Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
2. REENCARNAÇÃO
2.1. JUSTIÇA DA REENCARNAÇÃO
"A reencarnação, afirmada pelas vozes de além-túmulo, é a
única forma racional por que se pode admitir a reparação das faltas cometidas e
a evolução gradual dos seres. Sem ela, não se vê sanção moral satisfatória e
completa; não há possibilidade de conceber a existência de um ser que governe o
universo com justiça.
"Se
admitirmos que o homem vive actualmente pela primeira vez neste mundo, que uma
única existência terrestre é o quinhão de cada um de nós, a incoerência e a
parcialidade, forçoso seria reconhecê-lo, presidem à repartição dos bens e dos
males, das aptidões e das faculdades, das qualidades nativas e dos vícios
originais.
"Todos os espíritos tendem para a perfeição, e Deus lhes faculta os meios de
alcançá-la, proporcionando-lhes as provações da vida corporal. A sua justiça,
porém, concede-lhes realizar, em novas existências, o que não puderam fazer ou
concluir numa primeira prova.
"Não obraria Deus com equidade, nem de acordo com a sua bondade, se
condenasse para sempre os que talvez hajam encontrado, oriundos do próprio meio
em que foram colocados e alheios à vontade que os animava, obstáculos ao seu
melhoramento. Se a sorte do homem se fixasse irrevogavelmente depois da morte
não seria uma única a balança em que Deus pesa as acções de todas as criaturas e
não haveria imparcialidade no tratamento que a todas dispensa.
"A doutrina da reencarnação, isto é, a que consiste em admitir para o
espírito muitas existências sucessivas, é a única que corresponde à ideia que
formamos da justiça de Deus para com os homens que se acham em condição moral
inferior; a única que pode explicar o futuro e firmar as nossas esperanças, pois
oferece os meios de resgatarmos os nossos erros, por novas provações. A razão
no-la indica e os espíritos a ensinam.
"O homem que tem consciência da sua inferioridade haure consoladora esperança
na doutrina da reencarnação. Se crê na justiça de Deus, não pode contar que
venha a achar-se, para sempre, em pé de igualdade com os que mais fizeram do que
ele. Sustém-no, porém, e reanima-lhe a coragem a ideia de que aquela
inferioridade não o deserda eternamente do supremo bem e que, mediante novos
esforços, dado lhe será conquistá-lo. Quem é que, ao cabo da sua carreira, não
deplora haver tão tarde ganho uma experiência de que já não mais pode tirar
proveito? Entretanto, essa experiência tardia não fica perdida; o espírito a
utilizará em nova existência".
2.2. REENCARNAÇÃO E RESSURREIÇÃO
"A reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, sob o nome de
ressurreição. Só os saduceus, cuja crença era a de que tudo acaba com a morte,
não acreditavam nisso. As ideias dos judeus sobre esse ponto, como sobre muitos
outros, não eram claramente definidas, porque apenas tinham vagas e incompletas
noções acerca da alma e da sua ligação com o corpo.
Criam eles que um homem que vivera poderia reviver, sem saberem precisamente
de que maneira o facto poderia dar-se. Designavam pelo termo ressurreição o que
o espiritismo, mais judiciosamente, chama reencarnação. Com efeito, a
ressurreição dá ideia de voltar à vida o corpo que já está morto, o que a
ciência demonstra ser materialmente impossível, sobretudo quando os elementos
desse corpo já se acham desde há muito tempo dispersos e absorvidos.
A reencarnação é a volta da alma, ou espírito, à vida corpórea, mas em outro
corpo, especialmente formado para ele, e que nada tem de comum com o antigo. A
palavra ressurreição podia, assim, aplicar-se a Lázaro, mas não a Elias, nem aos
outros profetas. Se, portanto, segundo a crença deles, João Baptista era Elias,
o corpo de João não podia ser o de Elias, pois João fora visto criança e seus
pais eram conhecidos. João, pois, podia ser Elias reencarnado, porém, não
ressuscitado".
2.3. REENCARNAÇÃO E METEMPSICOSE
"Poderia encarnar num animal o espírito que animou o corpo de um homem?".
Allan Kardec submete aos espíritos a questão, inscrevendo-a sob n.º 612 em "O
Livro dos Espíritos", para averiguar a veracidade ou não de certas afirmações
populares que informavam poderem as almas retornar à Terra num corpo de animal
para pagamento de infracções cometidas contra a Lei.
Esclarecem os espíritos: "Isso seria retrogradar, e o espírito não
retrograda. O rio não remonta à sua nascente".
E o codificador comenta: "Seria verdadeira a metempsicose, se indicasse a
progressão da alma, passando de um estado inferior a outro superior, onde
adquirisse desenvolvimentos que lhe transformassem a natureza. É, porém, falsa
no sentido de transmigração directa da alma do animal para o homem, e
reciprocamente, o que implicaria a ideia de um retrocesso...".
"A reencarnação, como os espíritos a ensinam, funda-se, ao contrário, na
marcha ascendente da natureza e na progressão do homem, dentro da sua própria
espécie, o que em nada lhe diminui a dignidade. O que o rebaixa é o mau uso que
ele faz das faculdades que Deus lhe outorgou para que progrida".
Emmanuel explica como nasceu entre os egípcios a doutrina da metempsicose:
"... O grande povo dos faraós guardava a reminiscência do seu doloroso degredo
na face obscura do mundo terreno. E tanto lhe doía semelhante humilhação que, na
lembrança do pretérito, criou a teoria da metempsicose, acreditando que a alma
de um homem podia regressar ao corpo de um irracional, por determinação punitiva
dos deuses. A metempsicose era o fruto da sua amarga impressão, a respeito do
exílio penoso que lhe fora infligido no ambiente terrestre".
"Pitágoras foi o primeiro que introduziu na Grécia a doutrina dos
renascimentos da alma, doutrina que havia conhecido em suas viagens ao Egipto e
à Pérsia. Ele tinha duas doutrinas, uma reservada aos iniciados, que
frequentavam os mistérios, e outra destinada ao povo; esta última deu nascimento
ao erro da metempsicose. Para os iniciados, a ascensão era gradual e
progressiva, sem regressão às formas inferiores, enquanto ao povo, pouco
evoluído, se ensinava que as almas ruins deviam renascer em corpos de
animais...".
"O vulgo não quer ver hoje na metempsicose mais do que a passagem da alma
humana para o corpo de seres inferiores. Na Índia, no Egipto e na Grécia ela era
considerada, de um modo mais geral, como transmigração das almas para outros
corpos humanos. Tendemos a crer que a descida da alma à animalidade num corpo
inferior não era, como a ideia do Inferno, no catolicismo, mais do que um
espantalho, destinado, no pensamento dos antigos, a apavorar os maus. Qualquer
retrocesso desta espécie seria contrário à justiça, à verdade; além de que o
desenvolvimento do organismo, ou perispírito, vedando ao ser humano a
possibilidade de continuar a adaptar-se às condições da vida animal,
torná-la-ia, aliás, impossível"
2.4. REVISÃO HISTÓRICA SOBRE A TEORIA DAS VIDAS SUCESSIVAS
"A doutrina das vidas sucessivas, ou reencarnação, é também chamada
palingenesia, de duas palavras gregas - palin, de novo, genesis, nascimento. O
que há de mais notável é que, desde os albores da civilização, ela foi
formulada, na Índia, com uma precisão que o estado intelectual dessa época
longínqua não fazia pressagiar.
"Com efeito, desde a mais alta Antiguidade, os povos da Ásia e da Grécia
acreditaram na imortalidade da alma, e mais ainda, muitos procuravam saber se
essa alma fora criada no momento do nascimento ou se existia antes.
"A Índia é, muito provavelmente, o berço intelectual da humanidade, e é
interessante que se encontrem nos vedas e no Bhagavad Gita passagens como as que
se seguem: "Assim como se deixam as vestes gastas para usar vestes novas, também
a alma deixa o corpo usado para revestir novos corpos"...
"Os mundos voltarão a Brama, ó Arjuna, mas aquele que me atingiu não deve
mais renascer"...
"Encontra-se no mazdeísmo, religião da Pérsia, uma concepção muito elevada, a
da redenção final concedida a todas as criaturas, depois de haverem, entretanto,
experimentado as provas expiatórias, que devem conduzir a alma humana à sua
felicidade final...".
"Na Grécia vai-se encontrar a doutrina das vidas sucessivas nos poemas
órficos; era a crença de Pitágoras, de Sócrates, de Platão, de Apolónio e de
Empédocles. Com o nome de metempsicose falam dela muitas vezes nas suas obras,
em termos velados, porque, em grande parte, estavam ligados pelo juramento
iniciático; contudo, ela é afirmada com clareza no último livro da "República",
em "Fedra", em "Timeu" e em "Fedon".
"Platão adopta a ideia pitagórica da palingenesia. Ele fundou-a em duas
razões principais, expostas no "Fedon". A primeira é que, na natureza, a morte
sucede à vida, e, sendo assim, é lógico admitir que a vida sucede à morte,
porque nada pode nascer do nada, e se os seres que vemos morrer não devessem
mais voltar à Terra tudo acabaria por se absorver na morte. Em segundo lugar, o
grande filósofo baseia-se na reminiscência, porque, segundo ele, aprender é
recordar.
"A escola neoplatónica de Alexandria ensina a reencarnação, precisando,
ainda, as condições, para a alma, dessa evolução progressiva.
"Para Plotino, a alma comete faltas, é condenada a expiá-las, recebendo
punições em infernos tenebrosos; depois, é obrigada a passar a outro corpo, para
recomeçar suas provas...
"Porfírio não crê na metempsicose, ainda mesmo como punição das almas
perversas e, segundo ele, a reencarnação só se opera no género humano.
"Segundo Jâmblico, a justiça de Deus não é a justiça dos homens. O homem
define a justiça sob o ponto de vista da sua vida actual e do seu estado
presente. Deus define-a relativamente às nossas existências sucessivas e à
universalidade das nossas vidas.
"Entre os romanos, que receberam a maior parte dos seus conhecimentos da
Grécia, Virgílio exprime claramente a ideia da palingenesia... Diz também Ovídio
que a sua alma, quando for pura, irá habitar os astros que povoam o firmamento,
o que estende a palingenesia até aos outros mundos semeados no espaço.
"Os gauleses praticavam a religião dos druidas, acreditavam na unidade de
Deus e nas vidas sucessivas.
"Durante todo o período da Idade Média, a doutrina palingenésica ficou
velada, porque era severamente proscrita pela Igreja, então toda-poderosa... Foi
preciso chegar aos tempos modernos, e à liberdade de pensar e de discutir
publicamente, para que a verdade das vidas sucessivas pudesse renascer à grande
luz da publicidade".
"Descartes, Leibnitz e Kant tiveram uma certa intuição destes factos
(caracteres dissemelhantes dos gémeos e terem os meninos-prodígio talentos que
os pais não possuíam); Descartes, sobretudo, na sua teoria das ideias inatas...
"Todas estas religiões se basearam na crença nas vidas sucessivas: o
bramanismo, o budismo, o druidismo, o islamismo. O cristianismo primitivo não
abriu excepção à regra. Traços desta doutrina se nos deparam no Evangelho. Os
padres gregos Orígenes, Clemente de Alexandria e a maior parte dos cristãos dos
primeiros séculos admitiam-na...".
«Ainda que em tempos remotos grandes pensadores cristãos tenham aceite a
doutrina das vidas sucessivas, como Orígenes, Agostinho, Francisco de Assis,
Jerónimo, entre inúmeros outros pensadores religiosos e leigos, antigos e
modernos, muitos mantêm-se na obstinada negativa de quem concluiu sem estudar,
como o que não viu e não gostou.»
Segundo Leslie D. Weatherhead, da Igreja Anglicana de Londres (The Case for
Reencarnation, de Leslie D. Weatherhead, Londres, 1958), o conceito das vidas
sucessivas foi rejeitado pela Igreja Católica no Concílio de Constantinopla, em
553, por votação, na qual a reencarnação perdeu por 3 a 2. O que realmente
aconteceu foi que um sínodo local condenou os ensinamentos de Orígenes acerca da
preexistência da alma, em 553, na cidade de Constantinopla, crê-se que até por
imposição política do imperador Justiniano, a cuja esposa desagradava a ideia de
poder reencarnar como escrava, se maltratasse os escravos, como então se
ensinava.
2.5. A REENCARNAÇÃO NA BÍBLIA E NOS EVANGELHOS
Entre os hebreus, a ideia das vidas anteriores era geralmente admitida.
A crença nos renascimentos da alma encontra-se indicada em inúmeras passagens
da Bíblia, de forma mais ou menos velada, porém, claramente nos evangelhos.
Em Isaías, cap. XXVI, v. 19, encontramos: Aqueles do vosso povo a quem a
morte foi dada viverão de novo; aqueles que estavam mortos em meio a mim
ressuscitarão. Despertai do vosso sono e entoai louvores a Deus, vós que
habitais o pó...
É também muito explícita esta passagem de Isaías: "Aqueles do vosso povo a
quem a morte foi dada viverão de novo". Se o profeta houvera querido falar da
vida espiritual, se houvera pretendido dizer que aqueles que tinham sido
executados não estavam mortos em espírito, teria dito "ainda vivem", e não
"viverão de novo". No sentido espiritual, seria um contra-senso, pois implicaria
uma interrupção na vida da alma. No sentido da regeneração moral, seria a
negação das penas eternas, pois estabelece, em princípio, que todos os que estão
mortos viverão".
E Job, no cap. XIV, v. 10 a 14, na versão da Igreja grega, assim escreve:
Quando o homem está morto, vive sempre; acabando os dias da minha existência
terrestre, esperarei, porquanto a ela voltarei de novo.
"...O princípio da pluralidade das existências acha-se claramente expresso...
A versão da Igreja grega é mais explícita, se é que isso é possível. "Acabando
os dias da minha existência terrena, esperarei, porquanto a ela voltarei, ou
voltarei à existência terrestre. Isto é tão claro como se alguém dissesse: "Saio
de minha casa, mas a ela tornarei".
Em várias passagens dos Evangelhos aparece claramente a ideia da reencarnação,
sendo referida pelos evangelistas, demonstrando que era ponto de uma das crenças
fundamentais dos judeus.
1. "Jesus, tendo vindo às cercanias de Cesareia de Filipe, interrogou assim
seus discípulos: "Que dizem os homens em relação ao Filho do Homem? Quem dizem
que eu sou?". Eles lhe respondem: "Dizem uns que és João Baptista; outros, que
Elias; outros, que Jeremias, ou algum dos profetas". Perguntou-lhes Jesus: "E
vós, quem dizeis que eu sou?". Simão Pedro, tomando a palavra, respondeu: "Tu és
o Cristo, o Filho do Deus vivo"... (S. Mateus, cap.XVI, vv. 13 a 17; S. Marcos,
cap. VIII, vv. 27 a 30).
2. "Nesse interim, Herodes, o Tetrarca, ouvira falar de tudo o que fazia
Jesus, e seu espírito se achava em suspenso - porque uns diziam que João
Baptista ressuscitara dentre os mortos; outros que aparecera Elias; e outros que
um dos antigos profetas ressuscitara. Disse então Herodes: "Mandei cortar a
cabeça a João Baptista; quem é então esse de quem ouço dizer tão grandes
coisas?" E ardia por vê-lo. (S. Marcos, cap. VI, vv. 14 a 16; S. Lucas, cap. IX,
vv. 7 a 9).
3. "Após a transfiguração, os seus discípulos então
o interrogaram desta forma: "Porque dizem os escribas ser preciso que antes
volte Elias?". Jesus lhes respondeu: "É verdade que Elias há-de vir e
restabelecer todas as coisas, mas eu vos declaro que Elias já veio e eles não o
conheceram e o trataram como lhes aprouve. É assim que farão sofrer o Filho do
Homem". Então seus discípulos compreenderam que fora de João Baptista que ele
falara". (S. Mateus, cap. XVII, vv. 10 a 13; S. Marcos, cap. IX, vv. 11 a 13).
"A ideia de que João Baptista era Elias e de que os profetas podiam reviver
na Terra está em muitas passagens dos Evangelhos, notadamente nas acima
reproduzidas (n.º 1, 2 e 3). Se fosse errónea essa crença, Jesus não houvera
deixado de a combater, como combateu tantas outras".
Ainda o Evangelho de S. João apresenta afirmação mais categórica do Cristo
com referência à doutrina das vidas sucessivas: Ora, entre os fariseus, havia um
homem chamado Nicodemos, senador dos judeus, que veio à noite ter com Jesus e
lhe disse: "Mestre, sabemos que vieste da parte de Deus para nos instruir como
um doutor, porquanto ninguém poderia fazer os milagres que fazes se Deus não
estivesse com ele". Jesus lhe respondeu: "Em verdade, em verdade, te digo,
ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo".
Disse-lhe Nicodemos: "Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a
entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez?"
Retorquiu-lhe Jesus: "Em verdade, em verdade, te digo: Se um homem não
renasce da água e do espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido
da carne é carne e o que é nascido do espírito é espírito. Não te admires de que
eu te haja dito ser preciso que nasças de novo..."
Respondeu-lhe Nicodemos: "Como pode isso fazer-se? - Jesus lhe observou:
"Pois quê! És mestre em Israel e ignoras estas coisas?"... (S. João, cap. III,
vv. 1 a 12).
"Esta última observação do Cristo mostra bem que ele se surpreendeu não
conhecesse um mestre em Israel a reencarnação, porque ela era ensinada como
doutrina secreta aos intelectuais da época.
"Uma das provas que se pode apresentar é a de que existiam ensinos ocultos ao
comum dos homens, e que foram compilados nas diferentes obras que constituem a
Cabala.
"No ensino secreto, reservado aos iniciados, proclamava-se a imortalidade da
alma, as vidas sucessivas e a pluralidade dos mundos habitados.
"Não há dúvida de que, sob o nome de ressurreição, o princípio da
reencarnação era ponto de uma das crenças fundamentais dos judeus, ponto que
Jesus e os profetas confirmaram de modo formal; donde se segue que negar a
reencarnação é negar as palavras do Cristo. Um dia, porém, as suas palavras,
quando forem meditadas sem ideias preconcebidas, reconhecer-se-ão autorizadas
quanto a esse ponto, bem como em relação a muitos outros.
"A essa autoridade, do ponto de vista religioso, se adita, do ponto de vista
filosófico, a das provas que resultam da observação dos factos. Quando se trata
de remontar dos efeitos às causas, a reencarnação surge como de necessidade
absoluta, como condição inerente à humanidade; numa palavra: como lei da
natureza...
"Sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências
são ininteligíveis, na sua maioria, as máximas do Evangelho, razão por que têm
dado lugar a tão contraditórias interpretações. Somente esse princípio lhes
restituirá o sentido verdadeiro".
2.6. REENCARNAÇÃO E EVOLUÇÃO ANÍMICA
"Tomando-se a humanidade no grau mais ínfimo da escala espiritual,
perguntar-se-á se é aí o ponto inicial da alma humana.
"Na opinião de alguns filósofos espiritualistas, o princípio inteligente,
distinto do princípio material, individualiza-se e elabora-se, passando pelos
diversos graus da animalidade. É aí que a alma se ensaia para a vida e
desenvolve, pelo exercício, as suas primeiras faculdades. Esse seria para ela,
por assim dizer, o período de incubação. Chegada ao grau de desenvolvimento que
esse estado comporta, ela recebe as faculdades especiais que constituem a alma
humana. Haveria assim filiação espiritual do animal para o homem, como há
filiação corporal.
"Este sistema, fundado na grande lei de unidade que preside à criação,
corresponde, forçoso é convir, à justiça e à bondade do Criador; dá uma saída,
uma finalidade, um destino aos animais, que deixam então de formar uma categoria
de seres deserdados, para terem, no futuro que lhes está reservado, uma
compensação para os seus sofrimentos. O que constitui o homem espiritual não é a
sua origem: são os atributos especiais de que ele se apresenta dotado ao entrar
na humanidade, atributos que o transformam, tornando-o um ser distinto, como o
fruto saboroso é distinto da raiz amarga que lhe deu origem. Por haver passado
pela fieira da animalidade, o homem não deixaria de ser homem; já não seria
animal, como o fruto não é a raiz, como o sábio não é o feto informe que o pôs
no mundo".
"O sentimento da justiça absoluta diz-nos também que o animal, tanto quanto o
homem, não deve viver e sofrer para o nada. Uma cadeia ascendente e contínua
liga todas as criações; o mineral ao vegetal, o vegetal ao animal, e este ao
ente humano...
" A alma elabora-se no seio dos organismos rudimentares. No animal está
apenas em estado embrionário; no homem adquire o conhecimento, e não mais pode
retrogradar. Porém, em todos os graus ela prepara e conforma o seu invólucro. As
formas sucessivas que reveste são a expressão do seu valor próprio. A situação
que ocupa na escala dos seres está em relação directa com o seu estado de
adiantamento".
"A finalidade da alma é o desenvolvimento de todas as faculdades a ela
inerentes. Para consegui-lo, ela é obrigada a encarnar grande número de vezes,
na Terra, a fim de acendrar suas faculdades morais e intelectuais, enquanto
aprende a senhorear e governar a matéria. É mediante uma evolução ininterrupta,
a partir das formas de vida mais rudimentares, até à condição humana, que o
princípio pensante conquista, lentamente, a sua individualidade. Chegado a esse
estágio, cumpre-lhes fazer eclodir a sua espiritualidade, dominando os instintos
remanescentes da sua passagem pelas formas inferiores, a fim de elevar-se, na
série das transformações, para destinos sempre mais altos".
"No dia em que a alma, libertando-se das formas animais e chegando ao estado
humano, conquistar a sua autonomia, a sua responsabilidade moral, e compreender
o dever, nem por isso atinge o seu fim ou termina a sua evolução. Longe de
acabar, agora é que começa a sua obra real; novas tarefas a chamam. As lutas do
passado nada são ao lado das que o futuro lhe reserva. Os seus renascimentos em
corpos carnais se sucederão...".
2.7. REENCARNAÇÃO E EVOLUÇÃO DO HOMEM
"Quando o espírito tem de encarnar num corpo humano em vias de formação, um
laço fluídico, que mais não é do que uma expansão do seu perispírito, liga-o ao
germe que o atrai com uma força irresistível, desde o momento da concepção. À
medida que o germe se desenvolve, o laço encurta-se. Sob a influência do
princípio vital - material do germe -, o perispírito, que possui certas
propriedades da matéria, une-se, molécula a molécula, ao corpo em formação,
donde o poder dizer-se que o espírito, por intermédio do seu perispírito, se
enraíza, de certa maneira, nesse gérmen, como uma planta na terra. Quando o
gérmen chega ao seu pleno desenvolvimento, completa é a união; nasce então o ser
para a vida exterior".
"À medida que o espírito se purifica, o corpo que o reveste aproxima-se
igualmente da natureza espírita. Torna-se-lhe menos densa a matéria, deixa de
rastejar penosamente pela superfície do solo, menos grosseiras se lhe fazem as
necessidades físicas, não mais sendo preciso que os seres vivos se destruam
mutuamente para se nutrirem. O espírito acha-se mais livre, e tem, das coisas
longínquas, percepções que desconhecemos. Vê com os olhos do corpo o que só pelo
pensamento entrevemos.
"Da purificação do espírito decorre o aperfeiçoamento moral para os seres que
eles constituem, quando encarnados. As paixões animais enfraquecem-se e o
egoísmo cede lugar ao sentimento de fraternidade. Assim é que, nos mundos
superiores ao nosso, se desconhecem as guerras, carecendo de objecto os ódios e
as discórdias, porque ninguém pensa em causar dano ao seu semelhante. A intuição
que seus habitantes têm do futuro, a segurança que uma consciência isenta de
remorsos lhes dá, fazem com que a morte nenhuma apreensão lhes cause. Encaram-na
de frente, sem temor, como simples transformação.
"A duração da vida, nos diferentes mundos, parece guardar proporção com o
grau de superioridade física e moral de cada um, o que é perfeitamente racional.
Quanto menos material o corpo, menos sujeito às vicissitudes que o desorganizam.
Quanto mais puro o espírito, menos paixões a miná-lo. É essa ainda uma graça da
Providência, que desse modo abrevia os sofrimentos".
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