Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
2. Pluralidade
dos mundos habitados
Os globos que se movem no espaço são habitados?
- Sim, e o homem terreno está longe de ser, como supõe, o primeiro em
inteligência, em bondade e em perfeição. Entretanto, há homens que se têm por
espíritos muito fortes e que imaginam pertencer a este pequenino globo o
privilégio de conter seres racionais. Orgulho e vaidade! Julgam que só para eles
criou Deus o universo.
"Deus
povoou de seres vivos os mundos, concorrendo todos esses seres para o objectivo
final da Providência. Acreditar que só os haja no planeta que habitamos seria
duvidar da sabedoria de Deus, que não fez coisa inútil. Certo, a esses mundos
há-de ele ter dado um destino mais sério do que o de nos recrearem a vista.
Aliás, nada há, nem na posição, nem no volume, nem na constituição física da
Terra, que possa induzir à suposição de que ela goze o privilégio de ser
habitada, com exclusão de tantos milhares de milhões de mundos semelhantes.
"As condições de existência dos seres que habitam os diferentes mundos hão-de
ser adequadas ao meio em que lhes cumpre viver. Se jamais tivéssemos visto
peixes, não compreenderíamos que pudesse haver seres que vivessem dentro de
água. Assim acontece em relação aos outros mundos que, sem dúvida, contêm
elementos que desconhecemos. Não vemos na Terra as longas noites polares
iluminadas pela electricidade das auroras boreais? Que há de impossível em ser a
electricidade, nalguns mundos, mais abundante do que na Terra e desempenhar
neles uma função de ordem geral, cujos efeitos não podemos compreender? Bem pode
suceder, portanto, que esses mundos tragam em si mesmos as fontes de calor e luz
necessárias aos seus habitantes."
2.1. ESTUDO HISTÓRICO
Esta crença íntima que nos mostra o universo como um vasto império em que a
vida se desenvolve sob as formas mais variadas, em que milhares de nações vivem
simultaneamente na extensão dos céus, parece contemporânea do estabelecimento da
inteligência humana sobre a Terra... Todos os povos, e principalmente os hindus,
chineses e árabes, conservaram até aos nossos dias tradições teogónicas, em que
se reconhece, entre os dogmas antigos, aquele da pluralidade das habitações
humanas nos mundos que brilham por cima da nossa cabeça; e remontando às
primeiras páginas dos anais históricos da humanidade encontra-se esta mesma
ideia, ou religiosa, pela transmigração das almas e seu estado futuro, ou
astronómica, simplesmente pela habitabilidade dos astros.
"Os livros mais antigos que possuímos, os Vedas, génese antiga dos hindus,
professam a doutrina da pluralidade das habitações da alma humana nos astros;
... para nos atermos à doutrina da pluralidade dos mundos, e à Antiguidade
histórica e clássica, que é a única que podemos estudar com algum fundamento de
certeza, notaremos, primeiramente, que o Egipto, berço da filosofia asiática,
tinha ensinado aos seus sábios esta antiga doutrina. Talvez os egípcios não a
estendessem então senão aos sete planetas principais e à Lua, que chamavam de
terra etérea; seja como for, é notório que professavam altamente esta crença.*
"A maior parte das seitas gregas ensinaram-na, ou abertamente, a todos os
discípulos sem distinção, ou em segredo, aos iniciados da filosofia...
"Os filósofos da mais antiga seita grega, a seita jónica, cujo instituidor,
Thales, acreditava que as estrelas eram formadas da mesma substância que a
Terra, perpetuaram no seu seio as ideias da tradição egípcia, implantadas na
Grécia. Anaximandro e Anaximene, sucessores imediatos do chefe da escola,
ensinaram a pluralidade dos mundos, doutrina que foi mais tarde espalhada por
Empédocles, Aristarco, Leucipo e outros... Anaxágoras ensinou a habitabilidade
como artigo de crença filosófica... Partidário famoso do movimento da Terra, é
notável que a sua opinião suscitasse em redor dele invejosos e fanáticos e que,
por haver dito que o Sol era maior que o Peloponeso, fosse perseguido e quase
assassinado...
"O primeiro dos gregos que teve nome de filósofo, Pitágoras, ensinava ao
público a imobilidade da Terra e o movimento dos astros em redor dela, e aos
seus adeptos privilegiados declarava a sua crença no movimento da Terra como
planeta e na pluralidade dos mundos...
"A escola de Epicuro ensinou a pluralidade dos mundos; e a maior parte dos
seus adeptos não compreendiam somente os corpos planetários debaixo do título de
mundos habitáveis, porém, acreditavam ainda na habitabilidade de uma multidão de
corpos celestes disseminados no espaço... Metródoro de Lampsaque, entre outros,
achava que seria tão absurdo reconhecer um só mundo habitado no espaço infinito
como dizer que não poderia crescer mais do que uma espiga de milho num campo
vasto. Anaxarque dizia a mesma coisa a Alexandre, o Grande, admirando-se, quando
havia tantos mundos habitados, de ter ele ocupado, com a sua glória, somente
um...
"Um grande número de sectários da escola epicurista, entre os quais citaremos
Lucrécio, acreditou não só na pluralidade como, ainda mais, na infinidade dos
mundos. Afirmava ele: "Todo este universo visível não é único na natureza, e
devemos crer que há, em outras regiões do espaço, outras terras, outros seres e
outros homens...". E acrescentava: "Se as inúmeras ondas criadoras se agitam e
nadam, sob mil formas variadas e através do oceano do espaço infinito, não
teriam produzido, na sua luta fecunda, senão o orbe Terra e a sua abóbada
celeste? É crível que além deste mundo uma vasta aglomeração de elementos se
condene a um ocioso repouso? Não, não; se os princípios geradores deram
nascimento às massas donde saíram o céu, as ondas, a Terra e seus habitantes,
devemos convir que, no resto do vácuo, os elementos da matéria engendraram um
sem-número de seres animados, de mares, de céus e terras, e semearam o espaço de
mundos semelhantes àquele que se balança, debaixo dos nossos passos, nas ondas
aéreas."
"Em seguida, e isto durou um milénio e meio, a religião cristã, vitoriosa,
deveria estabelecer a Terra, conforme os ensinamentos de Ptolomeu, como centro
do universo, cerceando o aprofundamento das teorias da multiplicidade dos mundos
habitados. Foi o grande astrónomo polaco Copérnico quem, depois de haver
derrubado o sistema de Ptolomeu, pela primeira vez demonstrou à humanidade o
verdadeiro lugar que lhe competia. Estando a Terra "colocada em seu devido
lugar", a possibilidade de vida em outros planetas passava a ter um fundamento
científico. As primeiras observações feitas com o auxílio do telescópio, com as
quais inaugurava Galileu uma nova era para a astronomia, inflamaram a imaginação
dos contemporâneos. Tornou-se claro que os planetas eram corpos celestes
bastante parecidos com a Terra. E isto levava naturalmente à formulação da
pergunta: Porque haveria o nosso Sol de ser o único astro acompanhado de um
séquito de planetas? O grande pensador Giordano Bruno exprimiu essas audaciosas
ideias revestindo-as de uma forma clara e inequívoca: "Existe uma infinidade de
sóis e de terras girando em torno de seus sóis, tal como os nossos sete planetas
giram em torno do nosso Sol... seres vivos habitam esses mundos." Foram cruéis
as represálias da Igreja Católica: declarado herege pelo Santo Ofício, Bruno
morreu queimado, em Roma, no Campo dei Fiori, no dia 17 de Fevereiro de 1600...
"Na segunda metade do século XVI, e durante o século XVII, sábios, filósofos
e escritores consagraram um bom número de livros a esse problema, no universo.
Enumeremos Cyrano de Bergerac, Fontenelle, Huygens, Voltaire....
"Vejamos o sábio russo Lomonossov, vejamos Kant, Laplace, Herschel, e
haveremos de observar que a ideia da pluralidade dos mundos habitados se
difundiu absolutamente por toda a parte, sem que ninguém, ou quase ninguém, nos
meios científicos e filosóficos, se atrevesse a levantar a voz contra ela.
Poucos foram os que se dispuseram a alertar a opinião geral contra a concepção
que apresentava todos os planetas como outros tantos focos de vida, e de vida
consciente.
"Na segunda metade do século XIX, o livro de Flamarion "La Pluralité des
Mondes Habités" conheceu enorme popularidade: somente na França, foi trinta
vezes reeditado em vinte anos, tendo sido traduzido para vários idiomas.
Partindo de posições idealistas, Flamarion admitia ser a vida o objectivo final
da formação dos planetas. Revelando um apurado senso de humor e redigidos em
estilo muito vivo, embora algo rebuscado, os seus livros causaram excelente
impressão sobre os seus conterrâneos. O leitor actual impressiona-se, sobretudo,
pela desproporção existente entre a quantidade insignificante de conhecimentos
exactos sobre a natureza dos corpos celestes (a astrofísica mal acabara de
nascer) e o tom incisivo adoptado pelo autor para afirmar a pluralidade dos
mundos habitados... Flamarion dirigia-se mais à sensibilidade que ao raciocínio.
"O russo Constantin Tsiolkovski, pai da astronáutica, foi um ardoroso
defensor dos mundos habitados. Reproduziremos apenas algumas das suas frases:
"Será lícito imaginar uma Europa povoada e as outras partes do mundo não?". E de
seguida: "Os diversos planetas apresentam as diversas fases da evolução dos
seres vivos. O que foi a humanidade há alguns milhares de anos, o que virá a ser
dentro de alguns milhões de anos, tudo isto poderemos aprender interrogando os
planetas...".
"A história da pluralidade dos mundos habitados está intimamente ligada à das
concepções cosmogónicas. Assim, durante a primeira terça parte do século XX,
quando tinha livre curso a hipótese cosmogónica de Jeans, segundo a qual o Sol
devia o seu cortejo de planetas a uma catástrofe cósmica extremamente rara (o
semichoque de duas estrelas), a maioria dos sábios considerava a vida como um
fenómeno excepcional no universo.
A nossa galáxia conta mais de cem biliões de estrelas: parecia bastante
improvável, portanto, que nela não se encontrasse pelo menos uma - sem falar no
Sol - que não contasse com um sistema planetário. A derrocada da teoria de Jeans,
depois de 1930, e a ascensão da astrofísica, têm grandes probabilidades de nos
levar à conclusão de que existem na nossa galáxia sistemas planetários em grande
quantidade, constituindo o sistema solar mais uma regra do que uma excepção no
mundo dos astros. Contudo, ainda não está suficientemente demonstrada esta tão
provável suposição.
"A União Soviética, ao colocar em órbita, no dia 4 de Outubro de 1957, o
primeiro satélite artificial da Terra, inaugurou uma etapa inteiramente nova na
história da ideia da pluralidade dos mundos habitados. A partir de então foram
rápidos os progressos obtidos no estudo e na conquista do espaço
circum-terrestre, coroado pelos voos dos cosmonautas soviéticos e,
posteriormente, pelos americanos. Os homens tomaram subitamente consciência do
facto de habitarem um minúsculo planeta solto na imensidão do espaço cósmico.
Todos, é claro, tinham aprendido um pouquinho de astronomia na escola... e,
teoricamente, ninguém ignorava a situação da Terra no cosmo; a actividade
prática, no entanto, continuava dirigida por um geocentrismo espontâneo. Por
este motivo nunca será demasiado insistir em recordar a revolução esperada na
consciência dos homens nesta fase inicial de uma nova era da história humana,
era do estudo directo e, algum dia, da conquista do cosmo.
"Assim, o problema da existência de vida em outros mundos saiu do campo da
abstracção, para adquirir uma significação concreta. Estará resolvido
experimentalmente, dentro de alguns anos, na parte referente aos planetas do
sistema solar... (Introdução do trabalho de Slklovski, director do Instituto de
Astronomia da Universidade de Moscovo, citado por Pauwels e Bergier)".
"A partir de Copérnico e Galileu, as velhas cosmogonias deixaram para sempre
de subsistir. A astronomia só podia avançar, não recuar. A história diz das
lutas que esses homens de génio tiveram de sustentar contra os preconceitos e,
sobretudo, contra o espírito de seita, interessado em manter erros sobre os
quais se tinham fundados crenças supostamente firmadas em bases inabaláveis.
Bastou a invenção de um instrumento de óptica para derrocar uma construção de
muitos milhares de anos....".
2.2. PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA À DOUTRINA DOS MUNDOS HABITADOS
Para tolher o progresso da ciência, coibir a liberdade de pensamento e
combater a doutrina da pluralidade dos mundos habitados, que vinha colocar em
descrédito a interpretação literal dos livros sagrados, a religião tomou como
estandarte as palavras de Tertuliano: "Não temos necessidade de nenhuma ciência
depois do Cristo, nem de nenhuma prova depois do Evangelho; quem crê nada mais
deseja; a ignorância é boa, em geral, para que não se chegue a conhecer o que é
inconveniente."
A interpretação errónea dos livros sagrados sobre a imobilidade da Terra
cobria já com um véu espesso os olhos dos homens desejosos de conhecer, e a
aceitação tácita do pensamento de Tertuliano, reverenciado por muitos como
sentença, encobriu a doutrina da pluralidade dos mundos habitados durante
séculos e séculos.
Da parte da religião havia necessidade de um ferrenho combate a essa
doutrina, porque contrariava os seus dogmas. Analisemos esses dogmas.
2.2.1. A ENCARNAÇÃO DE DEUS SOBRE A TERRA
Essa doutrina traria aos teólogos enorme dificuldade para responder à
questão: "A Terra que habitamos, não sendo mais do que um átomo insignificante
na universalidade dos mundos, sobre o que fundaria o privilégio com que a
gratificaram de ter sido o objecto especial da complacência divina, de haver
recebido em sua habitação o próprio Eterno, que não desdenhara descer a
encarnar-se num pouco de poeira terrestre?
"...O homem, criatura que Deus fez à sua imagem, peca e cai logo no primeiro
dia da sua existência; Deus, cheio de uma bondade compassiva, desce Ele próprio
para levantá-lo. Eis aí uma crença muito doce e consoladora para o homem, que
pode apresentar sem demasiados mistérios, o que os espíritos mais simples podem
aceitar e compreender. Porém, já não é assim desde que a revelação astronómica
faz perder à Terra e ao homem todo o seu prestígio, ao mesmo tempo que eleva
Deus a uma altura inacessível. Esta Terra privilegiada, que digo eu, esta Terra
única, estava outrora envolvida numa auréola resplandecente; porém, um belo dia
os nossos olhos abriram-se, olhámo-la na face, esta Terra cercada de glória, e
repentinamente a sua auréola brilhante dissipa-se, o palácio dos homens perdeu a
sua riqueza aparente, afundou-se na obscuridade, e logo uma multidão de outras
terras apareceu atrás dele, enchendo espaços sem fim. Desde então o aspecto do
mundo modificou-se, e com ele crenças que até então pareciam estar solidamente
fundadas.
"Desde a época de Copérnico e Galileu sentira-se, em toda a sua profundidade,
as dificuldades que o novo sistema do mundo ia suscitar contra o dogma do Verbo
encarnado; e não obstante... não se deve ver somente um negócio de ciúme ou de
jesuitismo no memorável processo de Galileu. Não é a pessoa do ilustre toscano
que tiveram em vista, porém os princípios que ele defendia... O movimento da
Terra, uma vez demonstrado, a Igreja deveria desde então interpretar num sentido
figurado as passagens das Escrituras que lhe são contrárias."
2.2.2. A CRIAÇÃO DOS ASTROS NA GÉNESE BÍBLICA
A doutrina da pluralidade dos mundos habitados viria a trazer problemas
inúmeros para a interpretação do Génesis, de Moisés, que afirma terem sido os
astros criados somente no quarto dia da criação, para iluminar a Terra e
marcar-lhe o tempo e as estações do ano.
"E disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação
entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e
para dias e para anos.
"E sejam para luminares na expansão dos céus, para alumiar a Terra. E assim
foi.
"E fez Deus os dois grandes luminares; o luminar maior para governar o dia, e
o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas.
"E Deus os pôs na expansão dos céus para alumiar a Terra.
"E para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as
trevas. E viu Deus que era bom.
"E foi a tarde e a manhã do dia quarto."
(Génesis, Moisés, cap. I, v. 14 a 19)
A Terra, não sendo mais privilegiada de entre as demais obras da criação
universal, colocaria em posição difícil aqueles que ainda lutavam para que os
livros sagrados fossem interpretados segundo a letra, e não conforme o espírito,
que vivifica. Demonstrando a astronomia que os mundos se sucedem ao infinito e
que a Terra gravita em torno do Sol, como conciliar a ideia de que só depois de
formar este planeta, no quarto dia, teria o Criador criado o Sol e a Lua?
Surgiu, então, a necessidade do combate sem tréguas da religião dogmática à
doutrina dos mundos habitados.
2.2.3. A DESCENDÊNCIA ADÂMICA
Com a pluralidade dos mundos habitados cairia por terra a doutrina de um
único casal, criado à imagem e semelhança de Deus, para povoar toda a Terra, e
únicas criaturas do universo. Também a doutrina do pecado original estaria
invalidada.
Havendo outros mundos e outros habitantes longe da Terra, por certo não
descenderiam de Adão, e como tal Deus houvera criado, noutros lugares e noutro
tempo, as suas criaturas, que também deveriam lutar, sofrer, aprender, progredir
na grande marcha evolutiva, que se constitui lei do universo. E essas criaturas
ligação nenhuma teriam com o "pecado original" do casal primitivo, que afirmam
ser herança "inesgotável" dos viventes da Terra.
2.2.4. A PARADA DO SOL E DA LUA
"Então Josué falou ao Senhor no dia em que o Senhor deu os amorreus na mão
dos filhos de Israel, e disse, aos olhos dos israelitas: Sol, detém-te em
Gibeão, e tu, Lua, no vale da Aijalom.
"E o Sol se deteve, e a Lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos.
Isto não está escrito no livro de Recto? O Sol, pois, deteve-se no meio do céu,
e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro." (Josué, cap. 10, v. 12 e 13)
As observações da astronomia contrariam a passagem acima; comprovando que a
Terra é que se move ao redor do Sol, só poderiam gerar revoltas e perseguições,
como as sofridas por Giordano Bruno e Galileu Galilei.
Desaparecendo o suposto privilégio da Terra, por ser igual a milhões e
milhões de mundos, também desapareceria a ideia de um povo eleito, em detrimento
de outros, e mesmo girando a Terra em redor do Sol não poderia o Senhor parar
este, para que o dia se prolongasse até que a batalha fosse vencida.
Tais argumentos colocariam em risco a credibilidade das escrituras sagradas,
daí as perseguições às teorias heliocêntricas e da pluralidade dos mundos
habitados.
2.2.5. A SALVAÇÃO DA HUMANIDADE PELO SANGUE DE JESUS
Diz o dogma que o Cristo deu a sua vida em holocausto para que o seu sangue
lavasse a alma do homem, manchada pelo pecado original.
Com a doutrina da pluralidade dos mundos habitados, existindo então
comunidades que não estariam vinculadas ao pecado original, cometido pelo
primeiro casal da Terra, já não haveria lógica na salvação pelo sangue derramado
do Cordeiro Divino.
Para que esse dogma continuasse a vigorar entre os crentes não poderia haver
outro mundo habitado além da Terra, e toda a humanidade deveria descender do
casal inicial e trazer consigo a mácula da desobediência perpetrada por eles à
ordem do Senhor e necessitar do sangue de Jesus para redimi-los.
2.3. HÁ MUITAS MORADAS NA CASA DE MEU PAI
"Não se turbe o vosso coração. Crede em Deus, crede também em mim. Há muitas
moradas na casa de meu Pai; se assim não fosse já vo-lo teria dito, pois me vou
para vos preparar o lugar." (S. João, cap. XIV, v. 1)
"A casa do Pai é o Universo. As diferentes moradas são os mundos que circulam
no espaço infinito e oferecem, aos espíritos que neles encarnam, moradas
correspondentes ao adiantamento dos mesmos espíritos...
"Do ensino dado pelos espíritos resulta que muito diferentes umas das outras
são as condições dos mundos, quanto ao grau de adiantamento ou de inferioridade
dos seus habitantes. Entre eles há os que são inferiores à Terra, física e
moralmente; outros, da mesma categoria que o nosso; e outros que lhe são mais ou
menos superiores em todos os aspectos. Nos mundos inferiores, a existência é
toda material, reinam soberanas as paixões, sendo quase nula a vida moral. À
medida que esta se desenvolve, diminui a influência da matéria, de tal maneira
que, nos mundos mais adiantados, a vida é, por assim dizer, toda espiritual.
"Nos mundos intermediários misturam-se o bem e o mal, predominando um ou
outro, segundo o grau de adiantamento da maioria de quem os habita. Embora se
não possa fazer, dos diversos mundos, uma classificação absoluta, pode-se,
contudo, em virtude do estado em que se acham e da destinação que trazem,
tomando por base os matizes mais adiantados, dividi-los, de modo geral, como
segue: mundos primitivos, destinados às primeiras encarnações da alma humana;
mundos de expiação e provas, onde domina o mal; mundos de regeneração, nos quais
as almas que ainda têm que expiar haurem novas forças, repousando das fadigas
das lutas; mundos ditosos, onde o bem sobrepuja o mal; mundos celestes ou
divinos, habitações de espíritos depurados, onde exclusivamente reina o bem. A
Terra pertence à categoria dos mundos de expiação e provas, razão por que aí
vive o homem a braços com tantas misérias."
2.4. UNIVERSO INFINITO - EVIDÊNCIA RACIONAL DA EXISTÊNCIA DE OUTROS MUNDOS
HABITADOS
Buscando argumentos racionais que justifiquem a doutrina da pluralidade dos
mundos habitados não se pode olvidar a vastidão do universo, com os seus
incontáveis planetas, sistemas solares, galáxias, etc.
Com o avanço da astronomia e da astrofísica evidencia-se um universo
infinito, e afirmar que só a Terra teria o "privilégio" de possuir uma
humanidade seria condenar essa humanidade a ser excepção dentro das leis
naturais ou divinas.
A ideia de ser o universo infinito surgiu com Filipo Giordano Bruno, um
ex-monge dominicano de 52 anos de idade, que foi queimado publicamente depois de
passar sete anos no cárcere por causa das suas ideias heréticas e por se recusar
a abjurar as suas crenças diante da Inquisição romana.
"Ao contrário de Galileu Galilei, que, alquebrado, alguns anos mais tarde
abjurou a teoria de Copérnico (continuando, porém, a desenvolver com os seus
discípulos uma moderna cosmologia, no seu exílio em Arcetri, perto de Florença),
Giordano Bruno não pôde ser convencido pela Inquisição a abjurar as suas
teorias. Estas não se resumiam apenas na defesa do sistema de Copérnico, que
irritava a Igreja, mas incluíam também a sua opinião de que o universo não era
limitado por um invólucro, mas sim formado por uma quantidade infinita de
estrelas, sendo imensuravelmente grande...". (4)
No cap. VI de "A Génese", de Allan Kardec, temos um trecho da comunicação de
Galileu a Camille Flamarion.
Nele encontra-se o seguinte: "...Com efeito, a Via Láctea é uma campina
matizada de flores solares e planetárias, que brilham em toda a sua extensão. O
nosso Sol e todos os corpos que o acompanham fazem parte desse conjunto de
globos radiosos que formam a Via Láctea. Mau grado as suas proporções
gigantescas, relativamente à Terra, e à grandeza do seu império, ele, o Sol,
ocupa inapreciável lugar em tão vasta criação. Podem contar-se por uma trintena
de milhões os sóis que, à sua semelhança, gravitam nessa imensa região,
afastados uns dos outros mais de cem mil vezes o raio da órbita terrestre.**
"Por esse cálculo aproximativo se pode julgar da extensão de tal região
sideral e da relação que existe entre o nosso sistema planetário e a
universalidade dos sistemas que ela contém. Pode-se igualmente julgar da
exiguidade do domínio solar e, a fortiori, do nada que é a nossa pequenina
Terra...
"Assim, fica-se a conhecer a posição que o nosso Sol ou a Terra ocupam no
mundo das estrelas. Ainda maior peso ganharão estas considerações se
reflectirmos sobre a própria Via Láctea que, na imensidade das criações
siderais, não representa mais do que um ponto insensível e inapreciável, vista
de longe, porquanto ela não é mais do que uma nebulosa estelar, entre os milhões
das que existem no espaço. Se ela nos parece mais vasta e mais rica do que as
outras é pela única razão de que nos cerca e se desenvolve em toda a sua
extensão sob os nossos olhares, ao passo que as outras, sumidas nas profundezas
insondáveis, mal se deixam entrever.
"Ora, sabendo-se que a Terra nada é, ou quase nada, no sistema solar; que
este nada é, ou quase nada, na Via Láctea; esta, por sua vez, nada, ou quase
nada, na universalidade das nebulosas, e essa própria universalidade bem pouca
coisa dentro do imensurável infinito, começa-se a compreender o que é o globo
terrestre."
* Hoje sabe-se que há centenas de biliões de sóis na Via Láctea ("Universo -
A Grande Enciclopédia para todos" - Editora Delta - Editora Três - Edição 1973).
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