Curso Básico de Espiritismo

Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal

2. DA LEI DE ADORAÇÃO

Todos compreendem, mesmo que inconscientemente, que acima de tudo existe um princípio criador, um ente supremo, Deus, que rege o universo e as suas criaturas em todos os níveis de evolução.

O reconhecimento e a evolução do pensamento da criatura ao criador caracteriza a adoração, que faz parte da lei natural, pois é um sentimento inato, que se manifesta de formas diferentes.

A adoração interior é a verdadeira, é a do coração, mas a exterior, como bom exemplo, tem o seu valor relativo, desde que não seja uma acção falsa, nem tão-pouco mistificatória.

A adoração a Deus faz-se através do amor dedicado ao semelhante, sem afectação e publicidade, num processo de autopromoção provocada pelo orgulho e pela vaidade. É hipócrita todo aquele que cifra a sua atitude em actos exteriores e espalhafatosos, cuidando de manter uma imagem de pureza e superioridade. Ele cria, fermentando em torno de si, grupos de admiradores fanáticos, mas, na intimidade, demonstra os seus interesses rasteiros de aparecer como figura especial em função da caridade que imagina prodigalizar.

A adoração a Deus é singela, simples, silenciosa e espontânea. Não necessita de arroubos nem de fanfarras que anunciem a intenção do fiel. A linguagem conhecida por Deus é a do coração.

A vida contemplativa, inerte, apenas de reflexão, é um desperdício, pois o potencial do homem deixa de ser usado em benefício do semelhante. A verdadeira adoração é a que nasce da acção útil em favor do outro, desenvolvendo assim os potenciais riquíssimos que a criatura humana possui e ainda disso não se deu conta.

A prece não deve ser confundida com uma adoração contemplativa, pois no acto de orar mobilizamos recursos de natureza interior que nos permitem enfrentar dificuldades sem nos abatermos, tanto quanto encontramos inspiração para novos cometimentos realizados a favor dos nossos semelhantes.

A prece feita com o coração e a alma torna o homem mais senhor de si, podendo lutar contra os seus próprios instintos maus, que o levam a ligações pouco felizes com entidades perturbadas e perturbadoras. A prece funciona como um escudo de protecção contra a invasão do mal de fora, que sempre se fundamenta no mal de dentro da criatura, que assim se vê presa de influências perniciosas e deletérias.

A eficácia da prece, contudo, dá-se quando quem ora consegue sair da sua concha de egoísmo e, descendo do seu pedestal de orgulho, passa a tratar o seu semelhante com amor e carinho, através de acções benéficas. A prece, pois, é uma forma do homem se carregar de energias e canalizá-las para o bem geral e, consequentemente, para o seu próprio bem.

De nada adianta orar, seja louvando seja pedindo perdão das faltas, se o indivíduo não procede a nenhuma mudança na sua maneira de ser, nem tão-pouco adianta simular uma atitude de adoração a Deus com a finalidade de diminuir as dores e provas que cada um deve passar, em função dos seus próprios desacertos, e da necessidade de ultrapassar barreiras próprias e naturais do processo evolutivo (de crescimento espiritual).

A prece, nestas ocasiões, serve como um elemento de motivação para enfrentarmos com dignidade e elevação as provas, mas nunca as diminuindo ou afastando-as do nosso caminho, pois o que mesquinhamente achamos um grande mal, dentro da nossa visão efémera e limitada, na origem geral das coisas, pode ser um bem.

A prece não muda os desígnios de Deus, mas dá-nos uma visão mais clara de como devemos agir, e, quando oramos por terceiros, não os eximimos dos seus sofrimentos, porém transmitimos-lhes o nosso sentimento amoroso, alcançando-os onde estejam, servindo a nossa prece como um refrigério às suas almas, e, a algumas, como um toque para a sua renovação interior, para abandonarem uma posição de inércia, trocando-a por uma de acção a favor de outros sofredores maiores que elas próprias. Forma-se, assim, uma sequência de relações simpáticas e de gratidão entre os espíritos, que aos poucos despertarão para o sentimento de amor recíproco e alcançarão, dessa forma, as recomendações de Cristo.

POLITEÍSMO

Incapaz, por falta de desenvolvimento das suas ideias, o homem atribuía, a princípio, tudo o que não conseguia explicar à acção de deuses que se espalhavam pela natureza, a fim de atender-lhe os pedidos ou vingar-se, se não fossem reverenciados como desejavam. Para o homem primitivo, os deuses disputavam o poder entre si e chegavam a guerrear para mostrarem as suas forças.

O termo deus, a princípio, não significava o Senhor da Natureza, mas todo o ser existente fora das condições da humanidade. Confundiam-se os espíritos nas suas várias escalas evolutivas e as suas relações com os deuses. Era apenas uma questão de palavras, mas que, até hoje, através da devoção dos fiéis, se vê, amiúde, a prática politeísta.

Com o cristianismo houve uma orientação segura quanto à definição de Deus como o Pai amoroso e vigilante, sempre pronto para auxiliar seus filhos a redimirem-se, deixando de lado a imagem grosseira de um Deus vingativo e cruel, irado e sujeito a alterações de humor, conforme o procedimento das criaturas humanas.

A doutrina de Moisés deu-nos como avanço cultural religioso a noção do Deus único, soberano e poderoso, exercendo tal poder sobre tudo e todos no universo.

SACRIFÍCIOS

O facto dos homens primitivos ainda estarem mais influenciados pelos instintos, não tendo desenvolvido o senso moral, é que fez com que procurassem mostrar o seu respeito e devoção às divindades através de sacrifícios, principalmente de criaturas humanas, que valiam mais do que um simples animal que, a princípio, era objecto de escolha para tal. Como admitiam que o valor da crença era proporcional ao valor do que era sacrificado, procuravam agradar a Deus através dos sacrifícios humanos. Essa prática não era realizada propriamente por crueldade, mas originada de uma ideia errónea de querer agradar ao Pai.

Sem dúvida que, com o correr do tempo, os abusos instalaram-se e inimigos comuns e particulares passaram a ser executados com a desculpa de se estar fazendo uma obra piedosa, e de adoração a Deus.

Uma época remanescente desta fase obscurantista foi a Idade Média, na qual centenas de milhares de pessoas foram imoladas para "terem as suas almas salvas", desencadeando, através do mecanismo da lei de causa e efeito, acontecimentos que até hoje ocorrem no mundo, até ao restabelecimento final da ordem e da justiça nas consciências.

Deus julga os sacrifícios pela intenção, e à medida que os homens evoluíram deixaram tais práticas, mantendo-as apenas a nível simbólico.

O melhor sacrifício perante os olhos de Deus não é a sua defesa, nem dos seus ensinamentos, através de lutas e guerras fratricidas, em que se pretende impor aos outros uma doutrina, mas sim através de uma acção amorosa, compreensiva, procurando ajudar o semelhante, seja de que forma for, minorando-lhe os sofrimentos e auxiliando-o a sair da escuridão da ignorância.

A melhor forma de adorar a Deus é trabalhar a favor da melhoria individual e do grupo em que se vive.