Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
4. Percepções,
sensações e sofrimentos dos espíritos
No mundo espiritual o espírito age com maior liberdade,
conservando as percepções que tinha quando encarnado, e tendo outras que o corpo
físico não lhe permite. Não queremos dizer com isso que o espírito, pelo simples
facto de passar para o mundo espiritual, sofra profundas transformações no seu
modo de ser e de agir, mas apenas que o corpo físico actua como um véu e limita
as suas possibilidades.
Em
relação ao conhecimento, ele é proporcional ao nível de evolução de cada um. Os
espíritos inferiores não sabem mais do que os homens. A ideia que fazem do
princípio das coisas, do passado e do futuro, varia de acordo com o grau de
elevação de cada espírito. O mesmo ocorre em relação à compreensão de Deus: «Os
espíritos superiores vêem-no e compreendem-no; os espíritos inferiores sentem-no
e adivinham-no».
A vista dos espíritos não é circunscrita, como nos seres corpóreos,
constituindo-se numa faculdade geral. Aqueles que, todavia, ainda se encontram
presos mentalmente aos quadros da vida material, continuarão a ter limitadas as
suas percepções visuais, como se ainda estivessem no plano físico.
«Todas as percepções são atributos do espírito, e fazem parte do seu ser.
Quando ele se reveste de um corpo material, elas manifestam-se pelos meios
orgânicos; mas no estado de liberdade já não estão localizadas».
Em relação à música e às belezas naturais, prevalece ainda a posição
evolutiva do espírito na apreciação das mesmas. Esclarecem-nos os espíritos que
a música celeste não pode ser comparada à nossa música.
Comunicando-se connosco, alguns espíritos dizem sentir fadiga, necessidade de
repouso, frio ou calor.
Nas questões n.º 254 e 255 de «O Livro dos Espíritos» encontramos a
explicação:
«Não podem sentir fadiga como a entendeis, e portanto não necessitam do
repouso corporal, pois não possuem órgãos, em que as forças tenham de ser
restauradas. Mas o espírito repousa, no sentido de não permanecer numa
actividade constante. Ele não age de maneira material porque a sua acção é toda
intelectual, e o seu repouso é todo moral. Há momentos em que o seu pensamento
diminui de actividade e não se dirige a um objecto determinado; este é um
verdadeiro repouso, mas não se pode compará-lo ao do corpo. A espécie de fadiga
que os espíritos podem provar está na razão da sua inferioridade, pois quanto
mais se elevam de menos repouso necessitam».
Em relação às sensações de frio ou calor o que existe é «a lembrança do que
sofreram durante a vida, e algumas vezes tão penosa como a própria realidade.
Frequentemente, é uma comparação que fazem, para exprimirem a sua situação.
Quando se lembram do corpo experimentam uma espécie de impressão, como quando se
tira uma capa e algum tempo depois ainda se pensa estar com ela».
Na questão n.º 257 de «O Livro dos Espíritos» Allan Kardec apresenta um
«ensaio teórico sobre a sensação nos espíritos». Recomendando a consulta do
estudo aludido, transcrevemos aqui um trecho do mesmo, que julgamos importante
para resumir o que atrás já foi dito: «Vemos, pois, as deduções que podemos
tirar dos factos, quando atentamente observados. Durante a vida, o corpo recebe
as impressões exteriores e transmite-as ao espírito, por intermédio do
perispírito, que constitui, provavelmente, o que se costuma chamar fluido
nervoso. O corpo, estando morto, não sente mais nada, porque não possui espírito
nem perispírito. O espírito, desligado do corpo, experimenta a sensação, mas
como esta não lhe chega por um canal limitado torna-se geral. Como o perispírito
é apenas um agente de transmissão, pois é o espírito que possui a consciência,
deduz-se que se pudesse existir perispírito sem espírito ele não sentiria mais
do que um corpo morto. Da mesma maneira, se um espírito não tivesse perispírito
seria inacessível a todas as sensações penosas: é o que acontece com os
espíritos completamente purificados. Sabemos que quanto mais o espírito se
purifica mais eterizada se torna a essência do perispírito, de maneira que a
influência material diminui à medida que o espírito progride, ou seja, à medida
que o perispírito se torna menos grosseiro».
|