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Problema moral - Os canibais

Revista Espírita, abril de 1859

Um dos nossos assinantes nos dirigiu a pergunta seguinte, com o pedido de resolvê-la pelos Espíritos que nos assistem, se ainda não o fora resolvida.

"Os Espíritos errantes desejam, depois de um lapso de tempo mais ou menos longo, e pedem a Deus, sua encarnação como meio de adiantamento espiritual. Eles têm a escolha das provas e, usando nisso seu livre arbítrio, escolhem, naturalmente, aquelas que lhes parecem mais próprias para esse adiantamento, no mundo onde a reencamação lhes é permitida. Ora, durante a sua existência errante, que empregam para se instruírem (são eles mesmos que nos dizem), devem aprender quais são as nações que melhor podem fazê-los alcançar o objetivo a que se propõem. Vêem tribos ferozes, de antropófagos, e têm a certeza que, encarnando-se entre eles, tornar-se-ão ferozes e comedores de carne humana. Não será aí, seguramente, que encontrarão seu progresso espiritual; seus instintos brutais, com isso, não terão adquirido senão mais consistência pela força do hábito. Eis, pois, seu objetivo falho quanto às encarnações entre tal ou tal povo.

"Ocorre o mesmo com certas posições sociais. Entre estas, há certamente as que apresentam obstáculos invencíveis ao adiantamento espiritual. Não citarei senão os matadores de animais nos matadouros, os carrascos, etc. Diz-se que essas pessoas são necessárias: uns porque não podemos passar sem alimento animal; os outros, porque é preciso executar as sentenças da justiça, nossa organização social assim querendo. Não é menos verdadeiro que o Espírito se encarnando no corpo de uma criança destinada a abraçar uma ou outra dessas profissões, deve saber que escolhe caminho falso e que se priva, voluntariamente, dos meios que podem conduzi-lo à perfeição. Não poderia ocorrer, com a permissão de Deus, que nenhum Espírito quisesse esses gêneros de existência e, nesse caso, em que se tornariam essas profissões, necessárias ao nosso estado social?"

A resposta a essa pergunta decorre de todos os ensinamentos que nos foram dados; nós podemos, pois, resolvê-la, sem necessidade de submetê-la de novo aos Espíritos.

É evidente que um Espírito já elevado, o de um Europeu esclarecido, por exemplo, não pode escolher como via de progresso, uma existência de selvagem: em lugar de avançar, isso seria retrogradar. Mas sabemos que mesmo os nossos antropófagos não estão no último grau da escala, e que há mundos onde a brutalidade e a ferocidade não têm analogias na Terra. Esses Espíritos são, pois, ainda inferiores aos mais inferiores de nosso mundo, e vir entre os nossos selvagens, para eles, é um progresso. Se não visam mais alto, é porque sua inferioridade moral não lhes permite compreender um progresso mais completo. O Espírito não pode avançar senão gradualmente; deve passar, sucessivamente, por todos os graus, de modo que cada passo adiante seja uma base para assentar um novo progresso. Ele não transpõe, de um pulo, a distância que separa a barbárie da civilização, como um escolar não pode transpor, sem transição, do ABC à Retórica, e é nisso que vemos uma das necessidades da reencarnação, que está, verdadeiramente, segundo a justiça de Deus; de outro modo, em que se tornariam esses milhões de seres que morrem no último estado de degradação se não tivessem os meios para alcançar a superioridade? Por que Deus tê-los-ia deserdado dos favores concedidos a outros homens? Nós o repetimos, porque é um ponto essencial, em razão de sua inteligência limitada, não compreendem o melhor senão num limite estreito, e sob seu ponto de vista. Há, todavia, os que se enganam querendo subir muito alto, e que nos dão o triste espetáculo da ferocidade no meio da civilização; estes, retornando entre os canibais, ainda ganharão.

Essas considerações se aplicam também às profissões das quais nosso correspondente fala; evidentemente, elas oferecem uma superioridade relativa para certos Espíritos, e é nesse sentido que se deve conceber a escolha que delas fazem. Posição igual pode mesmo ser escolhida como expiação ou como missão, porque não há onde não se possa encontrar ocasião de fazer o bem e de progredir, pela própria maneira que são exercidas.

Quanto à questão de se saber em que se tornariam essas profissões, no caso de que nenhum Espírito delas quisesse se encarregar, ela está resolvida pelos fatos; desde que os Espíritos que as alimentam partam de mais alto, não se deve temer vê-los sem trabalho. Quando o progresso social permitir suprimir o ofício de carrasco, é o lugar que faltará, e não os candidatos que irão se apresentar entre outros povos, ou em outros mundos menos avançados.

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