Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
8. Da lei do
progresso, estado de natureza
O estado de natureza é o estado de simplicidade do
espírito, é o seu ponto de partida, quer intelectual quer moral. É o início da
sua caminhada através da linha do princípio e da finalidade, que lhe cumpre
percorrer, accionado pelas diversas leis que se conjugam entre si com vista a
permitir-lhe o desenvolvimento das potencialidades divinas.
É
lei natural que esta evolução se dê, impedindo que o homem permaneça
indefinidamente no seu estágio de infância espiritual, que de nada lhe valeria
se fosse perpetuado. A permanência em tal estágio aparentemente lhe daria um
estado de felicidade, que é a felicidade do bruto, como a do animal, cujos
instintos estão inteiramente satisfeitos.
Havendo necessidade de evoluir - sair do estado de natureza empurrado pela
lei natural - o homem cria uma série de atribulações próprias dos vários
estágios pelos quais deva passar. Não podendo retrogradar, senão apenas
estacionar por tempo determinado, é por isso responsabilizado no curso geral da
sua vida imortal, criando para si embaraços e dificuldades que só o tempo bem
aproveitado poderá resgatar.
Marcha do progresso
Está presente no homem a força que o destina para o grande amanhã, mas cumpre
que pelo processo de relação com os outros e do aprendizado que faça, desenvolva
este princípio. É da lei: aquele que mais se desenvolva ajude o menos
desenvolvido, para não criar os grandes desníveis que acabam por gerar, na
ausência da lei do amor, o mecanismo servo-senhor ou dominado-dominador.
O progresso moral, que é o grande objectivo do espírito, é uma conquista
decorrente do progresso intelectual, porque, através deste último, a criatura
humana aprende a discriminar os valores, para poder escolher o que mais lhe
convém, usando a faculdade do livre-arbítrio.
A possibilidade de escolha, após o conhecimento discriminativo, é função da
inteligência, que assim cria a responsabilidade do acto. A acção automática,
instintiva ou imitativa, realizada sem a determinação da vontade, é acto casual,
mecânico ou condicionado, que não tem valor moral e denota apenas um estado
circunstancial do espírito.
Só passo a passo os povos conseguem atingir o progresso. Por enquanto, o
homem tem usado o conhecimento para alimentar a sua inferioridade moral,
gerando, como consequência, a necessidade do sofrimento, como instrumento da sua
elevação moral. Um dia o homem equilibrará as duas forças, a intelectualidade e
a moralidade, atingindo a sabedoria.
O progresso é uma força viva da natureza, não estando no homem o poder de
sustê-lo pelas leis oriundas do seu egoísmo e orgulho; quando muito, embaraça-o,
estando sempre a sofrer a sua acção construtiva. Os abalos físicos e morais que
sofre a humanidade de tempos a tempos são a mostra da sua presença
transformadora.
". . . As revoluções morais, como as revoluções sociais, infiltram-se nas
ideias, pouco a pouco; germinam durante séculos; depois, irrompem subitamente e
produzem o desmoronamento do carunchoso edifício do passado, que deixou de estar
em harmonia com as necessidades novas e com as novas aspirações" - comentário de
Allan Kardec.*
Apesar do desenvolvimento material, ao observador desavisado parece que o
homem, em vez de avançar, recua moralmente; no entanto, uma visão de conjunto
mostra-nos que o homem do século XX é muito mais evoluído socialmente do que há
séculos. É verdade que ainda estamos longe de equilibrar o progresso intelectual
com o moral, mas a finalidade do homem na Terra é justamente essa. Às vezes é
preciso "que o mal chegue ao excesso, para se tornar compreensível a necessidade
do bem e das reformas". O que ainda impede o homem de alcançar o seu destino é o
orgulho e o egoísmo.
Povos degenerados
À primeira vista, alguns povos, depois de abalos profundos, caem num processo
de degeneração, facto que aparentemente nega a lei do progresso. A explicação
que a doutrina espírita nos fornece é a de que não são os mesmos espíritos que
animam os descendentes de um povo que degenera; são espíritos menos evoluídos,
que reencarnam aproveitando o meio ambiente que lhes é favorável, mas que não
serão permanentemente atrasados, pois através dos tempos, das provações
individuais e colectivas ressarcirão o seu passado, reabilitando-se através de
mudanças que ocorrem na continuidade das suas múltiplas encarnações, pois todos
os espíritos caminham para a mesma finalidade, que é a perfeição moral, e a
nenhum Deus deserda. Tal como um indivíduo, que passa pelas fases da infância,
juventude, maturidade e decrepitude, com os povos isso também ocorre". ...
Aqueles cujas leis se harmonizam com as leis eternas do Criador viverão e
servirão de farol aos outros povos".
É utópico pensar que no futuro todos os povos, mercê da evolução espiritual,
formarão apenas uma nação. A impossibilidade existe, porque a diversidade de
costumes, que geram necessidades próprias, manterão a individualidade das
nações. Mas o entendimento fraternal, executado através da lei de caridade,
aproximará os povos e as nações, que saberão conviver em plano de ajuda mútua e
de paz, mesmo que isso seja alcançado apenas num futuro distante.
Civilização
O conceito de civilização varia de acordo com o ângulo básico que se lhe dê.
Se a entendermos como o conjunto de procedimentos que levam o homem a ter uma
vida mais confortável, não se preocupando com os meios usados para atingir o
conforto, teremos uma visão pragmática e imediatista, porque não dizer
materialista.
Mas se considerarmos como civilização um conjunto de valores conquistados
pelo esforço humano no campo das ideias e dos ideais, concretizados no respeito
ao semelhante, na consecução de leis justas, que devolvem a paz de consciência
ao ser, mesmo que o conforto material não seja atingido como meta principal,
teremos uma visão idealista e cultural da civilização, porque não dizer
espiritualista!
O homem inferior preocupa-se em primeiro lugar com o seu conforto material; o
superior procura estar em paz com a sua consciência, buscando sempre auxiliar o
seu semelhante, mesmo que isso lhe custe a renúncia a bens materiais.
Os indícios de uma civilização completa serão conhecidos pelo desenvolvimento
moral dos que a compõem, que se tratarão irmamente, banindo o egoísmo e o
orgulho, dando lugar à caridade cristã no relacionamento individual e entre as
nações.
Também a civilização terrena passa por fases e períodos desde a infância até
à maturidade.
"De duas nações que tenham chegado ao ápice da escala social, somente pode
considerar-se a mais civilizada, na legítima acepção do termo, aquela onde
existe menos egoísmo, menos cobiça e menos orgulho; onde os hábitos sejam mais
intelectuais e morais do que materiais, onde a inteligência se puder desenvolver
com maior liberdade; onde haja mais bondade, boa fé, benevolência e generosidade
recíprocas; onde menos enraizados se mostrem os preconceitos de casta e de
nascimento, pois tais preconceitos são incompatíveis com o verdadeiro amor ao
próximo; onde as leis nenhum privilégio consagrem e sejam as mesmas tanto para o
último como para o primeiro; onde com menos parcialidade se exerça a justiça;
onde o fraco encontre sempre amparo contra o forte; onde a vida do homem, as
suas crenças e opiniões sejam mais bem respeitadas; onde exista menor número de
desgraçados; enfim, onde todo o homem de boa vontade esteja certo de não lhe
faltar o necessário."
Progresso da legislação humana
A legislação humana é uma criação das exigências sociais, pela não
compreensão e devida aplicação das leis naturais que, por si só, bastariam para
reger o comportamento do homem.
Elas vão-se depurando com o passar dos tempos, aperfeiçoando-se à medida que
os homens compreendem a justiça como meio de regular a relação humana, e vão-se
tornando mais estáveis à medida que se identificam com a lei natural.
O que se vê, contudo, é que, influenciado pelas paixões, o homem cria deveres
e direitos imaginários, que acabam por servir aos interesses de grupos, em
detrimento da maioria.
As leis severas e punitivas têm a finalidade de tentar reparar o erro
cometido, embora "só a educação poderá reformar os homens, que, então, não
precisarão mais de leis tão rigorosas".
Influência do espiritismo no progresso
Os princípios doutrinários do espiritismo, por estarem na natureza,
tornar-se-ão crença geral e marcarão uma era nova na história da humanidade,
ocupando lugar entre os conhecimentos humanos.
A existência de um princípio criador e sustentador do universo - Deus; a
existência e imortalidade de um principio inteligente individualizado - o
espírito; a continuidade permanente e eterna da existência deste princípio em
outros níveis dimensionais - a imortalidade do espírito; a possibilidade de
sintonia entre os espíritos dos vários níveis dimensionais, com a consequente
troca de influências - a comunicabilidade dos espíritos; o retomar de tarefas
não terminadas, o resgate de dívidas contraídas e a necessidade de
desenvolvimento constante, sob o ponto de vista espiritual - a reencarnação; a
possibilidade da evolução se fazer não apenas na Terra, mas através dos biliões
de planetas existentes no universo - a pluralidade dos mundos habitados; provam
os pontos cardeais do espiritismo e estão na base de todas as discussões actuais
promovidas pela ciência, que se arvora como representante do conhecimento, e não
sabemos se demorará apenas mais do que duas gerações para que tais princípios
fiquem devidamente aceites e comprovados.
Destruindo o materialismo, que volta o homem para os interesses apenas
imediatos; libertando a sua mente para a adopção de princípios superiores;
demostrando ao homem a continuidade da sua existência, passando por cima da
morte como por uma estação intermediária na sua grande viagem cósmica pelo
universo, perseguindo a perfeição, então o homem perceberá que o seu presente é
fruto do passado e o futuro fatalmente será construído pelo seu presente, onde
aplicará a acção não apenas buscando o seu conforto material e o seu bem-estar
transitório, mas adoptando leis morais que unirão os homens solidariamente como
irmãos.
Tal influência no progresso da humanidade já se fez sentir, embora de maneira
ténue, mas firme e segura, e chegou à humanidade na época em que ela se
apresentava com necessidade de recebê-la para não se afundar no materialismo
esterilizante. O progresso de tal influência dar-se-á não somente pela
multiplicação das manifestações espirituais, mas fundamentalmente pelo
amadurecimento dos conhecimentos já existentes e pelo reconhecimento da mudança
que o espiritismo opera na conduta do homem para com o seu semelhante.
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