Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
Doutrina
espírita — filosofia com bases científicas e consequências morais
1. Ciência — método científico
Os
fenómenos mediúnicos, tão antigos quanto o ser humano à face da Terra, sempre
chamaram a atenção para a realidade da vida espiritual. Todavia, foram sempre
revestidos pelo carácter do maravilhoso e do sobrenatural, tão ao gosto das
religiões primitivas, e das tradicionais. Outras vezes, as manifestações dos
espíritos eram explicadas como obra demoníaca, por princípios religiosos que
persistem até hoje, desencorajando, e mesmo proibindo, através do poder
religioso constituído, toda a pesquisa ou estudo que visasse esclarecer a causa
dos referidos fenómenos. Tornou-se necessário que o tempo passasse, que o homem
amadurecesse e, como consequência, houvesse a libertação do conhecimento, para
que a explicação racional desses factos pudesse ser encontrada.
No estudo dos fenómenos que concorreram para a elaboração do espiritismo,
Allan Kardec, da mesma forma que nas ciências positivas, aplicou o método
experimental. Não criou nenhuma teoria preconcebida e nem apresentou a priori,
como hipótese a existência e a intervenção dos espíritos, concluindo pela
existência destes quando ela foi evidenciada pela observação dos factos. «Não
foram os factos que vieram, a posteriori, confirmar a teoria, a teoria é que
veio, subsequentemente, explicar e reunir os factos.»
Como vimos na sessão anterior, foi a partir dos fenómenos das mesas girantes
que Allan Kardec iniciou a sua pesquisa, em busca da explicação para esse facto
tão singular, e de tantos outros compreendidos na fenomenologia mediúnica.
Nascia, assim, uma nova ciência, que viria romper vínculos a quaisquer
resíduos mágicos e superstição, demonstrando a existência do princípio
espiritual, as propriedades dos fluidos espirituais e a acção deles sobre a
matéria. Demonstrou a existência do perispírito - ou corpo espiritual -,
assinalado por diversos pensadores, em várias épocas, reconhecendo nele o corpo
fluídico da alma, mesmo depois da destruição do corpo físico.
Esse invólucro é inseparável da alma, é um dos elementos constitutivos do ser
humano, é o veículo de transmissão do pensamento e serve de laço entre o
espírito e a matéria.
A parte experimental do espiritismo está contida em «O Livro dos Médiuns »,
editado em 1861, que, segundo Allan Kardec, na apresentação da referida obra,
«contém o ensino especial dos espíritos sobre a teoria de todos os géneros de
manifestações, os meios de comunicação com o mundo invisível, o desenvolvimento
da mediunidade, as dificuldades e os escolhos que se podem encontrar na prática
do espiritismo».
Nesta obra, Kardec dá ênfase ao perispírito, elemento indispensável para a
explicação da mediunidade, e faz também um relato da evolução dos processos de
comunicação com os espíritos, desde as mesas girantes até à psicografia, ou
seja, a escrita através da mão do médium.
O espiritismo, enquanto ciência, tem o seu objecto e o seu método.
O seu objecto centra-se "nas relações que se estabelecem entre nós e os
espíritos". É "uma ciência de observação".
O método científico, assim é ensinado nas escolas, decompõe-se em várias
fases: 1. Observação; 2. Formulação de hipóteses explicativas do fenómeno; 3.
Fase em que se testa experimentalmente a hipótese tida como reveladora do
mecanismo do fenómeno; 4. Enunciar a lei.
Quem estuda a história da codificação do espiritismo vai encontrar este
percurso a ser percorrido por Kardec. Evidentemente que este tipo de fenómenos
não tão simples de pesquisar como uma experiência química processada em
laboratório. Há que fazer adaptações. Os espíritos são pessoas sem corpo físico,
que têm a sua vontade própria, podem não estar dispostos a tentar as
experiências que os experimentadores pretendem fazer; a isto acresce a
necessidade de se verificar todo um conjunto complexo de circunstâncias físicas,
psicológicas e outras, para que o fenómeno possa ocorrer.
1.1. Esclarecimento de conceitos diversos: empirismo, dogmatismo,
cepticismo, agnosticismo
Há vários conceitos que importa aclarar, a fim de que a prática espírita não
se transtorne com eles e, diante da dificuldade de estudar mais profundamente
estes fenómenos, não possam eles tornar-se companhias indesejáveis, susceptíveis
de subverter, das maneiras mais confusas, os objectivos de serviço e
fraternidade à luz do espiritismo, que estarão sempre por detrás do centro
espírita.
Comecemos pelo empirismo. Segundo o dicionário, "conjunto de
conhecimentos colhidos apenas na prática" e "doutrina filosófica segundo a qual
todo o conhecimento humano deriva, directa ou indirectamente, da experiência".
Vejamos um exemplo comum de uma constatação empírica - "Enquanto escrevo, olho
pela janela. Vejo o céu azul e o Sol. Ainda há pouco ele estava mais alto.
Porém, agora, passadas umas duas horas, ele está mais baixo". A leitura empírica
deste fenómeno aparente de deslocação do Sol é esta: o Sol move-se no céu, e os
meus olhos bem viram isso. A leitura científica deste mesmo fenómeno seria feita
mais ou menos assim: "Porque a Terra rola no espaço e eu me encontro, à vista
desarmada, sem referencial fixo para determinar o movimento da Terra em relação
ao Sol, os meus sentidos enganam-me e fazem-me pensar erradamente, que é o Sol
que se move, embora seja, de facto, a rotação da Terra que me causa esse lapso".
Exemplos de empirismo, e mais grave do que isso, na prática espírita: "Não cruze
as pernas numa reunião espiritual, porque isso basta para quebrar a corrente
fluídica"; "Se eu não for ao passe magnético não me sinto bem", etc.
Dogmatismo: "Atitude de quem afirma com intransigência, de quem afirma
sem prova nem crítica prévia"; admite a possibilidade do conhecimento absoluto.
É próprio das religiões e é a moldura perfeita para qualquer exercício de fé
cega. Responsável por graves crimes contra a humanidade - ex: Inquisição.
Quanto ao cepticismo, o dicionário define-o assim: "Doutrina
filosófica que defende que o homem não é capaz de alcançar a certeza" e
"descrença".
O agnosticismo é um "sistema filosófico segundo o qual o espírito
humano ainda se encontra impossibilitado de alcançar, sobre certos fenómenos, um
conhecimento absoluto. O agnóstico, sem provas, não acredita nem descrê -
aguarda pela oportunidade de recolher dados que lhe permitam retirar conclusões
racionais.
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