Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
Doutrina
espírita - filosofia com bases científicas e consequências morais
2. Filosofia - Novos campos para o conhecimento
A
partir do século VI a.C., surgia na Grécia uma nova maneira de propor e
solucionar problemas, com a libertação das formas tradicionais de explicação da
realidade, baseadas em crenças religiosas e apresentadas através de mitos. Essa
nova maneira consistia no uso da razão para se descobrir a causa dos fenómenos.
Começavam a surgir teorias atinentes a todos os tipos de indagações, desde a
origem do universo, à natureza do homem, até às mais diversas actividades
humanas, conduta moral, etc. Essa forma de pensar foi chamada filosofia, que
significa «amor à sabedoria». (4)
Dentre os vários filósofos gregos, destacam-se as figuras de Sócrates e o seu
discípulo Platão, considerados por Allan Kardec como precursores da ideia cristã
e do espiritismo.
Na introdução de «O Evangelho Segundo o Espiritismo», ele faz um resumo da
doutrina desses filósofos, que admitiam a existência e a imortalidade do
espírito, a reencarnação, a necessidade da prática do bem, etc. (5)
Não obstante o grande avanço da filosofia grega e as lições imorredouras do
próprio Cristo, as grandes questões da alma permaneceram por muito tempo
encobertas pelo mistério do véu e do dogma. Na Idade Média, quando a religião
predominava, os valores da fé prevaleciam sobre a razão. Não que a humanidade
deixasse de receber a contribuição de pensadores lúcidos. Mas estes, quando não
eram envolvidos pela sociedade vigente, muitas vezes eram obrigados a silenciar.
Alguns foram sacrificados em holocausto à verdade, seja no campo da religião, da
filosofia ou até da ciência.
Como consequência da libertação do pensamento nos tempos modernos, o homem
passou a questionar os princípios filosóficos impostos de forma dogmática,
considerados incontestáveis e indiscutíveis. De um lado, o ateísmo científico;
do outro, a ilusão religiosa. O avanço alcançado pelas ciências, especialmente a
química, a física e a astronomia, o surgimento dos grandes pensadores, nos
séculos XVIII e XIX, concorreram para mostrar a fragilidade dos princípios
defendidos pela teologia. Da crença cega saltava-se para a negação absoluta.
No campo materialista merece destaque o positivismo, criado por Augusto Comte,
que chegou ao exagero de afirmar que a ciência aposentara o Pai da Natureza, e
acabava de «reconduzir Deus às suas fronteiras, agradecendo os seus serviços
provisórios». (6)
Foi nesse clima que surgiu a revelação espírita, trazendo ao mundo a
explicação lógica para os grandes enigmas da vida, da morte, da sobrevivência,
da dor, etc.
As bases da doutrina espírita foram estabelecidas por Allan Kardec através da
análise e selecção das comunicações dos espíritos, usando os critérios da
universalidade e concordância do ensino dos espíritos, à luz da razão.
Como não poderia deixar de ser, o espiritismo é uma doutrina de livre exame,
propugnando pela fé raciocinada. No capítulo XIX de «O Evangelho Segundo o
Espiritismo», Kardec diz-nos que «fé inabalável só o é a que pode encarar de
frente a razão, em todas as épocas da humanidade». Nascia uma nova filosofia,
estribada na ciência, cujas consequências morais, do mais alto alcance, preparam
a humanidade para uma nova era, em que os valores espirituais preponderarão
sobre os valores materiais.
A filosofia espírita está consubstanciada em «O Livro dos Espíritos», obra
apresentada por Allan Kardec como filosofia espiritualista.
Este livro divide-se em quatro partes: 1 - Das causas primárias; 2 - Do mundo
espírita ou do mundo dos espíritos; 3 - Das leis morais; 4 - Das esperanças e
das consolações.
Essa obra enquadra-se numa das formas mais livres da tradição filosófica: o
diálogo. Por conseguinte, todo o ensinamento é apresentado através de perguntas
e respostas, seguindo-se, às vezes, alguns comentários do codificador (Allan
Kardec).
Como quase todas as partes do livro serão estudadas em outras aulas desta
curso básico, deter-nos-emos aqui apenas a ressaltar alguns pontos da filosofia
espírita, para darmos dela uma visão de conjunto.
O espiritismo não mostra Deus pela imagem antropomórfica - feita à imagem e
semelhança do homem - que dele faziam as religiões. «Deus é a inteligência
suprema, causa primária de todas as coisas».
O universo define-se pela tríade Deus, espírito e matéria. A matéria, porém,
não é somente o elemento palpável, havendo o fluido universal, intermediário
entre o plano espiritual e o plano material.
«... Tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo ao arcanjo, que
também começou por ser átomo», como vemos na questão n.º 540. Para chegar à
perfeição, terá que passar pelas provas da existência material, através do
mecanismo das reencarnações, ao qual se associa a lei de causa e efeito, que
permite ao espírito compensar a sua própria consciência dos erros passados, à
medida que o seu progresso lhe permite estabelecer a diferenciação entre o bem e
o mal.
As condições de vida após a morte do corpo físico são estudadas com detalhes,
ressaltando desse estudo o processo natural de aprendizado do espírito, através
da experiência. A morte, simplesmente, não o liberta das paixões, dos vícios, da
ignorância, como também não define o seu futuro, tal como ensinava, até então, a
teologia. Cai por terra a falsa concepção de inferno, céu e purgatório.
Podemos dizer que a doutrina espírita se resume nos seguintes princípios
fundamentais: Deus, o espírito e a sua imortalidade, a comunicabilidade dos
espíritos, a reencarnação e a pluralidade dos mundos habitados; as leis morais.
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