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O Trapeiro da rua dos NoyersRevista Espírita, agosto de 1860 (Sociedade, 29 de junho de 1860.) Sob o título.Cenas de feftiçaria no décimo-nono século, o Droit narra o fato seguinte: "Um fato, dos mais estranhos, passa-se neste momento na rua dos Noyers. O senhor Lesage, despenseiro do Palácio da Justiça, ocupa nessa rua um apartamento. Há algum tempo, projéteis, partidos não se sabe de onde, vêm quebrar as suas vidraças e, penetrando em seu alojamento, atingem aqueles que aí se encontram de modo a feri-los, mais ou menos gravemente: são fragmentos bastante consideráveis de lenha, semicarbonizados, pedaços de carvão de terra muito pesados, e mesmo carvão dito de Paris. A criada do senhor Lesage deles recebeu no peito, e isso resultou-lhe fortes contusões. "A vítima desses sortilégios acabou por pedir a assistência da polícia. Os agentes foram colocados em vigilância; mas não tardaram, eles mesmos, a serem atingidos pela artilharia invisível, e lhes foi impossível saber de onde vinham esses golpes. "A existência se lhe tornando insuportável numa casa onde seria necessário estar sempre alerta, o senhor Lesage solicitou, do proprietário, a rescisão de seu contrato de aluguel. Esse pedido foi concedido e, para redigir o ato, veio a Sra. Vaillant, bedel, cujo nome convinha perfeitamente numa circunstância onde os mandados não poderiam ser cumpridos sem perigo. "Com efeito, apenas o oficial ministerial se pôs em ação para redigir seu ato, um enorme pedaço de carvão, lançado com uma força extrema, entrou pela janela e foi atingir a parede reduzindo-se a pó. Sem se desconcertar, a Sra. Vaillant serviu-se desse pó, como doutra feita Junot da terra levantada por uma bomba, para esparramá-lo sobre a página que acabara de escrever. "Em 1847 ocorreu, na rua dos Grès, um fato análogo, do qual demos conhecimento. Um senhor L..., comerciante de carvão, servia também de alvo a flexas fantásticas, e essas incompreensíveis emissões de pedra punham emocionado todo o quarteirão. Paralelamente à casa habitada pelo carvoeiro estendia-se um terreno vago, no meio do qual achava-se antiga igreja da rua dos Grès, hoje escola dos irmãos da Doutrina cristã. Imaginou-se primeiro que era dali que partiam os projéteis, mas logo se foi desenganado. Quando se estava de espreita de um lado, as pedras chegavam de um outro. Entretanto, acabou-se por surpreender em flagrante delito o mágico, que não era outro senão o senhor L..., ele mesmo. Recorrera a essa fantasmagoria porque se descontentara de sua casa e queria obter a rescisão de seu contrato de aluguel. "Não ocorreu o mesmo com o Sr. Lesage, cuja honorabilidade exclui toda idéia de astúcia, e que aliás está contente em seu apartamento, que não deixa senão se lamentando. "Espera-se que o inquérito, conduzido pelo Sr. Hubaut, comissário do quarteirão da Sorbonne, esclareça esse mistério, que, talvez, não seja senão uma brincadeira de mau gosto, infinitamente prolongada." 1. (A São Luís.) Teríeis a bondade de nos dizer se o fato relatado acima foi real; quanto à possibilidade, dela não duvidamos? - R. Sim, esses fatos são verdadeiros; somente a imaginação dos homens os exagerará, seja por medo, seja por ironia; mas repito, eles são verdadeiros. Essas manifestações são provocadas por um Espírito que se diverte um pouco às expensas dos habitantes do lugar. Nota. Desde então tivemos ocasião de ver o próprio Sr. Lesage, que consentiu honrar-nos com a sua visita, e não apenas nos confirmou os fatos, mas os completou e retificou sob vários aspectos. São Luís tinha razão quando disse que seriam exagerados por medo ou por ironia; com efeito, a história do pó recolhido estoicamente pela corajosa bedel, imitando Junot, foi uma invenção do chistoso jornalista. No próximo número daremos uma narração completamente exata dos fatos, com as novas observações a que darão lugar. 2. Há na casa uma pessoa que seja a causa dessas manifestações? - R. Elas sempre são causadas pela presença da pessoa à qual se ataca; é que o Espírito perturbador não quer o habitante do lugar onde ele está, e quer fazer-lhe malícias ou mesmo procura desalojá-lo. 3. Perguntamos se, entre os habitantes da casa, há algum que seja a causa desses fenômenos por uma influência medianímica espontânea e involuntária? - R. Ele o é bem necessário; sem isso o fato não poderia ocorrer. Um Espírito habita um lugar de predileção para ele; permanece inativo até que uma outra natureza, que lhe seja conveniente, não se apresente nesse lugar; quando essa pessoa chega, então diverte-se tanto quanto pode. 4. Esses Espíritos são sempre de u ma ordem muito inferior; a aptidão para servir-lhes de auxiliares é uma presunção desfavorável para a pessoa? Isso denota uma simpatia com os seres dessa natureza? - R. Não, não precisamente; porque essa aptidão prende-se a uma disposição física; entretanto, isso anuncia, muito freqüentemente, uma tendência material que seria preferível não ter; porque quanto mais se é elevado moralmente, mais se atrai para si os bons Espíritos, que se afastam necessariamente dos maus. 5. Onde o Espírito vai pegar os projéteis dos quais se serve? -R. Esses diversos objetos, o mais freqüentemente, são colhidos no próprio lugar; uma força vinda de um Espírito lança-os no espaço, e caem num lugar designado por esse Espírito. Quando não estão nos lugares, pedras e carvões podem ser fabricados por eles muito facilmente. Nota. Demos, na Revista do mês de abril de 1859, a teoria completa dessas espécies de fenômenos, nos artigos Mobiliário de além-túmulo e Pneumatografia ou escrita direta. 6. Credes que seria útil evocar esse Espírito para pedir-lhe algumas explicações? - R. Evocai-o se quiserdes; mas é um Espírito inferior, que não vos dará senão respostas bastante insignificantes. (Sociedade, 29 de junho de 1860.) 1. Evocação do Espírito perturbador da rua dos Noyers. - R. Que tendes para me chamar? Quereis pedradas? Será então que se verá um salve-se quem puder, apesar de vosso ar de bravura. 2. Quando nos arremessares pedras aqui, isso não nos amedrontará; pergunto mesmo positivamente se tu as podes arremessar? - R. Aqui, talvez eu não pudesse; tendes um guardião que vela bem sobre vós. 3. Na rua dos Noyers, havia uma pessoa que te servia de auxiliar para facilitar-te as peças que pregavas aos habitantes da casa? - R Certamente, encontrei um bom instrumento, e nenhum Espírito sábio e prudente para impedir-me; porque sou alegre, e gosto, às vezes, de me divertir. 4. Qual era a pessoa que te servia de instrumento? - R. Uma criada. 5. Era com o seu desconhecimento que te servia de auxiliar? -R. Oh sim! a pobre jovem; ela era a mais medrosa. 6. Entre as pessoas que estão aqui, há alguma que esteja apta para te ajudar a produzir efeitos semelhantes? - R. Eu bem poderia encontrar uma delas, se quisesse a isso se prestar, mas não para manobrar aqui. 7. Podes designá-la? -R. Sim, ali embaixo, à direita daquele que fala; tem óculos sobre o nariz. Nota. O Espírito designou, com efeito, um membro da Sociedade que é um pouco médium escrevente, mas nunca teve nenhuma manifestação física; é provável que seja um novo gracejo do Espírito. 8. Agias com um fim hostil? - R. Eu, eu não tinha nenhum objetivo hostil, mas os homens, que se apoderam de tudo. fá-lo-ão reverter em sua vantagem. 9. Que entendes por isso? Não te compreendemos. - R. Eu procuro divertir-me; mas vós, vós estudais a coisa e tereis um fato a mais para mostrar que existimos. 10. Onde obtiveste os objetos que lançaste?- R. São bastante comuns: eu os encontrei no pátio, nos jardins vizinhos. 11. Encontraste todos ou fabricaste alguns? - R. Eu nada criei, nada compus. 12. Se não os tivesses encontrado, tê-los-ia podido fabricar? -R. Isso fora mais difícil, mas, a rigor, misturam-se as matérias, e isso faz um todo qualquer. 13. Agora, dize-nos como os lançaste? - R. Ah! isso é mais difícil para dizer: fui ajudado pela natureza elétrica dessa jovem unida à minha, menos material; pudemos assim transportar esses diversos materiais em dois. (Ver a nota em seguida à evocação.) 14. Gostarias, penso, de nos dar algumas informações sobre a tua pessoa. Dize-nos, primeiro, se morreste há muito tempo? -R. Há bem muito tempo; faz bem cinqüenta anos. 15. Que eras quando vivo? - R. Não muita coisa de bom; eu catava trapos neste quarteirão, e se me diziam, às vezes, tolices, porque eu gostava muito do licor vermelho do bom homem Noé; eu queria, também, fazê-los todos se retirarem. 16. Foi por ti mesmo, e de toda a tua vontade, que respondeste às nossas perguntas? - R. Eu tinha um preceptor. 17. Quem é esse preceptor? - R. O vosso bom rei Luís. Nota. Esta pergunta foi motivada pela natureza de certas respostas que pareceram superar a capacidade desse Espírito, pelo fundo das idéias e mesmo pela forma de linguagem. Nada há por se admiraram ser ajudado por um Espírito, mais esclarecido, que quis aproveitar essa ocasião para nos dar uma instrução. Isto é um fato muito comum; mas uma particularidade notável, nesta circunstância, foi que a influência do outro Espírito se fez sentir sobre a própria escrita: a das respostas em que ele interveio, é mais regular e mais fluente; a das outras é mais angulosa, grossa, irregular, freqüentemente pouco legível, e traz um caráter diferente. 18. Que fazes agora; ocupas-te de teu futuro? - R. Nada ainda, eu erro; pensa-se tão pouco em mim sobre a Terra, que ninguém ora por mim; também não sou ajudado; eu não trabalho. 19. Qual foi o teu nome quando vivo? - R. Jeannet. 20. Pois bem! Nós oraremos por ti. Dize-nos se nossa evocação te deu prazer ou te contrariou? - R. Antes prazer, porque sois boas pessoas, alegres viventes, embora um pouco austeros; é igual, me escutastes, eu estou contente. Jeannet. Nota. - A explicação dada pelo Espírito à pergunta 13 está perfeitamente conforme com a idéia, que nos foi dada, há já muito tempo, por outros Espíritos, sobre a maneira que agem para operar o movimento e a translação de mesas e outros objetos inertes. Quando se dá conta desta teoria, o fenômeno parece muito simples; compreende-se que ele resulta de uma lei da Natureza, e que não é maravilhoso senão pelo mesmo título que todos os efeitos dos quais não se conhece a causa. Esta teoria acha-se completamente desenvolvida nos números da Revista de maio e junho de 1858. A experiência nos confirma, todos os dias, a utilidade das teorias que demos dos fenômenos espíritas; uma explicação racional desses fenômenos deveria ter por resultado fazer compreender-lhes a possibilidade, e, por isso mesmo, ter a convicção; eis porque muitas pessoas, que não estavam de nada convencidas pelos fatos mais extraordinários, o foram desde que puderam saber o porquê e o como. Acrescentemos que, para muitos, essas explicações fazem desaparecer o maravilhoso, e colocando fatos, por insólitos que sejam, na ordem das coisas naturais, quer dizer, que isso não são derrogações às leis da Natureza, e que o diabo aí não está por nada. Quando ocorrem espontaneamente, como na rua dos Noyers, quase sempre aí se encontra a ocasião de algum bem a fazer e de alguma alma a aliviar. Sabe-se que, em 1849, fatos semelhantes se passaram na rua dos Grès, perto da Sorbonne. O Sr. Lerible, que deles foi a vítima, vem de dar um desmentido aos jornais que o acusaram de fraude, citando-os diante dos tribunais. As considerações de sua citação merecem ser relatadas: "No ano mil oitocentos e sessenta, em nove de julho, a requerimento do Sr. Lerible, antigo comerciante de carvão e de madeira, proprietário, residindo em Paris, à rua de Grenelle-Sainl-Germain, 64, elegendo domicilio em sua residência; Eu, Jules Demonchy, bedel junto ao tribunal civil da Seine, com sede em Paris, e residindo na rua dos Fossés-Saint-Victor, 43, abaixo-assinado, cito ao Sr. Garat, gerente do jornal Ia Pairie, nos escritórios do dito jornal, com sede em Paris, rua do Croissant, onde estando e falando a uma mulher de confiança assim declarei: Dever inserir, em resposta ao artigo publicado em 27 de junho último, nos Fatos do jornal Ia Patrie, a citação seguinte, dada pelo requerente ao gerente do jornal le Droit, com os oferecimentos que faz o requerente de dar contas das despesas de inserção ao seu cargo, no caso em que sua resposta exceda o número de linhas que a lei o autoriza fazer publicar: "No ano mil oitocentos e sessenta, em cinco de julho, a requerimento do Sr. Lerible, antigo comerciante de carvão e madeira, proprietário, residindo em Paris, rua de Grenelle-Saint-Germain, 64, elegendo domicílio em sua residência; "Eu, Aubin Jules Demonchy, bedel junto ao tribunal civil da Seine, com sede em Paris, e residindo, rua dês Fossés-Saint-Victor,43; "Dar citação ao Sr. François, em nome e como gerente do jornal te Droit, nos escritórios do dito jornal, situado em Paris, praça Dauphine, onde estando e falando a... "A comparecer, em 8 de agosto de 1860, à audiência e diante dos senhores presidente e juizes componentes da sexta câmara do tribunal de primeira instância da Seine, estatuindo em matéria de policia correcio-nal, no Palácio da Justiça de Paris, dez horas da manhã, para: "Tendo em vista que, em seu número de vinte e seis de junho último, e por ocasião dos fatos que teriam se passado em uma casa da rua dos Noyers, o jornal te Droit reporta que fatos os análogos ocorreram, em 1847, em uma casa da rua dos Grès; " Que o redator acompanha as suas observações com explicações tendentes a fazerem crer que os ataques, dos quais a casa da rua dos Grès foi o objeto em 1847, emanaram do locatário dessa casa, que lhes deram nascimento, num pensamento de má-fé, para obter, por meio de uma especulação desonesta, a rescisão de seu contrato de aluguel; "Tendo em vista que os fatos, assinalados pelo jornal te Droit realmente ocorreram, não em 1847 mas em 1849, na casa que o requerente ocupava, nessa época, na rua dos Grès; "Que, ainda bem que o nome do requerente não houvesse sido indicado no artigo do Droit senão por uma inicial, a designação exata de sua indústria, a das localidades que ele habitava, e enfim a relação que os fatos, dos quais se tratam, foram colhidas pelo próprio jornal, assinalam suficientemente o requerente como sendo o autor das manobras atribuídas à pessoa que ocupava a casa da rua dos Grès; "Tendo em vista que estas imputações são de natureza a atingirem a honra e a consideração do requerente; "Que elas são tanto mais repreensíveis quanto nenhuma das verificações dos acontecimentos, do qual se tratam, que foram o objeto, não ocorreu, e que a exemplo daqueles cuja rua dos Noyers parece ter sido o teatro, esses acontecimentos ficaram sem explicação; "Que, aliás, o requerente era proprietário, desde 1847, da casa e do terreno que ele ocupava na rua aos Grès; que a suposição na qual se deteve o diretor do Droit não tem nenhuma razão de ser e nunca foi formulada; "Tendo em vista que os termos empregados pelo jornal te Droit constituem uma difamação e caem sob a aplicação das penas previstas na lei; "Que todos os jornais de Paris se apoderaram do artigo do Droit, e que a honra do requerente spfreu, pelo fato dessa publicidade, uma ofensa cuja reparação lhe é devida; "Por estes motivos; "Se ver fazer, o Sr. François, a aplicação das penas pronunciadas pela lei, e se ouvir condenado mesmo em pessoa, a pagar, ao requerente, as perdas e danos que este se reserva reclamar na audiência, e das quais declara, quanto à presente, empregar em proveito dos pobres; ver dizer, por outro lado, que o julgamento a interpor-se será inserido em todos os jornais de Paris às expensas do acima nomeado, e ouvir-se condenar às custas, sob todas as reservas; "E, a fim de que o acima nomeado não o ignore, a domicilio e falando como acima, deixe-lhe cópia do presente. "Custo, 3 fr. 55 c. Assinado: Demonchy. "Registrado em Paris, em 6 de julho de 1860, recebido 2 f r. 20 c. Assinado: DUPERRON |
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