Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
6. DA LEI DA
DESTRUIÇÃO
Ao que chamamos destruição nem sempre o é; não passa de uma
forma de regeneração, de transformação, pois vivemos num universo em que "nada
se cria, nada se perde, tudo se transforma."
DESTRUIÇÃO NECESSÁRIA E DESTRUIÇÃO ABUSIVA
Os
seres vivos, para se alimentarem, "destroem-se" reciprocamente, seguindo esta
aparente destruição dois fins:
1) Manutenção do equilíbrio na reprodução, que poderia tornar-se excessiva,
quebrando a dinâmica de interdependência que existe entre os seres;
2) Utilização dos despojos do invólucro exterior, que sofre a destruição.
Esse invólucro é simples acessório; a parte essencial do ser pensante é o
princípio inteligente, que não se destrói, mas se elabora nas metamorfoses
diversas por que passa.
Os meios de preservação de que a própria natureza é dotada têm a finalidade
de evitar que a destruição se dê antes do tempo, o que inibiria o
desenvolvimento do princípio inteligente.
O medo inconsciente do homem pela morte é a manifestação do instinto de
conservação animal; é a manifestação inconsciente da necessidade que o seu
espírito tem de se desenvolver. Por isso, deve enfrentar as provações da vida
sem apelar para a fuga das reclamações, das acusações indevidas, nem tão-pouco
aspirar à morte física como forma de resolver os problemas que o alcançam.
A necessidade de destruição, para estabelecer o equilíbrio ecológico e
psicológico, é proporcional à natureza dos mundos, cessando quando o físico e o
moral se acham mais depurados do que aqui na Terra; são características de
mundos mais adiantados que o nosso. Mesmo aqui na Terra, à medida que há uma
maior depuração, o sentimento de preservação sobrepuja o de destruição, dando ao
homem melhor posição no seu desenvolvimento intelectual e moral.
O direito de destruição sobre os animais, bem como sobre os vegetais, está
regulado pela sua necessidade, pagando o homem alto preço por qualquer abuso que
cometa denotando apenas a predominância dos seus instintos bestiais destrutivos.
Quando a destruição dos animais é evitada, por excesso de escrúpulo ou por
imposição religiosa, o facto em si louvável, passa a ser apenas manifestação
supersticiosa, pois o homem excede-se de outra maneira. Só é válida quando
aceite interiormente, sem riscos para seu bem-estar ou sobrevivência, e sem
revolta.
FLAGELOS DESTRUIDORES
Os flagelos destruidores são permitidos por Deus na medida em que os
resultados que deles advêm, e que nem sempre são vistos, admitidos e aceites
pelo homem, os levam a uma regeneração moral, dando advento a uma melhor ordem,
que se realiza em poucos anos, em vez de alguns séculos.
São meios de aceleração do progresso da humanidade que, pelas dificuldades,
se vê obrigada a mudar a maneira de agir. Tais meios, porém, são de excepção,
pois, regularmente, o homem tem, como meio de progredir, o conhecimento do bem e
do mal, que, não sendo convenientemente usado, resulta em medidas de excepção,
tomadas pela lei de equilíbrio que rege a vida das pessoas, dos grupos, da
sociedade, das nações e da humanidade.
Pelo facto dos espíritos preexistirem e sobreviverem a tudo, eles formam o
mundo real. Os seus corpos físicos e o meio físico no qual eles desenvolvem as
suas potencialidades espirituais são meros instrumentos de aperfeiçoamento do
verdadeiro eu espiritual. Portanto, quaisquer flagelos que nos atinjam, enquanto
encarnados e pelo tempo que for, nada mais serão que meios de educação para a
eternidade.
Paciência, resignação, abnegação, desinteresse, amor ao próximo, são
sentimentos que caracterizam o homem livre do egoísmo. A forma pela qual eles
são conquistados é secundária, tanto podendo ser por adopção como pelo
sofrimento que advém da não adopção.
Grande parte dos flagelos são resultantes da imprevidência e do abuso, como
se fossem um contragolpe às manifestações orgulhosas e cheias de vaidade do
homem.
GUERRAS
As guerras, por exemplo, são o resultado da predominância da natureza animal
sobre a espiritual, pois nascem e são fomentadas pelos interesses egoístas de
grupos que lutam pelo poder e escravizam e subjugam para mantê-lo.
A guerra desaparecerá da Terra quando os homens compreenderem a justiça e
praticarem a lei de Deus — amar ao próximo como a si mesmo e a Deus acima de
todas as coisas (Deus como símbolo de harmonia e de equilíbrio).
A guerra ainda existe na Terra como uma forma usada pelos segmentos da
sociedade discordantes e conflitantes entre si — mecanismo servo e senhor — para
haver uma libertação do que se encontra escravizado e explorado, dando-lhes
possibilidade de progresso e também manejo do mundo, colocando o que estava na
posição de senhor como obrigado a sair da sua função de bem-estar para a de luta
e trabalho, que levarão todos ao progresso. A alternância destas duas posições —
mando e submissão — é que ensina o homem, na sua viagem pelas diversas
encarnações, a desenvolver o equilíbrio e o amor ao semelhante.
ASSASSÍNIO
No caso de assassínio, o mal está em que uma vida de expiação ou de missão
foi interrompida pela morte imposta, mas o grau de culpabilidade de quem assim
agiu está na intenção com que o cometeu; cada tipo tem a sua pena conforme a sua
especificidade intencional. Nos casos de legítima defesa, só a necessidade de
assim agir, baseada na impossibilidade total de preservar a vida sem atentar
contra a vida do agressor, é que tem a escusa divina. Nas guerras o homem não é
culpado quando constrangido à força, mas qualquer crueldade, como qualquer gesto
de bondade e humanidade, pesarão no seu julgamento.
O aborto, mesmo o protegido pela legislação humana, é considerado um crime,
variando a penalidade conforme a intenção que o motive.
CRUELDADE
A natureza ainda inferior do homem adiciona à destruição a crueldade, que vem
a ser uma maneira materialista de ser, pois apenas experimentam as necessidades
da vida do corpo os que agem cruelmente por não se darem conta da continuidade
da vida em outros níveis. A crueldade deriva da falta de aplicação do senso
moral, que gradativamente se desenvolve nos seres, cumprindo aos homens bons, já
moralizados, pelas suas acções anularem a influência dos maus e pelos seus
exemplos auxiliarem a transformação gradativa dessas criaturas.
O desenvolvimento moral enfraquece o domínio das faculdades puramente
animais, que predominam nos homens inferiores. Assim se abafa e neutraliza a
sobreexcitação dos instintos materiais a favor do senso moral ainda incipiente
dos pouco evoluídos. No meio dos bons, às vezes aparece uma "ovelha desgarrada",
que nada mais é que um espírito inferior, disposto esperançosamente a melhorar,
mas, não tendo estrutura, deixa-se levar pela predominância da sua natureza
primitiva. Porém, com a sucessiva passagem em diversas experiências corporais,
neste ou noutros mundos, todos os espíritos estão fadados a desenvolver as suas
potencialidades divinas, que são atributos inalienáveis de todo o ser criado por
Deus.
PENA DE MORTE
Terá o homem o direito de tirar a vida de outro homem, mesmo que este tenha
tirado a vida a alguém?
A pena de morte é contrária à lei de Deus, e a sua manutenção é traço do
atraso espiritual dos povos que a mantêm e sustentam. Há outro meio de evitar
que um elemento perigoso ponha em risco a vida de outras pessoas; de resto,
matando o seu corpo não se está a livrar a sociedade da sua influência má,
negativa e revoltada, pois, como espírito, continuará associado ao meio
criminoso, inspirando criaturas frágeis, que funcionam como instrumentos de
acção em busca de vingança e satisfação dos seus instintos cruéis. Procurar, de
todas as formas, regenerar o criminoso, tentando reparar um mal que começou a
ser feito quando ele foi relegado ao abandono e à marginalidade, na infância,
reconhecendo que a maior parte da criminalidade surge por falta de educação e
condições sociais mínimas, em face do desequilíbrio existente na má distribuição
dos bens e da riqueza, que são acumulados egoisticamente por pequenos grupos,
que passam a vida inteira preocupados em fazê-los crescer e preservando-os, como
único meio de satisfação e felicidade. A marginalidade é a cobrança social que a
própria lei de causa e efeito promove, pela falta de investimento na educação e
nas condições básicas de sobrevivência.
Nota-se, igualmente, grande número de criminosos e assaltantes que agem de
maneira refinada e elegante, escapando quase sempre das malhas da lei humana,
mas que jamais poderão escapar das leis divinas, que estão presentes em todas as
situações de vida.
A pena de morte imposta a quem matou não encontra fundamento e justificação
na lei divina, porque somente o Criador pode dispor da vida da criatura.
Geralmente, quem foi causa de sofrimento para o seu semelhante virá a
enfrentar situações em que sofrerá o que tenha feito outrem sofrer, pois a leis
matemáticas inscritas nos mecanismos da consciência individual ditam a essa
mesma consciência que qualquer equilíbrio rompido deve ser recomposto com o
trabalho de quem o desajustou. Quando a pena de morte é imposta em nome de Deus
comete-se um verdadeiro sacrilégio, pois, orgulhosamente, o homem autopromove-se
à criação divina de distribuidor da justiça, colocando-se, assim, distante da
compreensão verdadeira de Deus. Vaidosamente, o homem coloca-se na condição de
substituto de Deus, sobrecarregando o seu espírito com todos os males que assim
promover.
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