Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
1. Origem e
natureza dos espíritos
«Podemos dizer que os espíritos são os seres inteligentes
da criação. Eles povoam o Universo, fora do mundo material». Esta é a definição
dada pelos espíritos em resposta à questão n.º 76 de «O Livro dos Espíritos»,
seguindo-se breve comentário de Allan Kardec: «A palavra espírito é aqui
empregada para designar os seres extracorpóreos e não mais o elemento
inteligente universal».
«Os
espíritos são individualizações do princípio inteligente, como os corpos são
individualizações do princípio material; a época e a maneira dessa formação é
que desconhecemos».
Podemos deduzir, dos ensinamentos acima, que a natureza do espírito não é a
mesma da matéria. A posição da doutrina espírita é bem definida quanto à origem
do espírito e da matéria. No capítulo 11, n.º 6, de «A Génese», ele desenvolve o
seguinte raciocínio:
«O princípio espiritual teria a sua fonte no elemento cósmico universal? Não
seria apenas uma transformação, um modo de existência deste elemento, como a
luz, a electricidade, o calor, etc.?».
Se assim fosse, o princípio espiritual passaria pelas vicissitudes da
matéria; extinguir-se-ia, pela desagregação, como o princípio vital; o ser
inteligente só teria uma existência momentânea, como o corpo, e com a morte
voltaria ao nada, ou - o que viria a dar no mesmo - ao Todo Universal. Seria,
numa palavra, a sanção das doutrinas materialistas».
Sobre o que não paira a menor dúvida é acerca da união do princípio
espiritual à matéria, e, em estágios mais avançados, já o espírito
individualizado, que se serve da matéria como elemento indispensável ao seu
progresso... «É assim que tudo serve, tudo se encadeia na natureza, desde o
átomo primitivo até ao arcanjo, pois mesmo este último começou pelo átomo.
Admirável lei de harmonia, de que o vosso espírito limitado ainda não pode
abarcar o conjunto».
Nem todos os espíritos tiveram o seu início aqui na Terra. Todavia, o nosso
planeta começou a oferecer a possibilidade de surgimento da vida quando as
grandes convulsões telúricas se atenuaram, dando condições para que o princípio
espiritual, em obediência aos ditames divinos, desse origem ao surgimento das
formas mais rudimentares de vida. Daí para a frente, ao longo de milénios, a
imensa cadeia de seres que existem, ou que existiram, estabeleceu-se, servindo
cada espécie de filtro de transformismo para o espírito, na sua marcha
ascensional no rumo da perfeição.
Pode parecer contraditório que, estudando o mundo dos espíritos, entremos em
considerações sobre a vida na Terra. Todavia, ao tratarmos da origem e natureza
dos espíritos, não poderíamos fazê-lo de outro modo, já que, tanto nas obras
básicas, como noutras, de autores encarnados e desencarnados de reconhecido
valor, e que demonstram profundo respeito pela doutrina, é enfatizada a marcha
do espírito pelos escalões inferiores da natureza. Transcrevemos as questões n.º
607 e 607-a) de «O Livro dos Espíritos», para darmos uma ideia dessa posição.
«Ficou dito que a alma do homem, na sua origem, se assemelha ao estado de
infância da vida corpórea, que a sua inteligência apenas desponta, e que ela
ensaia para a vida. Onde cumpre o espírito essa primeira fase? «Numa série de
existências que precederam o período a que chamais de humanidade».
« - Parece, assim, que a alma teria sido o princípio inteligente dos seres
inferiores da criação?
- Não dissemos que tudo se encadeia na natureza, e tende à unidade? É nesses
seres, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio inteligente se
elabora, se individualiza pouco a pouco, e ensaia para a vida, como dissemos. É,
de certa maneira, um trabalho preparatório, como o da germinação, a seguir ao
qual o princípio inteligente sofre uma transformação, e se torna espírito. É
então que começa para ele o período de humanidade, e com este a consciência do
seu futuro, a distinção do bem e do mal e a responsabilidade dos seus actos.
Como depois do período da infância vem o da adolescência, depois a juventude, e
por fim a idade madura. Nada há, de resto, nessa origem, que deva humilhar o
homem. Os grandes génios sentem-se humilhados por terem sido fetos informes no
ventre materno? Se alguma coisa deve humilhá-los, é a sua inferioridade perante
Deus, e a sua impotência para sondar a profundidade dos seus desígnios e a
sabedoria das leis que regulam a harmonia do Universo. Reconhecei a
grandiosidade de Deus nessa admirável harmonia que faz a solidariedade de todas
as coisas da Natureza. Crer que Deus pudesse ter feito qualquer coisa sem
objectivo, e criar seres inteligentes sem futuro, seria blasfemar contra a sua
bondade, que se estende sobre todas as criaturas».
|