Estudo Dinâmico do Evangelho

Segunda edição

Amílcar Del Chiaro Filho

Capítulo VIII - Visita à Nazaré e Outros Ensinamentos

João, no capítulo 4: 43 e Lucas no Cap. 4: 16 relatam que ao voltar a Galiléia, Jesus foi bem recebido, pois muitos galileus estiveram em Jerusalém e viram os acontecimentos já narrados. Lucas é quem dá mais detalhes, dizendo que Jesus chegou à Nazaré possivelmente numa sexta feira, e no sábado foi à Sinagoga, como sempre fazia, pois, afinal de contas ele era israelita e cumpria os preceitos da sua religião Fica evidente que ele nunca fundou uma nova igreja, mas manteve-se fiel ao judaísmo, na sua essência.

Na Sinagoga foi lhe dado o lugar de honra, por ser um visitante ilustre, pois seus feitos, curas e pregações e o antecederam. Pode ser, também, que ele apenas se valeu do direito de falar por ser judeu, como prefere alguns autores. O certo é que ele recebeu o "Rolo" sagrado das mãos do auxiliar e abriu em Isaías. (aquele era o texto do dia). Herculano Pires, assinando como Irmão Saulo, no pequeno magnífico livro, O Reino, descreve assim:

O jovem carpinteiro voltava de suas meditações no deserto. Chegava a Nazaré, sua cidade natal, onde ele e o pai mantinha a sua modesta oficina. Num sábado, como sempre fizera, vestiu-se com o mais puro linho que possuía, - na verdade uma pobre estamenha branca, mas que brilhava como linho puro - e dirigiu-se à Sinagoga. (Local de reunião)

A modesta Sinagoga de Nazaré regurgitava de judeus ansiosos pela salvação de Israel. O jovem carpinteiro passou tranqüilo pela multidão e sentou-se no lugar habitual. Quando lhe permitiram falar, levantou-se, tomou nas mãos o rolo do Torá e o abriu em Isaías. Com voz serena leu esse pequeno trecho:

O espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres. Enviou-me para proclamar a libertação dos cativos e a restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos e apregoar o ano aceitável ao Senhor.

Jesus devolveu o Rolo ao assistente e sentou-se, ficando em silêncio por alguns instantes. A assembléia estava em suspenso. Alguns corações envelhecidos, ansiosos, indagavam a si mesmos; seria ele o Messias. O silêncio era tão grande que podia-se ouvir o cincerro das cabras pastando ao longe. Muitos ouviam o tup, tup do próprio coração ou do coração do vizinho. A estamenha de Jesus brilha como o mais puro linho. Jesus levanta-se e calmamente diz: Hoje cumpriu-se esta profecia aos vossos ouvidos. Houve muitos murmúrios na Assembléia, e as opiniões se dividiam. Os ânimos se alteraram e Jesus citou dois provérbios: Médico, cura-te a ti mesmo - O profeta nunca é aceito em sua Terra. Houve um grande tumulto e quiseram matá-lo. Agarraram-no para levá-lo ao alto da montanha e atirá-lo no precipício. Mas Jesus saiu do meio deles com naturalidade e dirigiu-se à sua casa para despedir-se de sua mãe, e iniciar a mais extraordinária jornada que um homem possa realizar.

Jesus repetiu o que escreveu Isaías séculos antes como profeta (médium). O textos não tratava de cegos materiais e oprimidos ou cativos pelo corpo, mas sim, da libertação espiritual. Os pobres são aqueles que tem fome e sede da verdade, das coisas espirituais.

O Rabi, Mestre pelo conceito popular, pois não cursou escola para ser Rabi, começou a escolher os seus discípulos. Ele já havia acolhido Pedro, André e João, que acompanharam o Batista por algum tempo. Às margens do Lago de Genesaré, ele chamou Simão, a quem o próprio Mestre chamou de Cephas (Pedro) no primeiro encontro, e André, irmão de Simão, que deixara o Batista para segui-lo. Dizendo-lhes: vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens. Mais à frente encontrou João e Tiago, seu irmão, que consertavam as redes juntamente com o pai, Zebedeu. Chamou-os também. Ambos deixaram o pai com os empregados e seguiram Jesus.

Torres Pastorino afirma que Pedro, André, Zebedeu, Tiago e João eram sócios de uma Empresa de Pesca, muito próspera. Diz, ainda, que Zebedeu não foi chamado porque a sua evolução não era suficiente. Teoriza sobre a possibilidade de Salomé, mãe de Tiago e João, ser uma das irmãs de Jesus, portanto, os dois discípulos eram seus sobrinhos, daí a maior intimidade deles com o Mestre, e estarem sempre presentes nos principais acontecimentos. Dali, entraram em Cafarnaum, a cidade do Consolador. Nesta altura, Pastorino faz uma interpretação esotérica (fechada), muito bonita, que passamos aos possíveis leitores.

"O grupo de cinco partiu das margens do lago e penetrou a cidade do Consolador (Cafarnaum), prontos todos a iniciar a tarefa de levar conforto aos que sofriam, de enxugar as lágrimas dos que choravam, de reavivar a luz dos que estavam nas trevas, de abrir os ouvidos dos que nada percebiam espiritualmente, de servir de muletas aos que coxeavam no caminho do progresso, de limpar os densos fluidos dos leprosos morais: ministério de Consolação e magistério do espírito, calor para os corações e luz para as mentes".

Não vamos falar muito sobre curas, porque sabemos que elas se dão pela movimentação dos fluidos, e que Jesus tinha uma força magnética extraordinária. Pelo seu conhecimento, curava aqueles que já haviam quitado os seus débitos para com a lei de causa e efeito, ou esgotado as suas provações.

De Nazaré, Jesus ruma para Cafarnaum, mas antes passa novamente pela pequena cidade de Caná, onde se daria um fato brilhante. Um oficial do Tetrarca Herodes, (possivelmente Cusa), procura Jesus para pedir que cure o seu filho. O oficial, sabendo que Jesus estava em Caná, subiu 33 quilômetros de estrada íngreme. O pai pede em desespero pela vida do filho. (vem logo, Mestre, antes que meu filho morra!).

Jesus afirmou ao oficial, Seu filho está salvo. O oficial acreditou e iniciou a descida. Já havia percorrido mais da metade do caminho quando seus criados vieram ao seu encontro e disseram que o menino estava curado.

Pastorino joga com a possibilidade do oficial ser Cusa, o que justificaria a sua adesão e de toda a sua casa, inclusive os criados aos ensinamentos de Jesus, e Joana, esposa de Cusa, seguir Jesus para onde ele fosse, e cuidar do trabalho próprio das mulheres e contribuir financeiramente com o grupo.

Pastorino levanta um hipótese mais ousada, que Joana fosse uma das irmãs de Jesus, o que explicaria a intimidade do oficial com o Mestre, e lhe facultaria saber dos passos de Jesus, onde se encontrava, para onde ia.

Saindo de Nazaré Jesus fixou residência em Cafarnaum, e desta forma mais uma profecia de Isaías foi realizada: Terra de Zabulon e Terra Neftali, caminho do mar além do Jordão, Galiléia dos Gentios. O povo que jazia nas trevas, viu uma grande luz, e os que estavam sentados na regiões sombrias da morte, para estes raiou a luz.

Carlos Torres Pastorino revela que o significado da palavra Cafarnaum, é cidade do Consolador.

Jesus fixou residência em Cafarnaum, e na casa de Pedro, encontrou a sua sogra com febre e curou-a. A beleza desta cura está em que a mulher, sentindo-se curada, levantou-se e pôs-se a servi-los. Poucos fazem isto. A maioria, ao ser curado, continua sua vida de mazelas. Ao sermos beneficiados pelo amor divino, devemos nos colocar ao serviço da vida, da dignidade de viver.

Ao curar um leproso, Jesus mandou-o apresentar-se ao sacerdote, porque era este que fazia o diagnóstico da doença e excluía o leproso (impuro) da sociedade judaica, por isso, era ele que tinha a competência para reinclui-lo.

Na cura do paralítico que foi introduzido na casa pelo telhado, fica a lição belíssima da persistência, da força de vontade. Mesmo arriscando-se a uma queda de conseqüências muito séria, o homem pediu a colaboração dos companheiros para levá-lo ao teto da casa e descê-lo por meio de cordas. Jesus lhe disse: Levanta-te, toma o teu leito e vai para a sua casa. (acontece que era sábado, e era proibido curar, e, pasmem, era proibido a um homem carregar o seu leito num sábado. Jesus contrariou essas pequenas regras, para destacar a maior de todas, Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo.

Torres Pastorino avança mais no sentido esotérico, explicando que o pecador só é perdoado ao esgotar as suas responsabilidades ante a Lei de Causa e Efeito (Karma). Os sacerdotes e doutores sabiam disto, mas achavam que só Deus poderia perdoar, por isso ficaram extático, fora de si, quando Jesus perdoou o paralítico. Os guias do paralítico subiram por uma escada lateral, externa (fora das religiões oficiais e dogmáticas) e no teto, afastaram as telhas e desceram o paralítico por meio de cordas. Jesus mandou que ele se levantasse. Ele se levantou. Alguém pode ter pensado que fosse efeito da sugestão, por isso Jesus ordenou. Toma o teu lei e vai para a sua casa. Torres Pastorino explica: esgotadas as dívidas, o espírito estava ainda indeciso, Jesus ordenou que se levantasse, tomasse a sua cama (seu corpo) e fosse para a sua casa (para o seu ambiente espiritual)