Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
1. DA LEI
DIVINA OU NATURAL
É a lei de Deus, tendo-o como princípio imanente e
transcendente do universo, causa e meta, princípio e finalidade; é lei também
dita natural porque Deus, estando em tudo, e tudo em Deus, a natureza está
prenhe de Deus, que está presente na energia que se transforma em matéria, tanto
quanto no espírito que se transforma em consciência, porque nada existe sem ser
em Deus.
Por
ser uma lei natural é infeliz o que dela se afasta, não por desconhecê-la, mas
por repudiá-la.
Sendo uma consequência da sua presença, ela é eterna e imutável quanto ao
tempo e espaço, mas percebida pelos homens na medida em que evoluem e dilatam o
seu universo consciencial.
Conforme seja considerada, a lei natural tanto rege fenómenos da matéria,
sendo estudada pelo homem ligado às ciências académicas, na física, química,
biologia, astronomia, etc., como fenómenos do espírito, relacionado com o seu
criador - Deus - ou com os seus semelhantes - outros homens e seres da natureza:
animais, vegetais, minerais - formando as leis morais.
A lei natural, ou divina, está apropriada para cada mundo, na faixa da sua
evolução, embora seja a mesma sob o ponto de vista universal. Todos um dia a
compreenderão, embora muitos a conheçam e não a consigam entender nem respeitar,
sofrendo as consequências desse desrespeito.
Como está insculpida na consciência da criatura, ela é tanto mais
compreendida quanto mais aperfeiçoado (evoluído) o ser, facilitando os seus maus
instintos o esquecimento. Para tanto a bondade divina providencia, de tempos a
tempos, a vinda de espíritos superiores, que a encarnam em extensão e
profundidade. Vivendo-a exemplarmente, servem como modelos catalisadores da
mudança de costumes de uma população, de uma sociedade, da humanidade toda,
dependendo do raio de acção de tais missionários.
Alguns falham, não conseguindo dar bom termo às suas tarefas e, entre os
ensinamentos reais e verdadeiros, misturam os seus erros e fantasias, obrigando
assim os seus seguidores a permanentemente exercitarem a análise e a crítica.
Na Antiguidade, eram conhecidos como profetas, e os verdadeiros eram os que
não apenas sobressaíam pelas palavras, mas os que testemunhavam pelo exemplo
vivo. Entre todos os que até hoje vieram ao encontro do homem o mais perfeito
foi Jesus, que conseguiu, na sua longa jornada evolutiva, incorporar de tal
forma as leis divinas que as vivia naturalmente, respirando-as e transudando-as
através dos seus actos.
É o modelo mais perfeito que o homem tem, e hoje os seus ensinamentos,
vertidos em forma simbólica ou através de histórias, têm, pelo espiritismo, uma
explicação mais lógica e coerente com a época e os conhecimentos actuais,
fugindo das características da Antiguidade, quando os princípios das leis
divinas e naturais eram tidos como mistérios, abertos apenas a alguns iniciados.
A doutrina espírita, com o seu corpo de ensinamentos, vem popularizar o
conhecimento antes fechado às grandes massas, que tinham de se contentar em
seguir de olhos vendados os seus pretensos mestres que, gozando da possibilidade
do poder, abusavam da ignorância do povo, impingindo-lhe crendices e temores
infundados, misturando conceitos de bem e de mal.
Para a doutrina espírita, a moral tem a ver com o procedimento, isto é, a
ideia transformada em acção e em maneira de ser, visando o bem comum.
O bem seria a aplicação, nos limites do conhecimento e da possibilidade, das
leis divinas, e o mal a ausência da aplicação destas leis ou, no caso contrário,
a agressão a estas mesmas leis. Por intuição o homem sabe o que é a lei divina,
bastando para isso não se deixar dominar pelos seus interesses egoístas e
vaidosos. Na máxima cristã de não fazer aos outros o que não quer que lhe façam,
e mais, fazer aos outros o que gostaria que lhe fizessem, está o resumo de tudo.
O mal não é uma criação activa de Deus, que se apresenta no homem como parte da
sua natureza; ele é a negação do bem que cumpre ser desenvolvido pelo homem, é a
resistência criada pelo homem para a sua própria libertação e crescimento.
Na medida em que o homem se desenvolve e sabe quanto bem deve fazer, e se
omite, não se esforçando por concretizá-lo, mais responsável se torna perante as
leis divinas pelo mal que pratique. Este tanto pode ser caracterizado pelas
acções contrárias ao bem quanto simplesmente pela ausência deste. Por isso, o
nível de responsabilidade da consciência ignorante não é o mesmo que o do homem
dito esclarecido, pois, dependendo das circunstâncias, como da falta de ocasião
de praticá-lo, só o simples desejo de perpetrá-lo já dá ao homem um sentimento
de responsabilidade pelas suas consequências.
Todos podem praticar o bem, porque ele não consiste em o indivíduo
considerar-se grandioso nos actos de caridade, mas, simplesmente, em tornar-se
útil no nível evolutivo em que está.
Há mérito em se resistir ao mal que provém do meio em que se vive e, às
vezes, isso ocorre como uma provação das nossas forças, podendo também o mal
exercer um arrastamento forte sobre o carácter do indivíduo, mas nunca
irresistível, pois a vontade é soberana em quaisquer circunstâncias, não se
podendo atribuir ao meio a responsabilidade de actos que a consciência aprova ou
não.
A lei natural, tratando-se do comportamento do homem em relação ao seu
semelhante, é a do amor ao próximo como a si mesmo.
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