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Ainda uma palavra sobre o Sr. Deschanel

Revista Espírita, abril de 1861

Do Journal dês Débats.

No precedente número da Revista Espírita, nossos leitores puderam ver, ao lado de nossas reflexões sobre o artigo do Sr. Deschanel, a carta pessoal que lhe dirigimos. Essa carta, muito curta, da qual lhe pedimos a inserção, tinha por objeto retificar um erro grave que ele cometera em sua apreciação. Apresentando a Doutrina Espírita como estando fundada sobre o mais grosseiro materialismo, era desnaturar-lhe completamente o espírito, Tia vez que ela, ao contrário, tende a destruir as idéias materialistas. Havia em seu artigo muitos outros erros que pudéramos relevar, mas aquele era muito capital para permanecer sem resposta; tinha uma gravidade real em que ele tendia a lançar um verdadeiro desfavor sobre os numerosos adeptos do Espiritismo. O Sr. Deschanel não acreditou dever submeter-se ao nosso pedido, e eis a resposta que nos dirigiu:

"Senhor,

"Recebi a carta que fizestes a honra de escrever, em data 5 de fevereiro. O vosso editor, Sr. Didier, consentiu em me encarregar de vos explicar que foi sob o seu reiterado pedido que consenti dar conta, nos Débats, de vosso livro O Livro dos espíritos, sob a condição de criticar tanto quanto eu quisesse; nossa convenção. Eu vos agradeço de ter compreendido que, nessas circunstâncias, usar de vosso direito de contra-exposição fora estritamente legal, mas menos delicada, seguramente, do que a abstenção à qual acedestes, assim como o Sr. Didier me informou esta manhã.

"Quereis aceitar, etc.

E. Deschanel

Esta carta falta com a exatidão sobre vários pontos. É verdade que o Sr. Didier remeteu ao Sr. Deschanel um exemplar de O Livro dos Espíritos, como isso se pratica de editora a jornalista; mas o que não é exato, é que o Sr. Didier se tenha encarregado de nada nos explicar sobre as suas pretensas instâncias reiteradas para que disso fosse dado conta, e se o Sr. Deschanel acreditou dever-lhe consagrar vinte e quatro colunas de zombarias, nos permitirá crer que isso não foi nem condescendência nem por deferência para com o Sr. Didier. De resto, nós o dissemos, não é disso de que nos lamentamos: a crítica estava em seu direito; e do momento que ele não partilha a nossa maneira de ver, estava livre para apreciar a obra sob o seu ponto de vista, assim como ocorre todos os dias; uma coisa é levada às nuvens por uns, depreciada pelos outros, mas nem um nem o outro desses julgamentos é sem apelação; o único juiz em última instância é o público, e sobretudo o público futuro, que é estranho às paixões e às intrigas do momento. Os elogios obsequiosos de grupos não o impedem de enterrar, para sempre, o que é realmente mau, e o que é verdadeiramente bom sobrevive a despeito das diatribes da inveja e do ciúme.

Desta verdade duas fábulas dão fé,

Tão abundantes as provas da coisa, teria dito La Fontaine; não citaremos duas fábulas, mas dois fatos. Ao seu aparecimento, a Phèdre de Racine teve contra ela a corte e a cidade, e foi achincalhada; o autor ficou cheio de tantos desgostos que, com a idade de trinta e oito anos, renunciou a escrever para o teatro; a Phèdre de Pradon, ao contrário, foi enaltecida com outra medida; qual é hoje a sorte dessas duas obras? Um outro livro mais modesto, Paul et Virginie, foi declarado nati-morto pelo ilustre Buffon que o achou insosso e insípido, e todavia, sabe-se que nunca um livro foi tão popular. Por esses dois exemplos, nosso objetivo é simplesmente provar que a opinião de um crítico, qualquer que seja o seu mérito, é sempre uma opinião pessoal e que nem sempre é ratificada pela posteridade pública. Mas voltemos de Buffon a Deschanel, sem comparação, porque Buffon está grosseiramente enganado, ao passo que o Sr. Deschanel crê, sem dúvida, que não se dirá tanto dele.

O Sr. Deschanel, na carta, reconhece que o nosso direito de contra-exposição foi estritamente legal, mas acha mais delicadeza, de nossa parte, não o exercitar; ele se engana ainda completamente quando diz que acedemos a uma abstenção, o que daria a entender que acedemos a uma solicitação, e mesmo que o Sr. Didier teria sido encarregado de informá-lo; ora, nada é menos exato. Não acreditamos dever exigir a inserção de uma exposição contraditória; é-lhe permitido achar a nossa doutrina má, detestável, absurda, e de gritá-lo sobre os telhados, mas esperávamos de sua lealdade a publicação de nossa carta para retificar uma alegação falsa, e podendo insultar a nossa consideração, naquilo que nos acusa de professar e de propagar as próprias doutrinas que combatemos, como subversivas da ordem social e da moral pública. Não lhe pedimos uma retratação, à qual o seu amor-próprio talvez se recusasse, mas simplesmente para inserir o nosso protesto; certamente, não abusamos do direito de resposta, uma vez que em troca de vinte e quatro colunas nós lhe não pedíamos senão trinta a quarenta linhas. Nossos leitores saberão apreciar a sua recusa; se ele consentiu ver delicadeza no nosso proceder, não saberíamos julgar o seu do mesmo modo.

Quando o Sr. abade Chesnel publicou no Univers, de 1858, seu artigo sobre o Espiritismo, ele deu, da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas uma idéia igualmente falsa apresentando-a como uma seita religiosa, tendo o seu culto e seus sacerdotes; esta alegação desnaturava completamente o seu objetivo e suas tendências, e podia enganar a opinião pública; ela era tanto mais errônea quanto o regulamento da Sociedade lhe proíbe se ocupar de matérias religiosas; não se conceberia, com efeito, uma Sociedade religiosa que não pudesse se ocupar de religião. Protestamos contra essa assertiva, não com algumas linhas, mas por um artigo inteiro e longamente motivado que, ao nosso simples pedido, o Univers fez a si o dever de inseri-lo. Lamentamos que, em semelhante circunstância, o Sr. Deschanel, do jornal dês Débats, se creia menos moralmente obrigado de restabelecer a verdade do que os Senhores do Univers; se isso não fosse uma questão de direito, seria sempre uma questão de lealdade; reservar-se o direito de atacar sem admitir a defesa, é um meio fácil, para ele, de fazer com que os seus leitores creiam que ele tem razão.

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