Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
3. DA VOLTA DO
ESPÍRITO, EXTINTA A VIDA CORPORAL, À VIDA ESPIRITUAL
"No intervalo das existências corporais o espírito torna a
entrar no mundo espiritual, onde é feliz ou desgraçado segundo o bem ou o mal
que fez.
"Uma
vez que o estado espiritual é o estado definitivo do espírito e o corpo
espiritual não morre, deve ser esse também o seu estado normal. O estado
corporal é transitório e passageiro. É no estado espiritual, sobretudo, que o
espírito colhe os frutos do progresso realizado pelo trabalho da encarnação; é
também nesse estado que se prepara para novas lutas e toma as resoluções que
há-de pôr em prática na sua volta à humanidade.
"O estudo das comunicações espíritas provou-nos, de maneira irrefutável, que
a situação da alma, depois da morte, é regida por uma lei de justiça infalível,
segundo a qual os seres encontram-se em condições de existência que são
rigorosamente determinadas pelo seu grau evolutivo e pelos esforços que faz para
melhorar.
"As nossas relações com o Além ensinaram-nos, ainda, que não existe Inferno,
nem Paraíso, mas que a lei moral impõe sanções inelutáveis àqueles que a
violaram, enquanto reserva a felicidade aos que se esforçaram por praticar o
bem, sob todas as formas".
"Por um efeito contrário, a união do perispírito e da matéria carnal, que se
efectuara sob a influência do princípio vital do germe, cessa desde que esse
princípio deixa de actuar, em consequência da desorganização do corpo. Mantida
que era por uma força actuante, tal união desfaz-se logo que essa força deixa de
actuar. Então, o perispírito desprende-se, molécula a molécula, conforme se
unira, e ao espírito é restituída a liberdade. Assim, não é a partida do
espírito que causa a morte do corpo; esta é que determina a partida do espírito.
"O espiritismo, pelos factos cuja observação ele faculta, dá a conhecer os
fenómenos que acompanham essa separação, que às vezes é rápida, fácil, suave e
insensível, ao passo que doutras é lenta, laboriosa, horrivelmente penosa,
conforme o estado moral do espírito, e pode durar meses inteiros".
"... A alma desprende-se gradualmente, não se escapa como um pássaro cativo a
que se restitua subitamente a liberdade. Aqueles dois estados tocam-se e
confundem-se, de sorte que o espírito solta-se pouco a pouco dos laços que o
prendiam. Estes laços se desatam, não se quebram.
"Durante a vida, o espírito acha-se preso ao corpo pelo seu envoltório
semimaterial, ou perispírito. A morte é a destruição do corpo, somente, não a
desse outro invólucro, que do corpo se separa quando cessa neste a vida
orgânica. A observação demonstra que no instante da morte o desprendimento do
perispírito não se completa subitamente; que, ao contrário, opera-se
gradualmente e com uma lentidão muito variável conforme os indivíduos. Em alguns
é bastante rápida, podendo dizer-se que o momento da morte é mais ou menos o da
libertação. Noutros, naqueles, sobretudo, cuja vida foi toda material e sensual,
o desprendimento é muito menos rápido, durando, algumas vezes, dias, semanas e
até meses, o que não implica existir, no corpo, a menor vitalidade, nem a
possibilidade de volver à vida, mas uma simples afinidade com o espírito,
afinidade que guarda sempre proporção com a preponderância que, durante a vida,
o espírito deu à matéria. É, com efeito, racional conceber-se que quanto mais o
espírito se tenha identificado com a matéria tanto mais penoso lhe seja
separar-se dela; ao passo que a actividade intelectual e moral, a elevação dos
pensamentos operam um começo de desprendimento, mesmo durante a vida do corpo,
de modo que, chegando a morte, ele é quase instantâneo. Tal o resultado dos
estudos feitos em todos os indivíduos que se têm podido observar por ocasião da
morte. Essas observações provam ainda que a afinidade persistente entre a alma e
o corpo, em certos indivíduos, é às vezes muito penosa, porquanto o espírito
pode experimentar o horror da decomposição. Este caso, porém, é excepcional e
peculiar a certos géneros de vida e a certos géneros de morte. Verifica-se com
alguns suicidas.
"Na agonia, a alma, algumas vezes, já tem deixado o corpo; nada mais há que a
vida orgânica. O homem já não tem consciência de si próprio; entretanto, ainda
lhe resta um sopro de vida orgânica. O corpo é a máquina que o coração põe em
movimento. Existe enquanto faz circular nas veias o sangue, para o que não
necessita da alma".
"Por ocasião da morte, tudo, a princípio, é confuso. De algum tempo precisa a
alma para entrar no conhecimento de si própria. Ela acha-se como que aturdida,
no estado de uma pessoa que despertou de profundo sono e procura orientar-se
sobre a sua situação. A lucidez das ideias e a memória do passado voltam-lhe à
medida que se apaga a influência da matéria que ela acaba de abandonar, e à
medida que se dissipa a espécie de névoa que lhe obscurece os pensamentos.
Muito variável é o tempo que dura a perturbação que se segue à morte. Pode
ser de algumas horas, como também de muitos meses e até de muitos anos. Aqueles
que, desde quando ainda viviam na Terra, se identificam com o estado futuro que
os aguardava, são os em que menos longa ela é, porque esses compreendem
imediatamente a posição em que se encontram.
"Aquela perturbação apresenta circunstâncias especiais, de acordo com os
caracteres dos indivíduos e, principalmente, com o género de morte. Nos casos de
morte violenta, por suicídio, suplício, acidente, apoplexia, ferimentos, etc., o
espírito fica surpreendido, espantado e não acredita estar morto.
Obstinadamente, sustenta que não o está. No entanto, vê o seu próprio corpo,
reconhece que esse corpo é seu, mas não compreende que se ache separado dele.
Acerca-se das pessoas a quem estima, fala-lhes e não percebe por que elas não o
ouvem. Semelhante ilusão prolonga-se até ao completo desprendimento do
perispírito. Só então o espírito se reconhece como tal e compreende que não
pertence mais ao número dos vivos. Este fenómeno explica-se facilmente.
Surpreendido de improviso pela morte, o espírito fica atordoado com a brusca
mudança que nele se operou; considera ainda a morte como sinónimo de destruição,
de aniquilamento. Ora, porque pensa, vê, ouve, tem a sensação de não estar
morto. Mais lhe aumenta a ilusão o facto de se ver com um corpo semelhante, na
forma, ao precedente, mas cuja natureza etérea ainda não teve tempo de estudar.
Julga-o sólido e composto como o primeiro e, quando se lhe chama a atenção para
esse ponto, admira-se de não poder palpá-lo... Certos espíritos revelam essa
particularidade, se bem que a morte não lhes tenha sobrevindo inopinadamente.
Todavia, sempre mais generalizada se apresenta entre os que, embora doentes, não
pensavam em morrer. Observa-se, então, o singular espectáculo de um espírito
assistir ao seu próprio enterro como se fora o de um estranho, falando desse
acto como de coisa que lhe não diz respeito, até ao momento em que compreende a
verdade.
"A perturbação que se segue à morte nada tem de penosa para o homem de bem,
que se conserva calmo, semelhante em tudo a quem acompanha as fases de um
tranquilo despertar. Para aquele cuja consciência ainda não está pura, a
perturbação é cheia de ansiedade e de angústias, que aumentam à proporção que
ele da sua situação se compenetra.
"Nos casos de morte colectiva tem sido observado que todos os que perecem ao
mesmo tempo nem sempre tornam a ver-se logo. Presas da perturbação que se segue
à morte, cada um vai para seu lado, ou só se preocupa com os que lhe
interessam".
"A alma desencarnada procura, naturalmente, as actividades que lhe eram
predilectas nos círculos da vida material, obedecendo aos laços afins, tal qual
se verifica nas sociedades do vosso mundo.
"As vossas cidades não se encontram repletas de associações, "de grémios", de
classes inteiras que se reúnem e se sindicalizam para determinados fins,
conjugando idênticos interesses de vários indivíduos? Aí não se abraçam os
agiotas, os políticos, os comerciantes, os sacerdotes, objectivando cada grupo a
defesa dos seus interesses próprios?
"O homem desencarnado procura, ansiosamente, no espaço, as aglomerações afins
com o seu pensamento, de modo a continuar o mesmo género de vida abandonado na
Terra, mas, tratando-se de criaturas apaixonadas e viciosas, a sua mente
reencontrará as obsessões da materialidade, quais as do dinheiro, álcool, etc.,
obsessões que se tornam o seu martírio moral a cada hora, nas esferas mais
próximas da Terra.
"Daí a necessidade de encararmos todas as nossas actividades no mundo como
tarefa de preparação para a vida espiritual, sendo indispensável à nossa
felicidade, além do sepulcro, que tenhamos um coração sempre puro".
Na questão 165 de "O Livro dos Espíritos", Allan Kardec faz a seguinte
indagação: "O conhecimento do espiritismo exerce alguma influência sobre a
duração, mais ou menos longa, da perturbação?". Os espíritos responderam,
taxativamente: Influência muito grande, pois o espírito já antecipadamente
compreendia a sua situação. Mas a prática do bem e a consciência pura são o que
maior influência exercem".
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