Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
2. Perispírito
«Como a semente de um fruto é envolvida pelo perisperma, o
espírito, propriamente dito, é revestido de um envoltório que, por comparação,
se pode chamar perispírito».
«O
perispírito, ou corpo fluídico dos espíritos, é um dos produtos mais importantes
do fluido cósmico. É uma condensação deste fluido em torno de um foco
inteligente, ou alma».
«Vimos que o corpo carnal tem igualmente a sua origem nesse mesmo fluido,
transformado e condensado em matéria tangível. No perispírito, a transformação
molecular opera-se de modo diferente, pois o fluido conserva a sua
imponderabilidade e as suas qualidades etéreas. O corpo perispiritual e o corpo
carnal têm, pois, a sua origem no mesmo elemento primitivo. Ambos são matéria,
ainda que em dois estados diferentes».
a) Histórico
A existência de um elemento intermediário entre o espírito e o corpo físico é
admitida desde a mais remota Antiguidade. No Egipto (5000 anos a. C.) já se
acreditava na existência de um corpo para o espírito, denominado kha. Na Índia,
no "Rig-Veda", livro sagrado dos vedas, encontramos referências ao perispírito,
com o nome de linga-sharira. Para Confúcio era o «corpo aeriforme». Na Grécia,
os filósofos adoptavam uma variada nomenclatura para defini-lo: «veículo leve»,
«corpo luminoso», «carro subtil da alma». Paracelso chamou-lhe corpo astral, ou
evestrum. Leibnitz denominava-o de «corpo fluídico». Paulo de Tarso refere-se ao
perispírito nas suas epístolas, chamando-lhe corpo espiritual, ou corpo
incorruptível. Modernamente, como consequência de algumas deduções evidentes a
favor da sua existência por parte de alguns cientistas, o perispírito é chamado
modelo organizador biológico (MOB), corpo bioplasmático, etc.
b) Natureza e propriedades
«A natureza do envoltório fluídico está sempre em relação com o grau de
adiantamento moral do espírito. ... Alguns há, portanto, cujo envoltório
fluídico, se bem que etéreo e imponderável em relação à matéria tangível, ainda
é por demais pesado, se assim nos podemos exprimir, em relação ao mundo
espiritual, para não permitir que eles saiam do meio que lhes é próprio. Nessa
categoria devem ser incluídos aqueles cujo perispírito é tão grosseiro que eles
o confundem com o corpo carnal, razão por que continuam a crer-se vivos. Esses
espíritos, cujo número é avultado, permanecem na superfície da Terra, como os
encarnados, julgando-se entregues às suas ocupações terrenas. Outros, um pouco
mais desmaterializados, não o são, contudo, suficientemente para se elevarem
acima das regiões terrestres».
... «O envoltório perispirítico de um espírito modifica-se com o progresso
moral que este realiza em cada encarnação, embora ele encarne no mesmo meio; ...
os espíritos superiores, encarnando, excepcionalmente, em missão, num mundo
inferior, têm um perispírito menos grosseiro do que o dos indígenas desse
mundo».
Sabemos que a união do espírito (espírito mais perispírito) ao corpo físico
tem início no momento da concepção. Essa ligação permite que o perispírito se
constitua numa verdadeira matriz espiritual, orientando o desenvolvimento do
futuro ser. É o espírito Emmanuel quem nos diz: «... e espanta ao embriologista
a lei organogenética que estabelece a ideia directora do desenvolvimento fetal,
desde a união do espermatozóide ao óvulo, especificando os elementos amorfos do
protoplasma; nos domínios da vida, essa ideia directriz conserva-se inacessível
até hoje aos nossos processos de indagação e análise, porquanto esse desenho
invisível não está subordinado a nenhuma determinação físico-química, porém,
unicamente ao corpo espiritual preexistente, em cujo molde se realizam todas as
acções plásticas da organização, e sob cuja influência se efectuam todos os
fenómenos endosmóticos».
Um estudo profundo do perispírito, seguindo-se ao trabalho magistral da
codificação kardequiana, é desenvolvido por Gabriel Delanne no seu livro «A
Evolução Anímica», publicado em 1885. Apesar do avanço dos conhecimentos
científicos, podemos observar que as modernas pesquisas nada mais têm feito do
que comprovar o valor da referida obra em relação a tão palpitante tema. É nesse
livro que encontramos referência às dúvidas e argumentos do notável fisiologista
francês Claude Bernard, ao examinar o desenvolvimento celular, o embrião e o ser
já formado. «O que diz essencialmente com o domínio da vida, e não pertence à
química, nem à física, nem ao que mais possamos imaginar, é a ideia directriz
dessa actuação vital. Em todo o germe vivo há uma ideia dirigente, a
manifestar-se e a desenvolver-se na sua organização. Depois, no curso de toda a
sua vida, o ser permanece sob a influência dessa força criadora, até que morre,
quando ela não se pode efectivar. É sempre o mesmo princípio de conservação do
ser que lhe reconstitui as partes vivas, desorganizadas pelo exercício, por
acidentes ou enfermidades». O ilustre fisiologista, contemporâneo de Kardec, não
fala em perispírito, mas imagina a sua existência, quando fala de uma ideia
directriz e desenho ideal de um organismo ainda invisível.
No estudo da referida obra de Gabriel Delanne fica evidenciado que o
perispírito é uma aquisição do espírito na sua longa marcha pelos caminhos desta
evolução biológica. Essa evolução está claramente definida no capítulo XI da
Segunda parte de «O Livro dos Espíritos» e vem completar-se com o trabalho dos
grandes naturalistas do século XIX, de entre os quais se destaca a figura de
Charles Darwin, cujo trabalho principal, «A Origem das Espécies», foi publicado
em 1859, dois anos após a publicação de «O Livro dos Espíritos».
O conhecimento do perispírito faz luz sobre vários pontos obscuros da
referida obra, que, apesar de notável, analisa a evolução do ponto de vista
simplesmente material, deixando de lado o elemento mais importante no mecanismo
da vida, ou seja, o espírito, para o qual as formas vivas são apenas filtros de
transformismo, tendo em vista a sua superior finalidade.
Para finalizar, citamos algumas propriedades do perispírito, entre tantas,
por certo, que não podemos ainda compreender.
1. Matriz espiritual do corpo físico
Pela revelação, ficamos a saber que a união do espírito ao corpo se opera no
momento da concepção, portanto, quando se forma a célula ovo. Pelo raciocínio
somos levados a concluir que apenas os elementos constitutivos dos cromossomas,
ou seja, o ácido desoxirribonucleico (ADN), ácido ribonucleico (ARN) e proteínas
seriam insuficientes para desencadearem o maravilhoso fenómeno da vida. É
necessária a presença da ideia directriz de Claude Bernard, para nós o
perispírito, orientando e disciplinando o desenvolvimento celular.
2. Sustentador das formas físicas dos seres vivos
Sabemos que a renovação celular é uma constante em todos os seres vivos. No
caso da espécie humana, ao cabo de mais ou menos oito anos, há uma renovação
total das células, exceptuando as células nervosas ou neurónios. Como
entender-se que persista a fixidez da espécie, a memória e os demais actos
necessários à actividade vital, diante de tão surpreendente renovação? Graças,
claro, à acção directiva do perispírito, que não só orienta a formação do ser
como sustenta a sua forma, até que ocorra a desencarnação.
3. Retrata o nosso estado mental
Por ser um organismo estruturado num outro espaço, sofre, decisivamente, a
acção da nossa mente, definindo a nossa posição no concerto evolutivo. Após a
morte do corpo físico, de acordo com o seu peso específico, gravitaremos até às
regiões afins com o nosso modo de ser.
4. Papel na mediunidade
No mecanismo da mediunidade é fundamental a acção do perispírito, seja pela
capacidade de exteriorização que os médiuns possuem, seja pela combinação do
fluido perispiritual do médium com o fluido perispiritual dos espíritos.
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