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Curso Básico de Espiritismo

Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal

1. Transmigrações progressivas

"A vida do espírito, no seu conjunto, apresenta as mesmas fases que observamos na vida corporal. Ele passa, gradualmente, do estado de embrião ao de infância, para chegar, percorrendo sucessivos períodos, ao de adulto, que é o da perfeição, com a diferença de que para o espírito não há declínio, nem decrepitude, como na vida corporal; que a sua vida, que teve começo, não terá fim; que imenso tempo lhe é necessário, do nosso ponto de vista, para passar da infância espiritual ao completo desenvolvimento; e que o seu processo se realiza não num único mundo, mas vivendo ele em mundos diversos.

A vida do espírito, pois compõe-se de uma série de existências corpóreas, cada uma das quais representa para ele uma ocasião de progredir, do mesmo modo que cada existência corporal se compõe de uma série de dias, em cada um dos quais o homem obtém um acréscimo de experiência e de instrução. Mas assim como na vida do homem há dias que nenhum fruto produzem, na do espírito há existências corporais de que ele nenhum resultado colhe, porque não as soube aproveitar." *

Ninguém, por um proceder impecável na vida actual, poderá transpor todos os graus da escala do aperfeiçoamento e tornar-se espírito puro, sem passar por graus intermediários.

..."O que o homem julga perfeito longe está da perfeição. Há qualidades que lhe são desconhecidas e incompreensíveis. Poderá ser tão perfeito quanto o comporte a sua natureza terrena, mas isso não é a perfeição absoluta. Dá-se com o espírito o que se verifica com a criança que, por mais precoce que seja, tem de passar pela juventude, antes de chegar à idade da madureza; e também com o enfermo que, para recobrar a saúde, tem que passar pela convalescença. Além disso, ao espírito cumpre progredir em ciência e moral. Se somente se adiantou num sentido importa que se adiante no outro, para atingir o extremo superior da escala. Contudo, quanto mais o homem se adiantar na sua vida actual tanto menos longas e penosas lhe serão as provas que se seguirem."

Nas suas novas existências poderá um homem descer mais baixo do que esteja na actual, somente do ponto de vista social, mas não como espírito.

"A marcha dos espíritos é progressiva, jamais retrograda. Eles elevam-se gradualmente na hierarquia e não descem da categoria a que ascenderam. Nas suas diferentes existências corporais podem descer como homens, não como espíritos. Assim, a alma de um potentado da Terra pode mais tarde animar o mais humilde obreiro, e vice-versa; por isso é que, entre os homens, as categorias estão, frequentemente, na razão inversa da elevação das qualidades morais. Herodes era rei e Jesus carpinteiro."

Aquele que pensa em perseverar no mau caminho, baseado na possibilidade de melhorar-se em outra existência, poderá corrigir-se mais tarde, está equivocado, em nada crê, e a ideia de um castigo eterno não o refrearia mais do que qualquer outra, porque a sua razão a repele, e semelhante ideia induz à incredulidade, a despeito de tudo. Se unicamente meios racionais se tivessem empregado para guiar os homens não haveria tantos cépticos. De facto, um espírito imperfeito poderá, durante a vida corporal, pensar como dizes; mas liberto que se veja da matéria pensará de outro modo, pois logo verificará que fez cálculo errado e, então, sentimento oposto a esse trará ele para a sua nova existência. É assim que se efectua o progresso, e essa é a razão por que, na Terra, os homens são desigualmente adiantados. Uns já dispõem de experiências que a outros faltam, mas que adquirirão pouco a pouco. Deles depende o acelerar-se o progresso ou retardá-lo indefinidamente.

"O homem que ocupa uma posição má deseja trocá-la o mais depressa possível. Aquele que se acha persuadido de que as tribulações da vida terrena são consequência das suas imperfeições, procurará garantir para si uma nova existência menos penosa, e esta ideia o desviará mais depressa da senda do mal do que a do fogo eterno, em que não acredita...

"Se uma única existência tivesse o homem e se, extinguindo-se-lhe ela, a sua sorte ficasse decidida para a eternidade, qual seria o mérito de metade do género humano, que morre na infância, para gozar, sem esforços, da felicidade eterna, e com que direito se acharia isenta das condições, às vezes tão duras, a que se vê submetida a outra metade? Semelhante ordem de coisas não corresponderia à justiça de Deus. Com a reencarnação, a igualdade é real para todos. O futuro a todos toca, sem excepções e sem favor para quem quer que seja. Os retardatários só de si mesmos se podem queixar. Forçoso é que o homem tenha o merecimento de seus actos, como tem deles a responsabilidade...

"Chegado ao termo que a Providência lhe assinou à vida na erraticidade, o próprio espírito escolhe as provas a que deseja submeter-se para apressar o seu adiantamento, isto é, escolhe meios para adiantar-se, e tais provas estão sempre em relação com as faltas que lhe cumpre expiar. Se delas triunfa, eleva-se; se sucumbe, tem que recomeçar.

"O espírito goza sempre do livre-arbítrio. Em virtude dessa liberdade é que escolhe, quando desencarnado, as provas da vida corporal e que, quando encarnado, decide fazer, ou não, uma coisa e procede à escolha entre o bem e o mal. Negar ao homem o livre-arbítrio seria reduzi-lo a condição de máquina.

"Mergulhado na vida corpórea, perde o espírito, momentaneamente, a lembrança de suas vidas anteriores, como se um véu as cobrisse. Todavia, conserva algumas vezes vaga consciência dessas vidas, que, mesmo em certas circunstâncias, lhe podem ser reveladas. Esta revelação, porém, só os espíritos superiores espontaneamente lha fazem, com um fim útil, nunca para satisfazer a vã curiosidade...

"As existências futuras, essas em nenhum caso podem ser reveladas, pela razão de que depende do modo por que o espírito se sairá da existência actual e da escolha que ulteriormente faça.

"O esquecimento das faltas praticadas não constitui obstáculo à melhoria do espírito, porquanto se é certo que este não se lembra delas com precisão, não menos certo é que a circunstância de as ter conhecido na erraticidade e de haver desejado repará-las o guia, por intuição, e lhe dá a ideia de resistir ao mal, ideia que é a voz da consciência, tendo a secundá-la os espíritos superiores que o assistem, se atende às boas inspirações que lhe dão.

"O homem não conhece os actos que praticou nas suas existências pretéritas, mas pode sempre saber qual o género de faltas de que se tornou culpado e qual o cunho predominante do seu carácter. Bastará então julgar do que foi, não pelo que é, mas pelas suas tendências.

"As vicissitudes da vida corpórea constituem expiação das faltas do passado e, simultaneamente, provas em relação ao futuro. Depuram-nos e elevam-nos, se as suportamos resignados e sem murmurar.

"A natureza dessas vicissitudes e das provas que sofremos também nos podem esclarecer acerca do que fomos e do que fizemos, do mesmo modo que neste mundo julgamos dos actos de um culpado pelo castigo que lhe infringe a lei. Assim, o orgulhoso será castigado no seu orgulho, mediante a humilhação de uma existência subalterna; o mau rico, o avarento, pela miséria; o que foi cruel para os outros, pelas crueldades que sofrerá; o tirano, pela escravidão; o mau filho, pela ingratidão de seus filhos; o preguiçoso, por um trabalho forçado, etc."

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