado do meio onde vive. Quando o homem praticar a lei de Deus, terá uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade, e ele mesmo também será melhor. (Veja a questão 793.)

931 Por que, na sociedade, as classes sofredoras são mais numerosas do que as felizes?

– Nenhuma é perfeitamente feliz, e o que se acredita ser felicidade esconde freqüentemente grandes aflições. O sofrimento está por toda parte. Entretanto, para responder ao vosso pensamento, direi que as classes que chamais de sofredoras são mais numerosas, porque a Terra é um lugar de expiação. Quando o homem fizer dela sua morada do bem e dos bons Espíritos, não mais será infeliz e viverá no paraíso terrestre.

932 Por que, no mundo, os maus têm geralmente maior influência sobre os bons?

– É pela fraqueza dos bons; os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos; quando estes últimos quiserem, dominarão.

933 Se muitas vezes o homem é o causador de seus sofrimentos materiais, também será dos morais?

– Mais ainda, porque os sofrimentos materiais são algumas vezes independentes da vontade; mas o orgulho ferido, a ambição frustrada, a ansiedade da avareza, a inveja, o ciúme, todas as paixões, enfim, são torturas da alma.

A inveja e o ciúme! Felizes aqueles que não conhecem esses dois vermes roedores! Com a inveja e o ciúme não há calma nem repouso possível para aquele que está atacado desses males: os objetos de sua cobiça, seu ódio, seu despeito se dirigem a ele como fantasmas que não lhes dão nenhuma trégua e o perseguem até durante o sono. O invejoso e o ciumento vivem num estado de febre contínua. Será essa uma situação desejável, e não compreendeis que com suas paixões o homem criou para si suplícios voluntários, e que a Terra torna-se para ele um verdadeiro inferno?

Várias expressões refletem energicamente os efeitos de certas paixões; diz-se: estar inchado de orgulho, morrer de inveja, secar de ciúme ou de despeito, por ciúmes perder o apetite, etc.; esse quadro não deixa de ser verdadeiro. Algumas vezes o próprio ciúme não tem objetivo determinado. Existem pessoas naturalmente ciumentas de tudo que se eleva e sai do comum, mesmo que não tenham nenhum interesse direto nisso, mas unicamente porque não o podem atingir. Tudo o que parece estar acima do horizonte as ofusca, e se estivessem em maioria na sociedade desejariam reconduzir tudo a seu nível. É o ciúme aliado à mediocridade.

O homem é, muitas vezes, infeliz apenas pela importância que dá às coisas deste mundo; é a vaidade, a ambição e a cobiça frustradas que fazem sua infelicidade. Se ele se coloca acima do círculo estreito da vida material, se eleva seus pensamentos ao infinito, que é a sua destinação, as contingências da humanidade lhe parecem, então, mesquinhas e fúteis, como as tristezas de uma criança que se aflige com a perda de um brinquedo que representava sua felicidade suprema.

Aquele que vê felicidade apenas na satisfação do orgulho e dos apetites grosseiros fica infeliz quando não pode satisfazê-los; no entanto, aquele que não se interessa pelo supérfluo fica feliz com o que tem e que os outros considerariam uma grande desgraça, uma insignificância.

Falamos do homem civilizado porque o selvagem, por ter necessidades mais limitadas, não tem os mesmos motivos de cobiça e de angústias: sua maneira de ver as coisas é completamente diferente. Civilizado, o homem raciocina sobre sua infelicidade e a analisa; é por isso que se sente mais afetado por ela; mas também pode raciocinar e analisar os meios de consolação. Essa consolação está no sentimento cristão, que dá a esperança de um futuro melhor, e no Espiritismo, que dá a certeza desse futuro.

Perda de pessoas amadas

934 Por que a perda das pessoas queridas nos causa um desgosto tanto mais legítimo quanto irreparável e independente de nossa vontade?

– Esse motivo de desgosto atinge tanto o rico quanto o pobre: é uma prova ou uma expiação, é a lei comum. Mas é uma consolação poder se comunicar com os amigos pelos meios que tendes, enquanto esperais outros mais diretos e mais acessíveis aos vossos sentidos.

935 O que pensar das pessoas que vêem as comunicações dos Espíritos como uma profanação?

– Não pode haver nisso profanação quando há recolhimento e quando a evocação é feita com respeito e dignidade. O que prova isso é que os Espíritos que se afeiçoam a vós vêm com prazer, ficam felizes com vossa lembrança e por se comunicarem convosco. Haveria profanação se fizessem disso uma leviandade.

A possibilidade de entrar em comunicação com os Espíritos é uma consolação bem doce, uma vez que nos proporciona o meio de conversarmos com nossos parentes e amigos que deixaram a Terra antes de nós. Pela evocação, os aproximamos de nós, e eles ficam do nosso lado, nos ouvem e respondem; não há, por assim dizer, mais separação entre eles e nós.

Ajudam-nos com seus conselhos, demonstrando sua afeição e o contentamento que têm por nossa lembrança. É para nós uma satisfação saber que estão felizes, aprender com eles mesmos os detalhes de sua nova existência e adquirir a certeza de que, por nossa vez, nos reuniremos a eles.

936 Como as dores inconsoláveis dos encarnados afetam os Espíritos que partiram?

– O Espírito é sensível à lembrança e aos lamentos daqueles que amou, mas uma dor incessante e irracional o afeta dolorosamente, porque vê nessa dor excessiva uma falta de fé no futuro e de confiança em Deus e um obstáculo ao adiantamento dos que choram e, talvez, ao reencontro entre todos.

Estando o Espírito mais feliz no espaço do que na Terra, lamentar que tenha deixado esta vida é lamentar que seja feliz. Dois amigos são prisioneiros e estão encerrados na mesma cela; tanto um quanto o outro devem obter um dia a liberdade, mas um deles a obtém antes. Seria caridoso, para aquele que fica, sentir-se infeliz por seu amigo ter sido libertado antes dele? Não seria mais egoísmo do que afeição de sua parte querer que o outro compartilhasse do seu cativeiro e sofrimentos por tanto tempo quanto ele? O mesmo acontece com dois seres que se amam na Terra; aquele que parte primeiro é o primeiro a se libertar, e nós devemos felicitá-lo por isso, aguardando com paciência o momento em que lá estaremos por nossa vez.

Faremos, sobre este assunto, uma outra comparação. Tendes um amigo numa situação muito lastimável, sua saúde ou seu interesse exige que vá a um outro país onde ficará melhor sob todos os aspectos. Não estará mais perto de vós momentaneamente, mas sempre estareis em comunicação com ele: a separação será apenas material. Ficaríeis descontentes com seu afastamento, ainda que seja para seu bem?

Pelas provas evidentes que apresenta da vida futura, da presença ao nosso redor daqueles que amamos e da continuidade de sua afeição e dedicação por nós, pelas relações que nos permitem ter com eles, a Doutrina Espírita nos oferece uma suprema consolação para uma das causas mais legítimas da dor. Com o Espiritismo não há mais solidão, não há mais abandono; o homem mais isolado tem sempre amigos perto de si com os quais pode se comunicar.

Suportamos impacientemente as aflições da vida, e elas nos parecem tão intoleráveis que julgamos não poder suportá-las; entretanto, se as suportarmos com coragem, se soubermos silenciar nossos lamentos, ficaremos felizes com isso quando estivermos fora desta prisão terrestre, como o paciente que sofre fica feliz quando é curado, por ter se submetido a um tratamento doloroso.

Decepção. Ingratidão. Afeições destruídas

937 As decepções causadas pela ingratidão e a fragilidade da amizade também não são para o homem de coração uma fonte de amargura?

– Sim; mas já vos ensinamos a lastimar os ingratos e amigos infiéis: eles serão mais infelizes que vós. A ingratidão é filha do egoísmo, e o egoísmo encontrará mais tarde corações insensíveis, como ele mesmo foi. Pensai em todos que fizeram mais o bem do que vós, que valeram muito mais do que vós, e que foram pagos com ingratidão. Pensai que o próprio Jesus foi zombado e desprezado quando na Terra, tratado de velhaco e de impostor, e não vos espanteis que o mesmo possa acontecer convosco. Que o bem que fizestes seja vossa recompensa neste mundo, e não vos preocupeis com o que dizem aqueles que o receberam. A ingratidão é uma prova para vossa persistência em fazer o bem e será levada em conta. Os ingratos serão tanto mais punidos quanto maior tiver sido a sua ingratidão.

938 As decepções causadas pela ingratidão não predispõe a endurecer o coração e fechá-lo à sensibilidade?

– Isso seria um erro, porque o homem de coração, como dizeis, está sempre feliz com o bem que faz. Ele sabe que se pelo bem que faz não o reconhecerem nesta vida, na outra o farão, e que ao ingrato restará a vergonha e o remorso.

938 a Esse pensamento não impede seu coração de ser magoado; portanto, isso não poderia originar a idéia de que seria mais feliz se fosse menos sensível?

– Sim, se preferir a felicidade do egoísta, que é muito triste! Que ele saiba que os amigos ingratos que o abandonam não são dignos de sua amizade e que se enganou sobre eles; portanto, não deve lamentar sua perda. Mais tarde, encontrará outros que o compreenderão melhor. Lamentai aqueles que têm para convosco um comportamento ingrato que não merecestes, porque terão amarga recompensa, um triste retorno; e também não vos aflijais com isso: é o meio de vos colocar acima deles.

A natureza deu ao homem a necessidade de amar e de ser amado. Um dos maiores prazeres concedidos na Terra é o de encontrar corações que simpatizam com o seu, o que é indício de uma felicidade que lhe está reservada no mundo dos Espíritos perfeitos, onde tudo é amor e benevolência; é um prazer recusado ao egoísta.

Uniões antipáticas

939 Se os Espíritos simpáticos são levados a se unir, como é que, entre os encarnados, a afeição seja freqüente apenas de um lado, e que o amor mais sincero seja muitas vezes acolhido com indiferença e até mesmo com repulsa? Como, além disso, a mais viva afeição de dois seres pode se transformar em antipatia e ódio?

– Vós não compreendeis, porque é uma punição passageira. Aliás, quantos não há que acreditam amar perdidamente, porque julgam apenas pelas aparências, e quando são obrigados a viver com as pessoas amadas, não tardam a reconhecer que é apenas uma atração física! Não basta estar apaixonado por uma pessoa que vos agrada e que tem muitas qualidades; é na convivência real que podereis apreciá-la. Quantas uniões há que, de início, parecem não ser simpáticas; porém, depois de um e outro se conhecerem e se estudarem bem terminam por se amar com um amor terno e durável, porque se baseia na estima! Não se pode esquecer que é o Espírito que ama, e não o corpo, e quando a ilusão material se dissipa, o Espírito vê a realidade.

Há duas espécies de afeição: a do corpo e da alma, e toma-se freqüentemente uma pela outra. A afeição da alma, quando é pura e simpática, é durável; a do corpo é passageira. Eis por que muitas vezes os que pensavam se amar com um amor eterno se odeiam quando acaba a ilusão.

940 A falta de simpatia entre os seres que têm de viver juntos não é igualmente uma fonte de desgostos amarga e que envenena toda a existência?

– Muito amarga, de fato; mas é uma dessas infelicidades de que, freqüentemente, sois os principais responsáveis. Primeiro, são vossas leis que estão erradas. Por que acreditais que Deus obriga a ficar com aqueles que vos desagradam? E depois, nessas uniões, procurais muitas vezes mais a satisfação do orgulho e da ambição do que a felicidade de uma afeição mútua. Então suportais a conseqüência de vossos preconceitos.

940 a Mas, nesse caso, não existe quase sempre uma vítima inocente?

– Sim, e é para ela uma dura expiação. Mas a responsabilidade de sua infelicidade recairá sobre quem a causou. Se a luz da verdade já penetrou sua alma, terá consolação em sua fé no futuro; além disso, à medida que os preconceitos forem enfraquecendo, as causas dessas infelicidades íntimas também desaparecerão.

Medo da morte

941 O medo da morte é para muitas pessoas um motivo de perplexidade; de onde vem esse medo, se têm o futuro diante de si?

– É um erro terem esse medo. Mas o que quereis! Procura-se convencê-las desde crianças de que existe um inferno e um paraíso, e que é mais certo irem para o inferno, porque lhe dizem que ao agirem de acordo com a natureza cometem um pecado mortal para a alma: então, quando se tornam adultas, se têm algum discernimento, não podem admitir isso, e tornam-se ateus ou materialistas. É assim que se conduzem as pessoas a crer que além da vida presente não há mais nada, e as que persistiram em suas crenças de infância temem esse fogo eterno que deve queimá-las sem destruí-las.

A morte, entretanto, não inspira ao justo nenhum temor, porque, com a fé, tem a certeza do futuro; a esperança lhe faz esperar uma vida melhor, e a caridade que praticou dá-lhe a certeza de que não encontrará no mundo para onde vai nenhum ser do qual deva temer o olhar. (Veja a questão 730.)

Aquele que é mais ligado à vida material do que à espiritual tem, na Terra, penalidades e prazeres materiais; sua felicidade resume-se à satisfação ilusória de todos os desejos. Sua alma, constantemente preocupada e afetada pelas contingências da vida, permanece numa ansiedade e numa tortura perpétuas. A morte o assusta, por duvidar do seu futuro e acreditar que deixa na Terra todas as suas afeições e esperanças.

Aquele que se eleva acima das necessidades artificiais criadas pelas paixões tem, já aqui na Terra, prazeres desconhecidos ao materialista. A moderação de seus desejos dá ao Espírito calma e serenidade. Feliz pelo bem que faz, não há para ele decepções, e as contrariedades deslizam sobre sua alma sem causar nenhuma impressão dolorosa.

942 Certas pessoas não acharão esses conselhos banais para serem felizes na Terra? Não verão o que chamam de lugares-comuns, verdades repetidas? E não dirão que, definitivamente, o segredo para ser feliz é saber suportar sua infelicidade?

– Há os que dirão isso, e serão muitos. Mas ocorre o mesmo com certos doentes a quem o médico prescreve a dieta: gostariam de ser curados sem remédios e continuar a se predispor às indigestões.

Desgosto da vida. Suicídio

943 De onde vem o desgosto pela vida que se apodera de certos indivíduos sem motivos razoáveis?

– Efeito da ociosidade, da falta de fé e freqüentemente da satisfação plena de seus apetites e vontades, do tédio. Para aquele que exerce suas atividades com um objetivo útil e de acordo com suas aptidões naturais, o trabalho não tem nada de árido, e a vida escoa mais rapidamente.Suporta as contingências da vida com mais paciência e resignação quanto age tendo em vista uma felicidade mais sólida e mais durável que o espera.

944 O homem tem o direito de dispor de sua própria vida?

– Não, apenas Deus tem esse direito. O suicídio voluntário é uma transgressão dessa lei.

944 a O suicídio não é sempre voluntário?

– O louco que se mata não sabe o que faz.

945 O que pensar do suicídio que tem como causa o desgosto da vida?

– Insensatos! Por que não trabalhavam? A existência não lhes teria sido pesada!

946 O que pensar do suicida que tem por objetivo escapar das misérias e decepções deste mundo?

– Pobres Espíritos, que não têm coragem de suportar as misérias da existência! Deus ajuda aqueles que sofrem, e não aos que não têm força nem coragem. As aflições da vida são provas ou expiações; felizes aqueles que as suportam sem queixas, porque serão recompensados! Infelizes, ao contrário, os que esperam sua salvação do que, na incredulidade deles, chamam de acaso ou sorte! O acaso ou a sorte, para me servir da vossa linguagem, podem, de fato, favorecê-los transitoriamente, mas é para fazê-los sentir mais tarde e mais cruelmente o vazio dessas palavras.

946 a Aqueles que conduziram um infeliz a esse ato de desespero sofrerão as conseqüências disso?

– Como são infelizes! Pois responderão por homicídio.

947 O homem que na necessidade se deixa morrer de desespero pode ser considerado um suicida?

– É um suicida;mas os que o levaram a isso ou que poderiam impedi-lo são mais culpados que ele, e a indulgência o espera. Entretanto, não acrediteis que seja inteiramente absolvido se lhe faltaram firmeza e perseverança e se não usou sua inteligência para superar as dificuldades. Infeliz dele, principalmente se seu desespero se originou do orgulho; quero dizer, se é desses homens a quem o orgulho paralisa os recursos da inteligência, que se envergonham por depender do trabalho de suas mãos e que preferem morrer de fome a renunciar ao que eles chamam de posição social! Não haverá cem vezes mais grandeza e dignidade em lutar contra a adversidade do que enfrentar a crítica de um mundo fútil e egoísta, que tem boa vontade apenas para com aqueles a quem nada falta, e vos dá as costas quando tendes necessidade dele? Sacrificar a vida em consideração a esse mundo é uma coisa estúpida, porque para esse mundo isso não tem valor.

948 O suicídio que tem por objetivo escapar da vergonha de uma má ação é tão condenável quanto aquele que é causado por desespero?

– O suicídio nesse caso não apaga o erro; pelo contrário, haverá dois em vez de um. Quando se teve a coragem de fazer o mal, é preciso ter a coragem de suportar as conseqüências. A Providência a tudo julga e, de acordo com a causa, pode, algumas vezes, diminuir seus rigores.

949 O suicídio pode ser desculpável quando tem por objetivo impedir que a vergonha recaia sobre filhos ou sobre a família?

– Aquele que age desse modo não procede bem, embora acredite que o faça. A Providência leva isso em conta, porque é uma expiação que se impõe a si mesmo. Ele atenua seu erro pela intenção, mas não deixa de cometer um erro. Portanto, eliminai os abusos da sociedade e os vossos preconceitos e não tereis mais suicídios.

Aquele que tira a própria vida para escapar da vergonha de uma má ação prova que tem mais estima aos homens do que a Deus, porque vai entrar na vida espiritual carregado de suas maldades, tendo-se privado dos meios de repará-las durante a vida. Porém, sendo a Providência divina mais benévola do que os homens na sua justiça, perdoa pelo arrependimento sincero e leva em conta nossa reparação. Mas o suicídio nada repara.

950 O que pensar daquele que tira a própria vida na esperança de atingir mais cedo uma vida melhor?

– Outra loucura! Se fizer o bem a atingirá mais cedo. Pelo suicídio retarda sua entrada num mundo melhor, e ele mesmo pedirá para vir terminar essa vida que encurtou por uma falsa idéia. Um erro, seja qual for, nunca abre o santuário dos eleitos.

951 O sacrifício da vida não é algumas vezes meritório, quando tem por objetivo salvar a de outras pessoas ou ser útil aos seus semelhantes?

– Isso é sublime, de acordo com a intenção, e nesse caso o sacrifício da vida não é um suicídio, mas um sacrifício inútil. Porém, está fora dos desígnios divinos se é ofuscado pelo orgulho. Um sacrifício é apenas meritório pelo desinteresse. Algumas vezes, esse sacrifício esconde uma segunda intenção, que lhe diminui o valor aos olhos de Deus.

Todo sacrifício do homem à custa de sua própria felicidade é um ato soberanamente meritório perante Deus, porque é a prática da lei de caridade. Portanto, sendo a vida o bem terreno ao qual o homem atribui maior apreço, aquele que renuncia a isso pelo bem de seus semelhantes não comete nenhum atentado: é um sacrifício que realiza. Mas, antes de realizá-lo, deve refletir se sua vida não será mais útil que sua morte.

952 O homem que morre vitimado pelo abuso de paixões que sabia apressariam o seu fim, mas às quais não tem mais o poder de resistir por ter se habituado a fazer delas verdadeiras necessidades físicas, comete suicídio?

– É um suicídio moral. Deveis compreender que o homem é duplamente culpado nesse caso. Nele há, além da falta de coragem, a ignorância e, acima de tudo, o esquecimento de Deus.

952 a Ele é mais ou menos culpado do que aquele que tira a própria vida por desespero?

– É mais culpado, por ter tido tempo de reconhecer seu suicídio. Naquele que o comete de súbito existe algumas vezes uma espécie de alucinação obsessiva próxima à loucura; o outro será punido com mais rigor, porque as penalidades são sempre proporcionais à consciência que se tem dos erros cometidos.

953 Quando uma pessoa vê diante de si uma morte inevitável e terrível, é culpada por abreviar em alguns instantes seus sofrimentos por uma morte voluntária?

– Sempre se é culpado por não aguardar o termo fixado por Deus. Quem poderá assegurar, aliás, se o fim chegou, apesar das aparências, e que não se pode receber um socorro inesperado no último momento?

953 a Concebe-se que em circunstâncias comuns o suicídio seja condenável, mas suponhamos o caso em que a morte é inevitável e a vida seja abreviada apenas por alguns instantes.

– É sempre uma falta de resignação e submissão à vontade do Criador.

953 b Quais são, nesse caso, as conseqüências dessa ação?

– Uma expiação proporcional à gravidade do erro, de acordo com as circunstâncias, como sempre.

954 Uma imprudência que compromete a vida sem necessidade é repreensível?

– Não existe culpabilidade se não há intenção ou consciência positiva de fazer o mal.

955 As mulheres que, em certos países, se fazem queimar nas piras cinerárias1 voluntariamente junto com o cadáver do marido podem ser consideradas suicidas, e sofrem as conseqüências disso?

– Elas obedecem a um preconceito e muitas vezes mais pela força do que por vontade própria. Acreditam cumprir um dever, e aí não se caracteriza o suicídio. São desculpáveis pelo pouco desenvolvimento moral da maioria delas e pela ignorância. Esses costumes bárbaros e estúpidos desaparecem com a civilização.

956 Aqueles que, não podendo suportar a perda das pessoas queridas, se matam na esperança de reencontrá-las, atingem seu objetivo?

– O resultado é completamente diferente do que esperam: em vez de se unirem às pessoas de sua afeição, afastam-se delas por mais tempo, porque Deus não pode recompensar um ato de covardia e o insulto que é feito ao duvidarem de Sua Providência. Eles pagarão esse instante de loucura com desgostos maiores que os que acreditam abreviar e não terão mais para recompensá-los a satisfação que esperavam. (Veja a questão 934 e seguintes)

957 Quais são, em geral, as conseqüências do suicídio sobre o Espírito?

– As conseqüências do suicídio são muito diversas: não existem penalidades fixas e, em todos os casos, são sempre relativas às causas que o provocaram; mas uma conseqüência da qual o suicida não pode escapar é o desapontamento. Além disso, a sorte não é a mesma para todos: depende das circunstâncias. Alguns expiam sua falta imediatamente; outros, em nova existência, que será pior do que aquela cujo curso interromperam.

A observação mostra, de fato, que as conseqüências do suicídio nem sempre são as mesmas; mas existem as que são comuns a todos os casos de morte violenta, pela interrupção brusca da vida. Primeiramente há a persistência mais prolongada e insistente do laço que une o Espírito ao corpo, porque esse laço está quase sempre na plenitude de sua força no momento em que é quebrado, enquanto na morte natural ele se enfraqueceu gradualmente, e muitas vezes se rompe antes que a vida seja completamente extinta. As conseqüências dessa situação são o prolongamento da perturbação espiritual e a ilusão que, durante um certo tempo mais ou menos longo, faz o Espírito acreditar que ainda está entre os vivos. (Veja as questões 155 e 165.)

A afinidade que persiste entre o Espírito e o corpo produz, em alguns suicidas, uma espécie de repercussão do estado do corpo sobre o Espírito, que sente, assim, o desprazer dos efeitos da decomposição do corpo e passa por uma sensação cheia de angústias e de horror, e esse estado pode persistir tanto tempo quanto devia durar a vida que eles interromperam. Esse efeito não é geral; mas, em nenhum caso, o suicida está livre das conseqüências de sua falta de coragem e, cedo ou tarde, reparará sua falta de uma maneira ou de outra. É assim que alguns Espíritos, que haviam sido infelizes na Terra, disseram ser suicidas na existência anterior e se submeteram, voluntariamente, a novas provas para tentar suportá-las com mais resignação. Em outros há uma espécie de ligação à matéria da qual procuram em vão se desapegar, para atingir mundos melhores, mas cujo acesso lhes é proibido. Na maioria, é o remorso por terem feito uma coisa inútil, uma vez que só colheram decepção. A religião, a moral, todas as filosofias condenam o suicídio como algo contrário à lei da natureza; todos nos dizem, em princípio, que ninguém tem o direito de abreviar voluntariamente sua vida; mas por que não se tem esse direito? Por que não se é livre para colocar um fim aos seus sofrimentos? Estava reservado ao Espiritismo demonstrar, pelo exemplo daqueles que o praticaram, que não é apenas um erro como infração a uma lei moral, consideração que pouco importa para certos indivíduos, mas que também é um ato estúpido, uma vez que, ao contrário do que pensam, nada ganha quem o pratica. O Espiritismo nos ensina isso não de forma teórica, mas pelos fatos que coloca diante de nossos olhos.


  1. Pira cinerária: fogueira onde se queimavam cadáveres (N. E.).