Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
ALLAN KARDEC -
Um homem destinado a uma missão
O professor Hippolyte Léon Denizard Rivail — Allan Kardec —
interessou-se pelos fenómenos espíritas no ano de 1855, quando o sr. Carlotti,
seu amigo há 25 anos, lhe falou, pela primeira vez, da intervenção dos
espíritos, e conseguiu aumentar as suas dúvidas sobre tais fenómenos.
Inicialmente,
o professor Rivail esteve a ponto de abandonar as investigações, porquanto não
era positivamente um entusiasta das manifestações espíritas... quase deixou de
frequentar as sessões, não o fazendo em atenção aos pedidos do sr. Carlotti, e
de um grupo de intelectuais que, confiando na sua inteligência, competência e
honestidade, delegaram-lhe a ingente tarefa de compilar, separar, comparar,
condensar e coordenar as comunicações que os espíritos lhes ditaram. Assinala
Kardec que foram as meninas Baudin (Julie e Caroline – 14 e 16 anos de idade) as
médiuns que mais concorreram para esse trabalho, sendo quase todo o livro
escrito por intermédio delas e na presença de selecta e numerosa assistência.
Foi, então, a casa da sonâmbula srª. Roger, em companhia do sr. Fortier, seu
hipnotizador, e ali encontrou o sr. Pâtier e a srª. Plainemaison, que lhe
falaram dos mesmos fenómenos referidos por Carlotti, mas em tom mais ponderado.
O sr. Pâtier, funcionário público de meia-idade, muito instruído, de carácter
sério, frio e calmo; de falar ajuizado, isento de qualquer arroubo, causou-lhe
excelente impressão e, quando o convidou a assistir às experiências que se
realizavam em casa da srª. Plainemaison, na Rua Grange-Batelière, n.º 18, em
Paris, aceitou com sofreguidão. O encontro fora marcado para uma terça-feira de
Maio de 1855, às oito horas da noite.
Já anteriormente, em 1854, o prof. Rivail ouviu “falar, pela primeira vez,
das mesas girantes, pela boca do sr. Fortier, magnetizador, com o qual entrara
em relações para os seus estudos sobre magnetismo”. O sr. Fortier um dia
falou-lhe: “Eis uma coisa mais do que extraordinária — não somente magnetizam
uma mesa, fazendo-a girar, mas também a fazem falar; perguntam coisas e a mesa
responde”.
Allan Kardec replica: “Isto é outra questão: acreditarei quando puder ver com
os meus próprios olhos e quando me provarem que a mesa tem um cérebro para
pensar, nervos para sentir e que pode tornar-se sonâmbula: por enquanto, seja-me
permitido dizer que tudo isso me parece um conto para fazer dormir em pé”.
Em “Obras Póstumas”, Kardec comenta:
“Era lógico este raciocínio: eu concebia o movimento por efeito de uma força
mecânica, mas, ignorando a causa e a lei do fenómeno, afigurava-se-me absurdo
atribuir-se inteligência a uma coisa puramente material. Achava-me na posição
dos incrédulos actuais, que negam porque apenas vêem um facto que não
compreendem”.
Foi na casa da sr.ª Plainemaison, naquela terça-feira de Maio de 1855 já
citada, que Hippolyte Léon Denizard Rivail assistiu pela primeira vez aos
fenómenos das mesas que “giravam, saltavam e corriam, em condições tais que não
deixavam lugar para qualquer dúvida. (... Eu entrevia, naquelas aparentes
futilidades, no passatempo que faziam daqueles fenómenos, qualquer coisa de
sério, como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim estudar a fundo
(...) Os médiuns eram as meninas Baudin (Julie e Caroline). (...) Aí, tive o
ensejo de ver comunicações contínuas e respostas a perguntas formuladas, algumas
vezes até a perguntas mentais, que acusavam, de modo evidente, a intervenção de
uma inteligência estranha”. São declarações do codificador. (3).
E continua ele, em “Obras Póstumas”: “Compreendi, antes de tudo, a gravidade
da exploração que ia empreender; percebi, naqueles fenómenos, a chave do
problema, tão obscuro e controvertido, do passado e do futuro da humanidade. A
solução que eu procurava em toda a minha vida. (...) fazia-se mister, portanto,
andar com a maior circunspecção, e não levianamente; ser positivista, e não
idealista, para não me deixar iludir”.
Antes de dedicar-se ao estudo dos fenómenos espiritas, quem era Allan Kardec?
Ele “nasceu na cidade de Lyon, na França, a 3 de Outubro de 1804, recebendo o
nome de Hippolyte Léon Denizard Rivail”.
“Os estudos de Kardec foram iniciados em Lyon, tendo-os completado em Yverdun,
na Suíça, sob a direcção do célebre e inesquecível professor Pestalozzi”. (...)
Teve uma sólida instrução, servida por uma robusta inteligência. Ele conhecia
alemão, inglês, italiano, espanhol, holandês, sem falar na língua materna, e
tinha grande cultura científica”.
O seu trabalho pedagógico é rico e extenso. Produziu, na França, uma dezena
de obras sobre educação, no período de 1828 a 1849. Os seus livros foram
adoptados pela Universidade de França. Traduzia para a língua alemã, que
conhecia profundamente, diferentes obras de educação e moral e, dentre elas, “Telémaco”,
de Fénelon.
Foi bacharel em Ciências e Letras. Membro de sociedades sábias da França,
entre outras, da Real Academia de Ciências Naturais. Emérito educador, criou em
Paris o Instituto Técnico, estabelecimento de ensino com base no método de
Pestalozzi; foi professor no Liceu Polimático. Fundou, em sua casa, cursos
gratuitos de química, física, anatomia comparada e astronomia, etc. Criou um
método original, por processos mnemónicos, que levava o estudante a aprender e
compreender as lições com facilidade e rapidez.
No ano de 1832 casou-se com Amélie Gabrielle Boudet, professora com diploma
de I classe. A sua doce Gabi, como ele carinhosamente a chamava, ajudou-o
intensamente, tanto nas suas actividades pedagógicas quanto no seu fecundo labor
pela causa espírita.
Como homem, foi um homem de bem; caracter adamantino, as qualidades morais
marcavam a sua personalidade; na vida, a coragem nunca lhe faltou; nunca
desanimava; a calma foi um destaque de seu carácter; de temperamento jovial, de
inteligência brilhante, marcada pela lógica e pelo bom senso; não fugia à
discussão, quando a finalidade era esclarecer os assuntos.
“Allan Kardec foi o escolhido para tão elevada missão, como a de codificador,
justamente pela nobreza de seus sentimentos e pela elevação do seu carácter,
tudo aliado a uma sólida inteligência”.
“Ele sujeitava os seus sentimentos, os seus pensamentos, à reflexão. Tudo era
submetido ao poder da lógica. (...) Nada passava sem o rigor do método, sem o
crivo do raciocínio. Filósofo, benfeitor, idealista, dado às ideias sociais,
possuía, ainda, um coração digno do seu carácter e do seu valor intelectual”.
«Conduzi-me, com os espíritos, como houvera feito com os homens. Para mim,
eles foram, do menor ao maior, meios de me informar, e não reveladores
predestinados. Tais as disposições com que empreendi meus estudos, e nelas
prossegui sempre. Observar, comparar e julgar, essa a regra que constantemente
segui.»
A partir do instante em que se dedicou ao estudo dos fenómenos de intervenção
dos espíritos, no ano de 1855, na casa da srª. Plainemaison, até ao ano de 1869,
quando desencarnou vitimado pelo rompimento de um aneurisma, num dia 31 de
Março, trabalhou intensa e incansavelmente, tendo produzido o maior acervo da
doutrina espírita.
Do seu trabalho gigantesco, relacionamos:
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| O Livro dos Espíritos (1857) |
O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864) |
A Génese, os Milagres e as Predições (1868) |
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| O Livro dos Médiuns (1861) |
O Céu e o Inferno, ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo
(1865) |
livros estes que constituem a base do espiritismo ou doutrina espírita.
Kardec criou uma terminologia apropriada às coisas da nova doutrina. Entre
outros, os vocábulos espírita, espiritista e espiritismo, que exprimiam, sem
nenhum equívoco, as ideias relativas aos espíritos na orientação doutrinária
espírita. Não confundir com espiritual, espiritualista e espiritualismo.
Produziu obras subsidiárias e complementares, de grande valor doutrinário,
como “O que é o Espiritismo”, “Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita”,
“Obras Póstumas”. Criou a "Revista Espírita", jornal de estudos psicológicos,
periódico mensal que editou e preparou os originais de Janeiro de 1858 a Junho
de 1869, e fundou, em Paris, a 1 de Abril de 1858, a primeira associação
espírita regularmente constituída, sob a denominação de Sociedade Parisiense de
Estudos Espíritas.
Nestas rápidas anotações, não conseguimos dizer tudo a respeito do
missionário da codificação espírita, senão registámos, apenas, aspectos gerais
da sua magnífica personalidade. Sugerimos, entretanto, que os interessados
consultem a bibliografia indicada, para melhor sentirem o valor extraordinário
da sua vida e da sua obra.
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