Curso
Básico de Espiritismo
Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal
10.º CADERNO —
DAS ESPERANÇAS E CONSOLAÇÕES
O homem terreno pode gozar apenas de uma felicidade
incompleta, pois a vida foi lhe concedida para realizar uma evolução
intelecto-afectiva e isso também passa por provas ou expiações. Contudo, depende
dele abrandar os seus males e ser tão feliz quanto é possível na Terra.
SUMÁRIO
1. PENAS E GOZOS TERRENOS
1.1. Felicidade e infelicidade relativas
O
homem terreno pode gozar apenas de uma felicidade incompleta, pois a vida
proporciona-lhe sobretudo provas ou expiações. Porém, depende dele abrandar os
seus males e ser tão feliz quanto é possível na Terra.
Na maioria das vezes o homem é o artífice da sua própria infelicidade, pois
se praticasse a lei de Deus livrar-se-ia de muitos males.
A felicidade terrena é relativa à posição de cada pessoa. Porém, podemos
dizer que a medida comum da felicidade para os homens está na seguinte fórmula:
para a vida material é a posse do necessário e, para a vida moral, a consciência
pura e a fé no futuro.
Os males que ferem o homem mais justo e que independem da sua maneira de agir
devem ser encarados com resignação, pois isso representa uma prova que lhe será
levada em conta, se a suportar com coragem e sem queixas.
Aos olhos dos que enxergam apenas o presente, certas pessoas parecem
favorecidas pela fortuna sem a merecerem. Porém, a fortuna é uma prova mais
perigosa do que a miséria.
Quando ao homem falta o necessário à vida e à saúde do corpo, não por culpa
sua, mas ocasionada por outrem, a responsabilidade recairá sobre aquele que lhe
houver dado causa.
No afastarem-se os homens de sua esfera intelectual e profissional propícia
às suas inclinações e aptidões reside a causa de muitas decepções e
desajustamentos. Depois, o amor-próprio impede, muitas vezes, que a pessoa
recorra a uma profissão mais modesta, porém, mais adequada à sua vocação.
Com uma organização social mais justa e previdente ao homem, só por culpa sua
poderia faltar o necessário. As suas faltas, todavia, frequentemente são
resultado do meio em que se acha colocado. As classes sofredoras são mais
numerosas na Terra por ser esta um planeta de expiação e provas. Porém, as
classes chamadas felizes, na verdade, trazem ocultas aflições, concluindo-se que
nenhuma é verdadeiramente feliz.
No mundo, muito amiúde, a influência dos maus sobrepuja a dos bons, por
fraqueza destes. "Os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos.
Quando estes o quiserem, preponderarão."
1.2. Perda dos entes queridos
A perda dos entes queridos constitui para o homem uma legítima causa de dor,
que atinge indistintamente ricos e pobres, e representa uma prova ou expiação.
Todavia, temos por vezes a consolação de podermos comunicar com eles através de
médiuns, enquanto não dispusermos de meios mais directos e acessíveis aos nossos
sentidos.
Os espíritos são sensíveis à lembrança e à saudade dos que lhes foram caros
na Terra. As dores inconsoláveis e desarrazoadas atingem-nos penosamente, pois
denotam falta de fé no futuro e de confiança em Deus, pois isto é um obstáculo
ao adiantamento dos que os choram e também à sua reunião com estes. Normalmente
o espírito é mais feliz no espaço que na Terra e lamentar que ele tenha deixado
a vida corpórea é deplorar que seja feliz.
1.3. Decepções, ingratidão, afeições destruídas
Para o homem de coração, as decepções originadas da ingratidão e da
fragilidade dos laços de amizade são também uma fonte de amargura. Devemos,
porém, lastimar os ingratos porque são infelizes. A ingratidão é filha do
egoísmo e o egoísta topará com corações insensíveis, como o seu próprio o foi.
O bem deve ser praticado sem exigências; a ingratidão é uma prova à nossa
perseverança no exercício do bem. O ingrato será punido na proporção exacta do
seu egoísmo.
A natureza deu ao homem a necessidade de amar e ser amado. É um grande gozo
na Terra o homem encontrar corações afins. É a primícia da felicidade que o
aguarda no mundo dos espíritos perfeitos, onde dominam o amor e a benignidade.
Desse gozo está excluído o egoísta.
1.4. Uniões antipáticas
Os espíritos simpáticos buscam-se reciprocamente e procuram unir-se. Todavia,
é muito frequente entre os encarnados na Terra existir a afeição só de um lado e
o amor sincero se veja colhido com indiferença e até com repulsão.
Estas ocorrências, à luz das leis morais, constituem uma punição passageira.
Além disso, muitos acreditam amar perdidamente porque julgavam pelas aparências
e quando obrigados a viver com as pessoas amadas, passam a reconhecer que
experimentaram apenas um encantamento.
Há duas espécies de afeição: a do corpo e a da alma. Com frequência as
pessoas enganam-se e tomam uma pela outra.
A afeição da alma, quando pura e simpática, é duradoura; a do corpo é
efémera. Daí vem que, muitas vezes, os que julgam amar-se com eterno amor passem
a odiar-se, desde que a ilusão se desfaça.
A falta de simpatia entre seres destinados a viverem juntos constitui fonte
de amargos dissabores, que envenenam toda a existência, e é essa uma das
infelicidades de que os seres humanos quase sempre são a causa principal. Deus
não constrange ninguém a permanecer junto dos que o desagradam.
1.5. Temor da morte
Para muitas pessoas, o temor da morte é uma causa de perplexidade. Porém,
falta-lhes fundamento para semelhante temor. Isto provém da sua infância, quando
procuraram persuadi-las de que há um inferno e um paraíso, e que mais certo é
irem para o inferno, visto que também lhes disseram que o que existe na natureza
constitui pecado mortal para a alma. Tornadas adultas, não podem admitir tal
coisa e tornam-se materialistas, levadas a crer que além da vida presente nada
mais há.
Ao justo, nenhum temor inspira a morte, porque, com fé, tem ele a certeza do
futuro.
O homem carnal, preso à vida corpórea, centraliza a sua felicidade na
satisfação fugaz de todos os seus desejos e, por isso, constantemente se
angustia face às vicissitudes da vida. A morte o assusta; ele duvida do futuro
porque tem de deixar no mundo todas as suas afeições e esperanças.
O homem moral, coloca-se acima das necessidades artificiais criadas pelas
paixões, e já neste mundo experimenta gozos que o homem material desconhece. A
moderação dos desejos dá-lhe calma e serenidade; ditoso pelo bem que faz, as
decepções e contrariedades não deixam impressão dolorosa na sua alma.
1.6. Desgosto da vida, suicídio
O desgosto da vida que, sem motivos plausíveis, se apodera de certos
indivíduos, nasce da ociosidade, da falta de fé e, também, da saciedade.
Para aquele que usa as suas faculdades com um fim útil e de acordo com as
suas aptidões naturais, o trabalho nada tem de árido e a vida escoa-se mais
rapidamente.
O homem não tem o direito de dispor da sua vida; só a Deus assiste esse
direito. O suicídio voluntário constitui uma transgressão dessa lei. Nem sempre
é voluntário o suicídio; o louco que se mata não sabe o que faz.
O suicídio decorrente do desgosto da vida é uma insensatez. O trabalho torna
a existência menos pesada.
Os que se suicidam para fugirem às decepções deste mundo são "pobres
espíritos" que não têm a coragem de suportar as vicissitudes da existência. Deus
ajuda os que sofrem e não os que carecem de energia e de coragem.
Os que possam ter conduzido um infeliz ao desesperado acto do suicídio
sofrerão as consequências de tal proceder; responderão como por um assassínio.
É considerado suicida aquele que, a braços com a maior penúria, se deixa
morrer de fome. Porém, os que lhe foram causa, ou que teriam podido impedi-lo,
são mais culpados do que ele, a quem a indulgência espera. Não pensemos,
todavia, que seja totalmente absolvido, se lhe faltaram a firmeza, a
perseverança e não usou toda a sua inteligência para sair do atoleiro. Ai dele,
sobretudo, se o seu desespero nasce do orgulho.
O suicida que procura esse meio para escapar à vergonha de uma acção má é tão
culpado como aquele causado pelo desespero. Isto porque o suicídio não apaga a
falta; em vez de uma, haverá duas. Quando se teve a coragem de praticar o mal, é
preciso ter-se a de lhe sofrer as consequências.
Outra loucura é o caso do que se mata para chegar mais depressa a uma vida
melhor, pois retarda essa chegada e terá que pedir lhe seja permitido voltar,
para concluir a vida, a que pôs termo sob domínio de uma ideia falsa.
O homem que perece vítima de paixões, consciente de que elas apressariam o
seu fim, sem conseguir resistir-lhes, por tê-las tornado vício das necessidades
físicas, comete um suicídio moral. É duplamente culpado, pois há nele falta de
coragem e bestialidade, agravadas do esquecimento de Deus.
É também culpado perante a lei divina aquele que não aguarda o termo que Deus
lhe marcou para a existência. Outrossim, mesmo no caso em que a morte é
inevitável e em que a vida só é encurtada por alguns instantes, é sempre uma
falta de resignação e de submissão à vontade do criador, que a tudo confere um
fim útil.
Aqueles que não podem conformar-se com a perda de pessoas que lhes eram caras
e que se matam na esperança de juntar-se a elas, muito diverso do que esperam é
o resultado que colhem. Sofrerão aflições maiores do que as que pensaram
abreviar e não terão a satisfação que esperavam.
Quanto ao estado do espírito, as consequências do suicídio são muito
diversas. Não há penas determinadas e correspondem sempre às causas que o
produziram. Uma consequência a que o suicida não pode escapar é ao
desapontamento. Conforme as circunstâncias, alguns suicidas expiam a falta
imediatamente, outros em nova existência, que será pior do que aquela cujo curso
interromperam.
Os efeitos do suicídio não são idênticos. Há alguns, porém, que são comuns a
todos os casos de morte violenta, consequentes da interrupção brusca da vida.
Há, primeiro, a persistência prolongada e tenaz do laço que une o espírito ao
corpo, devido a este laço estar na plenitude da sua força no momento em que se
tenta parti-lo. Como decorrência desse brusco rompimento, advém o prolongamento
da perturbação espiritual, seguindo-se a ilusão que o espírito conserva, por
mais ou menos tempo, de que ainda pertence ao número dos vivos.
A afinidade que permanece entre o espírito e o corpo produz, em alguns
suicidas, uma espécie de repercussão do estado do corpo no espírito, que, assim,
a contragosto, sente os efeitos da decomposição, com uma sensação cheia de
angústia e de horror, estado este que pode durar pelo tempo que devia durar a
vida que sofreu interrupção.
2. PENAS E GOZOS FUTUROS
2.1. O nada, a vida futura
O homem tem instintivamente horror ao nada porque o nada não existe.
Igualmente o homem possui o sentimento instintivo da vida futura, pois antes de
encarnar o espírito conhecia todas essas coisas e a alma conserva vaga lembrança
disso.
A ideia do nada repugna à razão. O homem, por mais despreocupado que seja
durante a vida, chegado o momento supremo, pergunta a si mesmo o que vai ser
dele e, sem o querer, guarda esperança.
Crer em Deus, sem admitir a vida futura, seria um contra-senso. A vida futura
implica a conservação da nossa individualidade, após a morte.
2.2. Intuição das penas e gozos futuros
A crença com que deparamos entre todos os povos, na existência de penas e
recompensas, origina-se do pressentimento da realidade, trazido ao homem pelo
espírito que ele próprio é.
Os sentimentos que dominam os homens no momento da morte são: a dúvida, nos
cépticos e empedernidos; o temor, nos culpados; a esperança, nos homens de bem.
A responsabilidade dos nossos actos é a consequência da realidade da vida
futura. A razão e a justiça nos dizem que, na partilha da felicidade a que todos
aspiram, não podem estar confundidos os bons e os maus. Não é possível que Deus
queira que uns gozem, sem trabalho, de bens que outros só alcançam com esforço e
perseverança. O sentimento inato que temos da justiça dá-nos a intuição das
penas e recompensas.
2.3. Intervenção de Deus nas penas e recompensas
Deus ocupa-se, pessoalmente, com cada homem? Não é ele muito grande e nós
muito pequeninos para que cada indivíduo em particular tenha, a seus olhos,
alguma importância?
Deus ocupa-se com todos os seres que criou, por mais pequeninos que sejam.
Nada, para a sua bondade, é destituído de valor.
Deus tem as suas leis a regerem todas as nossas acções. Se as violamos, nossa
é a culpa. Quando um homem comete um excesso qualquer, Deus não profere contra
ele um julgamento. Ele traçou um limite; as enfermidades, e muitas vezes a
morte, são a consequência dos excessos. Eis aí a punição: é o resultado da
infracção da lei.
Deus ainda nos previne e nos adverte sempre, através da inspiração dos bons
espíritos, e ainda faculta ao homem recursos para reparar os seus erros
concedendo-lhe novas existências.
2.4. Natureza das penas e gozos futuros
As penas e gozos da alma após a morte não são materiais, pois a alma não é
matéria. Nada têm de carnal; entretanto, são mil vezes mais vivos do que os que
experimentamos na Terra. O espírito liberto tem percepções muito maiores, pois a
matéria não lhe reduz as sensações.
A ideia grosseira e absurda que o homem faz das penas e gozos da vida futura
provém da falta de suficiente desenvolvimento da inteligência. Depende também do
que lhe foi ensinado e aí há necessidade de uma reforma.
A felicidade dos bons espíritos consiste em conhecerem todas as coisas; em
não sentirem ódio, nem ciúme, nem inveja, nem ambição, nem qualquer das paixões
que ocasionam a desgraça dos homens. O amor que os une é-lhes fonte de suprema
felicidade. Não experimentam as necessidades, nem os sofrimentos, nem as
angústias da vida material. São felizes pelo bem que fazem. Contudo, a
felicidade dos espíritos é proporcional à elevação de cada um. Entre os maus e
os perfeitos há uma infinidade de graus em que os gozos são relativos ao estado
moral.
Os sofrimentos dos espíritos inferiores são tão variados como as causas que
os determinaram e proporcionais ao grau de inferioridade, como os gozos o são ao
de superioridade. Podem resumir-se assim: invejarem o que lhes falta para serem
felizes e não obterem; verem a felicidade e não a poderem alcançar; pesar,
ciúme, raiva, desespero, motivados pelo que os impede de ser ditosos; remorsos,
ansiedade moral indefinível. Desejam todos os gozos e não os podem satisfazer:
eis o que os tortura.
2.5. Penas temporais
É verdade que a alma quando está reencarnada, as tribulações da vida fazem-na
sofrer; porém, só o corpo sofre materialmente.
Falando de alguém que morreu, costumamos dizer que deixou de sofrer. Nem
sempre isso exprime a realidade. Como espírito, está isento de dores físicas;
mas tais sejam as faltas que tenha cometido, pode estar sujeito a dores morais
mais agudas e pode vir a ser ainda mais desgraçado em nova existência. Todas as
penas e tribulações da vida são expiação das faltas de outra existência, quando
não a consequência das da vida actual.
É verdade que a alma quando está reencarnada, as tribulações da vida são para
ela um sofrimento; porém, só o corpo sofre materialmente.
Falando de alguém que morreu, costumamos dizer que deixou de sofrer. Nem
sempre isto exprime a realidade. Como espírito, está isento de dores físicas;
mas tais sejam as faltas que tenha cometido, pode estar sujeito a dores morais
mais agudas e pode vir a ser ainda mais desgraçado em nova existência. Todas as
penas e tribulações da vida são expiação das faltas de outra existência, quando
não a consequência das da vida actual.
À medida que se vão depurando, os espíritos passam a encarnar em mundos cada
vez mais perfeitos, até que se tenham despojado totalmente da matéria e lavado
de todas as impurezas. Nos mundos onde a existência é menos material do que
neste, menos grosseiras são as necessidades e menos agudos os sofrimentos
físicos.
2.6. Expiação e arrependimento
O arrependimento dá-se no estado espiritual, mas também pode ocorrer no
estado corporal, quando a pessoa bem compreende a diferença entre o bem e o mal.
Como consequência do arrependimento no estado espiritual, o arrependido
deseja uma nova encarnação para se purificar. O espírito acaba por compreender
as imperfeições que o privam de ser feliz e, por isso, aspira a uma nova
existência em que possa expiar as suas faltas.
O arrependimento no estado corporal faz com que, já na vida actual, o
espírito progrida, se tiver tempo de reparar as suas faltas.
Homens que só têm o instinto do mal e parecem inacessíveis ao arrependimento,
através das reencarnações, adquirirão o instinto do bem, pois é preciso que
todos progridam e atinjam a meta. Uns gastam mais tempo do que outros, porque
assim o querem.
O homem perverso, que não reconheceu as suas faltas durante a vida, sempre as
reconhece depois da morte e, então, mais sofre, porque sente em si todo mal que
praticou. Nem sempre o arrependimento é imediato. Há espíritos obstinados no mau
caminho, mas cedo ou tarde ele virá. Deve-se entender que o espírito não se
transforma subitamente, após a morte do corpo e conforme o género de vida que
teve, poderá persistir em seus erros, nas suas falsas opiniões, nos seus
preconceitos, até que se tenha esclarecido pelo estudo, pela reflexão e pelo
sofrimento.
A expiação cumpre-se durante a existência corporal, mediante as provas a que
o espírito se acha submetido e, na vida espiritual, pelos sofrimentos morais,
inerentes ao estado de inferioridade do espírito.
2.7. Duração das penas futuras
A duração dos sofrimentos do culpado, na vida futura, não é arbitrária, pois
Deus nunca obra caprichosamente e tudo, no universo, se rege por leis, em que a
sua sabedoria e a sua bondade se revelam.
Assim, a duração dos sofrimentos do culpado baseia-se no tempo necessário
para que melhore. À medida que progride e que os sentimentos se lhe depuram, os
seus sofrimentos diminuem e mudam de natureza.
Para o espírito sofredor o tempo se afigura mais longo do que quando estava
encarnado. Só para os espíritos que já chegaram a certo grau de purificação, o
tempo, por assim dizer, se apaga diante do infinito.
Os sofrimentos do espírito não podem ser eternos, pois ele não poderá ser
eternamente mau e jamais se arrepender. Deus não criou seres tendo por destino
permanecerem perpetuamente votados ao mal; apenas criou a todos simples e
ignorantes, tendo todos, no entanto, que progredir em tempo mais ou menos longo,
conforme decorrer da vontade de cada um.
A lei sábia e magnânima subordina a duração das penas aos esforços do
espírito. Jamais o priva do seu livre-arbítrio: se deste faz ele mau uso, sofre
as consequências. Aí está toda a sublimidade da justiça unida à bondade, e aí
também se encontra a verdade desta sentença: "A cada um segundo as suas obras."
A ideia da eternidade das penas é blasfémia sobre a justiça e da bondade da
Deus, germe fecundo da incredulidade, do materialismo e da indiferença que
invadiram as criaturas humanas e, por isso, deve ser combatida.
2.5. Paraíso, inferno e purgatório
As penas e gozos são inerentes ao grau de perfeição dos espíritos. Cada um
tira de si mesmo o princípio da sua felicidade ou da sua desgraça. E como eles
estão por toda a parte, nenhum lugar circunscrito ou fechado existe
especialmente destinado a uma ou outra coisa.
O inferno e o paraíso nada mais são do que simples alegoria. Por toda parte
há espíritos ditosos e inditosos. Os espíritos de uma mesma ordem podem-se
reunir por simpatia, mas podem fazê-lo onde queiram, quando são perfeitos. A
localização absoluta das regiões das penas e das recompensas só na imaginação do
homem existe. Provém da sua tendência a materializar e circunscrever as coisas,
cuja essência infinita não compreende.
Entende-se por purgatório as dores físicas e morais; o tempo de expiação. É
também uma alegoria, não é um lugar determinado; significa o estado dos
espíritos imperfeitos que se acham em expiação até atingirem alguma purificação.
Esta purificação, operando-se através das diversas reencarnações, o purgatório
consistiria quando muito nas provas da vida corporal.
A palavra céu tem o sentido de espaço universal; são os planetas, as estrelas
e todos os mundos superiores, onde os espíritos usam plenamente as suas
faculdades, sem as tribulações da vida material, nem as angústias próprias da
inferioridade.
ANOTAÇÕES E INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS
- (1) KARDEC, Allan, O Livro dos Espíritos, 4ª. Parte. caps. I e II ; 33ª.
Edição, 1974, da Federação Espírita Brasileira.
- (2) KARDEC, Allan, O Céu e o Inferno, 1ª Parte, caps. I e VII, 19.ª
Edição, 1963, da Federação Espírita Brasileira.
- (3) KARDEC, Allan, O Evangelho Segundo o Espiritismo, caps. III e IV, 51ª
Edição, da Federação Espírita Brasileira.
(*) Toda esta sessão de estudo baseia-se na 4.ª Parte, capítulos I e II, de
"O Livro dos Espíritos", tendo as citações sido colocadas entre aspas " ",
correspondem fielmente ao texto da 33.ª Edição da Federação Espírita Brasileira.
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