Estudo Dinâmico do Evangelho

Segunda edição

Amílcar Del Chiaro Filho

Capitulo VI - A Conversa Com Nicodemus

João 3: 1 a 15 narra com pormenores, o diálogo que Jesus teve com Nicodemus, membro do Sinédrio e Mestre em Israel. O texto da oportunidade a várias interpretações. Mais uma vez recorremos a Torres Pastorino, Huberto Rodhen e Edouard Schuré. Embora os três tenham uma visão profunda e completa da missão de Jesus, colocam-se em posições diferentes. Vamos incluir também a interpretação espírita.

Comecemos pelo Espiritismo. Nós, os espíritas, vemos nesta passagem a confirmação da reencarnação. Na verdade podemos interpretar restritivamente assim, mas, é apenas uma face do transcendental diálogo. Ficam, porém, algumas dúvidas. Se Nicodemus era Mestre em Israel, deveria conhecer a reencarnação, pois, o historiador Josefo, escreveu que os fariseus ensinavam que as almas são imortais, e que as justas, passam depois desta vida a outros corpos.

Concordamos que o ponto de vista espírita satisfaz inteiramente o raciocínio, porém, há muito mais a ser explorado, e por isso não vamos parar aqui, mas ir adiante. Contudo, queremos desde já, registrar a absurda tese das igrejas cristãs, que afirmam que Jesus se referia ao Batismo instituído por João. Allan Kardec, em O Evangelho Segundo O Espiritismo, afirma que os antigos acreditavam que a água era o elemento gerador absoluto. "Que as águas produzam animais viventes, que nadem na água, e pássaros que voem sobre a terra e debaixo do firmamento". Deste modo, não quer dizer água do batismo. Todo o capítulo 4º de o E.S.E. é voltado para a argumentação da necessidade da reencarnação.

Todos os comentários que lemos, inclusive Rohden e Schuré, concordam que a entrevista de Nicodemus com Jesus, se deu durante as horas avançadas da noite, Porque Nicodemus não queria que o encontro se tornasse público, temendo, possivelmente, o juízo do Sinédrio. Torres Pastorino refuta essa hipótese, mas, isto veremos mais à frente.

O encontro se dá entre dois personagens apenas: Nicodemus e Jesus. Não havia testemunhas. O Senador judeu teria sido covarde? Justamente ele, cujo nome grego, Nicodemus, significa o Vencedor do Povo? Como o jovem João poderia ter tomado conhecimento do fato? Simples! Segundo Torres Pastorino, a entrevista teria se dado no plano extrafísico, isto é, durante o sono, em desdobramento, por isso oculto dos demais homens, e testemunhado por João, também em desdobramento.

O jovem João, tinha grande amor e admiração pelo seu Mestre, por isso gravitava em torno dele, mesmo fora do corpo, e pôde testemunhar esse diálogo transcendental entre Jesus e Nicodemus.

Pastorino, na análise do diálogo coloca coisas muito interessantes. Por exemplo: O que é nascido da carne e o que é nascido do espírito, como dois acontecimentos diferentes. Na carne renascem os espíritos que estão sujeitos ao Carma, ou Lei de Causa e Efeito, individual, grupal, coletivo ou planetário. Precisam renascer da carne porque suas vibrações são densas. O que nasce do espírito se liberta, se eleva a planos superiores. Pastorino coloca um simbolismo interessante dizendo que Adão seria a alma vivente (que vive). Cristo, o espírito vivificante, (que dá a vida). Passou do estado humano ao espiritual. Deixou de ser nascido da carne para ser nascido do espírito.

Jesus cita no final do diálogo, a Moisés, que ergueu a serpente no deserto, e que ele também deveria ser suspenso. A serpente, segundo Pastorino, simboliza a inteligência, ou o intelecto. ( veja a tentação de Eva pela serpente). Quando a serpente é elevada verticalmente, significa, a mente espiritual. Jesus foi suspenso na cruz da matéria (horizontal sobre a vertical). Só depois de elevada na cruz, pode essa serpente conquistar o Reino dos Céus. Para viver o Reino de Deus, temos que nascer de novo como filhos de Deus.

Amílcar D.C. Filho, considera o simbolismo da cruz como um dos mais belos ensinamentos de Jesus. A cruz, composta de duas traves, tem na horizontal, os cuidados deste mundo, como, o que comer, o que vestir, onde morar, trabalho, escola, assistência médica, lazer, família e tudo o que compõem a vida material, que não é desprezível, nem condenável, quando conquistados honestamente. Estamos crucificados aos deveres. A trave vertical representa nossas aspirações superiores, a nossa busca do Reino de Deus. Sendo vertical ela aponta para o firmamento e nos leva para o infinito, como a flecha da oração (Caná= caniço). Entretanto, sua base está fixada no solo, pois, podemos ter a mente nas estrelas, mas o nosso lugar, neste momento, é aqui na Terra. Só seremos lançados para o espaço quando as coisas da matéria se tornarem naturais, e não mais mentirmos, roubarmos, matarmos, fraudarmos, odiarmos para possuí-las. Quando compreendermos que tudo pertence a Deus, e somos simples usufrutuários desses bens. Que, quando os recebemos em qualquer quantidade, somos apenas mordomos, desses bens, e devemos aprender a distribuí-los com sabedoria.

Huberto Rodhen, separa o que ele chama Fatos e Valores. Ele situa a reencarnação como fato, mas não como valores. Diz ele que o que nasce da carne é carne, é corpo físico, mas é produzido por terceiros. Para alguém nascer é preciso que um homem e uma mulher produzam um corpo. O Reino de Deus, o nascer espiritual, não pode ser produzido por terceiros. É algo que o ser produz dentro de si, pelo poder do seu livre arbítrio. Diz Rohdem, que a função do Mestre é indicar ao discípulo o caminho para o nascimento espiritual.

Torres Pastorino, na análise deste passo do Evangelho, estranha que os tradutores, traduziram a palavra "pneuma", quatro vezes por espírito, e uma vez por vento. Na verdade, diz ele, o espírito sopra onde quer (atua - age) e não se sabe de onde veio, (sua última reencarnação) nem para onde vai (próxima reencarnação).

Edouard Schuré, em Os Grandes Iniciados, considera que o diálogo de Jesus com Nicodemus se refere ao Batismo, mas esclarece que o Batismo da água representa a verdade percebida intelectualmente, abstratamente, de uma forma geral. A água purifica a alma e desenvolve o seu germe espiritual. A renascença pelo espírito, ou o Batismo pelo fogo (celeste), significa a assimilação dessa verdade, pela vontade, de tal modo que ela se torne o sangue e a vida, a alma de todas as ações. O Batismo pela água é o começo da renascença. O Batismo pelo espírito é a renascença total. São dois graus da iniciação.

Cairbar Schutel, no livro - Parábolas e Ensinos de Jesus, esclarece: Não é bastante nascer da água, não basta tomar um corpo de carne neste mundo e nascer aqui, não basta nos encarnarmos aqui nesta Terra, precisamos principalmente "nascer do espírito"; por isso o Mestre acrescenta no versículo 6: o que é nascido da carne é carne; o que é nascido do espírito é espírito. Quando visitou o Mestre, Nicodemus já havia nascido da água; mas não havia nascido do espírito.