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Curso Básico de Espiritismo

Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal

2. O princípio das coisas – espírito e matéria

Pela ciência, que lhe foi dada para seu adiantamento em todas as coisas, pode o homem usando a investigação, penetrar alguns segredos da natureza.

a) Conhecimento do princípio das coisas

Segundo nos informam os espíritos na codificação, “Deus não permite que ao homem tudo seja revelado neste mundo.” Assim, não lhe é dado conhecer o princípio das coisas. Somente à medida que ele se depura é que o véu das coisas ocultas “se levanta a seus olhos; mas, para compreender certas coisas, são precisas faculdades que ainda não possui.”

Pela ciência, que lhe foi dada para seu adiantamento em todas as coisas, pode o homem usando a investigação, penetrar alguns segredos da natureza. “Porém, não pode ultrapassar os limites que Deus estabeleceu.”

E Allan Kardec, anota:

“Quanto mais consegue o homem penetrar nesses mistérios, quanto maior admiração lhe devem causar o poder e a sabedoria do criador. No entanto, seja por orgulho ou por fraqueza, a sua própria inteligência fá-lo joguete da ilusão. Ele amontoa sistemas sobre sistemas, e cada dia que passa lhe mostra quantos erros tomou por verdades e quantas verdades rejeitou como erros. São outras tantas decepções para o seu orgulho.”

Outrossim, se julgar conveniente, Deus pode revelar ao homem o que à ciência não é dado apreender. Desse modo, o homem pode receber comunicações de ordem mais elevadas acerca do que lhe escapa ao testemunho dos sentidos. É por essas comunicações “que o homem adquire, dentro de certos limites, o conhecimento do seu passado e do seu futuro.”

Em "Obras Póstumas", de Allan Kardec, 1.ª parte, § 3.º, encontramos: “O princípio das coisas reside nos arcanos de Deus.”

Tudo diz que Deus é o autor de todas as coisas, mas como, e quando, as criou ele? A matéria existe, como ele, de toda a eternidade? Ignoramo-lo. Acerca de tudo, que ele não julgou conveniente revelar-nos, apenas se podem erguer sistemas, mais ou menos prováveis. Dos efeitos que observamos, podemos remontar a algumas causas. Há, porém, um limite, que não nos é possível transpor. Querer ir além é, simultaneamente, perder tempo e cair em erro.”

b) Espírito e matéria

No desdobramento da questão n.º 22 de "O Livro dos Espíritos", a definição de matéria está exposta assim: “A matéria é o laço que prende o espírito; é o instrumento de que este se serve e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce sua acção.”

A esta definição Allan Kardec faz o seguinte comentário: “Deste ponto de vista, pode dizer-se que a matéria é o agente, o intermediário, com o auxílio do qual, e sobre o qual, actua o espírito.”

À pergunta: “O que é o espírito?”, Allan Kardec obteve dos espíritos a seguinte resposta: “O princípio inteligente do universo.”

E, quanto a natureza íntima do espírito, esclareceram: “Não é fácil analisar o espírito com a vossa linguagem. Para vós ele nada é, por não ser palpável. Para nós, entretanto, é alguma coisa.”

"A inteligência é um atributo essencial ao espírito" e uma e outro confundem-se num princípio comum, de tal sorte que podem ser considerados pelos encarnados a mesma coisa.

O espírito é independente da matéria, e são distintos um do outro, mas a união do espírito e da matéria é necessária para intelectualizar a matéria.

O homem não possui uma organização apta a perceber o espírito sem a matéria, porque os seus sentidos não são apropriados para isso. Daí, para ele, ser a união do espírito e da matéria igualmente necessária para a manifestação do espírito. Entende-se aqui por espírito o princípio da inteligência, abstracção feita das individualidades que por esse nome se designam.

Todavia, pode-se conceber o espírito sem a matéria e a matéria sem o espírito, pelo pensamento.

Há, pois, dois elementos gerais do universo: a matéria e o espírito; e acima de tudo Deus, o criador, o pai de todas as coisas. Deus, espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe.

Mas ao elemento material tem que se juntar o fluido universal, que desempenha o papel de intermediário entre o espírito e a matéria, propriamente dita, por demais grosseira para que o espírito possa exercer acção sobre ela. Embora, de certo ponto de vista, seja lícito classificá-lo como elemento material, ele distingue-se deste por propriedades especiais. Se o fluido universal fosse, positivamente, matéria, razão não haveria para que o espírito não o fosse. Está colocado entre o espírito e a matéria; é fluido, como a matéria é matéria, e susceptível, pelas suas inúmeras combinações com esta e sob a acção do espírito, de produzir a infinita variedade das coisas, de que apenas conhecemos uma parte mínima. Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de que o espírito se utiliza, é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão, e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá.

A matéria, como a entendemos, é ponderável, porém, considerada como fluido universal é tão etérea e subtil que é imponderável, apesar de ser o princípio da matéria pesada. Segue-se, daí, que "a gravidade é uma propriedade relativa. Fora das esferas de atracção dos mundos, não há peso, do mesmo modo que não há alto nem baixo".

Todos os corpos são formados de um só elemento primitivo, que se modifica para dar origem aos corpos chamados simples.

Este elemento primitivo é que determina as diversas propriedades que a matéria apresenta, devido às modificações que as suas moléculas elementares sofrem por efeito da sua união, em certas circunstâncias. Esta matéria elementar é susceptível de experimentar todas as modificações e de adquirir todas as propriedades, de onde se pode dizer que tudo está em tudo. Dessa forma, "o oxigénio, o hidrogénio, o azoto, o carbono e todos os corpos que consideramos simples são meras modificações de uma substância primitiva. Na impossibilidade que ainda encontramos em remontar, a não ser pelo pensamento, a esta matéria primária, esses corpos são para nós verdadeiros elementos e podemos, sem maiores consequências, tê-los como tais, até nova ordem."

O espaço universal é ilimitado e infinito. Todavia, o homem não poderá compreendê-lo nesta pequenina esfera terrena. Por mais distante que a imaginação coloque o limite do espaço, a razão diz que além deste limite alguma coisa há, e assim, gradativamente, até ao infinito, porquanto, embora essa alguma coisa fosse o vazio absoluto, ainda seria o espaço. E os espíritos afirmam que no universo não há o vácuo absoluto; o que nos parece vazio está ocupado por matéria que escapa aos sentidos e aos instrumentos humanos.

"Quer a matéria exista de toda a eternidade, como Deus, quer tenha sido criada numa época qualquer, é evidente, segundo o que se passa quotidianamente à nossa vista, que são temporárias as transformações da matéria e que dessas transformações resultam diferentes corpos, que incessantemente nascem e se destroem.

"Como produto que são da aglomeração e da transformação da matéria, os diversos mundos hão-de ter tido, como todos os corpos materiais, começo, e terão fim, na conformidade de leis que desconhecemos. Pode a ciência, até certo ponto, formular as leis que lhes presidiram a formação e remontar ao estado primitivo deles. Toda a teoria filosófica em contradição com os factos que a ciência comprova é necessariamente falsa, a menos que prove estar em erro a ciência."

"O universo abrange a infinidade dos mundos que vemos e dos que não vemos, todos os seres animados e inanimados, todos os astros que se movem no espaço, assim como os fluidos que o enchem."

A razão leva-nos a concluir que o Universo não pode ter-se formado por si mesmo, nem por obra do acaso, mas que há-de ser obra de Deus. Deus criou o Universo pela sua vontade omnipotente, caracterizada nas belas palavras da Génese bíblica - "Deus disse: Faça-se a luz, e a luz foi feita."

Quanto ao modo de formação dos mundos, o que poderemos compreender é que eles formam-se pela condensação da matéria disseminada no espaço. Deus renova os mundos como renova os seres vivos; assim, um mundo completamente formado poderá desaparecer, e a matéria que o compõe disseminar-se de novo no espaço.

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