Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
7.º CADERNO —
TRANSMIGRAÇÕES PROGRESSIVAS, PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS
Há, para o espírito, existências corporais de que ele
nenhum resultado colhe, porque não as soube aproveitar, como existem aquelas em
que ele bem aproveita, mas que nem por isso poderá passar da infância espiritual
ao completo desenvolvimento.
SUMÁRIO
1. TRANSMIGRAÇÕES PROGRESSIVAS
A
vida do espírito compõe-se de uma série de existências corpóreas, cada uma
representando para ele oportunidade de progredir. Há, para o espírito,
existências corporais de que ele nenhum resultado colhe, porque não as soube
aproveitar, como existem aquelas em que ele bem aproveita, mas que nem por isso
poderá passar da infância espiritual ao completo desenvolvimento. É-lhe
necessário realizar inúmeras encarnações em mundos diversos.
Ninguém, por um proceder impecável na vida actual, poderá transpor todos os
graus da escala do aperfeiçoamento e tornar-se espírito puro, sem passar pelos
graus intermediários.
Ao espírito cumpre progredir em ciência e em moral.
A marcha dos espíritos é progressiva, jamais retrógrada. Eles elevam-se
gradualmente na hierarquia e não descem da categoria a que ascenderam.
Chegado ao termo que a Providência lhe assinou à vida na erraticidade, o
próprio espírito escolhe as provas a que deseja submeter-se para apressar o seu
adiantamento. Tais provas estão sempre em relação com as faltas que lhe cumpre
expiar. Se delas triunfa, eleva-se; se sucumbe, tem que recomeçar.
Mergulhado na vida corpórea, perde o espírito, momentaneamente, a lembrança
das suas existências anteriores, como se um véu as cobrisse. Conserva algumas
vezes vaga consciência dessas vidas, que, mesmo em certas circunstâncias, lhe
podem ser reveladas; porém, só os espíritos superiores, espontaneamente, fazem
tais revelações, e sempre com um fim útil e nunca para satisfazer a vaidade, o
orgulho ou a vã curiosidade.
As existências futuras, essas em nenhum caso podem ser reveladas, pela razão
de que dependem do modo por que o espírito se sairá da existência actual e da
escolha que ulteriormente faça.
O esquecimento das faltas praticadas não constitui obstáculo à melhoria do
espírito, porquanto, se é certo que este não se lembra delas com precisão, não
menos certo é que a circunstância de as ter conhecido na erraticidade e de haver
desejado repará-las o guia, por intuição, e lhe dá a ideia de resistir ao mal -
é a voz da consciência.
As vicissitudes da vida corpórea constituem expiações das faltas do passado
e, simultaneamente, provas em relação ao futuro. Depuram-nos e elevam-nos, se as
suportarmos resignados e sem murmurar.
2. PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS
Deus povoou de seres vivos os mundos, concorrendo todos esses seres para o
objectivo final da Providência. Acreditar que só os haja no planeta que
habitamos seria duvidar da sabedoria de Deus, que não fez coisa alguma inútil.
As condições de existência dos seres que habitam os diferentes mundos hão-de
ser adequadas ao meio em que lhes cumpre viver.
2.1. ESTUDO HISTÓRICO
Remontando às primeiras páginas dos anais históricos da humanidade,
encontra-se a ideia da pluralidade dos mundos habitados, ou religiosa, pela
transmigração das almas e seu estado futuro, ou astronómica, simplesmente pela
habitabilidade dos astros. Todos os povos, e principalmente os hindus, chineses
e árabes conservaram até aos nossos dias tradições teogónicas em que se
reconhece a pluralidade das habitações humanas nos mundos que brilham por cima
da nossa cabeça.
Os Vedas, génese antiga dos hindus, professavam a doutrina da pluralidade das
habitações da alma humana nos astros.
O Egipto, berço da filosofia asiática, tinha ensinado aos seus sábios esta
antiga doutrina.
A maior parte das seitas gregas ensinaram-na, ou abertamente, a todos os
discípulos sem distinção, ou em segredo, aos iniciados da filosofia.
Thales, Anaximandro, Anaximene, Empédocles, Aristarco, Leucipo, e outros,
ensinaram a pluralidade dos mundos habitados.
Anaxágoras ensinou a habitabilidade como artigo de crença filosófica;
partidário do movimento da Terra, suscitou invejosos e fanáticos, que o
perseguiram, e quase o assassinaram, por afirmar que o Sol era maior que o
Peloponeso.
Pitágoras, Epicuro e a sua escola, Metródoro de Lampsaque, Anaxarque e
Lucrécio também contribuíram com as suas afirmações favoráveis à pluralidade dos
mundos habitados.
Com o astrónomo polaco Copérnico, que derrubou a teoria da Terra como centro
do Universo, abriram-se novos campos ao pensamento. Com a Terra colocada em seu
devido lugar a possibilidade de vida noutros planetas passava a ter um
fundamento científico.
Com o auxílio do telescópio tornou-se claro que os planetas eram corpos
celestes bastante parecidos com a Terra, e Giordano Bruno afirmou que seres
vivos habitam esses mundos.
Nos séculos XVI e XVII, sábios, filósofos e escritores consagraram bom número
de livros ao problema da vida no universo.
Na segunda metade do século XIX, Camille Flamarion lança o livro "A
Pluralidade dos Mundos Habitados", que ganha enorme popularidade.
O russo Constantin Tsiolkovski, pai da astronáutica, foi um ardoroso defensor
da pluralidade dos mundos habitados.
O homem, ao colocar em órbita, em 1957, o primeiro satélite artificial,
inaugurou uma etapa inteiramente nova na história da ideia da pluralidade dos
mundos habitados, operando uma revolução na consciência de todos nesta fase
inicial de uma nova era da história humana, era do estudo directo e, algum dia,
da conquista do cosmo.
2.2. PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA À DOUTRINA DOS MUNDOS
HABITADOS
A interpretação errónea dos livros sagrados sobre a imobilidade da Terra e a
aceitação dogmática do pensamento de Tertuliano, segundo o qual "não havia
necessidade de nenhuma ciência depois do Cristo, e de nenhuma prova depois do
Evangelho", encobriram durante muitos séculos a doutrina da pluralidade dos
mundos habitados.
Havia necessidade da religião oficial combater essa doutrina, porque vinha
contrariar os seguintes dogmas:
2.2.1. A ENCARNAÇÃO DE DEUS SOBRE A TERRA
Não sendo a Terra mais do que um átomo insignificante no conjunto do
universo, sobre o que se fundaria o privilégio de haver recebido em sua
habitação o próprio Eterno, que não desdenhara descer a encarnar-se num pouco de
poeira terrestre?
2.2.2. A CRIAÇÃO DOS ASTROS NA GÉNESE BÍBLICA
A doutrina da pluralidade dos mundos habitados viria trazer problemas
inúmeros para a interpretação do livro de Moisés, que afirma terem sido os
astros criados somente no quarto dia da criação, para iluminar a Terra e
marcar-lhe o tempo e as estações do ano.
Não sendo mais a Terra o privilegiado centro do universo, como conciliar a
ideia que só depois de formar o planeta é que, no quarto dia, teria o Criador
formado o Sol e a Lua? Daí o combate renhido da religião dogmática à doutrina
dos muitos mundos habitados.
2.2.3. DESCENDÊNCIA ADÂMICA
Com a doutrina da vida em planetas incontáveis cairia por terra a doutrina de
um único casal, únicas criaturas do universo, criado à imagem e semelhança de
Deus para povoar a Terra.
Havendo outros mundos e outros habitantes longe da Terra, por certo não
descenderiam de Adão, e como tal Deus houvera criado em outros lugares e em
outros tempos as suas criaturas, que deveriam lutar, sofrer, aprender, progredir
na grande marcha evolutiva que se constitui lei do universo, sem ligação alguma
com o pecado original do casal primitivo.
2.2.4. A PARADA DO SOL E DA LUA
Desaparecendo o suposto privilégio da Terra, por ser igual a milhões e
milhões de outros mundos, também desapareceria o interesse do Senhor em
aquinhoar um povo em detrimento do outro, e como, girando a Terra em torno do
Sol, poderia o Senhor parar este, para que o dia se prolongasse? Tais argumentos
colocavam em risco a credibilidade das escrituras sagradas, se interpretadas
segundo o texto, merecendo então perseguição sistemática as doutrinas
heliocêntricas da pluralidade dos mundos habitados.
2.2.5. A SALVAÇÃO DA HUMANIDADE PELO SANGUE DE
JESUS
O dogma afirma que o Cristo deu a sua vida em holocausto, para que o seu
sangue lavasse a alma do homem, manchada pelo pecado original.
Com a doutrina da pluralidade dos mundos habitados, existindo então
humanidades que não estariam vinculadas ao primeiro casal da Terra, já não
haveria lógica na salvação pelo sangue derramado do Cordeiro Divino. Para que
esse dogma continuasse a vigorar entre os crentes não poderia haver outro mundo
habitado além da Terra.
2.3. HÁ MUITAS MORADAS NA CASA DO MEU PAI
A casa do Pai é o Universo. As diferentes moradas são os mundos que circulam
no espaço infinito e oferecem, aos espíritos que neles encarnam, moradas
correspondentes ao adiantamento dos mesmos.
Muito diferentes umas das outras são as condições dos mundos, quanto ao grau
de adiantamento ou de inferioridade dos seus habitantes.
Nos mundos inferiores a existência é toda material, reinam as paixões, sendo
quase nula a vida moral.
À medida que a vida moral se desenvolve diminui a influência da matéria, de
tal maneira que, nos mundos mais adiantados, a vida é, por assim dizer, toda
espiritual.
Nos mundos intermediários misturam-se o bem e o mal.
Sem fazer uma classificação absoluta, mas baseados no estado em que se acham
e a destinação que trazem, os mundos podem ser: primitivos, destinados às
primeiras encarnações da alma humana; de expiação e provas, onde domina o mal;
de regeneração, nos quais as almas que ainda tem que expiar haurem novas forças;
ditosos, onde o bem sobrepuja o mal; celestes ou divinos, habitação dos
espíritos depurados, onde reina exclusivamente o bem.
A Terra pertence à categoria dos mundos de expiação e provas.
2.4. UNIVERSO INFINITO, PROVA RACIONAL DA
EXISTÊNCIA DE OUTROS MUNDOS HABITADOS
Não se pode olvidar, nos argumentos em estudo que falam da pluralidade dos
mundos habitados, a vastidão do universo, que se torna cada vez mais ampla à
medida que o homem vai melhorando a técnica de explorá-la, descobrindo novos
planetas, sistemas solares, galáxias, etc.
Com o avanço da astronomia e da astrofísica evidencia-se um universo
infinito, e afirmar que só a Terra poderia ser habitada seria afirmar que a
humanidade é uma excepção dentro das leis naturais ou divinas.
Allan Kardec, em "A Génese", tratando da Orografia Geral, mostra quão
insignificante é o papel da Terra no universo infinito, para ser o único planeta
a servir de encarnação às criaturas.
"Sabendo-se que a Terra nada é, ou quase nada, no sistema solar; que este
nada é, ou quase nada, na Via Láctea; esta, por sua vez, nada, ou quase nada, na
universalidade das nebulosas, e essa própria universalidade bem pouca coisa é
dentro do imensurável infinito, começa-se a compreender o que é o globo
terrestre."
** Os antigos conheciam apenas sete planetas, pois Neptuno foi descoberto no
dia 23 de Setembro de 1846, por Johann Gottfried Galle; e Plutão, em Março de
1930, por C. Tombaugh, do observatório Lowell, em Flagstaff, Arizona.
ANOTAÇÕES E INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS:
- (1) ALMEIDA, João Ferreira, A BÍBLIA SAGRADA (tradução) Génesis de Moisés,
cap. 1, v. 14 a 19, Josué, cap. X, v. 12 e 53, 31.ª impressão, Imprensa
Bíblica Brasileira (1975).
- (2) ASIMOV, Isaac, O UNIVERSO, 3.ª edição, Edições Bloch.
- (3) FLAMMARION, Camille, A PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS, Livro 1, cap.
1 e Apêndice A, edição B.L. Garnier (1878).
- (4) HERMANN, Joachin, ASTRONOMIA, "O universo é o limitado", pág. 278, 1.º
edição, Editora Círculo do livro S/A.
- (5) KARDEC, Allan, O LIVRO DOS ESPÍRITOS, Parte 2.ª, cap. V, questão 191;
cap.VII, questão 399; Parte 1.ª cap.III, questões 55 a 58; 44.ª edição da
Federação Espírita Brasileira.
- (6) KARDEC, Allan, O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, cap. III, 77.ª
edição da Federação Espírita Brasileira.
- (7) KARDEC, Allan, A GÉNESE, cap. V, item 13 e cap. VI, item 32 a 36, 19.ª
edição (popular) da Federação Espírita Brasileira.
- (8) PAUWELS, Louis e, O HOMEM ETERNO, Terceira Parte, cap. I, Edição
Difusão
- (9) BERGIER, Jacques, Europeia do Livro, São
Paulo.
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