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Curso Básico de Espiritismo

Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal

11. Da lei de justiça, de amor e de caridade - justiça e direitos naturais

Faz parte da natureza intrínseca do espírito a noção e o sentimento de justiça, que se desenvolve à medida que o progresso moral avança.

A lei de justiça manifesta-se de maneira diferente entre os homens face à mistura das paixões e dos interesses pessoais e de grupos, que os caracteriza.

Basicamente, ela consiste em cada homem respeitar os direitos do outro, conforme o ensinamento cristão: "Fazei aos outros o que quereríeis que vos fizessem."

Como o homem deve viver em sociedade, nascem-lhe obrigações de relacionamento, que prevêem respeito aos direitos do próximo. Na falta deste respeito surgem perturbações no meio social, que acabam por generalizar-se, dificultando até o bom relacionamento entre os povos e as nações.

Conquanto, à primeira vista, a atribuição de direitos iguais, a si e aos seus semelhantes, pudesse dar ideia de anarquia, tal facto não ocorreria, desde que aquele que tivesse valor fosse reconhecido pelo que não o tivesse. Estamos a falar de uma hierarquia natural, que nasce do bom senso e da responsabilidade dos que se acham num plano superior.

Bem diferente das hierarquias impostas e defendidas à custa da opressão e lutas destruidoras, que apenas geram revolta e vingança.

Direito de propriedade - roubo

A propriedade mais primária que o indivíduo possui, como direito natural, é a vida. Deve respeitá-la ao máximo, em si e no seu semelhante, e torna-se réu quando atenta contra a sua ou a do seu próximo, comprometendo-lhe a existência corporal.

O direito sobre a propriedade material é-lhe atribuído temporariamente, e dela deve fazer uso a benefício de todos.

A verdadeira propriedade é aquela que foi adquirida sem o prejuízo de outrem, devendo o homem contentar-se com o que possui, e não deixar-se levar de maneira desvairada, acumulando bens materiais, que no mais das vezes servem para estabelecer grandes lutas fratricidas entre os herdeiros.

O roubo pode ser considerado como sendo todo o acto de apropriação indébita, não apenas conseguida através da força e da violência, mas também da astúcia enganadora em qualquer acção que prejudique alguém.

Fortunas conseguidas através deste procedimento, que são louvadas pelos mesquinhos como obras de vivacidade e esperteza, quase sempre deixando atrás de si marcas de lágrimas e dores dos espoliados, devem ser consideradas como erigidas pelo roubo.

Caridade - o amor ao próximo

Caridade é o amor em acção. O verdadeiro sentido da caridade está na "benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições dos outros e perdão das ofensas"; portanto, não está apenas na ajuda material aos desafortunados sociais.

Está também presente no amor aos inimigos, que significa perdoar-lhes as ofensas, quase sempre nascidas da ignorância, do orgulho e da vaidade, retribuindo-lhes o mal com o bem.

É um erro fazer da caridade um sinónimo de esmola - consequência da miséria, que é uma chaga social, pois "uma sociedade que se baseie na lei de Deus e na justiça deve prover à vida do fraco, sem que haja para ele humilhação. Condenando-se a pedir esmola, o homem degrada-se, física e moralmente: embrutece." Triste, ainda, a sociedade que não fornece meios de recuperação, pelo trabalho e pela educação, àqueles que são inclinados, por falta de recursos, à marginalidade e ao crime.

Faz mais caridade quem gera emprego e trabalho do que quem distribui bens de consumo. É mais caridoso dar ao homem meios para lutar pelo seu próprio pão do que encher-lhe o estômago com a esmola que avilta, deseduca, torna dependente e acomodado quem a recebe. "Quando quiseres dar alguma coisa a alguém, dá-lhe a cana em vez do peixe."

Em tal relação podem estar presentes todos os sentimentos de que o homem é capaz de sofrer a influência, pois, sendo ela primária, serve de inspiração ao que cada um deve desenvolver no curso da sua existência infinita e imortal.

Para o filho, a mãe resume o veículo pelo qual aprende a conhecer e reconhecer o universo que o cerca; para a mãe, o filho é o veículo pelo qual ela pode expressar toda a gama de sentimentos resumidos no amor.

Cumpre aos pais darem aos filhos o melhor ensinamento da vida, através dos seus exemplos, não esquecendo que, através da reencarnação, espíritos com dívidas entre si, reúnem-se na mesma família, para se ajustarem mutuamente, podendo daí resultar atritos e incompreensões que só o amor, associado ao tempo, resolverá. Também devemos recordar que muitos desvios dos filhos se devem à negligência, acomodação e falta de preparação dos pais, que não têm forças suficientes para lhes modelar o carácter.

O amor materno e filial serve como protótipo das ligações afectivas que ocorrerão entre as criaturas na sociedade e vida afora, permitindo-lhes vivenciar os seus potenciais pelo infinito.

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