Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
3. O
espiritismo e outras doutrinas espiritualistas
Depois de termos efectuado um estudo sintético dos
princípios básicos da doutrina espírita, bem como do seu carácter, pode-se fazer
uma comparação com outras doutrinas espiritualistas e proceder à respectiva
distinção.
Um
dos aspectos que caracterizam bem a doutrina codificada por Allan Kardec,
precisamente porque estabelece a diferença entre o espiritismo e as outras
doutrinas espiritualistas, é a sua organização, a sua contextura de princípios.
Sem se desviar jamais da sua invariável posição de respeito e tolerância em
relação a todos os cultos religiosos, o espiritismo é, no entanto, um corpo de
doutrina que não se acomoda ao sincretismo religioso, tenha este a forma que
tiver, nem se despersonaliza pela diluição da sua unidade doutrinária.
Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é
espiritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos espíritos
ou nas suas comunicações com o mundo visível.
As doutrinas espiritualistas (teses opostas ao materialismo) têm dois
pontos-chave em comum. A existência de Deus e a imortalidade da alma. A partir
daí surgem concepções e conceitos divergentes, consoante as suas interpretações,
investigações ou simplesmente os seus dogmas.
Assim a título de curiosidade, já que o assunto é demasiado extenso, para que
possa ser apresentado com minúcia num trabalho deste género, a seguir, passamos
a apresentar, alguns pontos defendidos ou utilizados por algumas correntes
espiritualistas.
ROSACRUZ
É ainda hoje uma das mais antigas e mais altas correntes orientalistas. São
reencarnacionistas.
Entretanto a doutrina rosacruciana, que é uma doutrina secreta e das mais
recuadas na história do espiritualismo, tem os seus símbolos, as suas
cerimónias, os seus conceitos, a sua maneira, enfim, de explicar o infinito
imanifesto, os sete planos da consciência, a alma do mundo e assim por diante.
Os rosacrucianos têm uma série de aforismos pelos quais a sua doutrina chega aos
estudiosos sob forma subtil e velada. Conquanto as ideias reencarnacionistas da
rosacruz concordem com a interpretação espírita, o seu método é diferente. A
doutrina dos rosacruzes utiliza o simbolismo para explicar os problemas
atinentes à alma e à reencarnação, enquanto o espiritismo, aproximando-se mais
da mentalidade ocidental, procura sempre desvendar os mistérios no espírito
humano. Os seus ensinos, por isso mesmo, não têm simbolismo. Sem ideias
preconcebidas, sem o bafejo de nenhuma ordem ou fraternidade secreta, como de
nenhuma fé, o espiritismo partiu da observação dos factos. O método que mais lhe
enquadraria as solicitações de raciocínio teria de ser, forçosamente, o método
indutivo, apropriado às exigências experimentais.
TEOSOFIA
A teosofia, que também é uma doutrina espiritualista, tem pontos que se
relacionam com os princípios da doutrina espírita: Deus, sobrevivência da alma
depois da morte do corpo físico, reencarnacão e a existência do corpo
espiritual. Para o perispírito, por exemplo, que é um elemento já demonstrado
objectivamente, a teosofia tem uma classificação complexa, com divisões entre
corpo astral, corpo mental e corpo causal, em virtude das quais a definição do
corpo fluídico ou corpo intermediário toma feição muito diferente daquela por
que é apresentada pelo espiritismo.
A explicação teosófica está muito bem fundamentada nas bases da sua doutrina,
mas não se entrosa com a classificação espírita. O princípio é o mesmo tanto
para o espiritismo como para a teosofia e outras escolas: a existência de um
corpo que se interpõe entre o espírito e a matéria.
Naturalmente, a divisão do corpo fluídico em três partes - astral, mental e
causal - ou em corpo superior e corpo inferior tem valor na classificação
teosófica, mas não se enquadra no contexto espírita.
Segundo a concepção teosófica o homem tem seis corpos: físico, etérico,
astral, mental, causal e búdico.
A teosofia diverge fundamentalmente do espiritismo também no que toca à
reencarnação. Afirma o pensamento teosófico: "Existem diversos tipos de almas,
cujas reencarnações obedecem à seguinte escala: os adeptos, que já não
reencarnam mais; as almas do caminho, aquelas que reencarnam imediatamente, "sob
a direcção do seu mestre" e renunciam ao seu período de vida no mundo celeste";
as almas cultivadas, precisamente as que reencarnam duas vezes "em cada
sub-raça" e passam, em média, 700 anos no mundo celeste; as almas simples,
finalmente, aquelas que, não estando desenvolvidas, passam por diversas
reencarnações em cada sub-raça, antes de passarem à segunda.
CABALA
A palavra cabala (kabala), significa simplesmente "doutrina recebida". Mais
tarde, porém, dizem os entendidos, passou a significar a tradição oculta dos
hebreus.
Segundo indicações ocultistas, cabala é o conjunto dos ensinos secretos que
Enock transmitiu ao patriarca de Abraão. É o resumo das interpretações secretas
dos judeus.
Para os egípcios, no entanto, a cabala seria de autoria de Hermes Trimegisto,
enquanto para os gregos o seu autor seria Cadmo.
A linguagem da cabala, que é outra fonte das doutrinas secretas, também não
coincide com os termos espíritas. A concepção cabalística, em consonância com o
pensamento de outras escolas ocultistas, admite a existência de espíritos
elementais, isto é, uma categoria diferente, porque formada de espíritos que
habitam quatro elementos: fogo, ar, terra e água. Os espíritos que habitam o
fogo chamam-se salamandras; os que vivem no ar, na água e na terra são
designados respectivamente pelos nomes de silfos, ninfas, gnomos ou pigmeus
segundo a cabala... ainda depois da morte, o corpo, como a forma mais material,
fica no mundo Apiah, no túmulo, com o espírito dos ossos, que constitui o corpo
da ressurreição..."o espírito dos ossos", pode ser perturbado pela aproximação
de outro morto, que lhe é antipático ou pela evocação necromática; por isso
Moisés proíbe a evocação dos mortos.
Concepção trinária da cabala: nephesh (corpo); ruach (alma); neshamah
(espírito, centelha divina). O corpo, pela explicação cabalística, compreende
também o corpo fluídico ou perispírito, enquanto a alma e o espírito são
elementos distintos. O espiritismo simplifica o problema racionalmente, uma vez
que o homem é um conjunto de corpo, perispírito e alma.
A cabala diz "cada mundo tem o seu Gan Eden (paraíso), seu Nahar Dinus (rio
de fogo para a purificação da alma) e o seu Gei Hinam (geena, lugar de castigo
infernal).
A cabala crê na reencarnação, mas admite uma teoria, segundo a qual, Deus
pode unir duas almas no mesmo corpo, para que as tarefas se completem, como no
caso das compensações entre um coxo e um cego.
UMBANDA
Doutrina com culto material, rituais, tem "pais" de terreiro com vestimenta e
prerrogativas equivalentes ao exercício de funções sacerdotais. Tem imagens e
altares, usando ainda o sacrifício de animais, nos casos em que as suas crenças
permitem tal prática. Utiliza sinais - "pontos riscados". Tem uma nomenclatura
muito diferente. Exemplo: chama "cavalos" aos médiuns, emprega termos de
procedências várias como, mironga, marafo, ogun, etc.
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