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Discurso do Sr. Allan Kardec pelo quinto aniversário

Sociedade Parisiense de Estudos espíritas

Revista Espírita, junho de 1862

Na renovação do ano social, a 1e de abril de 1862.

Senhores e caros colegas,

A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas começou seu quinto ano a 1fi de abril de 1862, e jamais, nisto é preciso convir, o fez sob melhores auspícios. Este fato não é somente importante do nosso ponto de vista pessoal, mas é sobretudo característico do ponto de vista da Doutrina em geral, porque prova, de maneira evidente, a intervenção de nossos guias espirituais. Seria supérfluo vos relatar a modesta origem da Sociedade, assim como as circunstâncias, de alguma forma providencial, de sua constituição; circunstâncias às quais um Espírito eminente, então no poder, e depois regressando ao no mundo dos Espíritos, nos disse, ele próprio, ter poderosamente contribuído.

A Sociedade, vós vos lembrais, senhores, teve suas vicissitudes; tinha em seu seio elementos de dissolução, provenientes da época em que recrutava muito facilmente, e sua existência foi mesmo um instante comprometida. Naquele momento, coloquei em dúvida sua utilidade real, não como simples reunião, mas como sociedade constituída. Fatigado com esses desacordos, estava resolvido a me retirar; esperava que, uma vez livre dos entraves semeados sobre o meu caminho, nela trabalharia tanto melhor na grande obra empreendida. Disso fui dissuadido por numerosas comunicações espontâneas, que me foram dadas de diferentes lados; de uma delas, entre outras, creio útil hoje vos dar a substância, porque os acontecimentos justificaram as previsões. Ela estava assim concebida:

"A Sociedade formada por nós com o teu concurso é necessária; queremos que ela subsista e subsistirá, apesar da má vontade de alguns, como o reconhecerás mais tarde. Quando um mal existe, não se cura sem crise; ocorre assim com o pequeno e o grande: no indivíduo como nas sociedades; nas sociedades como entre os povos; entre os povos como o será na Humanidade. Nossa Sociedade, dizemos, é necessária; quando cessar de o ser sob sua forma atual, se transformará como todas as coisas. Quanto a ti, não podes, não deves te retirar; nós não pretendemos, não obstante, acorrentar teu livre arbítrio; dizemos somente que tua retirada seria uma falta que lamentarias um dia, porque ela entravaria nossos desígnios..."

Desde então, dois anos se escoaram, e, como o vedes, a Sociedade felizmente saiu dessa crise passageira, das quais todas as peripécias me foram assinaladas, e das quais um dos resultados foi nos dar uma lição de experiência, que aproveitamos, e que provocou as medidas das quais não temos senão que nos aplaudir. A Sociedade, desembaraçada dos cuidados inerentes ao seu estado anterior, pôde prosseguir seus estudos sem entraves; seus progressos também foram rápidos, e cresceu a olhos vistos, não diria numericamente, embora seja mais numerosa do que jamais o foi, mas em importância. Oitenta e sete membros, participando das cotizações anuais, figuraram na lista do ano que acaba de se escoar, sem contar os membros honorários e os correspondentes. Ter-lhe-ia sido fácil dobrar, e mesmo triplicar esse número, se visasse às receitas; ora, longe de diminuir suas dificuldades, elas as aumentou, porque sendo uma Sociedade de estudos, não quis se afastar dos princípios de sua instituição, e que disso jamais faz uma questão de interesse material; não procurando entesourar, lhe era indiferente ser pouco mais ou pouco menos numerosa. Sua preponderância não se prende, pois, de nenhum modo, ao número de seus membros; está nas idéias que estuda, que elabora e que divulga; não faz propaganda ativa; não tem agentes nem emissários; não solicita a ninguém para vir a ela, e, isso que pode parecer extraordinário, é a essa reserva mesma que deve sua influência. Eis, a esse respeito, qual é. o seu raciocínio. Se as idéias espíritas fossem falsas, nada lhes poderia fazer tomar raiz, porque toda idéia falsa não tem senão uma existência passageira; se elas são verdadeiras, estabelecer-se-ão, quando mesmo pela convicção, e o pior meio de propagá-las seria impô-las, porque toda idéia imposta é suspeita e trai sua fraqueza. As idéias verdadeiras devem ser aceitas pela razão e o bom senso; ali onde elas não germinam é porque sua estação não chegou; é preciso esperar e se limitar a lançar a semente ao vento, porque, cedo ou tarde, encontrar-se-ão algumas sementes que caíram sobre uma terra menos árida.

O número dos membros da Sociedade é, pois, uma questão muito secundária; porque hoje, menos que nunca, não poderia ter a pretensão de absorver todos os adeptos; seu objetivo é, pelos seus estudos conscienciosos, feito sem preconceitos e sem partidarismo, de elucidar as diversas partes da ciência espírita, de procurar as causas dos fenômenos, e de recolher todas as observações de natureza a esclarecer a questão tão importante, e tão palpitante, do estado do mundo invisível, de sua ação sobre o mundo visível e das inumeráveis conseqüências que disso decorre para a Humanidade. Por essa posição, e pela multiplicidade de suas relações, ela se encontra nas condições mais favoráveis para observar bem e sempre. Seu o objetivo é, pois, essencialmente moral e filosófico; mas o que sobretudo deu crédito ao seus trabalhos, foi a calma, a seriedade que ela lhes coloca; é que tudo ali é discutido friamente, sem paixão, como devem fazê-lo as pessoas que procuram, de boa fé, se esclarecer; é porque se sabe que ela não se ocupa senão de coisas sérias; é, enfim, a impressão que os numerosos estrangeiros, freqüentemente, vindos de países longínquos para assistir a ela levaram da ordem e da dignidade de suas sessões.

Também a linha que ela segue traz seus frutos; os princípios que professa, baseados sobre observações conscienciosas, servem hoje de regra à imensa maioria dos Espíritas. Vistes sucessivamente cair, diante da experiência, a maioria dos sistemas desabrochados no início, e é com dificuldade se alguns conservam ainda raros partidários; isto é incontestável. Quais são, pois, as idéias que crescem, e quais são as que declinam? É uma questão de fato. A doutrina da reencarnação é o princípio que foi mais controvertido, e seus adversários nada pouparam para atacá-la vivamente, nem mesmo as injúrias e as grosserias, este argumento supremo daqueles esgotados de boas razões; por isso não caminhou menos porque se apoia por uma lógica inflexível; que sem essa alavanca choca-se contra dificuldades intransponíveis, e porque, enfim, nada se encontrou de mais racional para colocar no lugar.

No entanto, há um sistema, do qual se faz mais do que nunca, a exibição hoje, é o sistema diabólico. Na impossibilidade de negar os fatos de manifestações, um partido pretende provar que são a obra exclusiva do diabo. A obstinação que a isso se leva prova que não está bem seguro de ter razão, ao passo que os Espíritas não se comovem, absolutamente, com esse desdobramento de forças que deixam perder-se. Neste momento, se faz fogo sobre toda a linha: discursos, pequenas brochuras, grossos volumes, artigos de jornais, é um ataque geral, para demonstrar o quê? Que os fatos que, na nossa opinião, testemunham do poder e da bondade de Deus, testemunham, ao contrário, do poder do diabo; de onde resulta que só o diabo podendo se manifestar, é mais poderoso do que Deus. Atribuindo ao diabo tudo o que é bom nas comunicações, é retirar o bem a Deus para com ele homenagear o diabo. Cremos ser mais respeitosos do que isso para com a Divindade. De resto, como disse, os Espíritas em nada se inquietam com esse levante geral que terá por efeito destruir, um pouco mais cedo, o crédito de Satã.

A Sociedade de Paris, sem o emprego de meios materiais, e embora restrita numericamente por sua vontade, nem por isso deixou de fazer uma propaganda considerável pela força do exemplo, e a prova disso é o número incalculável de grupos espíritas que se formam sob os mesmos trâmites, quer dizer, segundo os princípios que ela professa; é o número das sociedades regulares que se organizam e pedem para se colocarem sob seu patrocínio; delas há em várias cidades da França e do exterior, na Argélia, na Itália, na Áustria, no México, etc.; e o que fizemos para isto? Fomos procurá-las, solicitá-las? Enviamos emissários, agentes? Absolutamente; nossos agentes são as obras. As idéias espíritas se difundem numa localidade; ali não encontram de início senão alguns ecos, depois, passo a passo, ganham terreno; os adeptos sentem a necessidade de se reunir, menos para fazerem experiências do que para conversar sobre um assunto que lhes interessa; daí os milhares de grupos particulares, que se podem chamar de grupos de família; entre eles alguns adquirem uma importância numérica maior; pede-nos conselhos, e eis como se forma, insensivelmente essa rede que tem já balizas sobre todos os pontos do globo.

Aqui, senhores, coloca-se naturalmente uma observação importante sobre a natureza das relações que existem entre a Sociedade de Paris e as reuniões, ou sociedades, que se fundam sob os seus auspícios, e que erradamente se consideraria como sucursais. A Sociedade de Paris não tem sobre elas outra autoridade senão a da experiência; mas, como disse em outra ocasião, ela não se imiscui em nada nos seus negócios; seu papel se limita a conselhos oficiosos, quando lhe são solicitados. O laço que as une é, pois, um laço puramente moral, fundado sobre a simpatia e a semelhança das idéias; não há, entre elas, nenhuma filiação, nenhuma solidariedade material; uma só palavra de ordem é a que deve unir todos os homens: caridade e amor ao próximo, palavra de ordem pacífica e que não poderia levar desconfiança.

A maior parte dos membros da Sociedade reside em Paris; entretanto, conta entre eles vários que habitam na província ou no estrangeiro, embora não assistindo a ela senão excepcionalmente, e há mesmo os que jamais vieram a Paris desde sua fundação, e tiveram a honra de dela fazer parte. Além dos membros, propriamente ditos, ela tem correspondentes, mas cujas relações, puramente científicas, não têm por objeto senão mantê-la ao corrente do movimento espírita nas diferentes localidades, e me fornecerem documentos para a história do estabelecimento do Espiritismo, do qual reúno os materiais. Entre os adeptos, há os que se distinguem pelo seu zelo, sua abnegação, seu devotamento à causa do Espiritismo; que paguem por si mesmos, não em palavras, mas em ações; a Sociedade está feliz em lhes dar um testemunho particular de simpatia, conferindo-lhes o título de membro honorário.

Depois de dois anos, a Sociedade cresceu, pois, em crédito e em importância; mas seus progressos, além disso, são marcados pela natureza das comunicações que recebe dos Espíritos. Há algum tempo, com efeito, essas comunicações adquiriram proporções e desenvolvimentos que ultrapassaram em muito nossa expectativa; não são mais, como outrora, curtos fragmentos de moral banal, mas dissertações onde as mais altas questões de filosofia são tratadas com uma amplitude e uma profundidade de pensamentos, que delas fazem verdadeiros discursos. É o que notou a maioria dos leitores da Revista.

Estou feliz em assinalar um outro progresso no que concerne aos médiuns; jamais, em nenhuma outra época, não foram vistos tantos tomar parte em nossos trabalhos, uma vez que nos chegou ter até quatorze comunicações numa mesma sessão. Mas o que é mais precioso do que a quantidade, é a qualidade, da qual se pode julgar pela importância das instruções que nos são dadas. Todo o mundo não aprecia a qualidade mediúnica do mesmo ponto de vista; há os que a medem pelo efeito; para eles, os médiuns velozes são os mais notáveis e os melhores; para nós, que procuramos, antes de tudo, a instrução, damos mais importância ao que satisfaz ao pensamento do que ao que não satisfaz senão aos olhos; preferimos, pois, um médium útil com o qual aprendemos alguma coisa, a um médium admirável com o qual não aprendemos nada. Sob esse aspecto, nada temos a lamentar, e devemos agradecer aos Espíritos por terem cumprido a promessa, que nos fizeram, de não nos deixarem de surpresa. Querendo alargar o círculo de seus ensinamentos, devem também multiplicar os instrumentos.

Mas há um ponto mais importante ainda, sem o qual este ensinamento não teria produzido senão pouco ou nenhum fruto. Sabemos que todos os Espíritos estão longe de ter a soberana ciência e que podem se enganar; que, freqüentemente, emitem suas próprias idéias, que podem ser justas ou falsas; que os Espíritos superiores querem que nosso julgamento se exerça em discernir o verdadeiro do falso, o que é racional do que é ilógico; é por isso que não aceitamos, jamais, nada de olhos fechados. Não se saberia, pois, nela ter ensinamento proveitoso sem discussão; mas como discutir comunicações com médiuns que não suportam a menor controvérsia, que se ferem com uma nota crítica, com uma simples observação, e que acham mal que não sejam aplaudidos em tudo o que obtêm, fosse mesmo maculado com as mais grosseiras heresias científicas? Essa pretensão estaria deslocada se o que escrevem fosse o produto de sua inteligência; é ridícula desde que não são senão instrumentos passivos, porque se assemelham a um ator que se melindraria se fossem achados maus os versos que está encarregado de recitar. Se o próprio Espírito não podendo se melindrar com uma crítica que não o atinge, é, pois, o Espírito que se comunica que se fere, e que transmite sua impressão ao médium; por isso mesmo esse Espírito trai sua influência, uma vez que quer impor suas idéias pela fé cega e não pelo raciocínio, ou, o que vem a ser o mesmo, uma vez que quer raciocinar tudo sozinho. Disso resulta que o médium, que está nessa disposição, está sob império de um Espírito que merece pouca confiança, desde que mostre mais orgulho do que saber; também sabemos que os Espíritos dessa categoria afastam, geralmente, seus médiuns dos centros onde não são aceitos sem reserva.

Essa má direção, nos médiuns que por ela são atingidos, é um obstáculo para o estudo. Se não procurarmos senão os efeitos, isso seria sem importância para nós; mas como procuramos a instrução, não podemos nos dispensar de discutir, com risco de desagradar aos médiuns; também alguns se retiraram outrora, como o sabeis, por esse motivo, embora não confessado, e porque não puderam se colocar diante da Sociedade como médiuns exclusivos, e como intérpretes infalíveis dos poderes celestes; aos seus olhos, são aqueles que não se inclinam diante de suas comunicações que estão obsidiados; alguns há mesmo que estendem a suscetibilidade ao ponto de se melindrar com a prioridade dada à leitura das comunicações obtidas por outros médiuns; o que é, pois, quando uma outra comunicação é preferida à sua? Compreende-se o constrangimento que semelhante situação impõe. Felizmente, para o interesse da ciência espírita, nem todos são a mesma coisa, e tomo com zelo esta ocasião de me dirigir, em nome da Sociedade, os agradecimentos àqueles que nos prestam hoje seu concurso com tanto zelo quanto devotamento, sem calcular seu trabalho nem seu tempo, e que, não tomando, de nenhum modo, fato e causa por suas comunicações, são os primeiros a ir diante da controvérsia da qual podem ser o objeto.

Em resumo, senhores, não podemos senão nos felicitar pelo estado da Sociedade no ponto de vista moral; e não há pessoa que não haja notado do espírito dominante uma diferença notável, comparativamente ao que era no princípio, do qual cada um sente instintivamente a impressão, e que se traduziu, em muitas circunstâncias, por fatos positivos. E incontestável que ali reina menos embaraço e menos constrangimento, ao passo que se faz sentir um sentimento de mútua benevolência. Parece que Espíritos trapalhões, vendo sua impossibilidade em semear a desconfiança, tomaram a sábia resolução de se retirar. Não podemos também senão aplaudir ao feliz pensamento, de vários membros, de organizar, entre eles, reuniões particulares; elas têm a vantagem de estabelecer relações mais íntimas; além disso, são centros para uma multidão de pessoas que não podem ir à Sociedade; onde se pode haurir uma primeira iniciação; onde se pode fazer uma multidão de observações que vêm, em seguida, convergir ao centro comum; são, enfim, estufas para a formação dos médiuns. Agradeço muito sinceramente as pessoas que me deram a honra de me oferecer para tomar sua direção, mas isso me é materialmente impossível; lamento mesmo muito não poder ali ir tão freqüentemente quanto o desejava. Conheceis minha opinião com respeito aos grupos particulares; faço, pois, votos pela sua multiplicação, na Sociedade ou fora da Sociedade, em Paris ou em outro lugar, porque são os agentes mais ativos de propaganda.

Sob o aspecto material, nosso tesoureiro nos prestou conta da situação da Sociedade. Nosso orçamento, como o sabeis, senhores, é muito simples, e contanto que haja equilíbrio entre o ativo e o passivo, é o essencial, uma vez que não procuramos capitalizar.

Pecamos, pois, aos bons Espíritos que nos assistem, e em particular ao nosso presidente espiritual São Luís, consentir em continuar com a benfazeja proteção que, tão visivelmente, nos concederam até hoje, e da qual nos esforçamos, cada vez mais, de nos tornar dignos.

Resta-me a vos entreter, senhores, com uma coisa importante, quero falar do emprego dos dez mil francos que me foram enviados, há mais ou menos dois anos, por uma pessoa assinante da Revista Espírita, que quis permanecer desconhecida, para serem empregados no interesse do Espiritismo. Esse donativo, como vos lembrais sem dúvida, me foi feito pessoalmente, sem destinação especial, sem recibo, e sem que devesse dele dar conta a quem quer que seja.

Dando parte dessa feliz circunstância à Sociedade, declarei, em sessão de 17 de fevereiro de 1860, que não pensava, de nenhum modo, em me prevalecer dessa marca de confiança, e que eu não desejava menos, para minha própria satisfação, que o emprego dos fundos fosse submetido a um controle; e acrescentei: "Esta soma formará o primeiro fundo de uma caixa especial, sob o nome de Caixa do Espiritismo, e que nada terá em comum com os meus negócios pessoais. Esta caixa será ulteriormente aumentada com as somas que poderão lhe chegar de outras fontes, e exclusivamente destinadas às necessidades da Doutrina e ao desenvolvimento das idéias espíritas. Um de meus primeiros cuidados será o de prover ao que falta materialmente à Sociedade para a regularidade de seus trabalhos, e a criação de uma biblioteca especial. Pedi a vários de nossos colegas consentir em aceitar o controle dessa caixa, e constatar, em épocas que serão ulteriormente determinadas, o útil emprego dos fundos."

Essa comissão, hoje dispersada em parte pelas circunstâncias, será completada quando houver necessidade, e, então, todos os documentos lhe serão fornecidos. À espera disso, e como, em virtude da liberdade absoluta que me foi dada, julguei a propósito aplicar essa soma no desenvolvimento da Sociedade, é a vós, senhores, que creio dever prestar conta de sua situação, tanto para minha quitação pessoal quanto para a vossa edificação. Desejo sobretudo que se compreenda bem a impossibilidade material de tirar, desses fundos, para as despesas cuja urgência, no entanto, se faz dia a dia mais sentir, em razão da extensão dos trabalhos que o Espiritismo reclama.

A Sociedade, vós o sabeis, senhores, sentia vivamente os inconvenientes de não ter um local especial para as suas sessões, e onde pudesse ter seus arquivos sob a mão. Para trabalhos como os nossos, é preciso, de alguma sorte, um lugar consagrado onde nada possa perturbar o recolhimento; todos deploravam a necessidade em que estávamos de nos reunir num estabelecimento público, pouco em harmonia com a gravidade de nossos estudos. Acreditei, pois, fazer uma coisa útil dando-lhe os meios de ter um local mais conveniente, com a ajuda dos fundos que recebera.

De um outro lado, os progressos do Espiritismo levando para minha casa um número, sem cessar crescente, de visitantes nacionais e estrangeiros, número que pode se avaliar mil e duzentos a mil e quinhentos por ano, era preferível recebê-los na própria sede da Sociedade, e, para esse efeito, nela concentrar todos os negócios e todos os documentos concernentes ao Espiritismo. No que me concerne, acrescentarei que, dando-me inteiramente à Doutrina, tornou-se, de alguma sorte, necessário, para evitar as perdas de tempo, que ali tivesse meu domicílio, ou pelo menos pequena casa de passagem. Para mim pessoalmente, de nenhum modo, disso teria necessidade, uma vez que tenho em minha casa um apartamento que não me custa nada, mais agradável em todos os sentidos, e onde habito tão freqüentemente quanto minhas ocupações mo permitem. Um segundo apartamento teria sido uma carga inútil e onerosa. Portanto, sem o Espiritismo, eu estaria tranqüilamente em minha casa, na avenida Ségur, e não aqui, obrigado a trabalhar de manhã até a noite e, freqüentemente, da noite até a manhã, sem mesmo poder ter um repouso que, algumas vezes, me seria muito necessário; porque sabeis que sou único para bastar a uma necessidade da qual dificilmente se imagina a extensão, e que aumenta necessariamente com a extensão da Doutrina.

Este apartamento reúne as vantagens desejáveis por suas disposições interiores e por sua situação central; sem ter nada de suntuoso, é muito conveniente; mas sendo os recursos da Sociedade insuficientes para pagar a integralidade do aluguel, devi perfazer a diferença com os fundos da doação; sem isso a Sociedade ficaria na necessidade de permanecer na situação precária, mesquinha e incômoda em que estava antes. Graças a esse suplemento, pôde dar, aos seus trabalhos, os desenvolvimentos que prontamente a colocaram, na opinião, de uma maneira vantajosa e proveitosa para a Doutrina. Portanto, o emprego passado e a destinação futura dos fundos da doação é o que creio dever vos comunicar. O aluguel do apartamento é de 2500 fr. por ano, e com os acessórios de 2530 fr. As contribuições são de 198 fr.; total, 2728 fr. A Sociedade disso paga, por sua parte, 1200 fr.; o resto, pois, a perfazer é de 1528 fr.

O contrato de aluguel foi feito por três, seis ou nove anos, que começou em 1o de abril de 1860. Calculando por seis anos somente, a 1528 fr., isso dá 9168 fr.; ao qual é preciso acrescentar, para pagar o mobiliário e despesas de instalação, 900 fr.; por dons e socorros a diversos, 800 fr.; total das despesas 10.148 fr. sem contar o imprevisto, para pagar com o capital de 10.000 fr.

Haverá, pois, no fim do contrato de aluguel, quer dizer, em quatro anos, um excedente de despesa. Vede, senhores, que não é preciso pensar em desviar a menor soma, se queremos chegar ao objetivo. Que se fará então? O que praze à Deus e aos bons Espíritos, que me disseram para não me inquietar com nada.

Farei notar que se a soma destinada à compra do material e às despesas de instalação não é senão de 900 fr., é porque nisso não compreendo senão o que foi rigorosamente gasto sobre o capital. Se fora preciso se proporcionar todo o mobiliário que está aqui, não falo senão das peças da recepção, teria sido preciso três ou quatro vezes mais, e então a Sociedade, em lugar dos seis anos de contrato de aluguel, dele não teria senão três. É, pois, meu mobiliário pessoal que serve na maior parte, e que, considerando o uso, recebeu um rude revés.

Em resumo, esta soma de 10.000 fr., que alguns crêem inesgotável, se acha quase inteiramente absorvida pelo aluguel, que, antes de tudo, importa assegurar por um certo tempo, sem que seja possível dela desviar uma parte para outros usos, notadamente para a compra de obras antigas e modernas, francesas e estrangeiras, necessárias à formação de uma grande biblioteca espírita, assim como tinha projetado; só esse objetivo não teria custado menos que 3.000 a 4.000 fr.

Disso resulta que todas as despesas fora do aluguel, tais como as viagens e uma multidão de despesas necessitadas pelo Espiritismo, e que não se elevam a menos de 2.000 fr., por ano, estão em meu encargo pessoal, e esta soma não é sem importância sobre um orçamento restrito que não se salda senão à força de ordem, de economia e mesmo de privações.

Não creiais, senhores, que quero com isto me fazer um mérito; agindo assim, sei que sirvo a uma causa perto da qual a vida material não é nada, e à qual estou todo pronto para sacrificar a minha; talvez um dia eu tenha imitadores; de resto, estou bem recompensado pela visão dos resultados que obtive. Se lamento uma coisa, é que a exigüidade de meus recursos não me permitem fazer mais; porque com os meios de execução suficientes, empregados a propósito, com ordem e para coisas verdadeiramente úteis, avançar-se-ia de meio século o estabelecimento definitivo da Doutrina.

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