Portal do Espírito |
|
Mapa do Site | Pesquisa no Site |
Cenas da vida particular EspíritaRevista Espírita, maio de 1859 Em nosso número anterior, apresentamos o quadro da vida Espírita como conjunto; seguimos os Espíritos desde o instante em que deixaram seu corpo terrestre, e rapidamente esboçamos suas ocupações. Hoje nos propomos mostrá-los em ação, reunindo num mesmo quadro diversas cenas íntimas que nossas comunicações nos testemunharam. As numerosas conversas familiares de além-túmulo publicadas nesta revista já puderam dar uma idéia da situação dos Espíritos segundo o grau do seu adiantamento, mas aqui há um caráter especial de atividade que nos fez conhecer, melhor ainda, o papel que desempenham junto a nós, e com o nosso desconhecimento. O objeto de estudo, do qual narraremos as peripécias, se ofereceu espontaneamente; apresenta tanto maior interesse porque tem, por herói principal, não um desses Espíritos superiores que habitam mundos desconhecidos, mas um daqueles que, por sua própria natureza, estão ainda presos à nossa Terra, um contemporâneo que nos deu provas manifestas de sua identidade. A ação se passa entre nós, e cada um de nós nela desempenha seu papel. Esse estudo dos costumes espíritas tem de particular o aspecto de nos mostrar o progresso dos Espíritos no estado errante, e como podemos concorrer para a sua educação. Um de nossos amigos, depois de longos ensaios infrutíferos, mas dos quais sua paciência triunfou, e, além do mais, médium audiente, estava ocupado em escrever, com um outro médium de seus amigos, quando, a uma questão dirigida a um Espírito, obteve uma resposta bastante bizarra e pouco séria, na qual não reconheceu o caráter do Espírito evocado. Tendo interpelado o autor dessa resposta, e depois de intimá-lo em nome de Deus, a dar-se a conhecer, esse último assinou Pierre Lê Flarnand, nome perfeitamente desconhecido do médium. Foi então que se estabeleceu, entre eles, e mais tarde entre esse Espírito e nós, uma série de conversas que iremos relatar: Primeira conversa1. Quem és? - R. Não conheço ninguém com esse nome. - R. Um dos teus antigos companheiros de colégio. 2. Disso não tenho nenhuma lembrança. - R. Lembras de ter sido espancado uma vez? 3. É possível; entre colegiais isso ocorre algumas vezes. Lembro-me com efeito, de alguma coisa como essa, mas me lembro também de lhe pagar com a mesma moeda. - R. Era eu; mas não o quero repetir. 4. Obrigado; tanto quanto me lembro, eras um enorme malandro. - R. Eis que a memória te retorna; nunca mudei enquanto vivi. Tinha má cabeça, mas não era mau no fundo; eu atacava o primeiro que chegasse; era como uma necessidade para mim; depois, voltadas as costas, não pensava mais nisso. 5. Quando e com qual idade morreste? - R. Há quinze anos; tinha uns vinte anos. 6. De que morreste? - R. Uma irreflexão de jovem..., uma conseqüência de minha má cabeça... 7. Tens ainda tua família? - R. Perdera, há muito tempo, meu pai e minha mãe; morava com um tio, meu único parente...; se fores a Cambrai, convido-te a vê-lo...; é um bravo homem, que amo muito, embora me haja conduzido duramente; mas eu o merecia. 8. Chama-se como tu? - R. Não; não há mais ninguém, em Cambrai, com meu nome; ele se chama W....; mora na rua.... nº....; verás que será bem eu quem te fala. Nota. - O fato foi verificado pelo próprio médium, em uma viagem que fez algum tempo depois. Encontrou o senhor W.....no endereço indicado; este lhe disse que, com efeito, tivera um sobrinho com esse nome, um verdadeiro estouvado, sujeito bastante mau, falecido em 1844, pouco tempo depois de fazer o serviço militar. Essa circunstância fora indicada pelo Espírito; fê-lo mais tarde, espontaneamente; ver-se-á em qual ocasião. 9. Por que acaso vieste até mim? - R. O acaso se quiseres; mas, antes creio que foi meu bom gênio que me impeliu para ti, porque tenho a idéia que ambos ganharemos renovando conhecimento... Eu estava aqui ao teu lado, com teu vizinho, ocupado em considerar os quadros... não quadros de igreja, de repente percebi-te e vim. Vi-te ocupado em conversar com um outro Espírito, quis misturar-me na conversa. 10. Mas por que respondeste às perguntas que eu fazia a um outro Espírito? Isso não é de um bom companheiro. - R. Estava na presença de um Espírito sério, que não me parecia disposto a responder; respondendo por ele, acreditava fazer-lhe o estilo, mas isso não saiu bem; quis, não dizendo a verdade, fazê-lo falar. 11. Mas isso é muito mau, por que poderia resultar em coisas deploráveis se não me apercebesse da fraude. - R. Sempre sabê-lo-ias, um pouco mais cedo, um pouco mais tarde. 12. Diga-me um pouco como entraste aqui? - R. Bela pergunta! É que temos necessidade de pedir o cordão? 13. Podes, pois, ir por toda parte, entrar em qualquer parte? -R. Mas!... sem ainda dizer atenção!... Não somos Espíritos por nada. 14. Creio, entretanto, que certos Espíritos não têm o poder de entrar em todas as reuniões? -- R. Será que, por acaso, crês que a sala é um santuário e que sou indigno de nela penetrar? 15. Responda seriamente à minha pergunta, e nada de maus gracejos, peço-te; vês que não estou com humor para suportá-los, e que os Espíritos mistificadores são mal recebidos em minha casa. - R. Há reuniões de Espíritos onde nós os João Ninguém não podemos penetrar, isso é verdade; mas são os Espíritos superiores que nos impedem, e não vós outros homens; aliás, quando vamos a alguma parte, sabemos muito bem calar e nos mantermos à parte quando é preciso; escutamos, e se isso nos aborrece, vamo-nos dali. Ah! aqui não tens o ar de encantado com a minha visita. 16. É que não recebo de bom grado o primeiro que chega e, francamente, estou de má vontade por ter vindo perturbar uma conversa séria. - R. Não te irrites..., não quero fazê-lo mais..., sou sempre bom rapaz...; uma outra vez far-me-ei anunciar. 17. Eis quinze anos que morreste... - R. Entendamo-nos; foi meu corpo que morreu; mas eu, que te falo, não estou morto. Nota. - Encontram-se nos Espíritos, mesmo levianos e zombeteiros, palavras de uma grande profundidade. Esse eu, que não morreu, é completamente filosófico. 18. É bem como isso que eu ouço. A esse respeito, diga-me se, tal qual és agora, tu me vês com tanta nitidez como se tivesses teu corpo? - R. Vejo-te ainda melhor; eu era míope; foi por isso que quis isentar-me da conscrição. 19. Eis, digo eu, quinze anos que morreste e me pareces tão estouvado quanto antes; não avançaste pois? - R. Sou o que era, nem melhor, nem pior. 20. Com o que passas teu tempo? - R. Não tenho outras ocupações além de me divertir ou de me informar sobre os acontecimentos que podem influenciar o meu destino. Eu vejo sempre; passo uma parte de meu tempo ora com os amigos, ora no espetáculo... algumas vezes, surpreendo coisas singulares... Sabendo-se que se tem testemunhas quando se crê estar só!... Enfim, faço de modo que meu tempo me seja, o menos possível, pesado... Dizer quanto isso durará, disso nada sei e, entretanto, vago assim há um certo tempo... Tens explicações como essa? 21. Em suma, és mais feliz do que quando vivo? - R. Não. 22. O que te falta? Não tens necessidade de nada; não sofres mais; não receias estar arruinado; vais por toda parte, vês tudo; não temes nem as inquietações, nem as enfermidades da velhice; não é uma existência feliz? - R. Falta-me a realidade dos prazeres; não sou bastante avançado para gozar de uma felicidade moral; invejo tudo o que vejo, e é isso o que me tortura; aborreço-me e trato de matar o tempo como posso!... E o tempo é bem longo!... Sinto uma doença que não sei definir...; gostaria mais de sofrer as misérias da vida do que essa ansiedade que me oprime. Nota. - Não está aí um eloqüente quadro dos sofrimentos morais dos Espíritos inferiores? Invejar tudo que vê; ter os mesmos desejos e, na realidade, não gozar de nada, isso deve ser uma verdadeira tortura. 23. Disseste que ias ver teus amigos; não é uma distração? -R. Meus amigos não sabem que estou ali e, aliás, não pensam mais em mim; isso me faz mal. 24. Não os tens entre os Espíritos? -- R. Estouvados, vadios como eu, que se aborrecem como eu; sua sociedade não é muito divertida; os que são felizes e razoáveis se afastam de mim. 25. Pobres rapazes! Eu te lamento e se pudesse ser útil fá-lo-ia com prazer. - R. Se soubesses o quanto essa palavra me faz bem! É a primeira vez que a ouço. 26. Não poderias procurar as ocasiões de ver e ouvir coisas boas e úteis, que serviriam para o teu adiantamento? - R. Sim, mas, para isso, seria preciso que soubesse aproveitar essas lições; confesso que, de preferência, gosto de assistir às cenas de amor e de deboche que não influenciam meu espírito no bem. Antes de entrar em tua casa, estive lá, considerando os quadros que revelavam, em mim, certas idéias..., mas ali se quebraram. Eu soube, entretanto, resistir a pedir para me reencarnar, para gozar dos prazeres dos quais tanto abusei; vejo agora o quanto estava errado. Mantendo-me em tua casa, sinto que fiz bem. 27. Pois bem! No futuro, espero que me darás prazer se te apegares à minha amizade, para não concentrar mais a tua atenção sobre os quadros que podem dar-te más idéias, e que, ao contrário, pensarás naquilo que aqui poderás ouvir de bom e de ú-til para ti. Sentir-te-ás bem, crê em mim. - R. Se for tua idéia, será a minha. 28. Quando vais ao teatro, sentes as mesmas emoções de quando estavas vivo? - R. Várias emoções diferentes; aquelas primeiro; depois, algumas vezes, misturo-me às conversas..., ouço coisas singulares. 29. Qual é o teu teatro predileto? - R. Lês Variétés; mas, freqüentemente, me ocorre ir vê-los todos na mesma noite. Também vou aos bailes, às reuniões onde se diverte. 30. De modo que, mesmo se divertindo, podes instruir-te, deves poder observar muito em tua posição? -- R. Sim, mas o que gosto muito é de certos colóquios; é verdadeiramente curioso ver os manejos de certos indivíduos, sobretudo daqueles que querem se fazer crer jovens ainda. Em todas essas tagarelices ninguém diz a verdade: o coração se dissimula como o rosto, e é para nada compreender. Fiz um estudo de costumes sobre isso. 31. Pois bem! Não vês que poderíamos ter conjunto de pequenas boas conversas, como esta, das quais poderíamos, ambos, tirar bom proveito? - R. Sempre; como dizes, para ti primeiro e para mim em seguida. Tens ocupações que necessitam do teu corpo; posso fazer todas as diligências possíveis para me instruir; sem prejudicar a minha existência. 32. Desde que assim é, continuarás as tuas observações, ou como disseste, os estudos dos costumes; até o presente as aproveitaste pouco; é preciso que sirvam para te esclarecer e, para isso, é preciso que as faças com um objetivo sério, e não para te divertir e matar o tempo. Dir-me-ás o que vires; analisá-la-emos e delas tiraremos as conseqüências para a nossa instrução mútua. - R. Será mesmo muito atraente; sim, certamente, estou a teu serviço. 33. Isso não é tudo; eu gostaria de procurar a ocasião de fazer uma boa ação; queres? - R. De todo o coração! Dir-se-á, pois, que poderei ser bom para alguma coisa. Dize-me tudo o que é preciso que eu faça. 34. Devagar! Não confio assim missões delicadas àqueles dos quais não esteja perfeitamente seguro. Tens boa vontade, disso não duvido, mas, terias a perseverança necessária? É uma pergunta. É preciso, pois, que eu aprenda a te conhecer melhor, para saber do que és capaz e até que ponto posso contar contigo. Disso falaremos em uma outra vez. - R. Ve-lo-ás. 35. Adeus, pois, por hoje. - R. Até breve. Segunda conversa36. Pois bem! Meu caro Pierre, refletiste seriamente no que dissemos outro dia? - R. Mais seriamente do que crês porque desejo provar-te que valho mais do que aparento. Sinto-me mais à vontade, desde que tenha alguma coisa a fazer; agora, tenho um objetivo e não me aborreço mais. 37. Falei de ti com o senhor Allan Kardec; comuniquei-lhe nossa conversa, e ele ficou muito contente com isso; ele deseja comunicar-se contigo. - R. Eu o sei, fui à casa dele. 38. Quem te conduziu? - R. Teu pensamento. Voltei aqui depois do outro dia; vi que querias falar de mim e disse-me: Vamos lá primeiro, ali encontrarei, provavelmente, algum objeto de observação e, talvez, a oportunidade de ser útil. 39. Gosto de te ver com esses pensamentos sérios. Que impressão recebeste de tua visita? - R. Oh! Um grande bem; aprendi coisas que não suspeitava e que me esclareceram sobre o meu futuro. Foi como uma luz que se fez em mim; compreendo agora tudo o que tenho a ganhar em me aperfeiçoando..., é preciso, é preciso. 40. Posso, sem indiscrição, perguntar-te o que viste na casa dele? - R. Seguramente, da casa dele como da de outros, tanto mais não direi sempre o que gostaria... ou o que eu poderia. 41. Como entendes isso? É que não podes dizer tudo o que queres? - R. Não; há alguns dias vejo um Espírito que parece me seguir por toda parte, que me impele ou me retém; dir-se-á que me dirige; sinto um impulso do qual não me dou conta, e ao qual obedeço contra a minha vontade; se quero dizer ou fazer alguma coisa inconveniente, ele se coloca diante de mim..., olha-me..., e eu me calo..., detenho-me. 42. Qual é esse Espírito? - R. Nada sei dele; mas ele me domina. 43. Por que não lhe perguntas? - R. Não ouso; quando quero falar-lhe, ele me olha, e minha língua se retém. Nota. - Evidente que a palavra língua é aqui uma figura, uma vez que os Espíritos não têm linguagem articulada. 44. Deves ver se ele é bom ou mau? - R. Deve ser bom, uma vez que não me impede de dizer asneiras; mas é severo... Algumas vezes tem o ar irritado, e, de outras vezes parece olhar-me com ternura... Veio-me ao pensamento que esse poderia bem ser o Espírito de meu pai, que não quer dar-se a conhecer. 45. Isso me parece provável; ele não deve estar muito contente contigo. Escuta-me bem; vou dar-te um aviso a esse respeito. Sabemos que os pais têm por missão elevar seus filhos e dirigi-los no caminho do bem; em conseqüência, são responsáveis pela educação que receberam, e por isso sofrem ou são felizes no mundo dos Espíritos. A conduta dos filhos influi, pois, até um certo ponto, sobre a felicidade ou a infelicidade de seus pais depois da morte. Como a tua conduta na Terra não foi muito edificante, e depois que morreste não fizeste grande coisa de bom, teu pai deve sofrer com isso, se tem a censurar-se por não te dirigir bem... - R. Se não me tornei bom sujeito, não foi por falta de ser corrigido mais de uma vez com força. 46. Talvez esse não seja o melhor meio para se renovar; qualquer que ele seja, sua afeição por ti é sempre a mesma, e prova-te isso aproximando-se de ti, se for ele, como presumo; deve estar feliz com a tua mudança, o que explica suas alternativas de ternura e irritação; ele quer te ajudar no caminho no qual vens de entrar, e quando nele ver-te solidamente ajustado, estou persuadido de que se dará a conhecer. Assim, trabalhando pela tua própria felicidade, trabalharás pela sua. Não ficaria mesmo espantado que foi ele quem te impeliu a vir em minha casa. Se não o fez antes, foi porque quis deixar-te o tempo de compreender o vazio de tua existência ociosa e dela sentir os desgostos. - R. Obrigado! Obrigado...! Ele está atrás de ti... Pousa sua mão sobre a tua cabeça, como se te ditasse as palavras que acabas de dizer. 47. Voltemos ao senhor Allan Kardec. - R. Fui à sua casa anteontem à noite; estava ocupado escrevendo em seu escritório..., trabalhava numa nova obra que prepara... Ah! ele nos melhora bem. A nós outros, pobres Espíritos; se não nos conhecerem não será por culpa sua. 48. Estava só?- R. Só, sim, quer dizer que não havia ninguém com ele; mas havia, ao redor dele, uma vintena de Espíritos que murmuravam acima de sua cabeça. 49. Ele os ouvia? - R. Ouvia-os, se bem que olhasse por todos os lados para ver de onde vinha esse ruído, para ver se não eram milhares de moscas; depois, abriu a janela para ver se não fora o vento ou a chuva. Nota. - O fato era perfeitamente exato. 50. Entre todos esses Espíritos, não o reconheceste? - R. Não; não são os da minha sociedade; eu tinha o ar de um intruso e postei-me num canto para observar. 51. Esses Espíritos pareciam se interessar pelo que ele escrevia? - R. Eu o creio muito! Sobretudo, havia dois ou três que lhe sopravam o que ele escrevia e que tinham o ar de se aconselharem com outros; ele, ele acreditava ingenuamente que as idéias eram dele, e com isso parecia contente. 52. Foi tudo o que viste? - R. Em seguida, chegaram oito ou dez pessoas que se reuniram, em um outro aposento, com Kardec; puseram-se a conversar; perguntavam-lhe; ele respondia, explicava. 53. Conheces as pessoas que lá estavam? - R. Não; sei somente que havia grandes personagens, porque a um deles sempre se dizia: Príncipe, e a um outro; senhor o Duque. Os Espíritos também chegaram em massa; havia pelo menos uma centena deles, dos quais vários tinham sobre a cabeça como coroas de fogo; os outros mantinham-se de longe e escutavam. 54. E tu, que fazias?, - R. Eu escutava também, mas, sobretudo, observava; então, veio-me à idéia fazer diligências muito úteis a Kardec; dir-te-ei mais tarde o que era, quando houver triunfado. Deixei, pois, a assembléia e caminhando pelas ruas, diverti-me vagando diante das lojas, misturando-me com os grupos. 55. De sorte que em lugar de ir para os teus afazares, perdias teu tempo. - R. Não o perdi, uma vez que impedi um roubo. 56. Ah! Tu te metes também a te fazer de polícia? - R. Por que não? Passamos diante de uma loja fechada, notei que se passava em seu interior alguma coisa de singular, entrei; vi um jovem muito agitado e que ia, vinha e tinha o ar de querer a caixa do comerciante. Havia com ele dois Espíritos, um que lhe soprava no ouvido: vá, pois, poltrão! A gaveta está cheia; poderás divertir-te à vontade, etc.; além disso havia uma figura de mulher, bela e cheia de nobreza, alguma coisa de celeste e de bom olhar; dizia-lhe: Vá-te daqui! Vá-te daqui! não te deixes tentar; e lhe soprava as palavras; prisão, desonra. O jovem hesitava. No momento em que se aproximou do balcão, coloquei-me diante dele para detê-lo. Os maus Espíritos me perguntavam por que me metia. Eu quero, disse-lhes, impedir esse jovem de cometer uma má ação, e, talvez, ir para a prisão. Então o bom Espírito se aproximou de mim e me disse: é preciso que ele suporte a tentação; é uma prova; se sucumbir, será sua falta. Minha vontade era triunfar, quando seu mau gênio empregou um ardil que triunfou; fê-lo notar, sobre uma mesinha, uma garrafa: era aguardente; inspirou-lhe a idéia de bebê-la para encorajar-se. O infeliz está perdido, disse-me..., tratemos ao menos de salvar alguma coisa. Não tinha mais que um recurso, era o de prevenir o patrão... logo! Heis-me em sua casa num instante. Ele estava ocupado numa partida de cartas com sua mulher; era preciso encontrar o meio de fazê-lo descer. 57. Se ele fosse médium, tê-lo-ias feito escrever o que quisesse. Acreditava ao menos nos Espíritos? - R. Ele não tinha bastante espírito para saber o que era. 58. Não te conhecia o talento de fazer jogo de palavras. - R. Se me interrompes, não digo mais nada. Dei-lhe um violento espirro; quis pegar o tabaco, e percebeu que esquecera sua tabaqueira na loja. Chamou seu jovem que dormia num canto e lhe disse para ir procurá-la..., esse não era meu negócio...; o menino despertou grunhindo... Soprei à mãe dizer: Não desperte, pois, esse jovem; podes bem ir tu mesmo. - Ele se decidiu enfim..., eu o segui, para fazê-lo ir mais depressa. Chegado à porta, percebeu a luz na loja e ouviu o ruído. Eis que o medo o tomou, as pernas lhe tremeram; impeli-o para fazê-lo avançar; se tivesse entrado subitamente, pegaria o ladrão como numa arapuca; em lugar disso, esse grande imbecil se pôs a gritar, ao ladrão! o ladrão se salvou, mas, em sua precipitação, e perturbado que estava pela aguardente, esqueceu de recolher seu boné. O comerciante entrou quando não havia mais ninguém...; o que fará do boné, não era assunto meu: Aquele não estava em bons lençóis. Graças a mim, o ladrão não teve o tempo para terminar, e o comerciante o afastou pelo medo; o que não o impediu de dizer, voltando a sua casa, que ele lançou por terra um homem de seis pés. - Vede um pouco, disse, a que se prendem as coisas! Se eu não tivesse a idéia de pegar o tabaco!... - Se eu não tivesse te impedido de enviar nosso jovem! Disse a mulher... - É preciso convir que ambos fomos previdentes! - O que é senão o acaso! Heis, meu caro, como nos agradecem. 59. Tu és um bravo jovem, meu caro Pierre, e te felicito. Não te desencorajes com a ingratidão dos homens; encontrarás muitas outras, agora que te metes a lhes prestar serviço, mesmo entre aqueles que crêem na intervenção dos Espíritos - R. Sim, e sei que os ingratos se preparam cruéis retornos. 60. Vejo agora que posso contar contigo, e que te tomas verdadeiramente sério. - R. Verás, mais tarde, que serei eu quem lhe pregará a moral. 61. Disso tenho necessidade como um outro, e recebo de bom grado os bons conselhos, de qualquer parte que venham. Disse que queria te mandar fazer uma boa ação; estás disposto? - R. Podes disso duvidar? 62. Tenho um dos meus amigos que está ameaçado, creio, por grandes decepções se continuar a seguir o mau caminho no qual está empenhado; as suas ilusões podem perdê-lo. Queria que tentasses conduzi-lo para o bom caminho, por alguma coisa que pudesse impressioná-lo vivamente; compreendes meu pensamento? -R. Sim; gostarias que lhe fizesse alguma boa manifestação; uma aparição, por exemplo; mas isso não está no meu poder. Posso, entretanto, algumas vezes, quando para isso tenho a permissão, dar provas sensíveis de minha presença; tu o sabes. Nota. - O médium ao qual esse Espírito parece estar ligado, é informado de sua presença por uma impressão muito sensível, quando mesmo nem sonha chamá-lo. Ele o reconhece por uma espécie de roçadura que sente no braço, nas costas e nas espáduas; mas os efeitos são, algumas vezes, mais enérgicos. Em uma reunião que ocorreu em nossa casa, no dia 24 de março último, esse Espírito respondia às perguntas por intermédio de um outro médium. Falava-se de sua força física; de repente, como para dar uma prova, tomou um dos assistentes pela perna, por meio de um violento abalo, ergueu-o de sua cadeira e o lançou, muito aturdido, à outra extremidade da sala. 63. Farás o que fizeres, ou melhor, o que puderes. Informo-te que é um pouco médium. - R. Tanto melhor; tenho meu plano. 64. Que pretendes fazer? - R. Primeiro, vou estudar a posição; ver de quais Espíritos ele está cercado, e se há meio de fazer alguma coisa com eles. Uma vez em sua casa, anunciar-me-ei, como fiz em tua casa; interpelar-me-ão; responderei: "Sou eu, Pierre Lê Flamand, mensageiro em Espírito, que vem se colocar ao vosso serviço, e que, pela mesma ocasião, desejaria vos prestar um serviço. Ouvi dizer que estás em certas esperanças que vos giram a cabeça e que vos fazem já voltar as costas ao vossos amigos; creio dever, no vosso interesse, vos informar o quanto as vossas idéias estão longe de aproveitarem a vossa felicidade futura. Palavra de Lê Flamand, posso vos assegurar que venho vos ver com boas intenções. Temei a cólera dos Espíritos, e mais ainda a de Deus, e crede na palavra de vosso servidor que pode vos afirmar que sua missão é toda para o bem." (Sic.) Se me despedem, voltarei três vezes, e depois verei o que houver a fazer. É isso? 65. Muito bem, meu amigo, mas disso não digas nem mais nem menos. - R. Palavra a palavra. 66. Mas perguntado de quem te encarregou dessa missão, que responderás? - R. Os Espíritos superiores. Posso, para o bem, não dizer inteiramente a verdade. 67. Tu te enganas; desde que se age para o bem, é sempre por inspiração de bons Espíritos; assim, tua consciência pode repousar, porque os maus Espíritos jamais impelem para fazer coisas boas. -R. Está combinado. 68. Agradeço-te e te felicito por tuas boas disposições. Quando queres que te chame para que me faças conhecer o resultado da missão? - R. Informar-te-ei. (continua no próximo número) |
Página principal | Mapa do Site | Pesquisa no Site |
![]() |