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Conversas familiares de além-túmulo

Revista Espírita, março de 1862

Sr. Jobard.

Depois de sua morte, o Sr. Jobard se comunicou várias vezes na Sociedade, nas sessões às quais ele diz assistir quase sempre; antes de publicar-lhe a relação, preferimos esperar ter uma série de manifestações, formando um conjunto, que permita julgá-las melhor. Não tínhamos a intenção de evocá-lo na sessão de 8 de novembro, quando previu, nosso desejo comunicando-se espontaneamente. (Ver a notícia necrológica publicada na Revista Espírita do mês de dezembro de 1861.)

(Sociedade Espírita de Paris, 8 de novembro de 1861. - Médium, Senhora Costel.)

Ditado espontâneo.

Eis-me, eu que iríeis evocar e que quero me manifestar primeiro por este médium que verdadeiramente solicitei até aqui.

Quero de início vos contar minhas impressões no momento da separação de minha alma: senti um abalo inaudito, lembrei-me, de repente, de meu nascimento, de minha juventude, de minha idade madura; toda a minha vida se retratou nitidamente na minha lembrança. Não sentia senão um impiedoso desejo de me encontrar nas regiões reveladas pela nossa querida crença; depois, todo esse tumulto se abrandou. Estava livre e meu corpo jazia inerte. Ah! meus caros amigos, que embriaguez despojar-me do peso do corpo! Que embriaguez abraçar o espaço! Não creiais, todavia, que me tornei de repente um eleito do Senhor; não; estou entre os Espíritos que, estando um pouco retido, devem ainda muito aprender. Não tardei a me lembrar de vós, meus irmãos em exílio, asseguro-vos, toda a minha simpatia, todos os meus votos vos têm envolvido. Tive logo o poder de me comunicar, e o teria feito com este médium, que tem medo de ser enganado; mas que ele se tranqüilize, nós o amamos.

Quereis saber quais foram os Espíritos que me receberam? Quais foram as minhas impressões? Meus amigos foram todos aqueles que evocamos, todos os irmãos que partilharam nossos trabalhos. Vi o esplendor, mas não posso descrevê-lo. Apliquei-me em discernir o que era verdadeiro nas comunicações, pronto para retificar todas as afirmativas erradas; pronto, enfim, para ser o cavaleiro da verdade no outro mundo, como o fui no vosso. Conversaremos, pois, muito, e isto não é senão um preâmbulo para mostrar ao caro médium meu desejo de ser evocado por ele, e a vós minha boa vontade para responder às perguntas que ireis me dirigir.

JOBARD.

Entrevista.

1. Quando vivo, nos recomendastes para vos chamar quando tivésseis deixado a Terra; fazemo-lo, não só por nos conformar com o vosso desejo, mas sobretudo para vos renovar o testemunho de nossa bem viva e sincera simpatia, e também no interesse de nossa instrução, porque vós, melhor que ninguém, estais em condições de nos dar informações precisas sobre o mundo em que vos encontrais. Estaremos, pois, felizes se consentirdes em responder às nossas perguntas. - Resp. A esta hora, o que mais importa, é a vossa instrução. Quanto à vossa simpatia, eu a vejo, e não ouço mais somente a expressão pelos ouvidos, o que constitui um grande progresso.

2. Para fixar nossas idéias, e para não falar no vago, tanto quanto para a instrução das pessoas estranhas à Sociedade, e que estão presentes à sessão, vos perguntaremos primeiro em que lugar vos encontrais aqui, e como vos veríamos se pudéssemos vos ver? - R. Estou perto do médium; me veríeis sob a aparência de Jobard, que se sentava à vossa mesa, porque vossos olhos mortais não abertos não podem ver os Espíritos senão sob a aparência mortal.

3. Teríeis a possibilidade de vos tornar visível para nós, e se não o podeis, o que a isso se opõe? - R. A disposição que vos é toda pessoal. Um médium vidente me veria: os outros não me vêem.

4. Este lugar é aquele que ocupáveis quando vivo, quando assistíeis às nossas sessões, e que vos reservamos. Aqueles, pois, que nele vos viram, devem se figurar a vós ali tal como estáveis então. Se não estais com o vosso corpo material, ali estais com o vosso corpo fluídico, que tem a mesma forma; se não vos vemos com os olhos do corpo, vemo-vos com os do pensamento; se não podeis vos comunicar com a palavra, podeis fazê-lo pela escrita, com a ajuda de um intérprete; nossas relações convosco não estão, pois, de nenhum modo interrompidas pela vossa morte, e podemos nos entreter convosco tão facilmente e tão completamente quanto outrora. É bem assim que são as coisas? - R. Sim, e o sabeis há muito tempo. Este lugar, eu o ocuparei freqüentemente, e mesmo com o vosso desconhecimento, porque o meu Espírito habitará entre vós.

5. Não faz muito tempo que estáveis sentado neste mesmo lugar; as condições nas quais estais ali agora vos parecem estranhas: Que efeito essa mudança produziu em vós? - R. Essas condições não me parecem estranhas, porque não sofri perturbação, e meu Espírito desencarnado goza de uma clareza que não deixa na sombra nenhuma das questões que encara.

6. Lembrai-vos de ter estado nesse mesmo estado antes de vossa última existência e encontrais algo mudado? - R. Lembro-me de minhas existências anteriores, e acho que melhorei. Vejo, e assimilo o que vejo. Quando de minhas precedentes encarnações, Espírito perturbado, não me apercebia senão das lacunas terrenas.

7. Lembrai-vos de vossa penúltima existência, daquela que precedeu o Sr. Jobard? - R. Na minha penúltima existência, eu era um trabalhador mecânico, roído pela miséria e pelo desejo de aperfeiçoar o meu trabalho. Realizei, sendo Jobard, o sonho do pobre operário, e louvo a Deus, cuja bondade infinita fez germinar a planta da qual havia depositado o grão em meu cérebro.

(11 de novembro. Sessão particular. - Médium, senhora Costel.)

8. Evocação. Estou aqui, encantado por encontrar a oportunidade desejada de te falar (ao médium) e a vós também.

9. Parece-nos que tendes um fraco por este médium? - R. Não me censureis, porque foi preciso que eu me tornasse Espírito para o testemunhar.

10. Já vos comunicastes em outra parte? - R. Não tenho ainda senão pouco comunicado; em todos os lugares um Espírito tomou o meu nome; algumas vezes estava perto dele, sem poder fazê-lo diretamente; minha morte é tão recente que pertenço ainda a certas influências terrestres. É preciso uma perfeita simpatia para que eu possa exprimir meu pensamento. Em pouco, agiria indistintamente; eu não o posso ainda, repito-o. Quando um homem um pouco conhecido morre, ele é chamado de todos os lados; mil Espírito se apressam em revestir a sua individualidade; foi o que ocorreu comigo em várias circunstâncias. Eu vos asseguro que logo depois da libertação, poucos Espíritos podem se comunicar, mesmo por um médium preferido.

11. Depois de sexta-feira vossas idéias estão um pouco modificadas? - R. Estou absolutamente nas mesmas de sexta-feira. Estou ainda pouco ocupado com questões puramente intelectuais, no sentido em que a tomais; como o poderia, deslumbrado, arrastado como o sou pelo maravilhoso espetáculo que me cerca? Este laço do Espiritismo, mais poderoso que vós outros, homens, podeis conceber, só pode atrair o meu ser, para essa Terra que abandono, não mais com alegria, isso seria uma impiedade, mas com o profundo reconhecimento da libertação.

12. Vedes os Espíritos que estão aqui convosco? - R. Eu vejo sobretudo Lázaro e Erasto, depois, mais distante, o Espírito de Verdade, planando no espaço; depois, uma multidão de Espíritos amigos que vos cercam, apressados e benevolentes. Sede felizes, amigos, porque boas influências vos disputam às calamidades do erro.

13. Ainda uma pergunta, eu vos peço. Conheceis a causa da vossa morte? - R. Não me faleis ainda disso.

Nota. A senhora Gostei diz ter recebido uma comunicação em sua casa, pela qual se lhe anunciava que o Sr. Jobard tinha morrido porque queria ultrapassar o objetivo atualmente marcado pelo Espiritismo. Sua partida teria, assim, sido precipitada por esse motivo. O Sr. Jobard pessoalmente, não se explicara a esse respeito. Várias outras comunicações pareciam corroborar a opinião acima; mas o que ressalta de certos fatos é uma espécie de mistério sobre as verdadeiras causas de sua morte precipitada, que, diz-se, será explicada mais tarde.

(Sociedade, 22 de novembro de 1861.)

14. Quando vivo, partilháveis a opinião que foi emitida sobre a formação da Terra pela incrustação de quatro planetas que teriam sido soldados juntos. Estais sempre nessa mesma crença? - R. É um erro. As novas descobertas geológicas provam as convulsões da Terra e sua formação sucessiva. A Terra, como os outros planetas, teve a sua vida própria, e Deus não teve necessidade dessa grande desordem, ou dessa agregação de planetas. A água e o fogo são os únicos elementos orgânicos da Terra.

15. Pensáveis, também, que os homens poderiam entrar em catalepsia durante um tempo ilimitado, e que o gênero humano foi trazido desse modo para a Terra? - R. Ilusão de minha imaginação, que ultrapassava sempre o objetivo. A catalepsia pode ser longa, mas não indeterminada. Tradições, lendas exageradas pela imaginação oriental. Meus amigos, já sofri muito repassando as ilusões com as quais nutri o meu Espírito: nisso não vos enganeis. Muito aprendi, e, posso dize-lo, minha inteligência, pronta para se apropriar de seus vastos e diversos estudos, guardara, de minha última encarnação, o amor ao maravilhoso e ao composto haurido nas imaginações populares.

(Bordeaux, 24 de novembro de 1861. - Médium, senhora Cazamajoux.)

16. Evocação. - R. Está, pois, sempre a recomeçar? Pois bem! Que quereis! Eis-me.

17. Viemos estudar a vossa morte; gostaríeis, vós, um dos defensores da nossa Doutrina, de responder a algumas de nossas perguntas? - R. Seja, não sei muito com quem estou, mas os Espíritos me dizem que esse médium obteve algumas dissertações, inseridas na Revista e que me deram prazer; é preciso que eu o faça por minha vez. - Não estou por muito tempo ausente da Terra; em alguns anos aí reviverei para retomar o curso da missão que tinha a cumprir, porque ela foi detida pelo anjo da libertação.

18. Falais de uma missão que tínheis a cumprir sobre a Terra; quereis no-la dar a conhecer? - R. Missão de progresso intelectual e moral em estado de germe. A Doutrina, ou ciência espírita, contém os elementos fecundos que devem desenvolver, fazer crescer e amadurecer as idéias modernas de liberdade, de unidade e fraternidade; é por isso que não é preciso temer em lhe dar o impulso vigoroso que a fará transpor os obstáculos com uma força que nada poderá dominar.

19. Caminhando mais depressa que o tempo, não temos a temer em prejudicar a Doutrina? - R. Transtornaríeis seus adversários; vossa lentidão lhes deixa ganhar terreno. Eu não gosto do passo pesado e lento da tartaruga; eu lhe prefiro o vôo audacioso do rei dos ares.

Nota. - Isto é um erro; os partidários do Espiritismo ganham terreno cada dia, ao passo que seus adversários o perdem. O Sr. Jobard é sempre entusiasta; não compreende que com a prudência chega-se mais seguramente ao objetivo, ao passo que, lançando-se de cabeça abaixada contra o obstáculo, arrisca-se a comprometer a sua causa. A.K.

20. Como explicar, então, os desígnios de Deus em vos separando da Terra de maneira tão súbita, se havia em vós a instrução necessária para a marcha rápida da Humanidade para o progresso moral e intelectual? - R. Oh! uma parte dos Espíritas com minhas idéias, que alavanca! Mas não; o medo os paralisa!

21. Podeis nos informar dos desígnios de Deus vos chamando a ele antes do término de vossa missão? - R. Eu não estou descontente; vejo e aprendo para ser mais forte quando a hora do combate tiver soado. Redobrai de fervor e de zelo para a nobre e santa causa da Humanidade; uma única existência não pode bastar para ver se cumprir a crise que deve transformar a sociedade, e muitos dentre vós que preparais os caminhos, reviverão algum tempo depois para ajudar de novo à obra santa e bendita. Disso já vos disse bastante para esta noite, não é? Mas estou à vossa disposição; retornarei porque sois um bom e fervoroso adepto. Adeus, quero assistir esta noite à sessão de nosso caro mestre Allan Kardec.

22. Não respondestes à minha pergunta sobre os desígnios de Deus chamando-vos antes do término de vossa missão. - R. Somos os instrumentos próprios para ajudar seus desígnios; Ele nos suprime à sua vontade, e nos manda para a cena quando crê útil. Submetamo-nos, pois, aos seus decretos sem procurar aprofundá-los, porque ninguém tem o direito de rasgar o véu que esconde, aos Espíritos, seus decretos imutáveis. Até breve!

JOBARD.

(Passy, 20 de dezembro de 1861. - Médium, senhora Dozon.)

23. Evocação. - R. Não sei porque me evocais; não vos sou nada, e, desde então, não vos devo nada; também, não vos responderei, sem o Espírito de Verdade que me disse que foi Kardec que vos pediu para me fazer vir até vós. Pois bem! Eis-me; que devo vos dizer?

24. O Sr. Allan Kardec, com efeito, nos pediu para vos evocar com o objetivo de ter um controle das diversas comunicações de vós obtidas, comparando-as entre si; é um estudo, e esperamos que consentireis a ele se prestar, no interesse da ciência espírita, nos descrevendo a vossa situação e as vossas impressões desde que deixastes a Terra. - R. Eu não estava inteiramente na verdade durante minha vida terrestre; começo a sabê-lo; minhas idéias, se depurando da perturbação, chegam a um novo conhecimento, e, desde então, revejo os erros de minhas crenças. Isto é uma graça da bondade de Deus, mas é um pouco tardia. O Sr. Allan Kardec não tinha, por meu Espírito, uma total simpatia, e isso deveria ser: ele é positivo em sua fé; eu sonhava e procurava algo, freqüentemente, ao lado da realidade. Eu não sabia ao certo o que queria, senão uma vida melhor do que aquela que tinha; o Espiritismo ma mostrou, e o mais esclarecido dos Espíritas me levantou o véu da vida dos Espíritos. Isto foi A VERDADE que inspirou; O Livro dos Espíritos me fez uma verdadeira revolução na alma e um bem impossível de dizer; mas houve em meu espírito dúvidas sobre várias coisas que, hoje, mostram-se para mim sob uma outra luz. Eu vos disse no início desta comunicação: o Espírito, libertando-se da perturbação, mostrou-me o que eu não via. O Espírito se afasta; seu desligamento ainda não é total; entretanto, já se comunicou várias vezes; mas, coisa bizarra para vós talvez, é a mudança que se faz, aos olhos dos evocadores, nas comunicações do Espírito Jobard.

Este mesmo médium obteve, em seguida, a comunicação espontânea seguinte:

Jobard era um espírito pesquisador, querendo subir, sempre subir. As idéias espíritas lhe pareciam um quadro muito estreito. Jobard representava o Espírito de curiosidade; queria saber, sempre saber. Essa necessidade, essa sede, impeliu-o às pesquisas que ultrapassavam os limites daquilo que Deus quer que saibais; mas que não se tente arrancar o véu que cobre os mistérios de seu poder! Jobard pôs as mãos sobre a arca, e foi fulminado. Isto é um ensinamento: procurai o Sol, mas não tendes a audácia de fixá-lo, ou vos tomareis cegos. Deus não vos dá bastante enviando-vos os Espíritos? Deixai, pois, à morte o poder que Deus lhe outorgou: o de levantar o véu a quem é digno disso; então podereis olhar Deus, Sol dos céus, sem estar nem cegos nem fulminados pelo poder que vos diz: "Não vades mais longe." Eis o que devo vos dizer.

A VERDADE.

(Sociedade, 3 de janeiro de 1862. - Médium, senhora Costel.)

Nota.-O Sr. Jobard manifestou-se várias vezes na casa do Sr. e Sra. P..., membros da Sociedade. Uma vez, entre outras, mostrou-se espontaneamente, e sem que se pensasse nele, a uma sonâmbula que o descreveu de maneira muito exata e disse seu nome, embora nunca o tivesse conhecido. Tendo uma conversação se estabelecido entre ele e o Sr. P..., por intermédio da sonâmbula, lembrou diversas particularidades que não puderam deixar nenhuma dúvida sobre sua identidade. Uma coisa, sobretudo, os tocara, é que, a única vez que tiveram ocasião de vê-lo na Sociedade, tivera, durante quase toda a sessão, os olhos fixados sobre eles, como se procurasse neles pessoas de seu conhecimento; circunstância que havia esquecido, e que o Espírito do Sr. Jobard lembrou-lhe por intermédio da sonâmbula. O Sr. e a Sra. P...; que jamais tiveram relações com ele quando vivo, desejaram conhecer o motivo da simpatia que parecia haver entre eles. Foi a esse respeito que ditou a comunicação seguinte:

Incrédulo! tinhas necessidade dessa confirmação da sonâmbula para crer em minha identidade! Ingrato! tu me esqueceste por muito tempo sob o pretexto de que outros se esquecem soberanamente mais. Mas deixemos as censuras e conversemos: abordemos o assunto pelo qual me evocaste. Posso facilmente explicar porque minha atenção foi excitada pela visão desse casal que me era estranho, mas que uma espécie de instinto, de segunda vista, de presciência me fazia reconhecer. Depois de minha libertação, vi que nos conhecêramos precedentemente, e retornei até eles: é a palavra.

Comecei a viver espiritualmente, mais pacífico e menos perturbado pelas evocações através de assuntos que choviam sobre mim. A moda reina mesmo sobre os Espíritos; quando a moda Jobard der lugar a uma outra, e que entrarei no nada do esquecimento humano, pedirei, então, meus amigos sérios e entendo por isso aqueles cuja inteligência não esquece, e pedir-lhes-ei para me evocarem; então conversaremos de questões tratadas muito superficialmente e vosso Jobard, completamente transfigurado, poderá vos ser útil, o que ele deseja de todo o seu coração.

JOBARD.

(Ao médium, senhora Costel.) - Eu retorno; desejas saber porque manifestei uma preferência por ti. Quando eu era mecânico, tu eras poeta, e te conheci no hospital onde morreste, senhora!

JOBARD.

(Montreal (Canadá), 19 de dezembro de 1861.)

O Sr. Henri Lacroix nos escreveu de Montreal que dirigira três cartas ao Sr. Jobard, mas este não recebeu senão duas, a terceira tendo chegado muito tarde; não respondeu senão à primeira. O Sr. Lacroix, tendo sabido de sua morte pelos jornais, teve comunicações de vários Espíritos assinadas Voltaire, Volney, Franklin, e atestando que a notícia era falsa, e que o Sr. Jobard se achava muito bem. A Revista Espírita veio levantar suas dúvidas confirmando o acontecimento. Foi então que o Espírito do Sr. Jobard, tendo sido evocado, deu-lhe a comunicação adiante, da qual o Sr. Lacroix nos pede consentir em controlar a exatidão.

Meu caro mestre, estou morto, dizeis; eu não estou morto, uma vez que vos falo. Aqueles que tomaram a si vos dizer que eu não tinha morrido talvez quiseram vos pregar uma peça. Eu não os conheço ainda, mas os conhecerei e saberei o motivo que os fez assim agir. Escrevei ao Sr. Kardec e vos responderei. Não poderia, penso, vos responder pela mesa, mas em todos os casos, farei o melhor. As duas cartas que recebi de vós contribuíram fortemente para causar a minha morte; mais tarde sabereis como.

JOBARD.

O Sr. Jobard, evocado a esse respeito, a 10 de janeiro, na Sociedade de Paris, respondeu que se reconhecia o autor dessa comunicação; mas que o pretendido retrato traçado em continuação não era nem ele nem dele, o que acreditamos sem dificuldades, porque não lhe parece de nenhum modo.

Perg. Como as duas cartas que recebestes puderam contribuir para a vossa morte? - R. Eu não posso e não quero dizer aqui senão uma coisa, é que a leitura dessas duas cartas, depois de minha refeição, determinou a congestão que me levou, ou libertou, se preferis.

Nota. - Enquanto o médium escrevia essa resposta, e antes que ela fosse lida, um outro médium recebeu a resposta seguinte de seu guia particular:

"Explicação difícil, que não vos dará em detalhe; é uma dessas coisas que Jobard não pode dizer aqui."

Perg. - O Sr. Lacroix deseja saber por qual razão diversos Espíritos vieram espontaneamente desmentir a notícia de sua morte? - R. Se tivesse prestado mais atenção, teria facilmente reconhecido a fraude. Quantas vezes será preciso repetir que é necessário, quase absolutamente, desconfiar das comunicações espontâneas dadas a propósito de um fato, afirmando de propósito deliberado! Os Espíritos não enganam senão aqueles que se deixam enganar.

Nota. - Durante esta resposta, um outro médium escreveu o que segue:

"Espíritos que gostam de tagarelar sem se importar com a verdade. Ocorre com certos Espíritos como com homens: contam novidades, as afirmam-nas ou as desmentem com a mesma facilidade."

É evidente que os nomes que assinaram o desmentido dado à morte do Sr. Jobard são apócrifos. Bastaria, para reconhecê-lo, considerar que Espíritos como Franklin, Volney e Voltaire têm coisas mais sérias para se ocuparem, e que semelhantes detalhes são incompatíveis com o seu caráter; só isso deveria inspirar dúvidas sobre sua identidade, e, por conseguinte, sobre a verdade das comunicações. Não saberíamos mais repeti-lo: só um estudo prévio, completo e atento da ciência espírita pode dar os meios de frustrar as mistificações dos Espíritos enganadores dos quais são alvo todos os novatos faltando a experiência necessária.

Perg. Não respondestes senão à primeira carta do Sr. Lacroix; ele deseja uma resposta às duas últimas, e sobretudo a terceira que tinha, dizia, uma marca particular que não poderia ser compreendida senão por vós. - R. Ter-la-á mais tarde; para o momento não o posso. Seria inútil provocá-la, de outro modo poderia estar certo te que não seria eu que responderia.

(Sociedade Espírita de Paris, 21 de fevereiro de 1862. - Médium, senhorita Stéphanie.)

Quando da subscrição aberta pela Sociedade em proveito dos operários de Lyon, um membro deu 50 fr., dos quais 25 por sua própria conta, e 25 em nome do Sr. Jobard. Este último deu, a esse respeito, a comunicação seguinte:

'Vou responder, ainda uma vez, meu caro Kardec; estou lisonjeado e reconhecido por não ter sido esquecido pelos meus irmãos espíritas. Obrigado ao coração generoso que vos levou a oferenda que vos teria dado se ainda habitasse o vosso mundo. Naquele que habito agora, não se tem necessidade de dinheiro; não me teria sido preciso, pois, buscar na bolsa da amizade para dar provas materiais de que estava tocado pelo infortúnio de meus irmãos de Lyon. Corajosos trabalhadores que ardentemente cultivais a vinha do Senhor, quanto deveis crer que a caridade não é uma palavra vã, uma vez que pequenos e grandes vos mostraram simpatia e fraternidade. Estais no grande caminho humanitário do progresso; possa Deus aí vos manter, e possais ser mais felizes; os Espíritos amigos vos sustentarão e triunfareis!

JOBARD.

SUBSCRIÇÃO PARA O FIM DE LEVANTAR UM MONUMENTO À MEMÓRIA DO SR. JOBARD.

Tendo os jornais anunciado uma subscrição para levantar um monumento ao Sr. Jobard, o Sr. Allan Kardec disso deu parte à Sociedade, na sessão de 31 de janeiro último, acrescentando que se propunha a falar disso na Revista, mas que acreditou dever adiar o anúncio dessa subscrição, tendo em vista que teria poucas chances favoráveis sendo posta à consideração dos operários e que não deixaria de fazer a reflexão de que vale mais dar pão aos vivos do que pedras aos mortos.

O Sr. Jobard, interrogado sobre o que pensava disso, respondeu: "Certamente; mas refleti: quereis saber se amo as estátuas; dai, primeiro, o vosso dinheiro aos infelizes, e se, por acaso, nas costuras de vosso bolso ficaram algumas peças de 5 f r., fazei erigir uma estátua, isso fará um artista sempre vivo."

Em conseqüência, a Sociedade receberá os donativos que lhe forem feitos com essa intenção, e fará a entrega ao escritório do jornal a Propriedade Industrial, rua Bergére, 21, onde a subscrição está aberta.

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