Estudo Dinâmico do Evangelho

Segunda edição

Amílcar Del Chiaro Filho

Capítulo IV - O Batismo de Jesus - A Tentação no Deserto

João, o Batista (o que mergulha) apareceu na Judéia como um profeta popular anunciando a próxima vinda do Messias. De aparência rústica, vestindo desconfortáveis roupas de couro de camelo, vivia no deserto, alimentando-se frugalmente.

Ele profligava os vícios da sociedade judaica, chamando os homens ao arrependimento. Quando perguntavam se ele era o Messias, respondia que não, mas era a voz que clama no deserto, e veio para endireitar os caminhos do Senhor. Após mim, dizia ele, virá aquele de quem não sou digno de desatar as correias das sandálias.

Os judeus sabiam, pois estava escrito, que antes da vinda do Messias, viria o Profeta Elias, que não morreu, mas foi arrebatado ao céu num carro de fogo, segundo a crença dos judeus.

A importância de João, o Batista, avulta para o Espiritismo, porque Jesus afirmou que ele era Elias. Sendo Elias, só poderia ser reencarnado, porque o episódio do carro de fogo, foi simbólico, não temos nenhuma dúvida. Se ficar provada a reencarnação de um espírito, estará provada a reencarnação de todos.

Apenas como curiosidade, mas sem afirmar ou negar, lembramos que muitos espíritas do final do século XIX - e início do século XX - acreditavam que Allan Kardec era a reencarnação de João, o Batista e conseqüentemente, de Elias.

O Evangelista Lucas afirma que Jesus e João eram primos, mas quando eles se encontraram à margem do Jordão, no momento em que Jesus quis ser batizado, João não o reconheceu, e o que chamou a atenção do Batista, foi o halo de espiritualidade que emanava do moço galileu, ou segundo outros autores, as suas vestes de iniciado essênio. Carlos Torres Pastorino diz que João reconheceu sim, a Jesus, e por isso se recusou a batizá-lo, afirmando que ele é que deveria ser batizado pelo Messias. Jesus disse a ele que por ora deveria ser assim. Na verdade Jesus precisava ser apresentado publicamente à nação, pois ali estavam, além do povo, algumas autoridades, espiões do Templo, militares romanos e espiões de Poncio Pilato e Herodes.

Alguns estudiosos consideram que João era essênio, e que o Batismo era uma cópia das abluções rituais destes. Outros autores afirmam que João foi buscar a inspiração para o Batismo na seita pagã dos Baptas, cujos sacerdotes banhavam-se com água perfumada, antes de oficiar os rituais dedicado à deusa Cotito, a deusa da torpeza.

Segundo Edouard Schuré, no livro Os Grandes Iniciados, João não era iniciado essênio, mas profeta popular que pregava a vinda do Messias como vingador e justiceiro, e muitos dos seus seguidores estavam dispostos a pegar em armas contra os romanos.

O Batismo, ou Mergulho, tinha o significado de uma nova disposição de vida, o arrependimento dos erros cometidos, , preparo para uma nova sociedade que deveria ser instalada com o Messias. João batizava somente adultos.

Como já falamos, João era de personalidade forte e atacava com duras palavras os fariseus e os saduceus, chamando-os de hipócritas e raça de víboras. Para ser batizado era preciso que o candidato se arrependesse dos seus pecados e se dispusesse a mudar de vida.

Existe uma controvérsia se João foi ou não essênio. Jonh Drane, autor do livro, Jesus, e Schuré, acham que não. Carlos Torres Pastorino afirma que sim. Há, também, uma suposição não confirmada, que ele foi adotado, quando ainda criança pela comunidade do Quinram, comunidade essênia, localizada no mesmo deserto onde João viveu e pregou.

Durante o Batismo de Jesus, teria acontecido fenômenos mediúnicos, como a aparição de um espírito em forma de pomba, e a voz, que disse: Este é o meu filho amado, em quem coloco todo a minha complacência. Este episódio provoca algumas dúvidas: havia muitas pessoas junto à margem do Jordão onde João batizava, se aparecesse um espírito ou se ouvisse uma voz no espaço, haveria, certamente, uma comoção e até pânico. Acreditamos que se houve essas manifestações, foi no íntimo de João, no seu psiquismo.

Mesmo assim, pouco tempo depois, já no cárcere, João manda dois discípulos perguntar a Jesus se ele era o Messias ou se deveriam esperar outro. Comentaremos este passo no momento adequado.

As personalidades de João e Jesus eram bem diferentes. João era duro, implacável. Falava de castigos, punições, proibia, condenava largamente. Jesus era manso, pronto a perdoar. Não condenou Madalena, nem a mulher que lavou seus pés com as suas lágrimas. Convivia com ladrões, publicanos e com pecadores.

É importante ressaltar que João dizia: Eu vos batizo com água, porém, após mm virá aquele que vos batizará com o fogo e o espírito.

Retiramos a palavra santo, porque não existe no mundo, nenhum documento antigo sobre Jesus, que tenha a palavra "santo" adjetivando a palavra espírito. Foi Jerônimo, ou São Jerônimo, autor da Vulgata Latina, que acrescentou Santo depois de Espírito. Pinheiro Martins afirma que as escrituras diziam espírito bom.

Para os espíritas a morte de João, (reencarnação de Elias), por degolamento, foi o resgate do ato do antigo Profeta, ao ordenar a morte de 400 sacerdotes do deus Baal.

Carlos Torres Pastorino, tem uma interessante interpretação para este fato. Diz ele, que as crianças degoladas por ordem de Herodes, o Grande, foram os judeus que obedeceram a incitação de Elias para matar os sacerdotes. Argumenta que foram degolados ainda crianças porque tinham menos responsabilidades. João foi supliciado adulto, porque foi o incitador, o mentor da crueldade.

Os nomes Fariseu e Saduceu aparecerá muitas vezes neste nosso estudo, portanto, vamos defini-los agora: Fariseus = separados - Eram cerca de 6.000 ao tempo de Jesus. Obedeciam rigorosamente a lei. Evitavam os impuros e acreditavam na sobrevivência da alma e na ressurreição. Tornaram-se detalhistas e hipócritas. Saduceus = de Sadoc, sacerdote do tempo de David. Era mais um partido político do que religioso. Eles formaram, 200 anos a.C. , um Conselho que dirigia toda a nação judaica. Um século depois os Fariseus conseguiram se introduzir nesse Senado, que passou a chamar-se Sinédrio.

Os Fariseus eram adversários dos Saduceus, porque estes, para não perder seus cargos, submetiam-se servilmente aos dominadores estrangeiros. Os Saduceus não acreditavam na sobrevivência da alma, nem nos anjos, e admitiam somente a lei escritas, recusando a tradição oral.

Quando João foi questionado pelos sacerdotes, que enviaram mensageiros para perguntar se ele era o Cristo, ou um profeta, ou Elias, a resposta foi não. Isto faz o deleite dos adversários da reencarnação, porém, era natural que ele não soubesse ter sido Elias, pois, como todos, ele passou pelo processo do esquecimento. Contudo, Jesus muito superior a João, sabia claramente que ele foi Elias. Cabe neste passo, as palavras de Crishna a Ajurna, no Bagava-gita: Tanto eu como vós, temos tido vários nascimentos. Os meus, só de mim são conhecidos, porém vós, nem mesmo os vossos conheceis.

Lembremos da afirmativa de Jesus, QUE, DOS NASCIDOS DE MULHER, João é o maior, mas o menor no Reino dos Céus é maior que ele. Filho de Deus, Filho do homem, e filho de mulher são graus iniciáticos. João, como nascido de mulher, ainda tinha dívidas para com o planeta, e muito a aprender.

Outro fator que precisa ser levado em conta, é que João até poderia saber que fora Elias, mas respondeu de acordo com a pergunta: Tu é Elias? Não. Sou João. Ele foi Elias em outra reencarnação. Agora era João.

Após o Batismo Jesus retirou-se para o deserto, onde, segundo o Evangelho, permaneceu em jejum e orações durante 40 dias.

Carlos Torres Pastorino e Schuré nos dão uma interpretação esotérica, ou oculta, para essa passagem das tentações. Nenhum dos dois aceitam que o diabo, como ser real, tenha realmente tentado a Jesus. Pastorino coloca que foi a luta entre a individualidade e a personalidade, matéria contra o espírito. Diz Pastorino: após o mergulho na água (líquido anminiótico), o espírito é levado ao deserto (aos embates da Terra), para ficar em contato com as feras (homens ferozes, involuídos, pequenos, atrasados, egoístas). Talvez, até aí, Jesus não soubesse que era o Messias, ou como cumpriria a sua missão.

Contudo, é em Jonh Drane, no livro, Jesus, que encontramos belíssima explicação, aliás, parecida com a de Schuré, porém, menos metafórica, mais simples.

Jesus sabia que tinha três modos de cumprir a sua missão, sem envolver-se com o sofrimento, porém, sabia também, que aquelas não eram a vontade do Pai.

A primeira proposta, ou tentação, era fazer da Judéia uma nação rica, onde não existisse fome ou pobreza, onde não faltasse o pão para ninguém, e as necessidades de cada um seriam satisfeitas. Pedras se transformariam em pão, isto é, a produção de alimentos seria muito grande. Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra saída da boca de Deus. Disse uma voz dentro do seu coração.

A segunda tentação seria atirar-se do pináculo do Templo, no meio do povo, sem ferir-se. Isto seria uma prova de que era o escolhido. Os judeus tinham o hábito de pedir sinais. Havia uma velha profecia no Antigo Testamento, que o Messias apareceria de repente, e de forma dramática no Templo. Jesus rejeitou a idéia, porque dentro dele uma voz voltou a se fazer ouvir: Não tentarás o Senhor teu Deus.

O terceiro modo era o mais sedutor, por ser o que a maioria dos judeus queria. Eles esperavam um Messias político. Eles acreditavam que o governo da Terra seria entregue aos judeus. A tentação seria: adora-me e te entregarei todos os reinos, todas as nações do mundo. O adora-me, logicamente se refere adorar o poder, o mando. Mas a voz soou mais uma vez em seu coração: Somente Deus deve ser adorado.

É pena que a visão aguda de Jonh Drane, não evitou que ele visse um demônio real como tentador.

Mas vamos arrematar com uma colocação belíssima de Edouard Schuré, no livro, Os Grandes Iniciados:

- Por que sinal vencerei?

- Pelo sinal do Filho do Homem.

- Mostra-me esse sinal.

Então, uma constelação brilhante surgiu no horizonte. Ela tinha quatro estrelas em forma de cruz. O galileu reconheceu o sinal das antigas iniciações, familiar ao Egito e conservada pelos essênios.

Depois, um monte emergiu na planície. Era um monte despido de vegetação, nele havia três cruzes fincadas, e o moço galileu reconheceu-se crucificado na cruz do meio. Esta era a vontade do Pai, o sacrifício pessoal para deixar o exemplo.