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Carta ao Sr. o Dr. Morhéry concernente à senhorita Godu

Revista Espírita, janeiro de 1862

Entreteve-se, nestes últimos tempos, com certos fenômenos estranhos operados pela Srta. Godu, e que consistiam notadamente na produção de diamantes e de grãos preciosos por meios não menos estranhos. Tendo o Sr. Morhéry nos escrito a esse respeito, uma longa carta descritiva, algumas pessoas se admiraram de que não falamos mais nisso. A razão disso é que não tomamos nenhum fato com entusiasmo, e examinamos friamente as coisas antes de aceitá-las, tendo a experiência nos ensinado o quanto se deve desconfiar de certas ilusões. Se tivéssemos publicado, sem exame, todas as maravilhas que foram relatadas, com mais ou menos boa fé, nossa Revista, talvez, tivesse sido mais divertida, mas nos prendemos a lhe conservar o caráter sério que ela sempre teve. Quanto à nova e prodigiosa faculdade que teria se revelado na Srta. Godu, francamente não cremos que a de médium curador era mais preciosa e mais útil à Humanidade, e mesmo para a propagação do Espiritismo. Todavia, não negamos nada, e aqueles que pensam que, sobre essa opinião, iríamos tomar imediatamente a estrada de ferro para disso nos assegurar, respondemos que, se a coisa é real, ela não pode deixar de ser oficialmente constatada; que então será sempre tempo para falar disso, e que não colocamos nenhum amor-próprio para proclamá-la a primeira. Eis, de resto, um extrato da resposta que fizemos ao Sr. Morhéry:

"... É verdade que não publiquei todos os relatórios que me enviastes sobre as curas operadas pela Srta. Godu, mas disso disse bastante para chamar a atenção sobre ela; falando constantemente, seria tomar o ar de me colocar a serviço de um interesse particular. A prudência mandava, aliás, que o futuro viesse confirmar o passado. Quanto aos fenômenos que relatastes em vossa última carta, são tão estranhos, que não arriscaria publicá-los senão quando deles tivesse a confirmação de maneira irrecusável. Quanto mais um fato é anormal, mais exige circunspecção. Não encontrareis, pois, surpreendente que disso use muito nesta circunstância; de resto, é também a opinião do Comitê da Sociedade, à qual submeti a vossa carta, e decidiu, pela unanimidade, que antes mesmo dela falar, convinha esperar a continuação. Até o presente, esse fato é de tal modo contrário às leis naturais, e mesmo a todas as leis conhecidas do Espiritismo, que provoca, mesmo entre os Espíritas, a incredulidade; falar disso por antecipação, e antes de poder apoiá-lo sobre provas autênticas, seria excitar sem proveito a verve dos maus gracejado rés."

Nota. - Remetemos ao nosso próximo número a publicação de várias evocações e dissertações espíritas de grande interesse.

ALLAN KARDEC.

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