Estudo Dinâmico do Evangelho

Segunda edição

Amílcar Del Chiaro Filho

Capítulo V - Os Primeiros Discípulos - O Festim das Bodas

Após a sua estada no deserto, para ser tentado, segundo os evangelistas, ou para eleger as suas prioridades e como desenvolveria a sua tarefa, segundo o nosso ponto de vista. João ao vê-lo passar junto ao Jordão, exclamou: - Vejam ali o cordeiro de Deus. O jovem João, e André, discípulos do Batista, sentiram-se irremediavelmente atraídos por Jesus, e seguiram-no, incentivado pelo Batista. Torres Pastorino criou este diálogo. Jesus volta-se e pergunta:

- Que desejais?

- Mestre, onde moras?

- Vinde e vereis.

Mestre = igual a Rabi, em hebraico-talmúdico, era o título oficial reservado aos doutores da lei, mas era dado por respeito, delicadeza, e por admiração a alguém mais sábio.

No dia seguinte foram chamar Simão, irmão de André, que Jesus chamou de Cefas = Pedro. Depois outros discípulos foram chegando, num total de 12. Entretanto, o número de seguidores era maior, 72, que Jesus mandou em duplas num dado momento, pregar nas cidades vizinhas.

No seu ministério, Jesus e os seus discípulos iam de aldeia em aldeia, de cidade em cidade. Sustentavam-se com as esmolas recebidas, pois o grupo não exercia atividades remuneradas. Ao que parece algumas mulheres ricas, como Joana de Cusa, Maria de Magdala patrocinavam a causa do moço galileu. Se aceitarmos que Jesus era um iniciado essênio de alta estirpe, certamente encontrava casas de essênios não celibatários, onde era acolhido fraternalmente. No entanto, preferimos ficar com a idéia de que Jesus não foi um alo-iniciado, (exterior) e sim um autoiniciado (interior).

Não vemos motivo de escândalo se o grupo fosse sustentado por mulheres ricas e eventuais esmolas de simpatizantes. Também não podemos esquecer que Pedro e João eram sócios de Zebedeu numa empresa de pesca e deveriam usufruir algum lucro, mesmo não trabalhando.

O primeiro ato público, ou milagre de Jesus vem narrada por João, no capítulo 2: 1 a 11 do seu Evangelho - As Bodas de Caná. Não vamos relatar como está no Evangelho porque basta lê-lo. Vamos narrar o fato baseado em Carlos Torres Pastorino, no Sabedoria do Evangelho. Jesus vai com sua mãe, irmãos e irmãs e os seus quatro primeiros discípulos: João, André, Pedro e Natanael, numa festa de casamento, de família amiga. As festas de casamentos, de conformidade com as condições econômicas da família, duravam de três a oito dias. Faltou vinho e Maria mandou os criados encherem 6 talhas de pedra com água e Jesus transformou a água em vinho.

Quando Maria foi dizer a Jesus que o vinho havia acabado, Jesus parece tratá-la com indiferença, dizendo: - O que nos importa isso a mim e a ti? A minha hora ainda não chegou.

Maria não insistiu; afastou-se. Pastorino afirma que as talhas ou tinas, ou tonéis, vasilhas próprias para as abluções rituais, ou para lavar as mãos, e pratos, suportando de duas a três "metretas" cada uma, o que significa, segundo o mesmo autor 75 a 120 litros cada uma.

Cheias as talhas de pedra, Jesus manda um dos criados levar uma amostra ao presidente do banquete, que fica muito admirado, pois o vinho era muito superior ao já consumido.

As Bodas, é um dos mais belos símbolos do Evangelho, e que aparece em algumas passagens e pode ser interpretada assim: o espírito reencarnado, ao vencer as suas inferioridades e tomar conhecimento da verdade, celebra as suas núpcias com a luz, passa a ser um cidadão do universo.

Torres Pastorino diz: No Jardim Fechado (Galiléia) realiza-se as bodas em Caná - Qanâh (Caniço) planta que nasce reta para o alto, como uma flecha que está para ser disparada verticalmente. É a flecha da oração que elevará as vibrações, partindo do jardim fechado ( interior do homem)

Pedra - exprime a interpretação literal das escrituras.

Água - significa a interpretação alegórica dessas mesmas escrituras.

( Moisés feriu a pedra com o seu cajado e dela saiu água. Êxodo 17: 6)

Vinho - é a sabedoria profunda, o sentido simbólico, místico e espiritual, que inebria os sedentos da verdade, e alegra o coração. Quando a Doutrina está adulterada, Isaías diz: O teu vinho está misturado com água. (Isaías 1:22).

A passagem das Bodas pode ser entendida como acontecimento real, e tida como milagre, ou no seu sentido esotérico (fechado): O povo hebreu bebia da água vertida da pedra (escrituras), dada por Moisés, ou bebiam das doutrinas inferiores, (vinho ordinário). Contudo, Jesus usando as mesmas escrituras (talhas de pedra cheias água), transformou-a em vinho excelente, ou seja, transformou ensinos alegóricos em ensinos puramente espirituais, cheios de sabedoria. Os convivas ficaram ébrios de felicidade.

Após as Bodas em, Caná (200 metros acima do mar), Jesus vai para Cafarnaum

( Cidade do Consolador) - 200 metros abaixo do mar Mediterrâneo) , com a família e os quatro primeiros discípulos. Pastorino cita os nomes dos quatro irmãos de Jesus: Tiago, José, Simão e Judas. O nome de suas irmãs não foram revelados. De Cafarnaum ele vai para Jerusalém, para a Páscoa dos judeus. (Páscoa = Passagem e é comemorada com pão ázimo, sem fermento) O ano é 29 d.C. - 782 da Fundação de Roma. Jerusalém (Visão da Paz), fica a 780 metros acima do nível do mar Mediterrâneo, daí a expressão: subir a Jerusalém.

" A. N. Wilson - no livro - JESUS - Uma Biografia" - interpreta assim: As talhas judaicas são a velha Israel e continha algo que era refrescante e nutriente, água, e purificante também, mas não capaz de embriagar. O próprio Jesus é o novo vinho, enchendo as talhas. Deus está fazendo uma nova Israel. O que fora meramente ritual vazio - lavar-se com água antes de comer, lavar as panelas especificadas na ocasião especificada e da maneira especificada - torna-se algo inteiramente novo: uma embriaguez com Deus vivo.

Os quatro evangelistas narram a expulsão dos mercadores do Templo. João coloca no início do seu Evangelho, no capítulo 2: 14 - que corresponde à primeira viagem à Jerusalém. Marcos coloca no capítulo 11: 15 - Lucas no capítulo 19: 45 e Mateus no 21: 12. Pastorino considera que João é quem está certo, colocando a passagem no início da vida pública de Jesus, e não na semana da sua prisão.

O Templo de Jerusalém tinha vários pátios, mas os vendedores ficavam no Adrio, único lugar onde podiam ficar os "gentios" (os não judeus). Alinhavam as bancas no pórtico, e ali vendiam bois, ovelhas, pombos, farinha, bolos, incenso, óleo, sal, vinho. Havia, também, os cambistas que trocavam o dinheiro grego - dracma - e o romano - denário - por siclos judeus, única moeda aceita no Templo. A troca era com ágio. Todos os vendedores e cambistas pagavam porcentagem aos sacerdotes. O Rabi Simeão Bem Gamaliel, queixa-se dos altos preços extorsivos cobrados pelos vendedores do Templo. Outro hábito a que Jesus se insurgiu, foi o de atravessarem o Templo para encurtar caminho, as vezes carregando mercadorias.

Os evangelistas narram que Jesus ficou indignado fez um chicote (azorrague), com cordéis e espantou os animais, derrubou as mesas dos cambistas, espalhando as suas moedas pelo chão. Indignado, dirigiu palavras candentes aos mercadores, e impediu que os transeuntes cortassem caminho por dentro do Templo, carregando objetos. Jesus citou Isaías 56: 7 - Minha casa será chamada casa de oração para todas as nações. E também a Jeremias 7:11 - quando esse profeta exorta os israelitas a melhorarem suas vidas, pois, se continuassem a roubar, matar e mentir, entrando no Templo com os seus crimes, " esta casa que é chamada de meu nome, se tornaria a vossos olhos um covil de salteadores. Muito mais tarde é que os discípulos se lembraram das palavras do salmo 69:9 "O zelo da tua casa me devorá". Ou (O zelo da tua casa me devorou)

Muitos espíritas não acreditam que Jesus tenha feito tal coisa. Tendo Jesus como modelo perfeito de bondade, não poderia jamais agredir ou prejudicar alguém. Aceitam, quanto muito, que as suas palavras tiveram o efeito de chicotadas. Não pensamos assim, pois a bondade não dispensa a energia. Além disso, os evangelistas não afirmaram que Jesus bateu em alguém com o chicote, mas que fez um chicote e espantou os animais. Nem sempre complacência é bondade. Jesus era um moço forte, másculo, e jamais teve medo do que quer que fosse.

Não façam do Templo casa de negócios, covil de ladrões. Infelizmente aqueles que se intitulam a Igreja do Cristo, não levaram a sério as suas palavras.

Torres Pastorino faz uma abordagem esotérica, que podemos resumir assim: nosso corpo é o nosso Templo, ou Templo do Espírito. Por ser um veículo inferior tem desejos e necessidades inferiores. Quer trocar o prazer espiritual, a elevação do espírito, por sensações animalizadas, e para isto ele vende as coisas santas do espírito (Simonia), compra prazeres, troca sensações, e acha tudo isso muito natural. O espírito é ainda fraco, conivente (como os sacerdotes judeus) permite o abafamento das potencialidades superiores, para melhor gozar as coisas inferiores. Eis que o espírito desperta e reage com um chicote (energia), expulsa os animais e os cambistas que trocam o Reino dos Céus pelos interesses ilusórios do mundo. O espírito precisa ser enérgico e vencer as tendências inferiores, e não se acomodar a elas. Pode acontecer e tem acontecido, que após a reação espiritual, depois de algum tempo o espírito se acomoda e deixa retornar todos os mercadores e cambistas, e volta a conviver com eles embora tenha, de quando em quando, algumas crises existenciais.