Dissertações espíritas

Revista Espírita, junho de 1861

Muitos chamados e poucos escolhidos

(Obtido pelo Sr. d’Ambel, médium da Sociedade.)

Esta máxima evangélica deve se aplicar, com muito mais razão, aos tempos atuais do que aos primeiros tempos do cristianismo.

Com efeito, não ouvis já fermentar a tempestade que deve levar o velho mundo e tragar no nada a soma das iniqüidades terrestres? Ah! Bendizei o Senhor, vós que pusestes a vossa fé em sua soberana justiça, e que, novos apóstolos da crença revelada pelas vozes proféticas superiores, ide pregar o dogma novo da reencarnação e da elevação dos Espíritos, segundo tenham bem ou mal cumprido as suas missões, e suportado suas provas terrestres.

Não tremais! As línguas de fogo estão sobre as vossas cabeças. Ó adeptos do Espiritismo, sois os eleitos de Deus! Ide e pregai a palavra divina. A hora é chegada em que deveis sacrificar, à sua propagação, vossos hábitos, vossos trabalhos, vossas ocupações fúteis. Ide e pregai; os Espíritos do alto estão convosco. Certamente, falareis a pessoas que não quererão em nada ouvir a voz de Deus, porque essa voz lembra-lhes, sem cessar, a abnegação; pregareis o desinteresse aos avaros, a abstinência aos debochados, a mansuetude aos tiranos domésticos como aos déspotas; palavras perdidas, eu o sei; mas que importa! É necessário regar com os vossos suores o terreno em que deveis semear, porque não fortificará, e não produzirá, senão sob os esforços reiterados da pá e do arado evangélicos. Ide e pregai!

Sim, todos vós, homens de boa fé, que credes em vossa inferioridade olhando os mundos espaçados no infinito, parti em cruzada contra a injustiça e a iniqüidade. Ide e derrubai esse culto do bezerro de ouro, cada dia mais e mais invasor. Ide, Deus vos conduz! Homens simples e ignorantes, vossas línguas serão desatadas, e falareis como nenhum orador fala. Ide e pregai, e as populações atentas recolherão com alegria as vossas palavras de consolação, de fraternidade, de esperança e de paz.

Que importam as armadilhas que lançarão em vosso caminho! Só os lobos se prendem nas armadilhas de lobos, porque o pastor saberá defender suas ovelhas contra as bocas sacrificadoras.

Ide, homens grandes diante de Deus, que, mais felizes do que São Tome, credes sem pedir para ver, e aceitai os fatos da mediunidade quando mesmo não triunfastes em obtê-los vós mesmos; ide, o Espírito de Deus vos conduz.

Marcha, pois, em frente, falange imponente pela tua fé e pelo teu pequeno número! Marcha! E os grossos batalhões dos incrédulos se desvanecerão diante de ti como os nevoeiros da manhã aos primeiros raios do sol nascente.

A fé é a virtude que erguerá as montanhas, disse-vos Jesus; contudo, mais pesadas que as mais pesadas montanhas, jaz no coração dos homens a impureza e todos os vícios da impureza. Parti, pois, com coragem para levantar essa montanha de iniqüidades que as gerações futuras não devem conhecer senão no estado de lenda, como vós mesmos não conheceis senão muito imperfeitamente o período dos tempos anteriores à civilização paga.

Sim, os transtornos morais e filosóficos vão se manifestar sobre todos os pontos do globo; a hora se aproxima em que a luz divina aparecerá sobre os dois mundos.

Ide, pois, levai a palavra divina: aos grandes que a desdenharão, aos sábios que dela pedirão prova, aos pequenos e aos simples que a aceitarão, porque é sobretudo entre os mártires do trabalho, essa expiação terrestre, que encontrareis o fervor e a fé. Ide; estes receberão com cânticos de ação de graça, e cantando os louvores a Deus, a consolação santa que lhes levais, e se inclinarão em agradecimento pelo quinhão de suas misérias terrestres.

Que vossa falange se arme, pois, de resolução e de coragem! À obra! O arado está pronto; a terra espera, é preciso lavrar.

Ide, e agradecei a Deus pela tarefa gloriosa que vos confiou; mas pensai que entre os chamados ao Espiritismo muitos se extraviaram; olhai, pois, o vosso caminho e segui o caminho da verdade.

P. Se muitos dos chamados ao Espiritismo se extraviaram, por que sinal se reconhece aqueles que estão no bom caminho? - R. Reconhecê-los-eis pelos princípios de verdadeira caridade que professarão e praticarão; reconhecê-los-eis pelo número de aflitos aos quais levaram consolações; reconhecê-los-eis pelo seu amor ao seu próximo, pela sua abnegação, pelo seu desinteresse pessoal; reconhecê-los-eis, enfim, pelo triunfo de seus princípios, porque Deus quer o triunfo de sua lei; aqueles que seguem a sua lei são seus eleitos, e ele lhes dará a vitória, mas esmagará aqueles que falseiam o Espírito dessa lei e dela fazem um degrau para satisfazer a sua vaidade e a sua ambição.

ERASTO, Anjo guardião do médium.

Ocupações dos Espíritos

(Médium, senhora Costel.)

As ocupações dos Espíritos da segunda ordem consistem em se preparar para as provas que terão que sofrer, por meditações sobre suas vidas passadas, e observações sobre os destinos dos humanos, seus vícios, suas virtudes, o que pode aperfeiçoá-los ou fazê-los falir. Aqueles que têm, como eu, a felicidade de ter uma missão, dela se ocupando com tanto mais zelo e amor que o adiantamento das almas que lhes são confiadas lhe é contado como um mérito; eles se esforçam, pois, em lhes sugerir bons pensamentos, em ajudar seus bons movimentos, em afastá-lo dos Espíritos maus, opondo-lhe doce influência às influências nocivas. Essa ocupação interessante, sobretudo quando se é bastante feliz para dirigir um médium e ter comunicações diretas, não afasta do cuidado e do dever de se aperfeiçoar.

Não creias que o tédio possa atingir um ser que não vive senão pelo Espírito e cujas faculdades tendem para um objetivo, que sabe distante mas certo. O tédio não resulta senão do vazio da alma e da esterilidade do pensamento; o tempo, tão pesado para vós que o medis pelos vossos medos pueris ou vossas frívolas esperanças, não faz sentir sua marcha àqueles que não estão sujeitos nem às agitações da alma, nem às necessidades do corpo. Passa ainda mais depressa para os Espíritos puros e superiores, que Deus encarrega da execução de suas ordens, e que percorrem as esferas num vôo rápido.

Quanto aos Espíritos inferiores, sobretudo aqueles que têm pesadas faltas para expiar, o tempo se mede pelos seus desgostos, seus remorsos e seus sofrimentos. Os mais perversos dentre eles procuram disso escapar fazendo o mal, quer dizer, sugerindo-o. Eles sentem então essa acre e fugidia satisfação do enfermo que raspa a sua ferida e não faz senão aumentar a sua dor. Seus sofrimentos também aumentam de tal modo que acabam, fatalmente, em procurar o remédio, e que não é outro senão o retorno ao bem.

Os pobres Espíritos, que foram culpados por fraqueza ou ignorância, sofrem pela sua inutilidade, seu isolamento. Lamentam seu envoltório terrestre, por mais dor que lhes haja dado; revoltam-se e se desesperam até o momento em que percebem que só a resignação e uma firme vontade de retornar ao bem podem aliviá-los; conformam-se e compreendem que Deus não abandona nenhuma de suas criaturas.

MARCILLAC.

Espírito familiar.

O deboche

(Envio do Sr. Sabo, de Bordeaux.)

A escolha de bons autores é muito útil, e aqueles que exercem seu domínio sobre vós, excitando a vossa imaginação pelas loucas paixões humanas, não fazem senão corromper o coração e o espírito. Com efeito, não é entre os apologistas da orgia, do deboche, da volúpia, entre aqueles que preconizam os gozos materiais, que se Podem haurir lições de melhoramento moral. Pensai, pois, meus amigos, que se Deus vos deu paixões, foi com o objetivo de vos fazer concorrer aos seus desígnios, e não para satisfazê-las como o animal. Sabei que se despenderdes a vossa vida em loucos gozos que não deixam senão remorsos e o vazio no coração, não agis segundo os objetivos de Deus. Se vos é dado reproduzir a espécie humana, é porque milhares de Espírito errantes esperam no espaço a formação de corpos, dos quais têm necessidade para recomeçar sua prova, e que usando as vossas forcas nas ignóbeis volúpias, ides ao contrário dos objetivos de Deus, e vosso castigo será grande. Bani, pois, essas leituras, das quais não tirais nenhum fruto nem para a vossa inteligência, nem para o vosso aperfeiçoamento moral. Que os escritores sérios de todos os tempos e todos os países vos façam conhecer e o belo e o bem; que elevem a vossa alma pelo encanto da poesia e vos ensinem o útil emprego das faculdades com que vos dotou o Criador.

FÉLICIA,

Filha do médium.

Nota. Não há alguma coisa de profundo e de sublime nessa idéia que dá, à reprodução do corpo, um objetivo tão elevado? Os Espíritos errantes esperam esses corpos, dos quais têm necessidade para o seu próprio adiantamento, e que os Espíritos encarnados estão encarregados de reproduzir, como o homem espera o produto da fabricação de certos animais para se vestir e alimentar-se.

Disso ressalta um outro ensinamento de uma alta gravidade. Não se admitindo que a alma já viveu, é necessário, de toda a necessidade, que ela seja criada no momento da formação e para uso de cada corpo; de onde se segue que a criação da alma por Deus estaria subordinada ao capricho do homem, e, na maior parte do tempo, o resultado do deboche. Como! Todas as leis religiosas e morais condenam a depravação dos costumes, e Deus disso aproveitaria para criar almas! Perguntamos a todo homem de bom senso se é admissível que Deus se contradiga nesse ponto? Isso não seria glorificar o vício uma vez que serviria ao cumprimento dos objetivos mais elevados do Todo-Poderoso: a criação das almas? Que se nos diga se tal não seria a conseqüência da formação simultânea das almas e dos corpos; e isso seria bem pior ainda admitindo-se a opinião daqueles que pretendem que o homem procria a alma ao mesmo tempo que o corpo. Admiti, ao contrário, a preexistência da alma, e toda contradição cessa. O homem não. procria senão a matéria do corpo, e a obra de Deus, a criação da alma imortal que deve um dia se aproximar dele, não está mais submetida ao capricho do homem. Assim é que, fora da reencarnação, dificuldades insolúveis surgem a cada passo, e que se cai na contradição e o absurdo quando se quer explicá-las; também o princípio da unicidade de existência corpórea, para decidir sem retorno os destinos futuros do homem, perde cada dia terreno e partidários; podemos, pois, dizer com segurança que dentro em pouco o princípio contrário será universalmente admitido, como o único lógico, o único conforme a justiça de Deus, e proclamado pelo próprio Cristo, quando disse: Eu vos digo que é necessário que nasçais várias vezes antes de entrar no reino dos céus.

Sobre o Perispírito

Ditado espontâneo a propósito de uma discussão que ocorrera, na Sociedade,

sobre a natureza do Espírito e do Perispírito. Médium Sr. A. Didier.

Segui com interesse a discussão que se desenvolveu há pouco e vos colocou num tão grande embaraço. Sim, faltam cor e forma às palavras para exprimir o perispírito e a sua verdadeira natureza; mas há uma coisa certa, é que o que uns chamam perispírito não é outra coisa senão o que outros chamam de envoltório fluídico, material. Quando se discutem semelhantes questões, não são as frases que é preciso procurar, são as palavras. Eu diria, para me fazer compreender de maneira mais lógica, que esse fluido é a perfectibilidade dos sentidos e a extensão da visão e das idéias; falo aqui dos Espíritos elevados. Quanto aos Espíritos inferiores, os fluidos terrestres são ainda completamente inerentes a eles; portanto, como vedes, é matéria; daí os sofrimentos da fome, do frio, etc., sofrimentos que não podem suportar os Espíritos superiores, tendo em vista que os fluidos terrestres estão depurados ao redor do pensamento, quer dizer, da alma. A alma, para o seu progresso, tem sempre necessidade de um agente; a alma sem agente nada é para vós, ou, melhor dizendo, não pode ser concebida por vós. O perispírito, para nós outros Espíritos errantes, é o agente pelo qual nos comunicamos convosco, seja indiretamente por vosso corpo ou vosso perispírito, seja diretamente pela vossa alma; daí as infinitas nuanças de médiuns e de comunicações. Agora resta o ponto de vista científico, quer dizer, a própria essência do perispírito; isto é um outro assunto. Compreendei, primeiro, moralmente; não resta mais que uma discussão sobre a natureza dos fluidos, o que é inexplicável no momento; a ciência não conhece bastante, mas a isso se chegará se a ciência quiser caminhar com o Espiritismo.

LAMENNAIS.

O Anjo Gabriel

Evocação de um bom Espírito, pela senhora de X..., em Souttz, Haut-Rnin.

Eu sou Gabriel, o anjo do Senhor, que me encarrega de vos bendizer, não por vossos méritos, mas pelos esforços que fazeis para adquiri-los.

A vida deve ser um combate; não é necessário jamais deter-se, jamais oscilar entre o bem o e mal; a hesitação já vem de Satã, quer dizer, dos maus Espíritos. Coragem, pois! E quanto mais encontrardes de espinhos em vosso caminho, mais esforços vos serão necessários para prosseguir. Se ele fora semeado com rosas, que mérito teríeis diante de Deus? Cada um tem o seu calvário sobre a Terra, mas nem todos o percorrem com essa doce resignação de que Jesus nos deu o exemplo. Ela foi tão grande que os anjos se emocionaram! E os homens! Apenas vertem uma lágrima a tantas dores! Ó dureza do coração humano! Mereceis a semelhante sacrifício? Lançai vossa fronte na poeira, e gritai misericórdia ao Deus mil vezes bom, mil vezes doce, mil vezes misericordioso! Um olhar, ó meu Deus! sobre a vossa obra, sem isso ela perecerá! Seu coração não está à altura do vosso; não pode compreender esse excesso de amor de vossa parte. Tende piedade; tende mil vezes piedade de vossa fraqueza. Levantai a sua coragem por pensamentos que não podem vir senão de vós. Bendizei-os, sobretudo, afim de que carreguem frutos dignos de vossa imensa grandeza!

Hosana ao mais alto dos céus! E paz aos homens de boa vontade!

Assim é que terminarei as palavras que Deus me ordenou vos transmitir.

Sede benditos no Senhor, afim de que desperteis, um dia, em seu seio.

Despertai

(Sociedade Espirita de Paris. Médium senhora Costel.)

Falar-te-ei dos sintomas e das predições que, por toda a parte, anunciam a chegada de grandes acontecimentos que o nosso século encerra. Por uma tocante bondade, os Espíritos, mensageiros de Deus, advertem o Espírito dos homens, como as dores advertem a mãe de seu parto próximo. Esses sinais, freqüentemente menosprezados, e todavia sempre justificados, se multiplicam ao infinito, neste momento. Por que sentis todos o Espírito profético agitar os vossos corações e sacudir as vossas consciências? Por que as incertezas? Por que as fraquezas que perturbam os corações? Por que o despertar do espírito público que, por toda parte, arvora a sua orgulhosa bandeira? Por quê? É que os tempos estão chegados; É que o reino do materialismo abala-se, e vai desmoronar-se; é que os gozos do corpo, logo menosprezados, vão dar lugar ao reino da idéia; é que o edifício social está carcomido, e vai dar lugar à jovem e triunfante legião das idéias Espíritas, que fecundarão as consciências estéreis e os costumes mudos. Que essas palavras, incessantemente repetidas, não vos encontrem distraídos e indiferentes; recolhei, depois que o lavrador semeou, as preciosas espigas que nascerem; não digais: a vida segue o seu curso e uma marcha normal; os nossos pais nada viram do que se anuncia hoje: não veremos mais do que eles. Adoraremos o que eles adoraram, ou antes substituímos a adoração por fórmulas vás, e tudo estará bem. Assim falando, dormis; despertai, porque não é a trombeta do julgamento final que estourará em vossos ouvidos, mas a voz da verdade; não se trata da morte vencida e humilhada, trata-se da vida presente, ou antes, da vida eterna; não a esqueçais e despertai.

HELVÉTIUS.

O gênio e a miséria

(Sociedade Espírita de Paris. Méd. Sr. Alfred Didier.)

Há uma prova muito grande sobre a Terra, e sobre a qual a moral do Espiritismo deve sobretudo se apoiar, é essa prova horrível do homem de gênio, sobretudo daquele que está dotado de faculdades superiores, presa às exigências da miséria. Ah! sim; essa prova moral, essa miséria da inteligência, bem mais que a do corpo, será um mérito maior para o homem que houver cumprido a sua missão. Compreendei essa luta incessante do talento contra a miséria, essa harpia que se lança sobre vós, durante o festim da vida, semelhante ao monstro de Virgílio, e que diz a todas as suas vítimas: Sois poderosos, mas eu que vos mato, sou eu que devolve ao nada os dons de vossa inteligência, porque eu sou a morte do gênio. Eu o sei, só alguns são vencidos; mas outros, quantos são? Há um pintor da escola moderna que assim concebeu esse assunto. Um ser, o gênio, do qual as asas se desdobram, e cujos olhares estão do lado do sol; ele quase se levanta, e cai sobre o rochedo, onde estão fixadas as cadeias de ferro que o reterão, talvez, para sempre. O homem que viu esse sonho e que talvez esteve acorrentado, ele também, e talvez depois de sua libertação, se lembrou daqueles que deixara para sempre sobre o rochedo.

Gérard DE NERVAL.

Transformação

(Sociedade Espírita de Paris. Médium senhora Costel.)

Venho falar-te, da coisa que mais importa, nesta época de crise e de transformação; no momento em que as nações vestem a roupa viril, no momento em que o céu descoberto vos mostra, flutuando nos espaços infinitos, os Espíritos daqueles que acreditáveis dispersos como moléculas ou servindo de pasto aos verdes; neste momento solene, é necessário que, se armando da fé, o homem não caminhe mais às cegas nas trevas do personalismo e do materialismo. Como outrora os pastores, guiados por uma estrela, vieram adorar o Menino-Deus, é necessário que o homem, guiado pela brilhante aurora do Espiritismo, caminhe, enfim, para a Terra prometida da liberdade e do amor; é necessário que, compreendendo o grande mistério, saiba que o objetivo harmonioso da Natureza, seu ritmo admirável, são os modelos da Humanidade. Nessa espantosa diversidade que confunde os Espíritos, distingui a perfeita semelhança das relações entre as coisas criadas e os seres criados, e que essa poderosa harmonia vos inicie a todos, homens de ação, poetas, artistas, trabalhadores, à união na qual devem fundir-se os esforços comuns durante a peregrinação da vida. Caravanas assaltadas pelas tempestades e pelas adversidades, estendei-vos mãos amigas, e caminhai com os olhos fixos no Deus justo que recompensa, ao cêntuplo, aquele que tiver aliviado o fraco e o oprimido.

GEORGES.

A separação do Espírito

(Envio do Sr. Sabo, de Bordeaux.)

Corpos de lama, foco de corrupção, onde fermenta o levedo das paixões impuras; são esses órgãos que, freqüentemente, levam o Espírito a tomar parte nas sensações brutais que são da alçada da matéria. Quando o princípio da vida orgânica se extingue, por um dos mil acidentes aos quais o corpo está sujeito, o Espírito se desliga dos laços que o retinham em sua prisão fétida, e ei-lo livre no espaço.

Entretanto, ocorre que, quando ele é ignorante, e sobretudo quando é bem culpável, um véu espesso lhe esconde as belezas da morada que os bons Espíritos habitam, e ele se encontra só, ou na companhia de Espíritos maus e inferiores, num círculo que não lhe permite nem de ver onde chega, nem de se lembrar de onde vem; então, está inquieto, sofrendo constrangido, até que, num tempo mais ou menos longo, seus irmãos os Espíritos vêm esclarecê-lo sobre a sua posição, e lhe abrem os olhos para que se lembre do mundo dos Espíritos que habitou, e os diferentes planetas onde suportará as suas diversas encarnações; se a última foi bem conduzida, ela lhe abre as portas dos mundos superiores, e se ela foi inútil e cheia de iniqüidades, ele é punido pelo remorso, e depois que o Espírito se submeteu à cólera de Deus, pelo seu arrependimento e a prece de seus irmãos, recomeça a viver, o que não é uma felicidade, mas um castigo ou uma prova.

FERDINAND.

Espírito familiar.