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Ensinamentos e Dissertações espíritas

Revista Espírita, março de 1862

A Reencarnação

(Enviado de La Haye. - Médium, Sr. barão de Kock.)

A doutrina da reencarnação é uma verdade que não pode ser contestada; desde que o homem quer pensar somente no amor, na sabedoria e na justiça de Deus, não pode admitir nenhuma outra doutrina.

É verdade que não se encontra, nos livros sacros, senão estas palavras: "o homem, depois da morte, será recompensado segundo as suas obras;" mas não se dá bastante atenção a uma infinidade de citações, que todas vos dizem que é completamente inadmissível que o homem atual seja punido pelas faltas, pelos crimes daqueles que viveram antes do Cristo. Não posso retornar a tantos exemplos e demonstrações dadas por aqueles que têm fé na reencarnação, vós mesmo podeis isso suprir, os bons Espíritos vos ajudarão, e isso vos será um trabalho agradável. Podereis acrescentar isso aos ditados que vos dei e aos que vos darei ainda, se Deus o permitir. Estais convencidos do amor de Deus pelos homens; ele não deseja senão a felicidade de seus filhos; ora, o único meio para atingirem, um dia, essa felicidade suprema, está inteiramente nas reencarnações sucessivas.

Já vos disse que, o que Kardec escreveu sobre os anjos decaídos é a maior verdade. Os Espíritos que povoam o vosso globo, em sua maioria, sempre o habitaram. Se são os mesmos que para ele retornam desde tantos séculos, é que bem poucos mereceram a recompensa prometida por Deus.

O Cristo disse: "Esta raça será destruída, e logo esta promessa se cumprirá." Crendo-se em um Deus de amor e de justiça, como se pode admitir que os homens que vivem atualmente, e mesmo os que viveram há dezoito séculos, possam ser culpados da morte do Cristo sem admitir a reencarnação? Sim, o sentimento de amor por Deus, o das penas e das recompensas da vida futura, a idéia da reencarnação, são inatas no homem, há séculos; vede todas as histórias, vede os escritos dos sábios da antigüidade, e ficareis convencidos de que esta doutrina, em todos os tempos, foi admitida por todos os homens que compreenderam a justiça de Deus. Agora compreendeis o que é a nossa Terra, e como está chegado o momento em que as profecias do Cristo serão cumpridas.

Lamento-vos por encontrardes tão poucas pessoas que pensam como vós. Vossos compatriotas não sonham senão com grandezas e dinheiro, em se fazer um nome; rejeitam tudo o que pode entravar suas infelizes paixões; mas que isso não vos desencoraje; trabalhai por vossa felicidade, pelo bem daqueles que talvez retornarão aos seus erros; perseverai em vossa obra; pensai sempre em Deus, no Cristo, e a beatitude celeste será a vossa recompensa.

Querendo-se examinar a questão dos preconceitos, refletir sobre a existência do homem nas diferentes condições da sociedade, e coordenar essa existência com o amor, a sabedoria e a justiça de Deus, toda a dúvida, concernente ao dogma da reencarnação, logo deve desaparecer. Com efeito, como conciliar essa justiça, e esse amor, com uma única existência onde todos nascem em posições tão diferentes; onde um é rico e grande, ao passo que o outro está afligido pelos males de todas as espécies? Aqui se encontram o prazer e a alegria; mais longe a tristeza e a dor; em uns a inteligência está muito desenvolvida; em outros, ela se eleva apenas acima do animal. Pode-se crer que um Deus que é todo amor haja feito nascer criaturas condenadas, por toda sua vida, ao idiotismo e à demência, que haja permitido que crianças, na primavera da vida, fossem arrebatadas à ternura de seus pais? Ouso mesmo perguntar se poder-se-ia atribuir a Deus o amor, a sabedoria e a justiça, diante da visão desses povos mergulhados na ignorância e na barbárie, comparados às outras nações civilizadas, onde reinam as leis, a ordem, onde se cultivam as artes e as ciências? Não basta dizer: "Deus, em sua sabedoria, assim regulou todas as coisas"; não, a sabedoria de Deus que, antes de tudo, é amor, deve tornar-se clara para o entendimento humano: o dogma da reencarnação esclarece tudo; este dogma, dado pelo próprio Deus, não pode ser oposto aos princípios das santas Escrituras; longe disso, ele explica os princípios de onde emanam, para o homem, o adiantamento moral e a perfeição. Esse futuro, revelado pelo Cristo, está de acordo com os atributos infinitos que Deus deve possuir. O Cristo disse: 'Todos os homens não são somente os filhos de Deus, são também irmãos e irmãs da mesma família"; ora, é preciso bem compreender estas expressões.

Um bom pai terrestre dará a alguns de seus filhos o que recusa a outros? Lançará um no abismo da miséria, ao passo que encherá o outro de riquezas, de honra e de dignidades? Acrescentai ainda que o amor de Deus, sendo infinito, não poderia ser comparado ao do homem por seus filhos. As diferentes posições do homem, tendo uma causa, e essa causa tendo por princípio o amor, a sabedoria, a bondade e a justiça de Deus, não pode encontrar sua razão de ser senão na doutrina da reencarnação.

Deus criou todos os Espíritos iguais, simples, inocentes, sem vícios, e sem virtudes, mas com o livre arbítrio de regular suas ações segundo um instinto que se chama consciência, e que lhes dá o poder de distinguir o bem e o mal. Cada Espírito está destinado à mais alta perfeição junto a Deus e do Cristo; para ali chegar, deve adquirir todos os conhecimentos pelo estudo de todas as ciências, se iniciar em todas as verdades, se depurar pela prática de todas as virtudes; ora, como essas qualidades superiores não podem ser obtidas em uma única vida, todos devem percorrer várias existências para adquirir os diferentes graus de saber.

A vida humana é a escola da perfeição espiritual, e uma seqüência de provas; é por isso que o Espírito deve conhecer todas as condições da sociedade, e, em cada uma dessas condições, deve se aplicar em cumprir a vontade divina. O poder e a riqueza, assim como a pobreza e a humildade, são provas; dores, idiotismo, demência, etc., são punições pelo mal cometido numa vida anterior.

Pelo livre arbítrio, do mesmo modo que cada indivíduo está em estado de cumprir as provas às quais é submetido, do mesmo modo pode nelas falir; no primeiro caso, a recompensa não se faz esperar, e essa recompensa consiste em um progresso na perfeição espiritual; no segundo, recebe sua punição, quer dizer, que deve reparar, por uma vida nova, o tempo perdido durante sua vida precedente, da qual não soube tirar vantagem para si mesmo.

Antes de sua reencarnação, os Espíritos planam nas esferas celestes, os bons gozando-lhes a felicidade, os maus entregando-se ao arrependimento, atormentados pela dor de estarem desamparados por Deus; mas o Espírito, conservando a lembrança do passado, lembra-se de suas infrações aos mandamentos de Deus, e Deus lhe permite escolher, numa nova existência, suas provas e sua condição, o que explica por que se encontra, freqüentemente, nas classes inferiores da sociedade, sentimentos elevados e um entendimento desenvolvido, ao passo que nas classes superiores encontram-se, freqüentemente, tendências ignóbeis e Espíritos muito embrutecidos. Pode-se falar de injustiça quando o homem empregou mal sua vida, pode reparar suas faltas numa outra existência, e chegar ao seu objetivo? A injustiça não estaria numa condenação imediata e sem retorno possível? A Bíblia fala de punições eternas; mas isso não poderia realmente se entender para uma só vida, tão triste, tão curta; por esse instante, esse piscar de olho relativamente à eternidade. Deus quer dar a felicidade eterna em recompensa do bem, mas é preciso merecê-la, e uma única vida, de curta duração, não basta para alcançá-la.

Muitos perguntam porque Deus teria escondido, por tão longo tempo, aos homens um dogma cujo conhecimento é útil à sua felicidade? Teria, pois, amado menos os homens do que não o faz agora?

O amor de Deus é de toda eternidade; ele enviou aos homens, para esclarecê-los, sábios, profetas, o salvador Jesus Cristo; isso não é uma prova de seu amor infinito? Mas como os homens receberam esse amor? Tornaram-se melhores?

O Cristo disse: "Eu poderia vos dizer ainda muitas coisas, mas não poderíeis compreendê-las em vosso, estado de imperfeição", e tomando-se as santas Escrituras, no verdadeiro sentido intelectual, nelas se encontram citações que parecem indicar que o Espírito deve percorrer várias vidas antes de chegar ao seu objetivo? Não se encontram, igualmente, nas obras dos filósofos antigos, as mesmas idéias sobre a reencarnação dos Espíritos?

O mundo avançou muito, sob o aspecto material, nas ciências, nas instituições sociais; mas, sob o aspecto moral, está ainda muito atrasado; os homens desconhecem as leis de Deus, e não escutam mais a voz do Cristo; é porque Deus, em sua bondade, lhes dá como último recurso, para chegar a conhecer os princípios da felicidade eterna, a comunicação direta com os Espíritos e o ensinamento do dogma da reencarnação, palavras cheias de consolações e que brilham no meio das trevas dos dogmas de tantas religiões diferentes.

À obra! E que a procura se cumpra com amor e confiança; lede sem preconceitos; refleti sobre tudo o que Deus, desde a criação do mundo, se dignou fazer para o gênero humano, e sereis confirmados na fé que a reencarnação é uma verdade santa e divina.

Nota. - Não temos a honra de conhecer o Sr. barão de Kock; esta comunicação, que concorda com todos os princípios do Espiritismo, não é, pois, o fato de nenhuma influência pessoal.

O Realismo e o Idealismo em pintura

(Sociedade Espírita de Paris - Médium, Sr. A. Didier.)

I

A pintura é uma arte que tem por objetivo retratar as cenas terrestres mais belas e mais elevadas, e imitar, algumas vezes, muito simplesmente a Natureza pela magia da verdade. É uma arte que, por assim dizer, não tem limites, sobretudo em vossa época. A arte, de vossos dias, não deve ser somente a personalidade; deve ser, se posso assim me exprimir, a compreensão de tudo o que esteve na história, e as exigências da cor local, longe de entravar a personalidade e a originalidade do artista, estendem suas vistas, formam e depuram seu gosto, e lhes fazem criar obras interessantes para a arte e para aqueles que nela querem ver uma civilização tombada, idéias esquecidas. A pintura, dita histórica, de vossas escolas não está, em relação com as exigências do século; e ouso dize-lo, há mais de futuro para um artista, em suas pesquisas individuais sobre a arte e sobre a história, do que nesse caminho onde comecei, diz-se, a colocar o pé. Não há senão uma coisa que não possa salvar a arte em vossa época, é um novo impulso e uma nova escola que, aliando os dois princípios que se diz tão contrários: o realismo e o idealismo, compelem as pessoas jovens a compreender que se os mestres são assim chamados, é que viviam com a Natureza, e que sua poderosa imaginação inventava ali onde era preciso inventar, mas obedecia ali onde era preciso obedecer.

Para muitas pessoas ignorantes da ciência e da arte, as disposições, freqüentemente, trocam o saber e a observação; também se vêem, de todas as partes, em vossa época, homens de uma imaginação muito interessante, é verdade, de artistas mesmo, mas pintores, de nenhum modo; aqueles não serão contados na história senão como muito engenhosos desenhistas. A rapidez no trabalho, a pronta entrega do pensamento, adquirem-se pouco a pouco pelo estudo e pela prática, e embora possua essa imensa faculdade de tornar rápido, é preciso ainda lutar, e sempre lutar. No vosso século materialista, a arte, não digo em todos os pontos, muito alegremente, se materializa ao lado dos esforços, verdadeiramente surpreendentes, de homens célebres da pintura moderna. Por que essa tendência? É o que indicarei numa próxima comunicação.

II

Para bem compreender a pintura, como disse em minha última comunicação, seria preciso ir da prática à idéia, da idéia à prática. Passei a minha vida, quase inteira, em Roma; quando contemplava as obras dos mestres, esforçava-me por compreender, em meu Espírito, a ligação íntima, as relações e a harmonia do idealismo mais elevado e do realismo mais real. Raramente vi uma obra-prima que não reunisse esses dois grandes princípios; nela havia o ideal e o sentimento da expressão ao lado de uma verdade tão brutal que dizia em mim mesmo: está bem aí a obra do espírito humano; está bem aí a obra objetivada e pensada primeiro; estão bem aí a alma e o corpo: é a vida inteiramente. Via que os mestres, brandos em suas idéias, em sua compreensão, o estavam em suas formas, em suas cores, em seus efeitos; a expressão de suas cabeças era incerta e a de seus movimentos banal e sem grandeza. É preciso uma longa iniciação na Natureza para bem compreender seus segredos, seus caprichos e suas sublimidades. Não é pintor quem quer; além do trabalho da observação, que é imenso, é preciso lutar em seu cérebro e na prática contínua da arte; é preciso, num momento dado, trazer, à obra que se quer produzir, os instintos e o sentimento das coisas adquiridas e das coisas pensadas, em uma palavra, sempre esses dois grandes princípios: alma e corpo.

NICOLAS POUSSIN.

Os obreiros do Senhor

(Cherbourg, fevereiro de 1861. - Médium, Sr. Robin.)

Atingis o tempo do cumprimento das coisas anunciadas para a transformação da Humanidade; felizes serão aqueles que tiverem trabalhado no campo do Senhor com desinteresse e sem outro móvel que a caridade! Suas jornadas de trabalhos serão pagas ao cêntuplo do que tiverem esperado.' Felizes serão aqueles que tiverem dito aos seus irmãos: "Irmãos, trabalhemos juntos, e unamos nossos esforços a fim de que o mestre encontre a obra pronta em sua chegada, porque o mestre lhes dirá: 'Vinde a mim, vós que fostes bons servidores, vós que fizestes calar vossos ciúmes e vossas discórdias para não deixar a obra parada!" Mas infelizes daqueles que, pelas suas dissensões, tiverem retardado a hora da colheita, porque a tempestade virá e serão levados pelo turbilhão! Eles gritarão: "Graça! graça!" Mas o Senhor lhes dirá: "Porque pedis graça, vós que não tivestes piedade de vossos irmãos, e que recusastes estender-lhes a mão, vós que esmagastes o fraco em lugar de sustentá-lo? Por que pedis graça, vós que procurastes vossa recompensa nas alegrias da Terra e na satisfação de vosso orgulho? Vós já recebestes, vossa recompensa tal como a quisestes; não a peçais mais: as recompensas celestes são para aqueles que não terão pedido as recompensas da Terra."

Deus faz neste momento o recenseamento de seus servidores fiéis, e marcou com o seu dedo aqueles que não têm senão a aparência do devotamento, a fim de que não usurpem o salário dos servidores corajosos, porque será a estes, que não recuarão diante de sua tarefa, que vai confiar os postos mais difíceis na grande obra da regeneração pelo Espiritismo, e esta palavra se cumprirá: "Os primeiros serão os últimos, e os últimos serão os primeiros no reino dos céus!"

O ESPÍRITO DE VERDADE

Instrução moral

(Paris, grupo Faucherand. - Médium, Sr. Planche.)

Venho a vós, pobres transviados sobre uma terra escorregadia, cuja inclinação rápida não espera mais que alguns passos ainda para vos precipitar nos abismos. Como bom pai de família, venho vos estender mão caridosa para vos salvar do perigo. Meu maior desejo é vos conduzir sob o teto paterno e divino, a fim de vos fazer gozar, pelo amor de Deus e do trabalho, pela fé e caridade cristã, a paz, os prazeres e as doçuras do lar doméstico. Como vós, meus caros filhos, conheci as alegrias e os sofrimentos, sei tudo o que há de dúvidas em vossos espíritos, e de combate em vossos corações. É para vos premunir contra vossos defeitos, e vos mostrar os escolhos contra os quais poderíeis vos chocar, que serei justo, mas severo.

Do alto das esferas celestes que eu percorro, meu olhar mergulha com felicidade nas vossas reuniões, e é com um vivo interesse que sigo as vossas santas instruções. Mas, ao mesmo tempo em que a minha alma se alegra de um lado, de outro sente uma pena muito amarga, quando penetra os vossos corações e ali vê ainda tanto apego às coisas terrestres. Para a maioria, o santuário de nossas lições vos tem lugar de sala de espetáculo, e esperais sempre ver ali surgir, de nossa parte, alguns fatos maravilhosos. Não estamos encarregados de vos fazer milagres, mas temos a missão de lavrar os vossos corações, de abrir-lhes largos sulcos para neles lançar, a mãos cheias, a semente divina. Nós nos devotamos sem cessar a torná-la fecunda; porque sabemos que essas raízes devem atravessar a terra, de um pólo ao outro, e cobrir-lhe toda a superfície. Os frutos que delas sairão serão tão belos, tão suaves e tão grandes que subirão até os céus.

Felizes aqueles que souberem colhê-los para com eles se saciarem; porque os Espíritos bem-aventurados virão ao seu encontro, cingirão sua cabeça com a auréola dos eleitos, lhe farão escalar os degraus do trono majestoso do Eterno, e lhe dirão para tomarem parte na felicidade incomparável, nos gozos e nas delícias sem fim das falanges celestes.

Infeliz aquele a quem houver sido dado ver a luz e ouvir a palavra de Deus, que tiver fechado os olhos e tapado os ouvidos; porque o Espírito das trevas o envolverá em suas asas lúgubres e o transportará em seu negro império para lhe fazer expiar, durante séculos, pelos tormentos sem número, sua desobediência ao Senhor. É o momento de aplicara sentença de morte do profeta Oséias: Coedan eos secundum auditionem coetus eorum (eu os farei morrer segundo tiverem ouvido). Que estas poucas palavras não sejam fumaça desaparecendo nos ares; mas que elas cativem a vossa atenção para que as mediteis e as reflitais seriamente. Apressai-vos em aproveitar alguns instantes que vos restam para consagrá-los a Deus; um dia viremos vos pedir que conta fizestes de nossos ensinamentos, e como tereis posto em prática a doutrina sagrada do Espiritismo.

A vós, pois, Espíritas de Paris, que podeis muito pela vossa posição pessoal e pela vossa influência moral, a vós, digo, a glória e a honra de dar o exemplo sublime das virtudes cristãs. Não espereis que a infelicidade venha bater em vossa porta. Ide diante de vossos irmãos sofredores, dai ao pobre o óbolo da jornada, secai as lágrimas da viúva e do órfão, com doces e consoladoras palavras. Levantai a coragem abatida desse velho curvado sob o peso dos anos e sob o jugo dessas iniqüidades, fazendo luzir em sua alma as asas douradas da esperança numa vida futura e melhor. Prodigalizai, por toda a parte, sobre a vossa passagem, o amor e a consolação; elevando assim as vossas boas obras à altura de vossos pensamentos, merecereis dignamente o título glorioso e brilhante que vos concedem mentalmente os espíritas da província e do estrangeiro, cujos olhos estão fixados sobre vós, e que, tocados de admiração diante das ondas de luz que escapam de vossas assembléias, vos chamarão o Sol da França.

LACORDAIRE.

A Vinha do Senhor

(Sociedade Espírita de Paris. - Médium, Sr. E.Vézy.)

Enfim, todos virão trabalhar na vinha: já os vejo; chegam em quantidade; ei-los que acorrem. Vamos! à obra, filhos; eis que Deus quer que todos nela trabalheis.

Semeai, semeai, e um dia colhereis com abundância. Vede no oriente esse belo Sol; como ele se eleva radioso e brilhante! vem para nos aquecer e aumentar os cachos da vinha. Vamos, filhos! as vindimas estarão esplêndidas, e cada um de vós virá beber na taça o vinho sagrado da regeneração. É o vinho do Senhor, que será vertido no banquete da fraternidade universal! Lá, todas as nações estarão reunidas em uma só e mesma família e cantarão os louvores de um mesmo Deus. Armai-vos, pois, de relhas e facões, vós que quereis viver eternamente; amarrai os cepos, a fim de que não tombem e fiquem direitos, e suas copas subirão ao céu. Haverá os que terão cem côvados, e os Espíritos dos mundos etéreos, virão espremer-lhe os grãos e refrescá-los; o suco será de tal modo poderoso que dará a força e a coragem aos fracos; será o leite nutritivo do pequeno.

Eis a vindima que vai se fazer; ela já se fez; preparam-se os vasos que devem conter o licor sagrado. Aproximai vossos lábios, vós que quereis provar, porque esse licor vos embriagará de uma celeste embriaguez, e vereis Deus em vossos sonhos, esperando que a realidade suceda ao sonho.

Filhos! esta vinha esplêndida que deve vos elevar para Deus, é o Espiritismo. Adeptos fervorosos, é preciso erguê-la possante e forte, e vós, pequenos, é preciso que ajudeis os fortes a sustentá-la e a propagá-la! Cortai-lhe os brotos e plantai-os em um outro campo; eles produzirão novas vinhas e outros brotos em todos os países do mundo.

Sim, eu vo-lo digo: enfim todo o mundo beberá do suco da vinha, e vós o bebereis no reino do Cristo com o Pai celeste! Sede, pois, saudáveis e dispostos, e não vivais uma vida austera. Deus não vos pede viver de austeridade e de privações; não pede que cubrais o vosso corpo com um cilício: quer que vivais somente segundo a caridade e segundo o coração. Não quer modificações que destruam o corpo; quer que cada um se aqueça ao seu sol, e se fez raios mais frios, uns do que os outros, é para fazer todos compreenderem quanto é forte e poderoso. Não, não vos cubrais de cilício; não estragueis vossas carnes sob os golpes da disciplina; para trabalhar na vinha, é preciso ser robusto e poderoso; é preciso ao homem o vigor que Deus lhe deu. Ele não criou a Humanidade para fazer dela uma raça bastarda e enfraquecida; a fez como manifestação de sua glória e de seu poder.

Vós que quereis viver a verdadeira vida, estareis nos caminhos do Senhor quando houverdes dado o pão ao infeliz, o óbolo aos sofredores e a vossa prece a Deus. Então, quando a morte fechar as vossas pálpebras, o anjo do Senhor dirá com clareza os vossos benefícios, e vossa alma, levada sobre as asas brancas da caridade, subirá a Deus tão bela e tão pura quanto um belo lírio que desabrocha de manhã sob um sol primaveril.

Orai, amai e fazei a caridade, meus irmãos; a vinha é grande, o campo do Senhor é grande; vinde, vinde, Deus e o Cristo vos chamam, e eu vos abençôo.

SANTO AGOSTINHO.

A Caridade para com os criminosos

Problema moral.

"Um homem está em perigo de morte; para salvá-lo é preciso expor a sua própria vida; mas sabe-se que esse homem é um malfeitor, e que, se dele escapar, poderá cometer novos crimes. Apesar disso, deve-se expor para salvá-lo?"

A resposta seguinte foi obtida na Sociedade Espírita de Paris, a 7 de fevereiro de 1862, médium Sr. A. Didier:

Esta é uma questão muito grave e que pode se apresentar naturalmente ao espírito. Responderei segundo meu adiantamento moral, uma vez que a isso estamos sujeitos, que se deve expor a sua própria vida por um malfeitor. O devotamento é cego: socorre-se um inimigo, deve-se, pois, socorrer mesmo o inimigo da sociedade, um malfeitor, em uma palavra. Credes, pois, que é somente à morte que se deve arrancar esse infeliz? Talvez, é à sua vida passada inteira. Porque, pensai nisso, nesses rápidos instantes que lhe arrebatam os últimos minutos da vida, o homem perdido retorna sobre sua vida passada, ou antes, ele se levanta diante dela. A morte, talvez, chegue muito cedo para ele; a reencarnação será, talvez, terrível; atirai-vos, pois, homens! vós que a ciência espírita esclareceu, atirai-vos, arrancai-o de sua condenação, e então, talvez, esse homem que estaria morto vos blasfemando, se lançará em vossos braços. No entanto, não é preciso vos perguntar se o fará ou se não o fará, mas vos atirar, porque, salvando-o, obedeceis a esta voz do coração que vos diz: 'Tu podes salvá-lo, salva-o!"

LAMENNAIS.

Nota. - Por uma singular coincidência, recebemos, há alguns dias, a comunicação seguinte, obtida no grupo espírita do Hayre, e tratando quase do mesmo assunto.

Em continuação, escrevem-nos, de uma conversa a respeito do assassino Dumollard, o Espírito da Sra. Elisabeth de France, que já dera diversas comunicações, se apresentou espontaneamente e ditou o que se segue:

A verdadeira caridade é um dos mais sublimes ensinos que Deus deu ao mundo. Deve existir entre os verdadeiros discípulos de sua doutrina uma fraternidade completa. Deveis amar os infelizes, os criminosos, como criaturas de Deus às quais o perdão e a misericórdia serão concedidos se se arrependerem, como a vós mesmos, pelas faltas que cometerdes contra a sua lei. Pensai que sois mais repreensíveis, mais culpáveis do que aqueles aos quais recusais o perdão e a comiseração, porque, freqüentemente, eles não conhecem Deus como vós o conheceis, e lhes será menos pedido do que avós. Não julgueis nunca; oh! não julgueis nunca, meus caros amigos, porque o julgamento que fizerdes vos será aplicado mais severamente ainda, e tendes necessidade de indulgência para com os pecados que cometeis sem cessar. Não sabeis que há muitas ações que são crimes aos olhos do Deus de pureza, e que o mundo não considera mesmo como faltas leves? A verdadeira caridade não consiste somente na esmola que dais, nem mesmo nas palavras de consolação com as quais podeis acompanhá-la; não, não é isso somente o que Deus exige de vós. A caridade sublime, ensinada por Jesus, consiste também na benevolência concedida sempre, e em todas as coisas, ao vosso próximo. Podeis ainda exercer esta sublime virtude sobre muitos seres que não têm que se fazer senão esmolas, e que palavras de amor, de consolação, de encorajamento conduzirão ao Senhor. Os tempos estão próximos, eu vos digo ainda, em que a grande fraternidade reinará sobre o globo; a lei do Cristo é a que regerá os homens: só aquela será o freio e a esperança, e conduzirá as almas às moradas bem-aventuradas. Amai-vos, pois, como os filhos de um mesmo pai; não façais diferença entre os outros infelizes, porque é Deus que quer que todos sejam iguais; não desprezeis, pois, a ninguém; Deus permite que os grandes criminosos estejam entre vós, a fim de que vos sirvam de ensinamento. Logo, quando os homens forem conduzidos às verdadeiras leis de Deus, não haverá mais necessidade desses ensinamentos, e todos os Espíritos impuros e revoltados serão dispersados nos mundos inferiores, em harmonia com as suas tendências.

Deveis àqueles dos quais vos falo o socorro de vossas preces: é a verdadeira caridade. Não é preciso dizer de um criminoso: "É um miserável, é preciso purgá-lo da Terra; a morte que se lhe inflige é muito branda para um ser de sua espécie." Não, não é assim que deveis falar. Olhai o vosso modelo, Jesus; que diria se visse esse infeliz junto dele? Lamentá-lo-ia; considerá-lo-ia como um enfermo muito miserável; estender-lhe-ia a mão. Vós não podeis fazê-lo em realidade, mas ao menos podeis orar por esse infeliz, assistir o seu Espírito durante os poucos instantes que deve ainda passar sobre a vossa Terra. O arrependimento pode tocar seu coração se orardes com fé. É vosso próximo como o melhor dentre os homens; sua alma transviada e revoltada é criada, como a vossa, à imagem do Deus perfeito. Orai, pois, por ele; não o julgueis nunca, não o deveis nunca. Só Deus o julgará.

ELISABETH DE FRANÇA.

ALLAN KARDEC.

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