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Capítulo I
Pequena Conferência Espírita
Visitante – Eu concordo que entre os detratores do Espiritismo há pessoas
inconseqüentes, como esta de que acabais de falar; mas, ao lado destas, não há
homens de um valor real e cuja opinião é de um certo peso?
A.K. – Eu não o contesto de modo algum. A isso respondo que o Espiritismo
conta também em suas fileiras com um bom número de homens de um valor não menos
real. Eu digo mais: que a imensa maioria dos espíritas se compõem de homens
inteligentes e estudiosos. Só a má fé poder dizer que eles são recrutados entre
os incautos e os ignorantes.
Um fato peremptório responde, aliás, a esta objeção: é que malgrado seu saber
ou sua posição oficial, ninguém conseguiu deter a marcha do Espiritismo.
Todavia, não há entre eles um só, desde o mais medíocre folhetinista, que não
esteja se vangloriando de lhe vibrar o golpe mortal. Todos, sem exceção,
ajudaram, sem o querer, a vulgarizá-lo. Uma idéia que resiste a tantos esforços,
que avança sem tropeço através da fúria dos golpes que lhe dão, não prova sua
força e a profundidade de suas raízes? Esse fenômeno não merece atenção dos
pensadores sérios? Outros também se dizem hoje que ele deve ter alguma coisa,
que pode ser um desses grandes e irresistíveis movimentos, que, de tempos em
tempos, comovem as sociedades para transformá-las.
Assim o foi sempre com todas as idéias novas chamadas a revolucionarem o
mundo. Elas encontram obstáculos, porque têm que lutar contra os interesses, os
preconceitos, os abusos que elas vêm derrubar. Mas como estão nos desígnios de
Deus, para cumprir a lei do progresso da Humanidade, quando a hora é chegada,
nada saberia detê-las. É a prova de que elas são a expressão da verdade.
Essa impotência dos adversários do Espiritismo prova, primeiro, como eu o
disse, a ausência de boas razões, uma vez que aqueles que se lhe opõem não
convencem; ela, porém, se prende a uma outra causa que frustra todas as suas
combinações. Espantam-se com o seu progresso, malgrado tudo o que fazem para
detê-lo; ninguém lhe encontra a causa, porque a procuram onde ela não está. Uns
a vêem na força do diabo, que se mostraria assim mais forte que eles, e mesmo
que Deus, outros, no desenvolvimento da loucura humana. O erro de todos é crer
que a fonte do Espiritismo é única, e que repousa sobre a opinião de um homem;
daí a idéia de que arruinando a opinião desse homem, arruinarão o Espiritismo.
Eles procuram essa fonte sobre a Terra, enquanto ela está no espaço; ela não
está num lugar determinado, está por toda parte, porque os Espíritos se
manifestam por toda parte, em todos os países, no palácio como na choupana. A
verdadeira causa está, pois, na própria natureza do Espiritismo que não recebe
seu impulso de uma pessoa só, mas que permite a cada um receber diretamente
comunicações dos Espíritos e se assegurar assim da realidade dos fatos. Como
persuadir a milhões de indivíduos que tudo isso não é senão malabarismo,
charlatanismo, destreza, quando são eles mesmos que obtêm esses resultados sem o
concurso de ninguém? Se lhes fará crer que são seus próprios companheiros que
fazem charlatanismo e escamoteação só para eles?
Essa universalidade das manifestações dos Espíritos que vêm a todos os pontos
do globo, vem dar um desmentido aos detratores e confirmar os princípios da
doutrina; é uma força que não pode ser compreendida por aqueles que não conhecem
o mundo invisível, da mesma forma que aqueles que não conhecem a lei da
eletricidade não podem compreender a rapidez da transmissão de um telegrama. É
contra essa força que vêm se quebrar todas as negações, porque é como se se
dissesse às pessoas que recebem os raios do sol, que o sol não existe.
Abstração feita das qualidades da doutrina, que satisfaz mais do que aquelas
que se lhe opõem, aí está a causa dos fracassos daqueles que tentam deter-lhe a
marcha. Para terem sucesso seria preciso que encontrassem um meio de impedir os
Espíritos de se manifestarem. Eis porque os espíritas tomam tão pouco cuidado
com as suas manobras; eles têm a experiência e a autoridade dos fatos.
Visitante – O Espiritismo, evidentemente, tende a reviver as crenças fundadas
sobre o maravilhoso e o sobrenatural. Ora, no nosso século de positivismo, isso
me parece difícil, porque é recomendar superstições e erros populares já
julgados pela razão.
A.K. – Uma idéia não é supersticiosa senão porque ela é falsa; ela cessa de
sê-lo desde o momento em que é reconhecida verdadeira. A questão, pois, é saber
se há, ou não, manifestações de Espíritos. Ora, vós não podeis taxar a coisa de
supersticiosa visto que não haveis provado que ela não existe. Direis:
minha razão as recusa; mas todos aqueles que nelas crêem, e que não são tolos,
invocam também sua razão, e mais, invocam os fatos. Qual das duas razões deve
prevalecer? O grande juiz, aqui, é o futuro, como o foi em todas as questões
científicas e industriais taxadas de absurdas e impossíveis em sua origem. Vós
julgais a priori segundo vossa opinião. Nós não julgamos senão depois de
ter visto e observado durante muito tempo. Acrescentamos que o Espiritismo
esclarecido, como o é hoje, tende, ao contrário, a destruir as idéias
supersticiosas porque ele mostra aquilo que há de verdadeiro e de falso nas
crenças populares, e tudo aquilo que a ignorância e os preconceitos nela
introduziram de absurdo.
Eu vou mais longe e digo que é precisamente o positivismo do século que faz
aceitar o Espiritismo e a ele é que deve sua rápida propagação, e não, como
alguns o pretendem, a uma recrudescência do amor ao maravilhoso e ao
sobrenatural. O sobrenatural desaparece diante da luz da ciência, da filosofia e
da razão, como os deuses do paganismo desapareceram diante da luz do
Cristianismo.
O sobrenatural é o que está fora das leis da Natureza. O positivismo não
admite nada fora dessas leis; mas as conhece todas? Em todos os tempos, os
fenômenos cuja causa era desconhecida foram reputados sobrenaturais; cada nova
lei descoberta pela Ciência recuou os limites do sobrenatural. Pois bem! o
Espiritismo vem revelar uma lei segundo a qual a conversação com o Espírito de
um morto repousa sobre uma lei tão natural como aquela que permite à
eletricidade estabelecer contacto entre dois indivíduos a quinhentas léguas de
distância; e assim todos os outros fenômenos espíritas. O Espiritismo repudia,
no que lhe concerne, todo efeito maravilhoso, quer dizer, fora das leis da
Natureza. Ele não faz nem milagres, nem prodígios, mas explica, em virtude de
uma lei, certos efeitos reputados até hoje como milagres e prodígios, e por isso
mesmo demonstra sua possibilidade. Amplia assim o domínio da Ciência, e é nisso
que ele próprio é uma ciência. Mas a descoberta dessa nova lei, ocasionando
conseqüências morais, a codificação dessas conseqüências fez dele uma doutrina
filosófica.
Neste último ponto de vista ele responde às aspirações do homem, no que diz
respeito ao futuro, sobre bases positivas e racionais e é por isso que ele
convém ao Espírito positivista do século. É o que vós compreendereis quando vos
derdes ao trabalho de estudá-lo. (O Livro dos Médiuns, cap. II -
Revista Espírita, dezembro de 1861, página 393, e janeiro de 1862, página 21
– Veja-se também, adiante, o cap. II).
Visitante – Vós dizeis que vos apoiais sobre fatos; mas se vos opõe a opinião
dos sábios que os contestam ou que os explicam de maneira diversa da vossa. Por
que eles não encamparam o fenômeno das mesas girantes? Se eles tivessem visto
nelas alguma coisa de sério, não teriam, me parece, negligenciado de fatos tão
extraordinários, e ainda menos de os repelir com desdém, ao passo que eles estão
todos contra vós. Os sábios não são o farol das nações e seu dever não é de
espalhar a luz? Por que quereríeis que eles a tivessem abafado, quando se lhes
apresentava uma tão bela ocasião de revelar ao mundo uma força nova?
A.K. – Acabais de traçar o dever dos sábios de um modo admirável; pena que o
tenham olvidado em mais de uma circunstância. Mas antes de responder a esta
judiciosa observação, eu devo revelar um erro grave que vós haveis cometido,
dizendo que todos os sábios estão contra nós. Como já disse, é precisamente na
classe esclarecida que o Espiritismo faz mais prosélitos, e isso em todos os
países do mundo. Eles se contam, em grande número, entre os médicos de todas as
nações, e são homens de Ciência. Os magistrados, os professores, os artistas, os
homens de letras, os oficiais, os altos funcionários, os grandes dignitários, os
eclesiásticos, etc., que se alinham sob sua bandeira, todos são pessoas às quais
não se pode recusar uma certa dose de luz. Não há sábios senão na ciência
oficial e nos corpos constituídos?
Do fato de o Espiritismo não ter ainda direito de cidadania na ciência
oficial é motivo para condená-lo? Se a Ciência não tivesse jamais se enganado,
aqui sua opinião poderia pesar na balança; infelizmente, a experiência prova o
contrário. Não foram rejeitadas como quimeras uma multidão de descobertas que,
mais tarde, ilustraram a memória de seus autores? Não foi a um relatório de
nosso primeiro corpo de sábios que deve a França ter sido privada da iniciativa
do vapor? Quando Fulton veio ao campo de Bolonha apresentar seu sistema a
Napoleão I, que o recomendou ao exame imediato do Instituto, este não concluiu
que esse sistema era um sonho impraticável e não tinham tempo para com
ele se ocupar? É preciso concluir que os membros do Instituto são ignorantes?
Isso justifica os epítetos triviais, e de mau gosto, que certas pessoas se
comprazem em lhes prodigalizar? Seguramente que não; não há pessoa sensata que
não renda justiça ao seu eminente saber, embora reconhecendo que eles não são
infalíveis e que, assim, seu julgamento não é o de última instância, sobretudo
em fatos de idéias novas.
Visitante – Eu admito perfeitamente que eles não são infalíveis; mas não é
menos verdadeiro que, em razão do seu saber, sua opinião tem algum valor, e se
os tivésseis convosco isso daria um grande peso ao vosso sistema.
A.K. – Vós admitis também que cada um não é bom juiz senão naquilo que é da
sua competência. Se quereis construir uma casa, procurais um músico? Se
estivésseis doente, vos faríeis cuidar por um arquiteto? Se tivésseis um
processo, procuraríeis a opinião de um dançarino? Enfim, se se trata de uma
questão de teologia, a fareis resolver por um químico ou um astrônomo? Não; cada
um em seu trabalho. As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da
matéria que se pode manipular à vontade, e os fenômenos que ela produz têm por
agentes as forças materiais. Os do Espiritismo têm por agentes inteligências
independentes, que têm seu livre arbítrio e não estão submetidas aos nossos
caprichos. Eles escapam, assim, aos nossos procedimentos de laboratório e aos
nossos cálculos e, desde então, não são mais da alçada da Ciência propriamente
dita.
A ciência, pois, enganou-se quando quis experimentar os Espíritos como uma
pilha voltaica; ela fracassou, e assim deveria sê-lo porque usou uma analogia
que não existe. Depois, sem ir mais longe, ela concluiu pela negativa.
Julgamento temerário que o tempo se encarrega, todos os dias, de reformar, como
reformou muitos outros, e aqueles que o tiverem pronunciado, passarão pela
vergonha de se inscreverem, muito levianamente, por falsearem contra o poder
infinito do Criador.
As corporações científicas não têm, e não terão jamais, que se pronunciar
sobre a questão; ela não é mais da sua alçada que a de decretar se Deus existe,
ou não. Portanto, é um erro fazer delas juízes. O Espiritismo é uma questão de
crença pessoal que não pode depender do voto de uma assembléia, porque esse
voto, mesmo favorável, não pode forçar as convicções. Quando a opinião pública
estiver formada a esse respeito, os sábios, como indivíduos, a aceitarão, e
suportarão a força das coisas. Deixai passar uma geração e, com ela, os
preconceitos do amor-próprio em que se obstina, e vereis que ocorrerá com o
Espiritismo como ocorreu com tantas outras verdades antes combatidas, e que
agora seria ridículo pô-las em dúvidas. Hoje são aos crentes que se chama de
loucos; amanhã serão todos os que não creiam; da mesma forma como se chamou de
loucos outrora, aqueles que criam que a Terra girava.
Mas todos os sábios não julgaram da mesma forma, e por sábios eu entendo os
homens de estudo e de ciência, com ou sem título oficial. Muitos fizeram o
seguinte raciocínio:
"Não há efeito sem causa, e os mais vulgares efeitos podem conduzir ao
caminho dos maiores problemas. Se Newton tivesse desprezado a queda de uma maçã;
se Galvani tivesse menosprezado sua criada, tratando-a de louca e visionária
quando ela lhe falou das rãs que dançavam no prato, talvez estivessem ainda por
serem descobertas a admirável lei da gravitação universal e as fecundas
propriedades da pilha. O fenômeno que se designa sob o nome burlesco de dança
das mesas, não é mais ridículo que o da dança das rãs, e talvez encerre, também,
um desses segredos que revolucionam a Humanidade quando se tem sua chave".
Disseram ainda, por outro lado: "Uma vez que tantas pessoas deles se ocupam,
uma vez que homens sérios deles fizeram um estudo, é preciso que haja aí alguma
coisa. Uma ilusão, se se quer, não pode ter caráter de generalidade. Ela pode
seduzir um círculo, uma comunidade, mas não o mundo todo. Guardemo-nos, pois, de
negar a possibilidade do que não compreendemos sob pena de receber, cedo ou
tarde, um desmentido que não fará o elogio da nossa perspicácia."
Visitante – Muito bem, eis um sábio que raciocina com sabedoria e prudência
e, sem ser sábio, penso como ele. Mas anotai que não afirma nada: ele duvida.
Ora, sobre o que basear a crença na existência dos Espíritos e, sobretudo, na
possibilidade de comunicação com eles?
A.K. – Essa crença se apóia sobre o raciocínio e sobre os fatos. Eu mesmo não
a adotei senão depois de um maduro exame. Tendo adquirido, nos estudos das
ciências exatas, o hábito das coisas positivas, eu sondei, perscrutei essa nova
ciência em seus detalhes mais ocultos. Eu quis conhecer tudo, porque não aceito
uma idéia senão quando lhe conheço o porquê e o como. Eis o raciocínio que me
fez um sábio médico, outrora incrédulo, e hoje adepto fervoroso:
"Diz-se que os seres invisíveis se comunicam; e por que não? Antes da
invenção do microscópio, supunha-se a existência desses bilhões de animálculos
que causam tantos prejuízos na economia? Onde está a impossibilidade material de
que haja no espaço seres que escapam aos nossos sentidos? Teríamos por acaso a
ridícula pretensão de tudo saber e de dizer a Deus que ele nada mais nos pode
ensinar? Se esses seres invisíveis que nos cercam são inteligentes, por que não
se comunicariam conosco? Se eles estão em relação com os homens, devem
desempenhar um papel na vida, nos acontecimentos. Quem sabe? pode ser uma das
forças da Natureza, uma dessas forças ocultas que não supúnhamos existir. Que
novo horizonte isso abriria ao pensamento! Que vasto campo de observação! A
descoberta do mundo dos seres invisíveis seria diversa da dos infinitamente
pequenos; isso seria mais que uma descoberta, seria uma revolução nas idéias.
Que luz pode dela jorrar! quantas coisas misteriosas seriam explicadas! Aqueles
que crêem nisso, são ridicularizados; mas o que isso prova? Não ocorreu o mesmo
com todas as grandes descobertas? Cristóvão Colombo não foi repelido, coberto de
desgostos e tratado como insensato? Essas idéias, diz-se, são tão estranhas que
nelas não se pode crer. Mas, àquele que tivesse dito, há somente meio século,
que em alguns minutos poder-se-ia corresponder de uma parte à outra do mundo;
que em algumas horas, atravessar-se-ia a França; que com o vapor de um pouco de
água fervente um navio avançaria contra o vento; que se tiraria da água os meios
de se iluminar e aquecer; que tivesse proposto iluminar toda Paris em um
instante com um só reservatório de uma substância invisível, teria sido caçoado.
É, pois, uma coisa mais prodigiosa que o espaço seja povoado por seres pensantes
que, depois de terem vivido sobre a Terra, deixaram seus envoltórios materiais?
Não se encontra nesse fato a explicação de uma multidão de crenças que remontam
à mais alta antigüidade? Semelhantes coisas bem que valem a pena serem
aprofundadas."
Eis as reflexões de um sábio, mas de um sábio sem pretensão, e que também o
são de uma multidão de homens esclarecidos que viram, não superficialmente e com
prevenção, e estudaram seriamente sem tomarem partido, mas que tiveram a
modéstia de não dizer: eu não compreendo, portanto, isso não é verdade. Sua
convicção formou-se pela observação e pelo raciocínio. Se essas idéias fossem
quiméricas, pensais que todos esses homens de elite as teriam adotado? que
tivessem estado muito tempo vítima de uma ilusão?
Não há, pois, impossibilidade material à existência de seres invisíveis para
nós e povoando o espaço, e só essa consideração deveria levar a uma maior
circunspecção. Há pouco tempo, quem poderia pensar que uma gota de água límpida
poderia encerrar milhares de seres de uma pequenez que confunde nossa
imaginação? Ora, eu digo que era mais difícil à razão conceber seres de uma tal
pequenez, providos de todos os nossos órgãos e funcionando como nós, que admitir
aqueles que nós nomeamos Espíritos.
Visitante – Sem dúvida; mas do fato de uma coisa ser possível, não se segue
que ela exista.
A.K. – De acordo; mas convireis que já é uma grande coisa desde que ela não é
impossível, porque não tem nada que repugne à razão. Resta, pois, constatá-la
pela observação dos fatos. Essa observação não é nova: a História, tanto sacra
como profana, prova a antigüidade e a universalidade dessa crença, que se
perpetuou através de todas as vicissitudes do mundo, e se encontra entre os
povos mais selvagens, no estado de idéias inatas e intuitivas, gravadas no
pensamento, como a do Ser Supremo e da existência futura. O Espiritismo,
portanto, não é criação moderna, muito longe disso; tudo prova que os antigos o
conheciam tão bem e talvez melhor que nós. Somente ele não foi ensinado senão
com precauções misteriosas que o tornaram inacessível ao vulgo, deixado
propositadamente na difícil situação supersticiosa.
Quanto aos fatos, eles são de duas naturezas: espontâneos e provocados. Entre
os primeiros, é preciso situar as visões e aparições, que são muito freqüentes;
os ruídos, barulhos e movimentação de objetos sem causa material, e uma multidão
de efeitos insólitos que se considerava como sobrenaturais, e que, hoje, nos
parecem muito simples, porque, para nós, não há nada de sobrenatural uma vez que
tudo se esconde nas leis imutáveis da Natureza. Os fatos provocados são aqueles
que se obtêm por intermédio dos médiuns.
Alucinação – Fluido magnético – Reflexo do pensamento –
Superexcitação cerebral – Estado sonambúlico dos médiuns.
Visitante – É contra os fenômenos provocados que se exerce, sobretudo, a
crítica. Coloquemos de lado toda suposição de charlatanismo, e admitamos uma
inteira boa-fé; não se poderia pensar que eles próprios são joguetes de uma
alucinação?
A.K. – Não é do meu conhecimento que se tenha, ainda, explicado claramente o
mecanismo da alucinação. Tal como é entendida, é, todavia, um efeito muito
singular e digno de estudo. Como, pois, aqueles que, através dela, pretendem
explicar os fenômenos espíritas não podem explicitar sua explicação? Aliás, há
fatos que escapam a essa hipótese: quando uma mesa, ou um outro objeto, se move,
se eleva ou bate; quando ela passeia à vontade num quarto sem o contacto de
alguém; quando ela se desprende do solo e se sustém no espaço, sem ponto de
apoio; enfim, quando ela se quebra caindo, certamente isso não é uma alucinação.
Supondo-se que o médium, por um efeito de sua imaginação, creia ver o que não
existe, é provável que todo um grupo esteja tomado da mesma vertigem? que se
repita por todos os lados, em todos os países? A alucinação, nesse caso, seria
mais prodigiosa que o fato.
Visitante – Admitindo-se a realidade do fenômeno das mesas girantes e
batedoras, não é mais racional atribuí-lo à ação de um fluido qualquer, o fluido
magnético por exemplo?
A.K. – Tal foi o primeiro pensamento e eu o tive como tantos outros. Se os
efeitos tivessem se limitado aos efeitos materiais, ninguém duvida que
poder-se-ia explicar assim. Mas quando esses movimentos e golpes deram provas de
inteligência, quando se reconheceu que respondiam ao pensamento com inteira
liberdade, tirou-se esta conseqüência: se todo efeito tem causa, todo efeito
inteligente tem uma causa inteligente. É isso o efeito de um fluido, a menos
que se diga que esse fluido é inteligente? Quando vedes o manipulador do
telégrafo fazer os sinais que transmitem o pensamento, sabeis bem que não são
esses braços de madeira ou de ferro que são inteligentes, mas dizeis que uma
inteligência os faz mover. Ocorre o mesmo com a mesa. Há, sim ou não, efeitos
inteligentes? Esta é a questão. Aqueles que a contestam, são pessoas que não
puderam ver tudo e se apressam em concluir segundo suas próprias idéias e sobre
uma observação superficial.
Visitante – A isso responde-se que se há um efeito inteligente ele não é
outra coisa senão a própria inteligência, seja do médium, seja do interrogante,
seja dos assistentes; porque, diz-se, a resposta está sempre no pensamento de
alguém.
A.K. – Isso é ainda um erro, conseqüente de uma falsa observação. Se aqueles
que assim pensam tivessem se dado ao trabalho de estudar o fenômeno em todas as
suas fases, teriam, a cada passo, reconhecido a independência absoluta da
inteligência que se manifesta. Como essa tese poderia se conciliar com respostas
que estão fora da capacidade intelectual e de instrução do médium? que
contradizem suas idéias, seus desejos, suas opiniões, ou que confundem
completamente as previsões dos assistentes? de médiuns que escrevem em um idioma
que não conhecem, ou em seu próprio idioma, quando eles não sabem nem ler nem
escrever? Essa opinião, à primeira vista, não tem nada de irracional, eu
convenho, porém, ela é desmentida pelos fatos de tal modo numerosos e
concludentes, dos quais não é mais possível duvidar.
De resto, admitindo-se mesmo essa teoria, o fenômeno, longe de ser
simplificado, seria bem mais prodigioso. Ora, o pensamento se refletiria sobre
uma superfície como a luz, o som e o calor? Na verdade, haveria nisso motivo
para exercer a sagacidade da ciência. Aliás, o que se adicionaria ainda ao
maravilhoso, é que, sobre vinte pessoas reunidas, seria precisamente o
pensamento de tal ou tal que seria refletido, e não o pensamento de tal outra.
Um semelhante sistema é insustentável. É verdadeiramente curioso ver os
contraditores se esforçarem em procurar causas cem vezes mais extraordinárias e
difíceis de compreender do que as que se lhes fornece.
Visitante – Não se poderia admitir, segundo a opinião de alguns, que o médium
está em um estado de crise e goze de uma lucidez que lhe dá uma percepção
sonambúlica, uma espécie de dupla vista, o que explicaria a extensão momentânea
das faculdades intelectuais? Por que, diz-se, as comunicações obtidas pelo
médium não ultrapassam a importância daqueles que se obtêm pelos sonâmbulos?
A.K. – É isso, ainda, um desses sistemas que não suporta um exame
aprofundado. O médium não está em crise, nem em sono, mas perfeitamente
desperto, agindo e pensando como todo o mundo, sem nada ter de extraordinário.
Certos efeitos particulares puderam dar lugar a esse equívoco. Mas, qualquer um
que não se limite a julgar as coisas por um único aspecto, reconhecerá, sem
esforço, que o médium é dotado de uma faculdade particular que não permite
confundi-lo com o sonâmbulo, e a completa independência do seu pensamento é
provada por fatos da máxima evidência. Abstração feita das comunicações
escritas, qual é o sonâmbulo que fez brotar um pensamento de um corpo inerte?
que produziu aparições visíveis e mesmo tangíveis? que pode manter um corpo
pesado no espaço sem ponto de apoio? Foi por um efeito sonambúlico que um médium
desenhou, um dia, para mim, em presença de vinte testemunhas, o retrato de uma
jovem que morreu dezoito meses antes e que jamais havia conhecido, retrato
reconhecido pelo pai presente à sessão? É por um efeito sonambúlico que uma mesa
responde com precisão às questões propostas, mesmo mentalmente? Seguramente, se
se admite que o médium esteja em um estado magnético, me parece difícil crer-se
que a mesa seja sonâmbula.
Diz-se, ainda, que os médiuns não falam claramente senão de coisas
conhecidas. Como explicar o fato seguinte e cem outros do mesmo gênero? Um de
meus amigos, muito bom médium escrevente, perguntou a um Espírito se uma pessoa,
que ele havia perdido de vista há quinze anos, estava ainda neste mundo. "Sim,
ela vive ainda, respondeu-lhe; ela mora em Paris, à rua tal, número tal." Ele
vai e encontra a pessoa no endereço indicado. É isso ilusão? Seu pensamento
poderia tanto menos sugerir-lhe essa resposta pois, em razão da idade da pessoa,
havia toda possibilidade de que ela não existisse mais. Se, em certos casos,
viram-se respostas concordarem com o pensamento, é racional concluir daí que
isso seja uma lei geral? Nisso, como em todas as coisas, os julgamentos
precipitados são sempre perigosos, porque podem estar enfraquecidos pela não
observação dos fatos.
Visitante – São os fatos positivos que os incrédulos querem ver, que eles
pedem e, na maioria das vezes, não se pode lhes fornecer. Se todo mundo pudesse
testemunhar esses fatos, a dúvida não seria mais permitida. Como ocorre, pois,
que tanta gente nada tenha podido ver, malgrado sua boa vontade? Se os contesta
dizendo faltar-lhes fé, a isso respondem, com razão, que não podem ter uma fé
antecipada, e que se quer que eles creiam é preciso dar-lhes os meios de crerem.
A.K. – A razão é bem simples. Eles querem os fatos sob seu comando e os
Espíritos não obedecem a ele; é preciso esperar sua boa vontade. Não basta,
pois, dizer: mostre-me tal fato e eu crerei; é preciso ter vontade e
perseverança, deixar os fatos se produzirem espontaneamente, sem pretender
forçá-los ou dirigi-los. Aquele que desejais, talvez seja precisamente o que não
obtereis; mas se apresentarão outros, e aquele que quereis virá no momento em
que menos esperais. Aos olhos do observador atento e assíduo, os fatos se somam
e se corroboram uns aos outros, mas aquele que crê bastar virar uma manivela
para mover a máquina, se engana extraordinariamente. Que faz o naturalista que
quer estudar os costumes de um animal? Leva-o a fazer tal ou tal coisa para ter
todo o tempo de observação à sua vontade? Não, porque sabe bem que não será
obedecido; ele espreita as manifestações espontâneas do seu instinto;
espera-as e as apreende quando ocorrem. O simples bom-senso mostra que, por mais
forte razão, deve ocorrer o mesmo com os Espíritos, que são inteligências com
independência bem diversa da dos animais.
É um erro crer que a fé seja necessária; mas a boa fé é outra coisa.
Ora, há cépticos que negam até a evidência, e que os prodígios não poderiam
convencer. Quantos há que, depois de terem visto, não persistem menos em
explicar os fatos à sua maneira, dizendo que isso não prova nada! Essas pessoas
não servem senão para levar a perturbação às reuniões, sem proveito para elas
mesmas; é por isso que as repelimos e não queremos perder tempo com elas. Ocorre
mesmo que ficariam bem irritadas de serem forçadas a crer, porque seu amor
próprio sofreria em concordar que estavam enganadas. Que responder a essas
pessoas que não vêem por toda parte senão a ilusão e o charlatanismo? Nada; é
preciso deixá-las tranqüilas e dizer, tanto como querem, que elas nada viram, e
mesmo que não se pôde ou não se quis fazê-las ver.
Ao lado desses cépticos endurecidos, há aqueles que querem ver à sua maneira;
que tendo formado uma opinião, querem com ela tudo relacionar: eles não
compreendem que os fenômenos não possam obedecer à sua vontade; eles não sabem,
ou não querem, se colocar nas condições necessárias. Aquele que quer observar de
boa-fé deve – não digo crer sob palavra, mas se despojar de toda idéia
preconcebida – não querer comparar coisas incompatíveis. Deve esperar,
continuar, observar com uma paciência infatigável; esta condição mesma está a
favor dos adeptos, uma vez que ela prova que sua convicção não se formou
levianamente. Tendes essa paciência? Não, dizeis, eu não tenho tempo. Então não
vos ocupeis com os fenômenos, nem deles faleis; ninguém a isso vos obriga.
Visitante – Os Espíritos devem ter interesse em fazer prosélitos. Por que não
consentem, mais do que o fazem, nos meios para convencer certas pessoas, cuja
opinião seria de uma grande influência?
A.K. – É que, aparentemente, no momento, eles não têm interesse em convencer
certas pessoas, cuja importância não medem como elas mesmas o fazem. É pouco
lisonjeiro, eu convenho, mas nós não comandamos suas opiniões, pois os Espíritos
têm um modo de julgar as coisas que não é sempre o nosso. Eles vêem, pensam e
agem segundo outros elementos; enquanto nossa visão está circunscrita pela
matéria, limitada pelo círculo estreito no meio do qual nos encontramos, eles
abarcam o conjunto. O tempo, que nos parece tão longo, para eles é um instante,
assim como a distância, que não é senão um passo; certos detalhes, que nos
parecem de uma importância extrema, para eles são pueris; em compensação, acham
importantes, coisas das quais não compreendemos a importância. Para
compreendê-los, é preciso se elevar pelo pensamento acima do nosso horizonte
material e moral, e nos colocar em sua posição; não cabe a eles descerem até
nós, mas cabe a nós nos elevarmos até eles, e é a isso que nos conduz o estudo e
a observação.
Os Espíritos apreciam os observadores assíduos e conscienciosos, para os
quais multiplicam as fontes de luz; o que os afasta não é a dúvida que nasce da
ignorância, mas a fatuidade desses pretensos observadores que, nada tendo
observado, pretendem colocá-los na berlinda e manobrá-los como a marionetes; é
sobretudo o sentimento de hostilidade e de difamação que carregam consigo e que
está em seu pensamento, se não está em suas palavras. Para estes, os Espíritos
nada fazem e se inquietam muito pouco com aquilo que eles possam falar ou
pensar, porque sua vez chegará. Por isso eu disse que o necessário não é a fé,
mas a boa-fé.
Visitante – Uma coisa que eu desejaria saber, senhor, é o ponto de partida
das idéias espíritas modernas; elas são o resultado de uma revelação espontânea
dos Espíritos ou o resultado de uma crença anterior à sua existência?
Compreendeis a importância da minha pergunta, porque, neste último caso,
poder-se-ia crer que a imaginação não pode ser posta de lado.
A.K. – Esta questão, senhor, como o dissestes, é importante nesse ponto de
vista, embora seja difícil admitir-se, supondo-se que essas idéias tenham
nascido de uma crença antecipada, que a imaginação tenha podido produzir todos
os resultados materiais observados. Com efeito, se o Espiritismo estivesse
baseado sobre o pensamento preconcebido da existência dos Espíritos,
poder-se-ia, com alguma aparência de razão, duvidar da sua realidade, porque se
a causa é uma quimera, as próprias conseqüências devem ser quiméricas. Mas as
coisas não se passam assim.
Anotai primeiro que essa seqüência seria completamente ilógica. Os Espíritos
são causa e não efeito; quando se vê um efeito, pode-se procurar a sua causa,
mas não é natural imaginar uma causa antes de ter visto os efeitos. Não
se poderia, pois, conceber o pensamento dos Espíritos se não estivessem
presentes os efeitos que encontrassem sua explicação provável na existência de
seres invisíveis. Pois bem, não foi assim que esse pensamento surgiu, quer
dizer, não foi uma hipótese imaginada para explicar certos fenômenos; a primeira
suposição que se fez deles foi de uma causa inteiramente material. Assim, longe
de os Espíritos terem sido uma idéia preconcebida, partiu-se do ponto de vista
materialista, o qual sendo incapaz de tudo explicar, a própria observação
conduziu à causa espiritual. Eu falo das idéias espíritas modernas, uma vez que
nós sabemos ser essa crença tão velha quanto o mundo. Eis aqui a seqüência das
coisas.
Fenômenos espontâneos se produziram, tais os ruídos estranhos, pancadas,
movimento de objetos, etc., sem causa ostensiva conhecida, e esses fenômenos
puderam ser reproduzidos sob a influência de certas pessoas. Até aí nada
autorizava a procurar a causa além da ação de um fluido magnético ou outro cujas
propriedades eram ainda desconhecidas. Mas não se tardou em reconhecer, nesses
ruídos e nesses movimentos, um caráter intencional e inteligente, do que se
concluiu, como já disse, que: se todo efeito tem uma causa, todo efeito
inteligente tem uma causa inteligente. Essa inteligência não poderia estar no
próprio objeto, porque a matéria não é inteligente. Era o reflexo da
inteligência da pessoa ou das pessoas presentes? Assim se pensou primeiro, como
eu disse igualmente. Só a experiência poderia se pronunciar, e a experiência
demonstrou, por provas irrecusáveis, em muitas circunstâncias, a completa
independência dessa inteligência. Ela estava, pois, fora do objeto e fora da
pessoa. Quem era ela? Foi ela mesma quem respondeu, declarando pertencer à ordem
de seres incorpóreos, designados sob o nome de Espíritos. A idéia dos Espíritos,
pois, não preexistiu nem foi mesmo consecutiva; em uma palavra, ela não saiu do
cérebro, mas foi dada pelos próprios Espíritos, e tudo o que soubemos depois a
seu respeito, foram eles que nos ensinaram.
Uma vez revelada a existência dos Espíritos e estabelecidos os meios de
comunicação, pôde-se ter conversações seguidas e obter esclarecimentos sobre a
natureza desses seres, as condições da sua existência, seu papel no mundo
visível. Se se pudesse interrogar assim os seres do mundo dos infinitamente
pequenos, que coisas curiosas não se aprenderia sobre eles!
Supondo-se que, antes do descobrimento da América, existisse um fio elétrico
através do Atlântico, e que na sua extremidade européia fossem notados sinais
inteligentes, se poderia concluir que, na outra extremidade, havia seres
inteligentes procurando se comunicar; ter-se-ia podido questioná-los, e eles
teriam respondido. Adquirir-se-ia assim, a certeza da sua existência, o
conhecimento dos seus costumes, dos seus hábitos, da sua maneira de ser, sem
jamais tê-los visto. Ocorre o mesmo nas relações com o mundo invisível; as
manifestações materiais foram como sinais, meios de advertências, que nos
colocaram na trilha de comunicações mais regulares e mais continuadas. E, coisa
notável, à medida que os meios mais fáceis de comunicação estão à nossa
disposição, os Espíritos abandonam os meios primitivos, insuficientes e
incômodos, como o mudo que recupera a palavra renuncia à linguagem dos sinais.
Que eram os habitantes desse mundo? Eram seres à parte, fora da Humanidade?
Eram bons ou maus? Foi ainda a experiência que se encarregou de resolver essas
questões. Mas, até que numerosas observações deitaram luz sobre esse assunto, o
campo das conjecturas e dos sistemas estava aberto, e Deus sabe quantas
surgiram! Alguns acreditaram serem os Espíritos superiores a tudo, outros não
viam neles senão demônios. Foi por suas palavras e seus atos que se pôde
julgá-los. Suponhamos que entre os habitantes transatlânticos desconhecidos, dos
quais falamos, uns tivessem dito coisas boas, enquanto outros fossem notados
pelo cinismo de sua linguagem, ter-se-ia concluído que haveria bons e maus. Foi
a isso que se chegou com os Espíritos, reconhecendo-se entre eles todos os graus
de bondade e de maldade, de ignorância e de saber. Uma vez sabedores dos seus
defeitos e qualidades, cabe à nossa prudência distinguir o bom do mau, o
verdadeiro do falso em suas relações conosco, absolutamente como nós fazemos com
respeito aos homens.
A observação não só nos esclareceu sobre as qualidades morais dos Espíritos,
mas também sobre sua natureza e sobre o que poderíamos chamar seu estado
fisiológico. Soube-se, pelos próprios Espíritos, que uns são muito felizes e
outros muito infelizes; que eles não são seres à parte, de uma natureza
excepcional, mas que são as almas daqueles que viveram sobre a Terra, onde
deixaram seu envoltório corporal, que povoam os espaços, nos cercam e nos
acotovelam sem cessar, e, entre eles, cada um pôde reconhecer, por sinais
incontestáveis, seus parentes, seus amigos e aqueles que conheceu neste
mundo. Pôde-se segui-los em todas as fases de sua existência de além-túmulo,
desde o instante em que deixaram seus corpos, e observar sua situação segundo o
gênero de morte e a maneira pela qual viveram sobre a Terra. Soube-se, enfim,
que não são seres abstratos, imateriais, no sentido absoluto da palavra, eles
têm um envoltório, ao qual demos o nome de perispírito, espécie de corpo
fluídico, vaporoso, diáfano, invisível em seu estado normal, mas que, em certos
casos, e por uma espécie de condensação ou de disposição molecular pode
tornar-se momentaneamente visível e mesmo tangível e, desde então, foi explicado
o fenômeno das aparições e dos toques sobre elas. Esse envoltório existe durante
a vida do corpo e é o laço entre o Espírito e a matéria; na morte do corpo, a
alma ou o Espírito, o que são a mesma coisa, não se despoja senão do envoltório
grosseiro, conservando o segundo, como quando nós tiramos uma roupa de cima para
conservar apenas a de baixo, como o germe de um fruto se despoja do envoltório
cortical e não conserva senão o perisperma. É esse envoltório
semi-material do Espírito o agente dos diferentes fenômenos por meio do qual ele
manifesta sua presença.
Tal é, em poucas palavras, senhor, a história do Espiritismo; vedes e o
reconhecereis ainda melhor, quando o tiverdes estudado a fundo, que tudo nele é
o resultado da observação e não de um sistema preconcebido.
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