Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
Doutrina
espírita - filosofia com bases científicas e consequências morais
3. Moral - aperfeiçoamento interior
O homem primitivo, não conseguindo explicação para os vários fenómenos naturais,
entre os quais a chuva, o relâmpago, o trovão, a germinação da semente, o
nascimento e a morte, atribuía-os a uma potência superior. Além disso, os
fenómenos mediúnicos, caracterizados pelas comunicações de espíritos entre os
povos primitivos, concorreram para que essa potência ou essas potências
superiores fossem, de alguma forma, reverenciadas, quer pelo temor que
inspiravam quer pelo carácter maravilhoso ou sobrenatural de que eram revestidos
pelas concepções daquelas mentes primitivas. Nasciam, assim, as primeiras formas
de adoração, através dos mais diferentes cultos, que deram origem a muitas
religiões do passado. Nesses cultos sobressaíam determinados indivíduos, alguns,
quem sabe, portadores de certas faculdades medianímicas, e que ganhavam
notoriedade. Eram os sacerdotes, que recebiam os mais variados nomes nos
diferentes povos em que se enquadravam.
O estudo de algumas religiões leva a concluir que muitas delas são
instituições bem caracterizadas pelo culto exterior, onde preponderam os
sacerdotes, como executores desse culto e, entre eles (sacerdotes), uma
estrutura hierárquica. É uma característica remanescente das religiões
primitivas, que atingiu o próprio cristianismo, desfigurando-o, a partir do seu
aspecto simples e informal, pela intromissão do politeísmo romano e de outras
influências dos povos que constituíam o Império Romano, a partir do
reconhecimento dele, cristianismo, como religião oficial.
O espiritismo, não tendo formas exteriores de adoração, nem sacerdotes, nem
liturgia, não é entendido como religião, mas sim, de acordo com Kardec, como
moral ou ética (ciência do bem). Trata-se de uma opção pela clareza de
linguagem, fundamental para que não se propiciem confusões, que seriam
lamentáveis e poderiam comprometer o futuro.
Todavia, anote-se que há também quem admita que, tendo como exemplo o
cristianismo no seu nascedouro, para uma doutrina ter carácter religioso não é
necessária nenhuma estrutura complicada, senão um conjunto de princípios,
capazes de transformar o homem para melhor. Exactamente como Allan Kardec
defende em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", como veremos daqui a pouco.
A doutrina espírita, como ciência e como filosofia, esclarece os grandes
enigmas da vida, dentro de princípios lógicos. Através dela ficamos a saber o
que somos, de onde viemos, que fazemos aqui, para onde iremos após a morte do
corpo físico e como respondemos pelo comportamento mau ou bom que aqui tivermos,
desde já ou no futuro.
Por reconhecer essa gama de consequências morais, que afectariam, por certo,
os seguidores do espiritismo, e por inspiração de entidades superiores, Allan
Kardec publicou, em 1864, "O Evangelho Segundo o Espiritismo", admitindo que a
moral espírita é a moral do Evangelho, entendido este no seu sentido lógico, e
não desfigurado, quer pela letra quer pelo dogma, aceitando-o nos pontos não
controversos e que pudessem atender à melhoria do comportamento humano: «Todas
as religiões têm por base a existência de Deus e por fim o futuro do homem
depois da morte. Esse futuro, que é de capital interesse para a criatura,
acha-se necessariamente ligado à existência do mundo invisível, pelo que o
conhecimento desse mundo constituiu, desde todos os tempos, objecto de suas
pesquisas e preocupações. A atenção do homem foi, naturalmente, atraída pelos
fenómenos que tendem a provar a existência daquele mundo e nenhum houve jamais
tão concludente como o das manifestações dos espíritos, por meio das quais os
próprios habitantes de tal mundo revelaram a sua existência. Por isso foi que
esses fenómenos se tornaram básicos para a maior parte dos dogmas de todas as
religiões».
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