Dissertações espíritas

Revista Espírita, agosto de 1861

Da influência moral dos médiuns nas comunicações.

(Sociedade Espírita de Paris. Médium Sr. d'Ambel.)

Já o dissemos: os médiuns, enquanto médiuns, não têm senão uma influência secundária nas comunicações dos Espíritos; sua tarefa é a de uma máquina elétrica, que transmite os despachos telegráficos de um ponto distante a um outro ponto distante da Terra. Assim, quando queremos ditar uma comunicação, agimos sobre o médium,, como o empregado do telégrafo sobre seu aparelho; quer dizer, que do mesmo modo que o tac tac do telégrafo desenha, a milhares de léguas, sobre uma faixa de papel, os sinais reprodutores do despacho, do mesmo modo nos comunicamos através das distâncias incomensuráveis que separam o mundo visível do mundo invisível, o mundo imaterial do mundo encarnado, o que queremos vos ensinar por meio do aparelho medianímico. Mas também, do mesmo que as influências atmosféricas atuam, e perturbam, a miúdo, as transmissões do telégrafo elétrico, a influência moral do médium age, e perturba algumas vezes, a transmissão dos nossos despachos de além-túmulo; porque somos obrigados a fazê-los passar por um meio que lhes é contrário. Entretanto, o mais freqüentemente, essa influência é anulada pela nossa energia e nossa vontade, e nenhum ato perturbador se manifesta. Com efeito, os ditados de uma alta importância filosófica, as comunicações de uma perfeita moralidade, são transmitidas, algumas vezes, por médiuns pouco propícios a esses ensinamentos superiores; ao passo que, por outro lado, as comunicações pouco edificantes chegam também, algumas vezes, por médiuns, envergonhados por lhes terem servido de condutor.

Em tese geral, pode-se afirmar que os Espírito similares chamam os Espíritos similares, e que raramente os Espíritos das plêiades elevadas se comunicam pelos aparelhos maus condutores, quando têm, sob sua mão, bons aparelhos mediúnicos, bons médiuns em uma palavra.

Os médiuns levianos e pouco sérios chamam, pois, Espíritos da mesma natureza; por isso, suas comunicações estão marcadas de banalidades, de frivolidades, de idéias sem seqüência e, freqüentemente, muito heterodoxas, do ponto de vista espírita. Certamente, eles podem dizer, e dizem algumas vezes, boas coisas; mas é neste caso, sobretudo, que é necessário levar um exame sério e escrupuloso, porque, no meio dessas boas coisas, certos Espíritos hipócritas insinuam com habilidade, e com uma perfídia calculada, fatos controversos, afirmações mentirosas, a fim de enganar a boa-fé de seus ouvintes. Deve-se, então, podar, sem piedade, toda palavra, toda frase equívoca, e não conservar do ditado senão o que a lógica aceita, ou o que a doutrina já ensinou. As comunicações dessa natureza não são a temer senão para os Espíritas isolados, os grupos recentes ou pouco esclarecidos, porque, nas reuniões onde os adeptos estão mais avançados, e adquiriram experiências, a gralha em vão se enfeita com as plumas do pavão, é sempre impiedosamente despedida.

Não falarei dos médiuns que se alegram em solicitar e em escutar comunicações obscenas; deixemo-los se comprazerem na sociedade dos Espíritos cínicos. Aliás, as comunicações dessa ordem procuram, por elas mesmas, a solidão e o isolamento; não poderiam, em todo caso, senão levantar o desdém e o desgosto entre os membros dos grupos filosóficos e sérios. Mas, onde a influência moral do médium se faz realmente sentir, é quando este substitui suas idéias pessoais por aquelas que os Espíritos se esforçam por lhe sugerir; e ainda quando haure, em sua imaginação, teorias fantásticas que crê ele mesmo, de boa-fé, resultar de uma comunicação intuitiva. Freqüentemente, há então mil a apostar contra um de que isso não é senão o reflexo do Espírito pessoal do médium; ocorre mesmo este fato curioso, é que a mão do médium de move, algumas vezes, quase mecanicamente, impelida que é por um Espírito secundário e zombeteiro. É contra essa pedra de toque que vêm se quebrar as imaginações jovens e ardentes; porque, levadas pelo ímpeto de suas próprias idéias, pelo falso brilho de seus conhecimentos literários, menosprezam o modesto ditado de um Espírito sábio, e abandonam a vítima para a sombra, a substituem por uma paráfrase empolada. É contra esse escolho terrível que vêm igualmente fracassar as personalidades ambiciosas que, na falta das comunicações que os bons Espíritos lhes recusam, apresentam suas próprias obras com uma obra desses Espíritos, eles mesmos. Eis porque é preciso que os chefes dos grupos Espíritas sejam providos de um tato delicado e de uma rara sagacidade, para discernir as comunicações autênticas daquelas que não o são, e para não ferir aqueles que iludem a si mesmos.

Na dúvida, abstém-te, diz um de vossos antigos provérbios; não admitais, pois, senão o que vos é de uma evidência certa. Desde que uma opinião nova surge, por pouco que ela vos pareça duvidosa, passai-a pelo crivo da razão e da lógica; o que a razão e o bom senso reprovam, rejeitai-o ousadamente; mais vale repelir dez verdades, do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa. Com efeito, sobre essa teoria, poderíeis edificar todo um sistema que desabaria ao primeiro sopro da verdade, como um monumento edificado sobre uma areia movediça; ao passo que, se rejeitais hoje certas verdades, porque elas não vos são demonstradas lógica e claramente, logo um fato brutal, ou uma demonstração irrefutável, virá vos afirmar a sua autenticidade.

Lembrai-vos, todavia, ó Espíritas, que não há o impossível para Deus e para os bons Espíritos senão a injustiça e a iniqüidade.

O Espiritismo está bastante difundido entre os homens, e moralizou suficientemente os adeptos sinceros de sua santa doutrina, para que os Espíritos não sejam mais reduzidos a empregar maus instrumentos, médiuns imperfeitos. Se, pois, agora um médium, qualquer que ele seja, dá, pela sua conduta ou seus costumes, pelo seu orgulho, pela sua falta de amor e de caridade, um legítimo motivo de suspeição, repeli, repeli suas comunicações, porque há uma serpente escondida na erva. Eis a minha conclusão sobre a influência moral dos médiuns.

ERASTO.

Dos transportes e de outros fenômenos tangíveis.

(Sociedade Espírita de Paris. Médium Sr. d'Ambel.)

Para obter fenômenos desta ordem, necessariamente, é preciso ter consigo médiuns que eu chamaria sensitivos, quer dizer, dotados no mais alto grau das faculdades mediúnicas de expansão e de penetrabilidade; porque o sistema nervoso desses médiuns, facilmente excitável, lhes permite, por meio de certas vibrações, projetar ao redor deles, com profusão, seu fluido animalizado.

As naturezas impressionáveis, as pessoas cujos nervos vibram ao menor sentimento, à menor sensação, que a influência moral ou física, interna ou externa, sensibiliza, são pessoas muito aptas a se tornarem excelentes médiuns para os efeitos físicos de tangibilidade e de transporte. Com efeito, seu sistema nervoso, quase inteiramente desprovido do envoltório refratário, que isola esse sistema na maioria dos outros encarnados, torna-os próprios para o desenvolvimento desses diversos fenômenos. Em conseqüência, com um sujeito dessa natureza, e cujas outras faculdades não sejam hostis à medianimização, obter-se-á mais facilmente os fenômenos de tangibilidade, as pancadas nas paredes e nos móveis, os movimentos inteligentes, e mesmo a suspensão do espaço da matéria inerte mais pesada; a fortiori, obter-se-ão esses resultados se, no lugar de um médium, os tiver à mão vários igualmente bem dotados.

Mas da produção desses fenômenos à obtenção daquele dos transportes, há todo um mundo; porque, nesse caso, não só o trabalho do Espírito é mais complexo, mais difícil, mas muito mais, o Espírito não pode operar senão por meio de um único aparelho mediúnico, quer dizer, que vários médiuns não podem concorrer, simultaneamente, para a produção do mesmo fenômeno. Ocorre mesmo, ao contrário, que a presença de certas pessoas antipáticas ao Espírito que opera, entrava radicalmente a sua operação. A esses motivos que, como vedes, não faltam em importância, acrescentai que os transportes necessitam sempre uma maior concentração, e ao mesmo tempo uma maior difusão de certos fluidos, e que, enfim, não podem ser obtidos senão com os médiuns melhores dotados, aqueles, em uma palavra, cujo aparelho eletro-mediúnico está melhor condicionado.

Em geral, os fatos de transportes são e permanecerão excessivamente raros. Não terei necessidade de vos demonstrar porque são, e serão, menos freqüentes do que os outros fatos de tangibilidade; do que vos disse, vós mesmos o deduzireis. Aliás, esses fenômenos são de uma tal natureza que não só todos os médiuns não lhes são próprios, mas que todos os médiuns, eles mesmos, não podem produzi-los. Com efeito, é necessário que entre o Espírito e o médium influenciado exista uma certa afinidade, uma certa analogia, em uma palavra, uma certa semelhança que permita à parte expansiva do fluido perispirítico (1-(1) Vê-se que, quando se trata de exprimir uma idéia nova para a qual a língua não tem palavras, os Espíritos sabem perfeitamente criar neologismos. Estas palavras: eletro-medianimica, perispirítico, não são nossas. Aqueles que nos criticaram por termos criado as palavras: espírita, espiritismo, perispírito, que não tinham suas análogas, poderão também acusar mesmo os Espíritos.) do encarnado misturar-se, unir-se, combinar-se com o do Espírito que quer fazer um transporte. Essa fusão deve ser tal que a força resultante se torne, por assim dizer, uma; do mesmo modo que uma corrente elétrica, agindo sobre o carvão, produz um foco, uma claridade únicos.

Por que essa união? Por que essa fusão, direis? É que, para a produção desses fenômenos, é necessário que as propriedades essenciais do Espírito motor sejam aumentadas por algumas das do medianimizado; é que o fluido vital, indispensável à produção de todos os fenômenos mediúnicos, é o apanágio exclusivo do encarnado, e que, por conseqüência, o Espírito operador está obrigado a se impregnar dele. Não é senão então que ele pode, por meio de certas propriedades do vosso meio ambiente, desconhecidas para vós, isolar, tornar invisíveis e fazer mover certos objetos materiais, e os próprios encarnados. Não me é permitido, para o momento, vos desvendar essas leis particulares que regem os gases e os fluidos que vos cercam; mas antes que os anos tenham se escoado, antes que uma existência de homem seja cumprida, a explicação dessas leis, e desses fenômenos, vos será revelada, e vereis surgir e se produzir uma nova variedade de médiuns, que cairão num estado cataléptico particular, desde que sejam medianimizados.

Vedes com quantas dificuldades a produção dos transportes se acha cercada; podeis disso concluir, muito logicamente, que os fenômenos dessa natureza são excessivamente raros e com tanta maior razão quanto os Espíritos a isso se prestam muito pouco, porque motiva, de sua parte, um trabalho quase material, o que é um aborrecimento e uma fadiga para eles.

De outra parte, ocorre ainda isto: é que, muito freqüentemente, apesar de sua energia e de sua vontade, o estado do próprio médium lhe opõe uma barreira intransponível.

Está, pois, evidente, e o vosso raciocínio o sanciona, disso não duvido, que os fatos tangíveis de golpes, de movimento e de suspensão são fenômenos simples, que se operam pela concentração de certos fluidos, e que podem ser provocados e obtidos pela vontade e o trabalho dos médiuns que lhes estejam aptos, quando estes são secundados pelos Espíritos amigos e benevolentes; ao passo que os fatos de transporte são múltiplos, complexos, exigem um concurso de circunstâncias especiais, não podem se operar senão por um único Espírito e um único médium, e necessitam, fora das necessidades da tangibilidade, de uma combinação toda particular para isolar e tornar invisível o objeto, ou os objetos, que são o motivo do transporte.

Todos vós, Espíritas, compreendeis minhas explicações, e vos dais conta perfeitamente dessa concentração de fluidos especiais, para a locomoção e a tactilidade da matéria inerte; nisso credes, como credes nos fenômenos da eletricidade e do magnetismo, com os quais os fatos mediúnicos estão em plena analogia, e lhes são, por assim dizer, a consagração e o desenvolvimento. Quanto aos incrédulos, não tenho o que fazer para convencê-los, e não me ocupo deles; se-lo-ão um dia, pela força da evidência, porque será muito necessário que se inclinem diante do testemunho unânime dos fatos espíritas como foram forçados a fazê-los diante de tantos outros fatos que de início repeliram.

Para me resumir: se os fatos de tangibilidade são freqüentes, os fatos de transportes são muito raros, porque as suas condições são muito difíceis; conseqüentemente, nenhum médium pode dizer: A tal hora, em tal momento, obterei um transporte; porque, freqüentemente, o próprio Espírito se encontra impedido em sua obra. Devo acrescentar que esses fenômenos são duplamente difíceis em público, porque aí se encontram, quase sempre, elementos energicamente refratários que paralisam os esforços do Espírito, e com mais forte razão a ação do médium. Tende, ao contrário, por certo, que esses fenômenos se produzem espontaneamente; o mais freqüentemente com o desconhecimento do médium e sem premeditação, quase sempre em particular, e, enfim, muito raramente, quando estes dele estão prevenidos; de onde deveis concluir que há motivo legítimo de suspeição, todas as vezes que um médium se gabe de obtê-los à vontade, dito de outro modo, de ordenar aos Espíritos como aos seus servidores, o que é muito simplesmente absurdo. Tende ainda por regra geral que os fenômenos espíritas não são, de nenhum modo, fatos para serem dados em espetáculo e para divertir os curiosos. Se alguns Espíritos se prestam a essas espécies de coisas, isso não pode ser senão para os fenômenos simples, e não para aqueles que, como os transportes e outros semelhantes, exigem condições excepcionais.

Lembrai-vos, Espíritas, que é absurdo repelir sistematicamente todos os fenômenos de além-túmulo, não é sábio, não mais do que aceitá-los cegamente. Quando um fenômeno de tangibilidade, de aparição, de visibilidade ou de transporte se manifesta espontaneamente, e de maneira instantânea, aceitai-o; mas eu não saberia vos repetir mais, náo aceiteis nada cegamente; que cada fato sofra um exame minucioso, aprofundado e severo; porque, crede-o, o Espiritismo, tão rico em fenômenos sublimes e grandiosos, nada tem a ganhar com essas pequenas manifestações que hábeis prestidigitadores podem imitar.

Eu bem sei o que ireis me dizer: é que esses fenômenos são úteis para convencer os incrédulos; mas sabei bem que se não tivésseis tido outros meios de convicção, não teríeis hoje senão a centésima parte dos Espíritas que tendes. Falai ao coração; é por aí que fareis mais conversões sérias. Se credes útil, para certas pessoas, agir pelos fatos materiais, apresentai-os pelo menos em circunstâncias tais que não possam dar lugar a nenhuma falsa interpretação, e sobretudo não saiais das condições normais desses fatos; porque os fatos apresentados em más condições fornecem argumentos aos incrédulos, em lugar de convencê-los.

ERASTO.

Os animais médiuns.

(Sociedade Espírita de Paris. Sr. d'Ambel.)

Abordo hoje essa questão da mediunidade dos animais, levantada e sustentada por um de vossos mais fervorosos adeptos. Ele pretende, em virtude deste axioma, quem pode o mais pode o menos, que nós podemos medianimizar os pássaros e os outros animais, e deles não servir em nossas comunicações com a espécie humana. É o que chamais em filosofia, ou antes em lógica, pura e simplesmente um sofisma.

"Vós animais, disse ele, a matéria inerte, quer dizer, uma mesa, uma cadeira, um piano; a foniori devereis animar a matéria já animada e notadamente dos pássaros." Pois bem! No estado normal do Espiritismo, isso não é assim, isso não pode existir.

De início, convenhamos bem os nossos fatos. Que é um médium? É o ser, o indivíduo que serve de traço de união aos Espíritos, para que estes possam com facilidade comunicar-se com os homens: Espíritos encarnados. Por conseguinte, sem médium, de nenhum modo comunicações tangíveis, mentais, descritivas, físicas, nem de qualquer espécie que seja.

É um princípio que, disso estou seguro, é admitido por todos os Espíritas: é que os semelhantes agem com os seus semelhantes e como os seus semelhantes. Ora, quais são os semelhantes dos Espíritos, senão os Espíritos, encarnados ou não? É preciso repeti-lo sem cessar? Pois bem! Eu vo-lo repetirei ainda: O vosso perispírito e o nosso são hauridos no mesmo meio, são de uma natureza idêntica, são semelhantes, em uma palavra; possuem uma propriedade de assimilação mais ou menos desenvolvida, de imantação mais ou menos vigorosa, que nos permite, Espíritos e encarnados, nos colocar muito prontamente, e muito facilmente, em relação. Enfim, o que pertence dele próprio aos médiuns, o que é mesmo da essência de sua individualidade, é uma afinidade especial, e ao mesmo tempo uma força de expansão particular, que aniquila neles toda refratariedade, e estabelece, entre eles e nós, uma espécie de corrente, uma espécie de fusão, que facilita as nossas comunicações. De resto, é essa refratariedade da matéria que se opõe ao desenvolvimento da medianimidade na maioria daqueles que não são médiuns. Acrescentarei que é a essa qualidade refratária que é preciso atribuir a particularidade que faz com que certos indivíduos, não médiuns, transmitam e desenvolvam a medianimidade, pelo seu simples contato, em médiuns novatos ou médiuns quase passivos, quer dizer, desprovidos de certas qualidades medianímicas.

Os homens estão sempre dispostos a tudo exagerar; uns, não falo aqui dos materialistas, recusam uma alma aos animais, e outros querem lhes dar uma, por assim dizer, semelhante à nossa. Por que querer assim confundir o perfectível com o imperfectível? Não, não, ficai disto bem convencidos, o fogo que anima os animais, o sopro que os faz agir, mover e falar em sua linguagem, não tem, quanto ao presente, nenhuma aptidão a se misturar, a se unir, a se fundir com o sopro divino, a alma etérea, o Espírito, em uma palavra, que anima o ser essencialmente perfectível, o homem, esse rei da criação. Ora, não é o que faz a superioridade da espécie humana sobre as outras espécies terrestres senão essa condição essencial de perfectibilidade? Pois bem! Reconhecei, pois, que não se pode assimilar ao homem, único perfectível, em si mesmo e em suas obras, nenhum indivíduo de outras raças vivas sobre a Terra.

O cão, que sua inteligência superior entre os animais tornou o amigo e o comensal do homem, é perfectível de sua cabeça e de sua iniciativa pessoal? Ninguém ousaria sustentá-lo: porque o cão não faz o cão progredir; e aquele, entre os melhores adestrados, está sempre adestrado pelo seu mestre. Desde que o mundo é mundo, a lontra edifica sempre sua choupana sobre as águas, segundo as mesmas proporções e seguindo uma regra invariável; os rouxinóis e as andorinhas nunca construíram seus ninhos de modo diferente que os seus pais não o fizeram. O ninho de pardal, antes do dilúvio, como o ninho de pardal da época moderna, é sempre um ninho de pardais, edificado nas mesmas condições e com o mesmo sistema de entrelaçamento de fios de ervas e de detritos recolhidos na primavera, na época dos amores. As abelhas e as formigas, essas pequenas repúblicas econômicas, jamais variaram em seus hábitos de aprovisionamento, em seu modo de proceder, em seus costumes, em suas produções. Enfim, a aranha tece sempre a sua teia do mesmo modo. Por outro lado, se procurardes as cabanas de folhagem e as tendas das primeiras idades da Terra, encontrareis em seu lugar os palácios e os castelos da civilização moderna; às vestes de peles brutas, sucederam os tecidos de ouro e de seda; enfim, a cada passo, encontrais a prova dessa marcha incessante da Humanidade para o progresso.

Desse progresso constante, invencível, irrecusável da espécie humana, esse estacionamento indefinido das outras espécies animadas, concluí comigo que, se existem princípios comuns ao que vive e se move sobre a Terra: o sopro e a matéria, não é menos verdadeiro que só vós, Espíritos encarnados, estais submetidos a essa inevitável lei do progresso, que vos impele fatalmente para a frente, e sempre para a frente. Deus colocou os animais ao vosso lado como auxiliares para vos nutrir, vos vestir, vos secundar. Deu-lhes uma certa dose de inteligência, porque, para vos ajudar, lhes seria necessário compreender, e proporcionou a sua inteligência aos serviços que são chamados a fazer; mas, em sua sabedoria, não quis que fossem submetidos à mesma lei do progresso; tais foram criados, tais permanecem e permanecerão até a extinção de suas raças.

Foi dito: os Espíritos medianimizam e fazem mover a matéria inerte, as cadeiras, as mesas, os pianos; fazem mover, sim; mas medianimizam, não! Por que, ainda uma vez, sem médium, nenhum desses fenômenos podem se produzir. Que há de extraordinário que, com a ajuda de um ou de vários médiuns, façamos mover a matéria inerte, passiva, que, justamente em razão de sua passividade, de sua inércia, é própria para sofrer os movimentos e os impulsos que desejamos imprimir-lhes? Para isso temos necessidade de médiuns, é positivo; mas não é necessário que um médium esteja presente ou consciente, porque podemos agir com os elementos que nos fornece, com o seu desconhecimento e fora de sua presença, sobretudo, nos fatos de tangibilidade e de transporte. Nosso envoltório fluídico, mais imponderável e mais sutil do que o mais sutil e o mais imponderável de vossos gases, unindo-se, casando-se, combinando-se com o envoltório fluídico mais animalizado do médium, e cuja propriedade de expansão e de penetrabilidade é inapreciável para os vossos sentidos grosseiros, e quase inexplicável para vós, nos permite mover móveis e mesmo quebrá-los em peças inabitadas.

Certamente, os Espíritos podem tornar-se visíveis e tangíveis para os animais, e, freqüentemente, tal temor súbito que os toma, e que não vos parece motivado, é causado pela visão de um ou de vários desses Espíritos mal intencionados para os indivíduos presentes, ou para aqueles a quem pertencem esses animais. Muito freqüentemente, apercebeis-vos de cavalos que não querem nem avançar e nem recuar, ou que se empinam diante de um obstáculo imaginário. Pois bem! Tende por certo que o obstáculo imaginário, freqüentemente, é um Espírito ou um grupo de Espíritos, que se divertem impedindo-os de avançar. Lembrai-vos do asno de Balaão, que vendo um anjo diante dele, e temendo sua espada flamejante, obstinava-se em não se mexer; é que antes de se manifestar visivelmente a Balaão, o anjo quis se tornar visível só para o animal; mas, repito-o, nós não medianimizamos diretamente nem os animais, nem a matéria inerte; sempre nos é preciso o concurso, consciente ou inconsciente, de um médium humano, porque nos é necessária a união de fluidos similares, o que não encontramos nem nos animais, nem na matéria bruta.

O Sr. Thiry, disse, magnetizou o seu cão; a que chegou? Matou-o; porque esse infeliz animal morreu depois de ter caído numa espécie de atonia, de languidez, conseqüência de sua magnetização. Com efeito, inundando-o de um fluido haurido numa essência superior à essência especial de sua natureza, esmagou-o e agiu sobre ele, embora mais lentamente, à maneira do raio. Portanto, como não há nenhuma assimilação possível entre o nosso perispírito e o envoltório fluídico dos animais, propriamente ditos, nós os esmagaremos, instantaneamente, magnetizando-os.

Isso estabelecido, reconheço perfeitamente que, entre os animais, existem aptidões diversas; que certos sentimentos, que certas paixões idênticas às paixões e aos sentimentos humanos se desenvolvem neles; que são sensíveis e reconhecidos, vingativos e odiosos, segundo se proceda bem ou mal com eles. É que Deus, que não faz nada incompleto, deu aos animais, companheiros ou servidores do homem, qualidades de sociabilidade que faltam inteiramente aos animais selvagens, que habitam as solidões.

Para resumir: os fatos medianímicos não podem se manifestar sem o concurso consciente ou inconsciente do médium; e não é senão entre os encarnados, Espíritos como nós, que podemos encontrar aqueles que podem nos servir de médiuns. Quanto a adestrar os cães, os pássaros ou outros animais, para fazer tais ou tais exercícios, é vosso assunto e não o nosso.

ERASTO.

Nota. A propósito da discussão que ocorreu na Sociedade sobre a mediunidade dos animais, o Sr. Allan Kardec disse que observou muito atentamente as experiências que se fizeram, nestes últimos tempos, sobre pássaros aos quais se atribuía a faculdade medianímica, e acrescentou que reconheceu, da maneira mais incontestável, os procedimentos da prestidigitação, quer dizer, que cartas forçadas, mas empregadas com bastante destreza para iludir os expectadores que se contentam com a aparência sem examinar o fundo. Com efeito, esses pássaros fazem coisas que nem mesmo o homem mais inteligente, nem mesmo o sonâmbulo mais lúcido, poderiam fazer, de onde seria preciso concluir que possuem faculdades intelectuais superiores ao homem, o que seria contrário às leis da Natureza. O que é preciso mais admirar nessas experiências, é a arte, a paciência que foi preciso empregar para adestrar esses animais, torná-los dóceis e atentos; para obter esses resultados, certamente, foi preciso ter relações com naturezas flexíveis, mas isso não pode ser, em definitivo, senão animais adestrados, nos quais há mais hábito do que combinações; e a prova disso é que, se a deixam de exercer durante algum tempo, perdem logo o que aprenderam. O encanto dessas experiências, como o de todos os torneios de prestidigitação, está no segredo dos procedimentos; uma vez conhecido o procedimento, perdem todo o seu atrativo; foi o que ocorreu quando os saltimbancos quiseram imitar a lucidez sonambúlica pelo pretenso fenômeno do que chamavam a dupla vista. Não podia ali haver ilusão para quem conhecesse as condições normais do sonambulismo; ocorre o mesmo com a pretensa mediunização dos pássaros da qual todo observador experimentado pode, facilmente, se dar conta.

Povos, fazei silêncio!

(Envio do Sr. Sabo, de Bordeaux, médium senhora Cazemajoux.)

l

Para onde correm essas crianças vestidas de roupas brancas? A alegria ilumina seus corações; seu enxame alegre vai divertir-se nas verdes pradarias, onde farão uma ampla colheita de flores e perseguirão um inseto brilhante que se nutre em seus cálices. Descuidadas e felizes, não vêem mais longe que o horizonte azul que as cerca; sua queda será terrível, se não vos apressardes em dispor seus corações aos ensinamentos espíritas.

Porque os Espíritos do Senhor passaram através das nuvens e vieram vos pregar; prestai ouvidos à suas vozes amigas; escutai atentamente; povos, fazei silêncio!

II

Eles se tornaram grandes e fortes; a varonil beleza de uns, a graça e o abandono de outros fazem reviver, no coração dos pais, as doces lembranças de uma época já distante deles, mas o sorriso que ia desabrochar sobre seus lábios descorados desaparece para dar lugar aos sombrios cuidados. É que eles também beberam em longos tragos na taça encantada das ilusões da juventude, e seu veneno sutil enfraqueceu seu sangue, enervou suas forças, envelheceu seus rostos, desguarneceu suas frontes, e queriam impedir seus filhos de provar nessa taça envenenada. Irmãos! O Espiritismo será o antídoto que deve preservar a nova geração de seus mortais estragos;

Porque os Espíritos do Senhor passaram através das nuvens e vieram vos pregar; prestai ouvidos às suas vozes amigas; escutai atentamente; povos, fazei silêncio!

III

Chegaram à idade da virilidade; tornaram-se homens; são sérios e graves, mas não são felizes; seu coração é insensível e não tem senão uma fibra sensível: a da ambição. Empregam tudo o que têm de força e de energia para adquirir os bens terrestres. Para eles, nada de felicidade sem as dignidades, as honras, a fortuna. Insensatos! De um instante para outro, o anjo da libertação vai vos ferir; sereis forçados a abandonar todas essas quimeras; sois proscritos que Deus pode chamar de um instante para outro à mãe-pátria. Não construais nem palácios, nem monumentos; uma tenda, vestes e pão, eis o necessário. Contentai-vos com isso, e com o vosso supérfluo dai aos vossos irmãos o que lhes falta: o abrigo, a veste e o pão. O Espiritismo vem vos dizer que os verdadeiros tesouros que deveis adquirir são o amor de Deus e do próximo; eles vos farão ricos para a eternidade;

Porque os Espíritos do Senhor passaram através das nuvens e vieram vos pregar; prestai ouvidos às suas vozes amigas; escutai atentamente; povos, fazei silêncio!

IV

Eles têm suas frontes inclinadas à beira do sepulcro; têm medo e gostariam de levantar a cabeça, mas o tempo arqueou suas espáduas, retesou seus nervos e seus músculos, e estão impossibilitados de olhar para o alto. Ah! Que angústias vêm assaltá-los! Evocam, no secreto de sua alma, sua vida inútil e, freqüentemente, criminosa; o remorso os rói como um abutre esfomeado; é que eles têm, freqüentemente, no curso dessa existência decorrida na indiferença, negado seu Deus, e lhes aparece na borda do túmulo, vingador inexorável. Não temais, Irmãos, e orai. Se, em sua justiça, Deus vos castiga, dará graça ao vosso arrependimento, porque o Espiritismo vem vos dizer que a eternidade das penas não existe, e que renasceis para vos purificar e expiar. Também, vós que estais fatigados em vosso exílio sobre a Terra, fazei todos os vossos esforços para vos melhorar, a fim de para ela não mais retornar;

Porque os Espíritos do Senhor passaram através das nuvens e vêm vos pregar; prestai ouvido às suas vozes amigas; escutai atentamente; povos, fazei silêncio!

BYRON.

Jean-Jacques Rousseau.

(Méd. Senhora Costel.)

Nota. O médium está ocupado com coisas muito estranhas ao Espiritismo; dispunha-se a escrever para assuntos pessoais, quando uma força invisível o constrangeu a escrever o que se segue, apesar de seu desejo de prosseguir o trabalho começado. É o que explica o início da comunicação:

"Eis-me, embora não me chames. Venho falar-te de coisas muito estranhas às tuas preocupações. Eu sou o Espírito de Jean-Jacques Rousseau. Esperei por muito tempo a ocasião para me comunicar contigo. Escutai-me, pois.

"Penso que o Espiritismo é um estudo todo filosófico das causas secretas dos movimentos interiores da alma, pouco ou nada definidos até aqui. Explica, mais ainda que não descobre, horizontes novos. A reencarnação e as provas suportadas antes de chegar ao objetivo supremo, não são revelações, mas uma confirmação importante. Fui tocado pelas verdades que esse meio põe à luz. Digo meio com intenção, porque na minha opinião, o Espiritismo é uma alavanca que afasta as barreiras da cegueira. A preocupação das questões morais está inteiramente para criar; discutem-se a política que movimenta os interesses gerais, discute-se os interesses privados; apaixona-se pelo ataque ou a defesa das personalidades, aquelas que são o pão da alma, o pão da vida, são deixadas no pó acumulado pelos séculos. Todos os aperfeiçoamentos são úteis aos olhos da multidão, salvo o da alma; sua educação, sua elevação são quimeras boas no máximo para ocupar os lazeres dos padres, dos poetas, das mulheres, seja no estado de moda, seja no estado de ensinamento.

"Se o Espiritismo ressuscita o Espiritualismo, retornará à sociedade o impulso que dá a uns a dignidade interior, a outros a resignação, a todos a necessidade de se elevar para o Ser supremo, esquecido e desconhecido pelas suas ingratas criaturas.

J.-J. ROUSSEAU."

A Controvérsia.

(Envio do Sr. Sabô, de Bordeaux.)

Ó Deus! Meu senhor, meu pai e meu criador, dignai-vos de dar ainda, ao vosso servidor, um pouco dessa eloqüência humana que leva a convicção aos corações dos Irmãos que vêm, em torno do púlpito sagrado, instruir-se das verdades que ensinastes

Deus, vos enviando seus Espíritos para vos ensinar vossos verdadeiros deveres para com ele e para com os vossos irmãos, quer sobretudo que a caridade seja o vosso móvel em toda as vossas ações, e vossos irmãos que querem fazer renascer esses dias de luto, estão no caminho do orgulho. Esse tempo está longe de vós, e Deus seja sempre bendito por ter permitido que os homens cessassem, para sempre, essas disputas religiosas que nunca produziram nenhum bem, e que causaram tanto mal. Por que querer discutir os textos evangélicos que já comentastes de tantas maneiras? Esses diversos comentários ocorreram, então, quando não tínheis o Espiritismo para vos esclarecer, e ele vos disse: A moral evangélica é a melhor, e seguí-a; mas se, no fundo de vossa consciência, uma voz vos grita: Para mim há tal ou tal ponto obscuro, e não posso me permitir pensar diferentemente de meus outros irmãos! Heloim! Meu irmão, deixai de lado o que é perturbação para vós; amai a Deus e a caridade, e estareis no bom caminho. De que serviu o fruto de minhas longas vigílias quando vivia em vosso mundo? Para nada. Muitos não lançaram os olhos sobre os meus escritos, que não eram ditados pela caridade e que atraíram perseguições aos meus irmãos. A controvérsia é sempre animada de um sentimento de intolerância, que pode degenerar até à ofensa, e a teimosia que cada um põe para sustentar as suas pretensões distancia a época em que a grande família humana, reconhecendo seus erros passados, respeitará todas as crenças e não dirigirá ela mesma o punhal que cortou esses laços fraternais. E, para vos dar um exemplo do que vos disse, abri o Evangelho, e aí encontrareis estas palavras: "Eu sou a verdade e a vida; só aquele que crê em mim viverá." E muitos dentre vós condenam aqueles que não seguem a religião que possui os ensinamentos do Verbo encarnado; todavia, muitos estão sentados à direita do Senhor, porque, na eqüidade de seus corações, o adoraram e amaram; que respeitaram as crenças de seus irmãos e que gritaram para o Senhor, quando viram os povos se dilacerarem entre si, em lutas de religião, e que não estavam aptos para encontrar o verdadeiro sentido das palavras do Cristo, e que não eram senão os instrumentos cegos de seus padres ou de seus ministros.

Meus Deus, eu que vivi nesse tempo em que os corações eram agitados por tempestades para os irmãos de uma crença oposta, se tivesse sido mais tolerante, se não tivesse condenado, em meus escritos, sua maneira de interpretar o Evangelho, estariam hoje menos irritados contra seus irmãos católicos, e todos teriam dado um passo maior para a fraternidade universal; mas os Protestantes, os Judeus, todas as religiões um pouco marcantes, têm seus sábios e seus doutores, e quando o Espiritismo, mais difundido, for estudado de boa-fé por esses homens instruídos, eles virão, como o fizeram os Católicos, dar a luz aos seus irmãos e acalmar os seus escrúpulos religiosos. Deixai, pois, Deus prosseguir a obra da reforma moral que deve vos elevar para ele, todos no mesmo grau, e não vos rebeleis aos ensinamentos dos Espíritos que ele vos envia.

BOSSUET.

O Pauperismo.

(Envio do Sr. Sabô, de Bordeaux.)

É em vão que os filantropos de vossa Terra sonham coisas palavras são palavras de verdade. Não é, meu amigo, que no presente que conheceis o Espiritismo, achais justa e eqüitativa essa desigualdade das condições que vos causava náuseas, cheias de murmúrios contra esse Deus que não fizera todos os homens igualmente ricos e felizes? Pois bem! Agora que pensais que Deus faz bem tudo o que faz, e que sabeis que pobreza é um castigo ou uma prova, procurai aliviá-la, mas não vinde, por utopias, fazer o infeliz sonhar com uma igualdade impossível. Certamente que, por uma sábia organização social, podem aliviar-se muitos sofrimentos, e é a isso que é preciso visar; mas pretender fazê-los todos desaparecer da superfície da Terra é uma idéia quimérica. Sendo a Terra um lugar de expiação, haverá sempre pobres que expiam, nessa prova, o abuso que fizeram dos bens dos quais Deus os fizera dispensadores e que jamais conheceram a doçura de fazer bem aos seus irmãos; que entesouraram, peça por peça, para amontoar riquezas inúteis a si mesmos e aos outros; que se enriqueceram com despojos da viúva e do órfão. Oh! Aqueles são muito culpáveis, e seu egoísmo terá um terrível retorno!

Guardai-vos, no entanto, de ver, em todos os povos, culpados em punição; se a pobreza é para alguns uma expiação severa, para outros é uma prova que deve abrir-lhes, mais prontamente, o santuário dos eleitos. Sim, haverá sempre pobres e ricos, para que uns tenham o mérito da resignação, e os outros da caridade e do devotamento. Quer sejais ricos ou pobres, estais sobre um terreno escorregadio que pode vos precipitar no abismo, e sobre o declive do qual só as vossas virtudes podem vos reter.

Quando digo que haverá sempre pobres sobre a Terra, quero dizer enquanto houver vícios que dela farão um lugar de expiação para os Espíritos perversos, que Deus envia para se encarnar aí, para o seu próprio castigo e o dos vivos. Merecei por vossas virtudes, que Deus não vos envie senão bons Espíritos, e de um inferno fareis um paraíso terrestre.

ADOLPHE, bispo de Alger.

A Concórdia.

(Envio do Sr. Rodolphe, de Mulhouse.)

Sede unidos, meus amigos, é a união que faz a força. Proscrevei de vossas reuniões todo espírito de discórdia, todo espírito de ciúme. Não invejeis as comunicações que tal ou tal médium recebe, cada um as recebe segundo a disposição de seu Espírito e a perfeição de seus órgãos.

Não vos esqueçais jamais que sois irmãos, e essa fraternidade não é ilusória: é uma fraternidade real; porque aquele que foi vosso irmão, numa outra existência, pode se encontrar entre vós, pertencendo a uma outra família.

Sede, pois, unidos de espírito e de coração; tende a mesma comunhão de pensamentos. Sede dignos de vós mesmos, da doutrina que professais e dos ensinos que estais chamado a difundir.

Sede, pois, conciliadores em vossas opiniões; nelas nada tendes de absoluto; procurai vos esclarecer uns pelos outros. Sede à altura de vosso apostolado, e dai ao mundo o exemplo da boa harmonia.

Sede o exemplo vivo da fraternidade humana, e mostrai a que podem chegar os homens sinceramente devotados à propagação da moral.

Não tendo senão um único objetivo, não deveis ter senão um mesmo pensamento, o de pôr em prática o que ensinais. Que vossa divisa seja, pois: União e concórdia, Paz e fraternidade !

MARDOQUEU.

A aurora dos novos dias.

(Sociedade Espírita de Paris, Médium, Senhora Costel.)

Eis-me aqui, eu que não mais evocais, mas que estou desejosa de ser útil, ao meu turno, a uma sociedade cujo objetivo é tão sério quanto o é o vosso. Falar-vos-ei de política. Não vos assusteis: eu sei em quais limites devo me encerrar.

A situação atual da Europa oferece o aspecto mais surpreendente para o observador; em nenhuma época, disso não excetuo mesmo o fim do último século que operou uma tão grande abertura nos preconceitos e nos abusos que comprimiam o espírito humano; em nenhuma época, digo eu, o movimento intelectual se fez sentir mais temerário, mais franco. Digo franco, porque o espírito europeu caminha na verdade. A liberdade não é mais um fantasma sangrento, mas a bela e grande deusa da prosperidade pública. Na Alemanha mesmo, nessa Alemanha que descrevi com tanto amor, o sopro ardente da época abate as últimas fortalezas dos preconceitos. Sede felizes, vós que viveis em um tal momento; mas mais feliz ainda serão os vossos descendentes; porque a hora se aproxima, a hora anunciada pelo Precursor; vedes branquear o horizonte, mas, como outrora os Hebreus, permanecereis no limiar da Terra Prometida, e não vereis se levantar o sol radioso dos novos dias.

STAEL.

ALLAN KARDEC.