Allan Kardec e as Obras Básicas

Fabiana Lampréia Padilha

Introdução

Os fatos atinentes às revelações dos Espíritos ou fenômenos mediúnicos remontam a mais recuada Antigüidade, sendo tão velhos quanto o nosso mundo. A História, a este propósito, está pontilhada desses fenômenos de intercomunicação espiritual. A respeito dos princípios espíritas, muitos homens ilustres manifestaram-se favoravelmente, como Sócrates, Platão, Pitágoras, Empédocles, Apolônio de Tiana, Buda, Hermes Trimegisto, etc.

As evocações dos Espíritos existiram sempre tanto no Ocidente quanto no Oriente, como se observa pelos relatos do Código dos Vedas e do Código de Manu.

Paulo, o apóstolo, em suas cartas, reconhecia a prática das manifestações espirituais, alertando-nos quanto à procedência dessas comunicações. Na Idade Média, destaca-se a figura admirável de Joana D'Arc, a grande médium, recusando sempre a renegar as vozes espirituais.

Precursores Imediatos

Numa época mais moderna é que podemos melhor situar a fase precursora do Espiritismo. A diferença entre os fatos desta fase e os fenômenos da "Pré-História", como bem acentua Arthur Conan Doyle, está em que estes últimos episódios eram esporádicos, sem uma seqüência metódica, enquanto aqueles têm a característica de uma "invasão organizada". É nessa época mais moderna que vamos encontrar alguns notáveis antecessores, como o famoso clarividente sueco, Emmanuel Swedenborg, engenheiro militar, insigne teólogo de valioso patrimônio cultural e dotado de largo potencial de forças psíquicas.

Um outro notável precursor foi Andrew Jackson Davis, magnífico sensitivo que viveu entre 1826 e 1910, considerado por Conan Doyle como profeta da Nova Revelação.

Os Fenômenos Hydesville e as Mesas Girantes

Hydesville é uma pequena cidade no interior do estado de Nova Iorque, na América do Norte. Poucas casinhas de madeira, alguns estabelecimentos comerciais e muita calma. Até que transfere-se para lá, no ano de 1846, a família Fox. O primeiro ano da família Fox em Hydesville correu sem incidentes, embora vez por outra, observassem ruídos estranhos à semelhança de "arranhaduras".

Em meados de março de 1848 tais ruídos atingiram proporções gigantescas: pancadas, arrastar de móveis e tremores nas camas. A família estava decidida a mudar-se, quando na noite de 31 de março de 1848 (data que os americanos consideram como de fundação do Espiritismo), a menina Kate de 11 anos decide "interrogar as pancadas".

Diz: "- Senhor Pé Rachado, faça o que eu faço." e bateu 3 palminhas.

Imediatamente ouviu 3 pancadas.

Margarete, sua irmã de 14 anos, achou interessante e disse:

"Agora sou eu; faça assim." E bateu 4 palmas. Quatro pancadas ressoaram.

A partir daí centenas de pessoas foram chamadas a presenciar o fenômeno e, através de um alfabeto, representando as letras através de pancadas, eles descobriram que estavam conversando com um "morto". Chamava-se Charles Rosna, havia sido assassinado naquela casa há 5 anos. Indicou o local onde seu corpo estava enterrado, o que posteriormente foi confirmado.

Os fenômenos de Hydesville, abriram a porta para muitos outros, que levou Conan Doyle a considerá-los

"Como a coisa mais importante que deu a América para o mundo."

Após os acontecimentos de Hydesville, tornou-se "a coqueluche da sociedade francesa", aquilo que ficou conhecido com o nome de Mesas Girantes.

Consistiam em mesas comuns, de madeira, de três pés, onde as pessoas sentavam-se em torno para dialogarem com os Espíritos. Utilizando-se de recursos mediúnicos de uma ou mais das pessoas presentes, as entidades desencarnadas, através de pancadas nas mesas ou movimentos, respondiam inteligentemente às perguntas dos curiosos.

Informam os historiadores que nos anos de 1853 a 1855, as mesas girantes constituíam, em Paris, verdadeiros passatempo, sendo diversão quase obrigatória nas reuniões sociais.

Todavia, ninguém poderia imaginar que dessa brincadeira de salão brotaria o impulso inicial para a Codificação do Espiritismo.

Allan Kardec: O Homem

Na cidade de Lião, na França, nasceu no dia 3 de outubro de l804, aquele que se celebrizaria sob o pseudônimo de Allan Kardec. De tradicional família francesa de magistrados e professores, filho de Jean Baptiste Antoine Rivail e Jeane Louise Duhamel, foi batizado com o nome de Hippolyte Léon Denizard Rivail.

Em Lião fez os seus primeiros estudos, seguindo depois para Yverdon, na Suíça, a fim de estudar no Instituto do célebre professor Pestalozzi. O instituto desse abalizado mestre era um dos mais famosos e respeitados em toda a Europa. Desde cedo Hippolyte Léon tornou-se um dos mais eminentes discípulos de Pestalozzi, tendo inclusive, com a idade de 14 anos, ensinado aos condiscípulos menos adiantados, tudo o que aprendia.

Concluídos os estudos em Yverdon, regressou a Paris, onde se tornou conceituado mestre não só em Letras, como na Ciência, distinguindo-se como notável pedagogo e divulgador do Método Pestalozziano. Conhecia diversas línguas, entre elas o italiano e alemão, tendo traduzido várias obras para o francês. Contraiu matrimônio com a professora Amelie Gabrielle Boudet, conquistando uma preciosa colaboradora. O casal não teve filhos.

Como pedagogo, Rivail publicou numerosos livros didáticos. Apresenta na mesma época, planos e métodos referentes à reforma do ensino francês. Entre as obras publicadas, destacam-se: Curso Teórico e Prático de Aritmética, Gramática Francesa Clássica, Catecismo Gramatical da Língua Francesa, além de programas de cursos ordinários de Física, Química, Astronomia e Fisiologia.

Allan Kardec: O Codificador

Começa a missão de Allan Kardec quando, em 1854, ouviu falar pela primeira vez nas mesas girantes através do amigo Fortier, um pesquisador emérito do Magnetismo (Kardec a época interessava-se também pelo estudo desta ciência). Em princípio, Kardec revelou-se cético, face à sua posição de livre pensador, de homem austero, sincero e observador. Exigindo provas, mostrou-se inclinado à observação mais profunda dos ruidosos fatos amplamente divulgados pela imprensa francesa.

No ano seguinte, 1855, aceita o convite para assistir a uma sessão de mesas girantes, e vendo o fenômeno, ele se interessa profundamente. Vê ali um fenômeno inusitado que deveria merecer um exame cuidadoso. Ele decide então, aos 51 anos de idade, estudar o fenômeno mediúnico. Passa a freqüentar a residência de diversos médiuns, recebe cadernos contendo anotações de mensagens recebidas anteriormente, discute, analisa, apresenta questões de grande profundidade aos Espíritos, convencido que está da realidade do mundo extra-físico.

O grande material estudado por ele, mais as centenas de questões propostas às Entidades Luminosas, deram condições ao professor Rivail de publicar a sua primeira obra, O Livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1857. Esta data passou a ser considerada como a de fundação do Espiritismo.

Decide adotar o pseudônimo de Allan Kardec por dois motivos: primeiro para que o seu nome real, conhecidíssimo em Paris, não viesse a interferir na grandeza do livro, que segundo ele, deveria florescer pelo seu valor e, não pelo autor que o subscrevia. Segundo, em homenagem a uma existência que ele tivera nas Gálias, no primeiro século antes de Cristo, onde fora um sacerdote druida denominado Allan Kardec.

Fundou em lº de janeiro de 1858 a Revista Espírita, órgão mensal que deveria assumir um papel importantíssimo na divulgação da Doutrina, e no mesmo ano, no dia 1º de abril, ele funda a primeira sociedade espírita com o nome de Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. No dia 15 de janeiro de 1861 lança O Livro dos Médiuns, e depois, sucessivamente, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno, e A Gênese.

Kardec vem a deixar o mundo físico na manhã do dia 31 de março de 1869, em função da ruptura de um aneurisma cardíaco.

As Obras Básicas

O conteúdo das obras publicadas por Allan Kardec expõem e consolidam os princípios e os elementos constitutivos da Doutrina Espírita, em sua totalidade, segundo o ensino dos Espíritos, sistematizados pelo codificador. Representam um patrimônio ético, científico e filosófico de valor incalculável, pois traduz o esforço concentrado de uma imensa falange de Espíritos sábios e bons, que sob a assistência amorosa de Jesus acompanharam o trabalho incansável de Allan Kardec.

Constituem-se, na realidade, o fio de prumo da Doutrina Espírita, o alicerce insuperável, através do qual informações outras, de autores recentes, vão sendo paulatinamente assimiladas.

Emmanuel, examinando a grandiosidade das obras básicas do Codificador assevera:

"Após dezenove séculos de teologia arbitrária, não chegaríamos a compreender o Evangelho e Jesus Cristo, sem Allan Kardec."

As obras básicas da Codificação Kardequiana são as seguintes por ordem cronológica de edição:

    1. O Livro dos Espíritos - 18 de abril de 1857
    2. O Livro dos Médiuns - janeiro de 1861
    3. O Evangelho Segundo o Espiritismo - abril de 1864
    4. O Céu e o Inferno - 1865
    5. A Gênese, os milagres e as predições - janeiro de 1868

Allan Kardec escreveu ainda dois outros livros de menor extensão: O Que é o Espiritismo e O Principiante Espírita, e no ano de 1890, P.G. Leymarie publica o livro Obras Póstumas, contendo artigos de Kardec ainda não conhecidos do público.

O Livro dos Espíritos

A primeira obra publicada por Kardec é, na essência, um tratado de perguntas e respostas de caráter filosófico. Em 1019 itens, o Codificador apresenta os princípios basilares da Doutrina que, posteriormente, serão desenvolvidos nos outros livros.

Na primeira parte do Livro, o autor estuda as causas primárias, Deus, o espírito e a matéria. Traça considerações a respeito do princípio vital e da criação.

Na parte segunda, Kardec vai dissecar em profundidade o Mundo dos Espíritos; a encarnação, a desencarnação, a missão e ocupação dos Espíritos, bem como seu inter-relacionamento com os homens.

A terceira parte tem um caráter eminentemente moral, pois Kardec vai examinar a Lei Natural, subdividida em dez Leis Morais que regem as relações humanas: Adoração, Trabalho, Reprodução, Conservação, Destruição, Sociedade, Progresso, Igualdade, Liberdade e Justiça, Amor e Caridade.

Na última parte, o codificador se preocupa com as Esperanças e Consolações, introduzindo a sonda de suas investigações na complexa Lei de Causa e Efeito.

O Livro dos Médiuns

O segundo livro, por ordem cronológica de lançamento, no seu frontispício, apresenta o subtítulo: "Guia dos Médiuns e dos Evocadores" e resume o seu conteúdo assim:

"Ensino especial dos Espíritos sobre a teoria de todos os gêneros de manifestações, os meios de comunicação com o mundo invisível, o desenvolvimento da mediunidade, as dificuldades e os tropeços que se podem encontrar na prática do Espiritismo."

O Livro dos Médiuns é considerado, ainda hoje, como o mais completo tratado de fenomenologia paranormal de todos os tempos, e, por esse motivo, é de leitura obrigatória a todos aqueles que trabalham na área mediúnica.

O Evangelho Segundo o Espiritismo

Com esta obra, o Espiritismo vai assumir um caráter nitidamente religioso, pois Kardec se propõe a examinar cuidadosamente as diversas palavras do Cristo e as passagens mais significativas do Novo Testamento, no seu aspecto moral.

Em sua folha de rosto, lê-se a síntese de seu conteúdo:

"A explicação da máximas morais do Cristo em concordância com o Espiritismo e suas aplicações às diversas circunstâncias da vida."

O seu estudo se desdobra em 28 capítulos de rara beleza e de profunda sabedoria.

O Céu e o Inferno

O quarto livro do pentateuco Kardequiano tem como subtítulo "A Justiça Divina segundo o Espiritismo."

Na primeira parte, Kardec examina temas diversos como: Céu, Inferno, Anjos e Demônios e estuda, com brilhantismo a Lei de Ação e Reação mostrando as inúmeras nuanças que cercam este princípio universal.

Na segunda parte, apresenta o Codificador mensagens de Espíritos desencarnados que se comunicaram na Sociedade Espírita de Paris, com observações muito oportunas relacionadas a cada um deles.

A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo

Um ano antes de sua morte, Allan Kardec publicou seu último grande livro. Depois de ter estabelecido as bases teóricas e práticas da Doutrina, cabia-lhe interpretar o Antigo e o Novo Testamento segundo a ciência espírita. Nas primeiras linhas da introdução, escreveu:

"A nova obra constitui mais um passo à frente, nas conseqüências e nas aplicações do Espiritismo; tem por fim o estudo de três pontos que foram até hoje, diversamente interpretados e comentados: A Gênese, os Milagres de Jesus e as predições encontradas nos Evangelhos."

Bibliografia

  1. Allan Kardec (Volume I, II e III) - Zêus Wantuil e Francisco Thiesen
  2. O Evangelho segundo o Espiritismo - Introdução - Allan Kardec
  3. Obras Póstumas - Allan Kardec
  4. As Mesas Girantes - Zêus Wantuil
  5. A História do Espiritismo - Arthur Conan Doyle

As Três Revelações

Introdução

Revelar, do latim "revelare", significa, literalmente, sair sob o véu, e, figuradamente, descobrir, dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida.

A característica essencial de qualquer revelação tem de ser a verdade. Revelar o segredo é tornar conhecido um fato; se é falso, já não é um fato e, por conseqüência, não existe revelação.

No sentido especial da fé religiosa, a revelação se refere, mais particularmente, das coisas espirituais que o homem não pode descobrir por meio da inteligência, nem com o auxílio dos sentidos, e cujo conhecimento lhe dá Deus através de Seus mensageiros, quer por meio da palavra direta, quer pela inspiração. Neste caso, a revelação é sempre feita a homens predispostos, designados sob o nome de profetas ou messias.

Todas as religiões tiveram seus reveladores, e estes, embora longe estivessem de conhecer toda a verdade, tinham uma razão de ser providencial, porque eram apropriados ao tempo e ao meio em que viviam, ao caráter particular dos povos a quem falavam, e aos quais, eram relativamente superiores.

Allan Kardec [GEN-cap I] assevera que três foram as grandes revelações da Lei de Deus: a primeira representada por Moisés, a segunda por Jesus e a terceira e última revelação pelo Espiritismo.

Em [O Consolador], o benfeitor Emmanuel tange ao tema da seguinte forma:

"Até agora a Humanidade da era cristã recebeu a grande Revelação em três aspectos essenciais: Moisés trouxe a missão da Justiça; o Evangelho, a revelação insuperável do Amor e o Espiritismo, em sua feição de Cristianismo redivivo, traz, por sua vez, a sublime tarefa da Verdade."

Primeira Revelação: Moisés

Moisés, como profeta, revelou aos homens a existência de um Deus único e soberano Senhor e orientador de todas as coisas; promulgou a lei do Sinai e lançou as bases da verdadeira fé. Como homem, foi o legislador do povo pelo qual essa primitiva fé, purificando-se, havia de espalhar-se por sobre a Terra.

Examinando o missionário, Emmanuel assim se refere:

"Moisés trazia consigo as mais elevadas faculdades mediúnicas, apesar de suas características de legislador humano. É inconcebível que o grande missionário dos judeus e da Humanidade pudesse ouvir o espírito de Deus. Estais, porém habilitados a compreender que a Lei, ou a base da Lei (os Dez Mandamentos), foi-lhe ditada pelos emissários de Jesus.

Examinando-se os seus atos enérgicos de homem, há a considerar as características da época em que se verificou sua grande tarefa. Com expressões diversas, o grande enviado não poderia dar conta exata de suas preciosas obrigações, em face da Humanidade ignorante e materialista."

A Lei Mosaica

Há duas partes distintas na lei mosaica: a lei de Deus, promulgada sobre o Monte Sinai, e a lei civil ou disciplinar, estabelecida pelo próprio Moisés. Uma é invariável; a outra é apropriada aos costumes e ao caráter do povo e se modifica com o tempo.

A primeira, é lei de todos os tempos e de todos os países, e tem, por isso mesmo, um caráter divino. A segunda, foi criada pelo missionário para manter o temor de um povo naturalmente turbulento e indisciplinado, no qual tinha de combater abusos arraigados e preconceitos adquiridos durante a servidão do Egito.

André Luiz, referindo-se a parte divina da Lei Mosaica, diz:

"Os Dez Mandamentos recebidos mediunicamente pelo profeta, brilham ainda hoje por alicerce de luz na edificação do Direito, dentro da ordem social."

O mesmo autor, em [Evolução em Dois Mundos], traduz o Decálogo para uma visão atual, escrevendo:

"Consagra amor supremo ao Pai de Bondade Eterna, nele reconhecendo a tua divina origem.

Precata-te contra os enganos do antropomorfismo, porque padronizar os atributos divinos absolutos pelos acanhados atributos humanos é cair em perigosas armadilhas da vaidade e do orgulho.

Abstém-te de envolver o julgamento divino na estreiteza de teus julgamentos.

I - O Decálogo

  1. Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás deuses estrangeiros diante de mim. Não farás para ti imagens de escultura, nem figura alguma de tudo o que há em cima no Céu, e do que há embaixo na terra, nem de coisa que haja nas águas, debaixo na terra. Não andarás, nem lhes darás culto.
  2. Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão.
  3. Lembra-te de santificar o dia de sábado.
  4. Honrarás a teu pai e a tua mãe, para teres uma dilatada vida sobre a Terra.
  5. Não matarás.
  6. Não cometerás adultério.
  7. Não furtarás.
  8. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
  9. Não desejarás a mulher do próximo.
  10. Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem outra coisa alguma que lhe pertença.

Fonte: [ESE-cap I]

(cont.)

Recorda o impositivo da meditação em teu favor e em benefício daqueles que te atendem na esfera de trabalho, para que possas assimilar com segurança os valores da experiência.

Lembra-te de que a dívida para com teus pais terrestres é sempre insolvável por sua natureza sublime.

Responsabilizar-te-ás pelas vidas que deliberadamente extinguires.

Foge de obscurecer ou conturbar o sentimento alheio, porque o cálculo delituoso emite ondas de força desorientada que voltarão sobre ti mesmo.

Evita a apropriação indébita para que não agraves as próprias dívidas.

Desterra de teus lábio toda palavra dolosa a fim de que se não transforme, um dia, em tropeço para os teus pés.

Acautela-te contra a inveja e o despeito, a inconformação e o ciúme, aprendendo a conquistar alegria e tranqüilidade, ao preço do esforço próprio, porque os teus pensamentos te precedem os passos, plasmando-te, hoje, o caminho de amanhã."

Segunda Revelação: Jesus

A segunda grande revelação da Lei de Deus, na concepção Kardequiana, foi apresentada por Jesus, o Divino Governador da Terra.

Segundo o benfeitor André Luiz [Evolução em Dois Mundos]:

"Com Jesus, a religião, como sistema educativo, alcança eminência inimaginável. Nem templos de pedras, nem rituais. Nem hierarquias efêmeras, nem avanço ao poder humano. O Mestre desaferrolha as arcas do conhecimento enobrecido e distribui-lhe os tesouros."

Allan Kardec, examinando a Revelação Cristã, lembra que

"O Cristo, tomando da antiga lei o que é eterno e divino e rejeitando o que era transitório, puramente disciplinar e de concepção humana, acrescentou a revelação da vida futura, de que Moisés não falara, assim como a das penas e recompensas que aguardam o homem depois da morte."

Acrescenta Kardec que a filosofia cristã estava sedimentada em uma concepção inteiramente nova da Divindade. Esta já não era mais a concepção de um Deus terrível, ciumento, vingativo, como O apresentava Moisés, mas um Deus clemente, soberanamente bom e justo, cheio de mansidão e misericórdia, que perdoa ao vicioso e dá a cada um segundo as suas obras. Enfim, já não é o Deus que quer ser temido, mas o Deus que quer ser amado.

Quem é Jesus?

Lembra o Espírito Emmanuel, que

"De forma alguma poderíamos fazer um estudo minucioso da psicologia de Jesus, por nos faltar maturidade espiritual para tanto."

No entanto, a respeito do Messias, sabe-se que foi Ele o Enviado de Deus, a representação do Pai junto ao rebanho de filhos transviados de seu amor e de sua sabedoria, cuja tutela foi-lhe confiada nas ordenações sagradas da vida no Infinito.

Diretor angélico do orbe terreno, acompanhou todo o processo de formação da Terra, o primórdio da vida no planeta, e vem seguindo, com a mais extremada atenção, a todos os espíritos que vinculados a este orbe, desenvolvem valores éticos e culturais.

Mostra Emmanuel que Jesus não pode ser compreendido como um simples filósofo, tendo-se em conta os valores divinos de sua hierarquia espiritual, conseguidos à custa de inumeráveis encarnações em mundos, hoje já inexistentes.

Esteve encarnado em nosso planeta uma única vez, e tornou-se, na expressão do Codificador, o "modelo e guia para a humanidade", haja vista ter sido Jesus o único Espírito Puro a envolver-se nos fluidos carnais da Terra.

Os Evangelhos

A Mensagem Cristã encontra-se distribuída nos quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), nas Epístolas apostólicas, nos Atos dos Apóstolos e no Apocalipse de João.

Uma análise crítica dos Evangelhos e das Cartas Apostólicas, leva-nos, naturalmente, ao encontro de algumas passagens pouco aceitáveis, ilógicas ou até mesmo absurdas: "A tentação no deserto", "A expulsão dos vendilhões do templo" e muitos pensamentos colocados na boca de Jesus, não resistem a uma análise racional por encontrarem-se em evidente contradição com os mais elementares princípios da lógica, da justiça e da caridade.

Estes desencontros evangélicos em nada desmerecem a obra, que é, segundo Kardec, "código universal da moral", mas despertam nossa atenção para alguns detalhes vinculados a ela:

  1. As Adulterações Involuntárias: Jesus nada escreveu. Acredita-se que as primeiras anotações tenham surgido muito tempo depois da sua morte. Marcos, Lucas e Paulo não chegaram a conhecer o Messias e, portanto, colheram informações de outras fontes. Todos essas evidências levam-nos a acreditar que determinadas colocações apresentadas nos Evangelhos não correspondem à realidade absoluta dos fatos. Certamente, ocorreram adulterações involuntárias.
  2. Os Enxertos dos Evangelistas: Notamos, ao examinarmos os Evangelhos, que uma preocupação básica ocupava a mente dos evangelistas: provar que Jesus era de fato o Messias aguardado pelos judeus. Para que a Mensagem cristã viesse a vingar na Palestina, esta idéia deveria prevalecer. Acredita-se então, que algumas passagens da Boa Nova não ocorreram realmente, mas foram acrescentadas às anotações com esse objetivo. "O nascimento de Jesus em Belém", "a hipotética viagem ao Egito", a "Tentação no deserto" e muitas outras passagens teriam sido enxertadas para provar a tese de que Jesus era o Salvador dos Judeus, o Enviado de Jeová.
  3. As Adulterações Posteriores da Igreja: muitas anotações verificadas nos textos bíblicos de hoje não são identificadas nas versões originais, mostrando que foram acrescentadas posteriormente.Para justificar certos dogmas, alguns sacramentos e determinadas práticas religiosas, certos representantes da Igreja, ainda nos primeiros séculos da era Cristã, acrescentaram aos textos originais idéias, princípios e passagens que na realidade não ocorreram.

Terceira Revelação: Espiritismo

Allan Kardec apresenta o Espiritismo como sendo a Terceira Revelação da Lei de Deus, o Consolador prometido aos homens por Jesus, conforme anunciado por [João-XIV:15-17,26]:

"Se me amais, guardai os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Consolador, para que fique eternamente convosco, o Espírito da Verdade, a quem o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece. Mas vós o conhecereis, porque ele ficará convosco e estará em vós. - Mas o Consolador, a quem o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito."

Kardec, examinando o tema, afirma:

"O Espiritismo vem, no tempo assinalado, cumprir a promessa do Cristo. Ele chama os homens à observância da lei; ensina todas as coisas, fazendo compreender o que o Cristo só disse em parábolas. O Espiritismo vem abrir os olhos e os ouvidos porque ele fala sem figuras e alegorias."

Da mesma maneira que Jesus não veio destruir a lei mosaica, apresentada 15 séculos antes Dele por Moisés, assim também o Espiritismo não vem derrogar a lei cristã mas completá-la, desenvolvê-la, enriquecê-la.

Nesse sentido, o Espiritismo se propõe a revelar tudo aquilo que Jesus não pode dizer àquela época em função da pouca maturidade espiritual de sua gente. Ele é, portanto, obra do Cristo, que o preside e o acompanha, objetivando a recuperação moral da humanidade.

O Caráter da Revelação Espírita

Do ponto de vista de uma revelação religiosa, o Espiritismo apresenta algumas características particulares:

a) Estruturação Coletiva

A primeira revelação teve a sua personificação em Moisés, a segunda no Cristo, a terceira não a tem em indivíduo algum; as duas primeiras foram individuais, a terceira coletiva; aí está um caráter essencial de grande importância. Ela é coletiva no sentido de não ser feita ou dada como privilégio a pessoa alguma; ninguém, por conseqüência, pode inculcar-se como seu profeta exclusivo; foi espalhada simultaneamente, por sobre a Terra, a milhões de pessoas, de todas as idades e condições, desde a mais baixa até a mais alta da escala.

Lembra Kardec:

"Que as duas primeiras revelações, sendo fruto do ensino pessoal ficaram forçosamente localizadas, isto é, apareceram num só ponto, em torno do qual a idéia se propagou pouco a pouco; mas foram precisos muitos séculos para que atingissem as extremidades do mundo, sem mesmo o invadirem inteiramente. A terceira tem isto de particular: não estando personificada em um só indivíduo, surgiu simultaneamente em milhares de pontos diferentes, que se tornaram centros ou focos de irradiação."

b) Origem Humano-Espiritual

Surgindo o Espiritismo numa época de emancipação e madureza espiritual, em que a inteligência, já desenvolvida, não se resigna a representar papel passivo; em que o homem nada aceita às cegas, mas quer ver aonde o conduzem, quer saber o porquê e o como de cada coisa - tinha ela de ser ao mesmo tempo o produto de um ensino e o fruto do trabalho, da pesquisa e do livre exame. Assim sendo, os Espíritos propõem-se a ensinar somente aquilo que é mister para guiar o homem no caminho da verdade, mas se abstêm de revelar o que o homem pode descobrir por si mesmo, deixando-lhe o cuidado de discutir, verificar e submeter tudo ao cadinho da razão, deixando mesmo, muitas vezes, que adquira experiência à sua custa. Fornecem-lhe o princípio, os materiais; cabe-lhe, a ele, aproveitá-los e pô-los em obra.

O Espiritismo, portanto, tem uma dupla origem: espiritual, pois sua estrutura doutrinária foi em grande parte ditada por Espíritos Superiores preparados para este mister; e nesse sentido ele é uma revelação. Mas tem também uma origem humana, pois foi e continua sendo enriquecido, trabalhado e burilado por espíritas cultos e dedicados que dão o melhor de si no aperfeiçoamento da obra.

c) Caráter Progressivo

Um último caráter da revelação espírita é que, apoiando-se em fatos, tem de ser, e não pode deixar de ser, essencialmente progressiva como todas as ciências de observação. Por sua substância, alia-se à Ciência que, sendo a exposição das leis da natureza com relação a certa ordem de fatos, não pode ser contrária às leis de Deus, autor daquelas leis.

O Espiritismo pois, não estabelece como princípio absoluto senão o que se acha evidentemente demonstrado, ou o que ressalta logicamente da observação. Entendendo com todos os ramos da economia social, aos quais dá o apoio das suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam, desde que hajam assumido o estado de verdades práticas.

Kardec, a respeito desse caráter, emite vários pensamentos notáveis:

"Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará." [GEN-cap I,it 55]

"Somente as religiões estacionárias podem temer as descobertas da Ciência." [GEN-cap IV,it 10]

"As religiões, sejam quais forem, jamais ganharam coisa alguma em sustentar erros manifestos." [GEN-cap IV,it 9]

"Não há revelação que se possa sobrepor à autoridade dos fatos." [GEN-cap IV,it 8]

"A melhor religião será a que melhor satisfaça à razão e às legítimas aspirações do coração e do espírito; que não seja em nenhum ponto desmentida pela ciência positiva, que em vez de se imobilizar, acompanhe a humanidade em sua marcha progressiva, sem nunca deixar que a ultrapassem." [GEN-cap XVII,it 32]

"Se uma nova lei for descoberta, tem a Doutrina Espírita que se por de acordo com essa lei. Não lhe cabe fechar a porta a nenhum progresso, sob pena de se suicidar. Assimilando todas as idéias reconhecidamente justas, de qualquer ordem que sejam, físicos ou metafísicos, ela jamais será ultrapassada, constituindo isso uma das principais garantias de sua perpetuidade." [OP- 2ª parte]

Bibliografia

  1. O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec
  2. A Gênese - Allan Kardec
  3. Obras Póstumas - Allan Kardec
  4. A Caminho da Luz - Emmanuel/Chico Xavier
  5. O Consolador - Emmanuel/Chico Xavier
  6. Evolução em Dois Mundos - André Luiz/Chico Xavier - Waldo Vieira
  7. Cristianismo e Espiritismo - Leon Denis
  8. Cristianismo: A mensagem esquecida - Hermínio Miranda

O Tríplice Aspecto do Espiritismo

Introdução

No prólogo de [O Que é o Espiritismo], Allan Kardec define o Espiritismo como sendo:

"Uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como de suas relações com o mundo espiritual."

Em outra passagem, ainda na obra citada, o Codificador acrescenta:

"O Espiritismo é ao mesmo tempo ciência experimental e Doutrina Filosófica. Como ciência prática, tem a sua essência nas relações que se podem estabelecer com os espíritos. Como filosofia compreende todas as conseqüências morais decorrentes dessas relações."

Pode-se observar do pensamento do Codificador, que o Espiritismo reveste-se de três aspectos distintos, mas complementares:

  1. Ciência Experimental;
  2. Doutrina Filosófica;
  3. As conseqüências morais decorrentes das duas anteriores.

Emmanuel, em [O Consolador] diz:

"Podemos tomar o Espiritismo, simbolizado como um triângulo de forças espirituais. A ciência e a filosofia vinculam à Terra essa figura simbólica, porém, a religião é o ângulo divino que a liga ao céu."

Em outra mensagem mediúnica, o benfeitor acrescenta:

"Não será justo em nosso movimento libertador da vida espiritual, prescindir da ciência que estuda, da filosofia que esclarece e da religião que sublima."

II - O Triângulo de Emmanuel

Espiritismo e Ciência

No aspecto científico, o Espiritismo demonstra a existência da alma e sua imortalidade, principalmente através do intercâmbio mediúnico entre os encarnados e desencarnados.

Preocupa-se em estudar a intimidade do fenômeno mediúnico, suas conseqüências na vida das pessoas, bem como as características do ser espiritual, sua origem, sua natureza e seu destino.

O aspecto científico do Espiritismo foi desenvolvido em duas obras de Allan Kardec, o Livro dos Médiuns e A Gênese.

Espiritismo e Filosofia

Quando o Homem pergunta, interroga, cogita, quer saber o "como" e o "porquê" das coisas, dos fatos, dos acontecimentos, nasce a filosofia que mostra o que são as coisas e porque são as coisas.

No aspecto filosófico, o Espiritismo vai preocupar-se com os problemas do Homem, suas dúvidas, seus questionamentos, sua condição de ser eterno em busca da Divindade, através de múltiplas existências físicas. Vai examinar os atributos da Divindade, suas relações com o Homem e vai apresentar um código de moral através do qual a criatura se identificará, um dia, com seu Criador.

Espiritismo e Religião

Ao ser indagado quanto ao aspecto religião do Espiritismo, o médium Francisco Cândido Xavier assim se manifestou:

"Poderíamos figurar, por exemplo, a Ciência como sendo a verdade, a Religião, como sendo a vida e a Filosofia como sendo a indagação da criatura humana entre a Verdade e a Vida. Todos os três aspectos são muito importantes, porque a Filosofia estuda sempre, a Ciência descobre sempre, mas a Vida atua sempre. Todos esses aspectos são essenciais, mas a Religião é sempre a mais importante, porque a verdade é uma luz que a todos chegaremos, a indagação é um processo do que todos participamos, mas a vida não deve ser sacrificada nunca e a Religião assegura a vida, assegurando a ordem da vida."

Como religião, o Espiritismo preocupa-se com as conseqüências morais do ensino científico-filosófico, buscando, na ética pregada por Jesus, os elementos que deverão nortear a conduta do Homem.

No entanto, não se trata o Espiritismo de uma Religião constituída, tradicional, estruturada através de rituais, sacramentos, dogmas e classes sacerdotais. Mas sim, uma religião no sentido etimológico do termo, como "religare", ou seja, elemento de ligação da criatura com o Criador. Religião como atitude de vida, como modo de proceder, buscando uma identificação com Deus, não através de atitudes exteriores, artificiais, mecanizadas, mas através de uma vida reta, digna e fraterna.

O Espiritismo não se constitui de uma religião a mais, visto que não tem cultos instituídos, nem imagens, nem rituais, nem mitos, nem crendices, nem tão pouco sacerdotes remunerados. Podemos porém, considerá-lo em seu aspecto religioso quando estabelece um laço moral entre os homens, conduzindo-os em direção ao Criador, através da vivência dos ensinamentos morais do Cristo. É no seu aspecto religioso que repousa a sua grandeza divina, por constituir a restauração do Evangelho de Jesus, estabelecendo a renovação definitiva do homem, para a grandeza do seu imenso futuro espiritual.

Kardec [OP] examina a questão, afirmando:

"O Espiritismo é uma doutrina filosófica de efeitos religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo que forçosamente vai ter as bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas não é uma religião constituída, visto que não tem culto, nem rito, nem templos em que entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o título de sacerdote ou de sumo-sacerdote."

Num discurso pronunciado na Sociedade Pariense de Estudos Espíritas, em 1º de novembro de 1868, ele afirmou:

"O laço estabelecido por uma religião, seja qual for seu objetivo, é um elo essencialmente moral que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não é só o fato de compromissos materiais que se rompem à vontade, ou do cumprimento de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse elo moral é estabelecer entre os que ele une a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência, a religião da família.

Se assim é, dirão, o Espiritismo então é uma religião?

Perfeitamente, sem dúvida; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião e nós nos ufanamos disso."

O aspecto religioso foi desenvolvido por Kardec nas obras o Evangelho Segundo o Espiritismo e no Céu e Inferno.

Bibliografia

  1. O que é o Espiritismo - Allan Kardec
  2. Livro dos Espíritos - Allan Kardec
  3. Allan Kardec (Vol. III) - Zêus Wantuil e Francisco Thiesen
  4. O Consolador - Emmanuel/Chico Xavier

Deus e os Atributos da Divindade

Introdução

[LE-cap I] trata exclusivamente de Deus. Allan Kardec pretendeu demonstrar, com isso, que o Espiritismo tem na existência de Deus o seu primeiro princípio basilar.

Deus, porém, não pode ser percebido pelo homem em sua divina essência. Mesmo depois de desencarnado, dispondo de faculdades perceptivas menos materiais, não pode ainda o espírito perceber totalmente a natureza divina.

Pode, entretanto, o homem, ainda no estágio de inferioridade em que se encontra, ter convincentes provas de que espírito existe. Esta provas se assentam na razão e no sentimento.

Racionalmente, a prova da existência de Deus temo-la neste axioma: "Não há efeito sem causa." Vemos constantemente uma imensidade de efeitos cuja causa não está na humanidade, pois a humanidade é impotente para produzi-los. A causa, portanto, está acima da humanidade. É esta causa que se chama Deus, Jeová, Alá, Fo-Hi, etc.

Outro princípio igualmente elementar e que de tão verdadeiro passou a axioma é o de que "todo efeito inteligente tem que decorrer de uma causa inteligente."

Os efeitos referidos acima absolutamente não se produzem ao acaso, fortuitamente e em desordem. Desde a organização do mais pequenino inseto e da mais insignificante semente, até a lei que rege os mundos que circulam no espaço, tudo atesta uma idéia diretora, uma combinação, uma providência que ultrapassa todas as combinações humanas. A causa é, pois, soberanamente inteligente.

Alguns atribuem a formação primária das coisas a uma combinação da matéria, isto é, ao acaso. Isto constitui uma insensatez, pois o acaso é cego e não pode produzir os efeitos que a inteligência produz. Um acaso inteligente já não seria acaso.

Kardec lembra um provérbio que diz: "Pela obra se reconhece o autor." Vejamos a obra e procuremos o autor. O homem orgulhoso nada admite acima de si. Procurando a causa primária da obra do Universo, se reconhece no seu autor uma inteligência suprema, superior à humanidade.

Para crer-se em Deus, basta se lance o olhar sobre as obras da Criação. O universo existe, logo tem uma causa. Duvidar da existência de Deus é negar que todo efeito tem uma causa e adiantar que o nada pode fazer alguma coisa.

Pelo sentimento, pode o homem, ainda compreender a existência de Deus, porque há no homem, desde o mais primitivo até o mais civilizado, a idéia inata da existência de Deus. Acima pois, do raciocínio lógico, prova-nos a existência de Deus a intuição que dele temos.

O sentimento instintivo que todos os homens têm da existência de Deus é, sem dúvida, uma forte evidência de Sua realidade. Esse sentimento não é fruto de uma educação, resultado de idéias adquiridas pois ele é universal, encontra-se mesmo entre os selvagens a que nenhum ensino a respeito foi ministrado. Os povos selvagens nenhuma revelação tiveram, entretanto, crêem instintivamente na existência de um poder sobre-humano.

O Que é Deus?

Com respeito à conceituação de Deus segundo o Espiritismo, sabendo-se que limitar Deus a uma definição é impossível, a Doutrina Espírita procura partir de dados racionais para não cair no terreno das idéias imaginárias e místicas.

Allan Kardec [LE-qst 1] indaga aos Espíritos sobre a Divindade. De forma lógica, não usa a forma "Quem é Deus?" que daria um sentido de personificação, uma idéia antropomórfica, mas busca ele a natureza íntima, a essência das coisas, formulando a proposição desta forma: "Que é Deus?"; ao que os Espíritos respondem:

"Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas."

Mas quando Kardec procura desenvolver esta definição dos espíritos indagando se poderíamos aprofundar no entendimento da Divindade, os benfeitores afirmam:

"Não. Falta-lhe, para tanto, um sentido."

E acrescentam:

"Quando o seu espírito não estiver mais obscurecido pela matéria, e pela sua perfeição tiver se aproximado Dela, então A verá e A compreenderá." [LE- qst 10,11]

Atributos da Divindade

Afirma Allan Kardec, baseado no pensamento dos Espíritos Superiores, que não é dado ao homem sondar a natureza íntima de Deus. Para compreendê-lo, ainda nos falta o sentido próprio, que só se adquire por meio da completa depuração do espírito.

Mas, se não pode penetrar na essência de Deus, o homem pode, pelo raciocínio, chegar a conhecer-lhe os atributos necessários, suas qualidades básicas, porquanto, vendo o que ele absolutamente não pode ser, sem deixar de ser Deus, deduz daí o que ele deve ser.

Sem o conhecimento dos atributos de Deus, impossível seria compreender-se a obra da Criação. Esse o ponto de partida de todas as crenças religiosas e é por não se terem reportado a isso, como ao farol capaz de as orientar, que a maioria das religiões errou em seus dogmas. As que não atribuíram a Deus a onipotência imaginaram muitos deuses, as que não lhe atribuíram soberana bondade fizeram dele um Deus cioso, colérico, parcial e vingativo.

Podemos assim dizer que Deus é a SUPREMA e SOBERANA INTELIGÊNCIA, ETERNO, IMUTÁVEL, IMATERIAL, ONIPOTENTE, SOBERANAMENTE JUSTO e BOM, INFINITAMENTE PERFEITO e ÚNICO.

    1. Suprema e Soberana Inteligência: é limitada a inteligência do homem, pois que não pode fazer, nem compreender tudo o que existe. A de Deus, abrangendo o infinito, tem de ser infinita. Se a supuséssemos limitada num ponto qualquer, poderíamos conceber outro ser mais inteligente, capaz de compreender e fazer o que o primeiro não faria e assim por diante, até ao infinito.
    2. Eterno: Deus não teve começo e não terá fim. Se tivesse tido princípio, houvera saído do nada. Ora, não sendo o nada coisa alguma, coisa nenhuma pode produzir. Ou, então, teria sido criado por outro ser anterior, nesse caso, este ser é que seria Deus. Se lhe supuséssemos um começo ou fim, poderíamos conceber uma entidade existente antes dele e capaz de lhe sobreviver, e assim por diante, ao infinito.
    3. Imutável: se estivesse sujeito a mudanças, nenhuma estabilidade teriam as leis que regem o universo.
    4. Imaterial: a natureza de Deus difere de tudo o que chamamos matéria. De outro modo, não seria imutável, pois estaria sujeito às transformações da matéria.
    5. Onipotente: se não possuísse o poder supremo, sempre se poderia conceber uma entidade mais poderosa e assim por diante, até chegar-se ao ser cuja potencialidade nenhum outro ultrapassasse. Então esse é que seria Deus.
    6. Soberanamente Justo e Bom: a providencial sabedoria das leis divinas se revela nas mais pequeninas coisas, como nas maiores, não permitindo essa sabedoria que se duvide da sua justiça, nem da sua bondade.
    7. Infinitamente Perfeito: é impossível conceber-se Deus sem o infinito das perfeições, sem o que não seria Deus, pois sempre se poderia conceber um ser que possuísse o que lhe faltasse. Para que nenhum ser possa ultrapassá-lo, faz-se mister que ele seja infinito em tudo.
    8. Único: a unicidade de Deus é conseqüência do fato de serem infinitas as suas perfeições. Não poderia existir outro Deus, salvo sob a condição de ser igualmente infinito em todas as coisas, visto que se houvesse entre eles a mais ligeira diferença, um seria inferior ao outro, subordinado ao poder desse outro e então, não seria Deus. Se houvesse entre eles igualdade absoluta, isto equivaleria a existir de toda eternidade, um mesmo pensamento, uma mesma vontade, um mesmo poder. Confundidos assim, quanto a identidade, não haveria, em realidade, mais que um único Deus.

A Providência Divina

A providência é a solicitude de Deus para com as suas criaturas, o cuidado permanente e o interesse infinito que o Criador tem pela sua obra maior, que é o espírito.

Deus está em toda parte, tudo vê, a tudo preside, mesmo às coisas mais mínimas. É nisto que consiste a ação providencial.

Deus, em relação as suas criaturas, é a própria Providência, na sua mais alta expressão, infinitamente acima de todas as possibilidade humanas. Manifesta-se em todas as coisas, está imanente no universo e se exerce através de leis admiráveis e sábias. Tudo foi disposto pelo amor do Pai, soberanamente bom e justo, para o bem de seus filhos, desde as mais elementares providências para a manutenção da vida orgânica até a dispersão da faculdade superior do livre arbítrio, que dá ao homem o mérito da conquista consciente da felicidade.

Deus tudo fez e tudo faz para o bem das criaturas. Imprimiu-lhes na consciência todas as leis morais e, em relação à humanidade terrestre, ainda se manifestou quando nos confiou a Jesus.

Bibliografia

  1. Livro dos Espíritos - Allan Kardec
  2. A Gênese - Allan Kardec

Elementos Gerais do Universo:
espírito e matéria

O Espírito

Allan Kardec [LE-qst 27] afirma que todas as coisas que existem no universo podem ser sintetizadas em três elementos fundamentais, que ele denomina de Trindade Universal. Esses elementos são: Deus, espírito e matéria.

O espírito, na definição da Doutrina Espírita, é o princípio inteligente do universo, individualizado, com moralidade própria. O espírito é distinto de Deus, seu criador, e da matéria, a qual se une para que possa se manifestar.

A Matéria

Define-se matéria, como tudo o que tem massa e que ocupa lugar no espaço. De acordo com essa conceituação, tudo aquilo que pode ser pesado, medido, etc., é matéria. Existem outros elementos, porém, como o som, a luz, o calor. Estes são denominados energia. Classicamente, costuma-se dizer que energia é a capacidade dos corpos para produzir um trabalho ou desenvolver uma força. Sabe-se que a energia não pode ser "criada" e nem "destruída", mas sim transformada. Toda forma de energia que existe no Universo é transformação de uma outra anterior.

A partir da Teoria da Relatividade de Einstein tem-se observado que, na realidade, matéria e energia são as duas faces de uma mesma moeda. A matéria é energia condensada e a energia uma forma de apresentação da matéria.

Na definição espírita matéria é "tudo sobre o qual o espírito exerce a sua ação". André Luiz [Mecanismos da Mediunidade] referindo-se ao tema diz

"A matéria é energia tornada visível e toda energia, originariamente, é força divina de que nos apropriamos para interpor os nossos propósitos aos propósitos da criação."

Reconhece-se três tipos de matéria:

Ponderável

É a matéria física, que preenche o mundo dos encarnados e dá origem aos corpos e elementos.

Imponderável

Também denominada matéria psi (Hernani Guimarães Andrade), matéria mental (André Luiz) ou matéria quintessenciada (Allan Kardec), é a matéria do mundo espiritual, num tônus vibratório mais elevado.

Fluido Cósmico Universal (FCU)

Também chamado fluido universal, exerce o papel de intermediário entre o espírito e a matéria propriamente dita. Podemos entender o FCU como sendo a matéria-energia elementar primitiva, dispersa por todos os cantos do Universo. Uma matéria extremamente sutil, cujas modificações e transformações vão constituir a inumerável variedade dos corpos da natureza.

André Luiz [Evolução em Dois Mundos] afirma que

"O Fluido Cósmico é o plama divino, hausto do Criador, força nervosa do Todo-Sábio. Nesse elemento primordial vibram e vivem constelações e sóis, mundos e seres, como peixes no oceano. O Fluido Cósmico é a força em que todos vivemos, nos ângulos variados da Natureza."

Os Fluidos

Segundo a Física, fluidos são corpos cujas moléculas cedem a mínima pressão, movendo-se entre si com facilidade e separando-se quando entregues a si mesmos. A Física atual restringe o conceito de fluidos apenas aos líquidos e gases.

Na Doutrina Espírita os fluidos têm o mesmo sentido de matéria. Os fluidos podem variar seu estado desde a eterização até a materialização. É comum a utilização da expressão fluidos espirituais para designar a matéria imponderável, embora segundo Kardec [GEN-cap XIV] este denominacão não seja exata. Os fluidos sofrem ação do Espírito. Segundo André Luiz [Evolução em Dois Mundos] os fluidos espirituais são

"Um fluido vivo e multiforme, estuante e inestancável, a nascer da própria alma, de vez que podemos defini-lo, por subproduto do fluido cósmico, absorvido pela mente humana, em processo vitalista semelhante a respiração, pelo qual a criatura assimila a força emanante do Criador, esparsa em todo o cosmo, transubstanciando-a, sob a própria responsabilidade, para influenciar na Criação."

Observa-se pela definição acima que todo um processo dinâmico e complexo envolve a formação dos fluidos espirituais. Ao ser absorvido pelo Espírito, o Fluido Cósmico será manipulado na mente. A mente humana é um brilhante laboratório de forças sutis, onde o Pensamento e a Vontade estarão aglutinando as partículas do Fluido Cósmico e dando a elas características próprias. André Luiz dá o nome de raio da emoção ou raio do desejo a essa força que opera a transformação do Fluido Universal.

Os fluidos, desta forma, possuem várias características. Sua pureza varia ao infinito, na dependência da evolução moral do Espírito que os produziram. Possuem também propriedades, tais como odor, coloração e temperatura. Sob o ponto de vista físico, podem ser vivificantes, calmantes, anestesiantes, curativos, alimentícios, soníferos, enfermiços, etc.

Bibliografia

  1. O Livro dos Espíritos - Allan Kardec
  2. A Gênese - Allan Kardec
  3. Mecanismos da Mediunidade - André Luiz/Chico Xavier
  4. Evolução em Dois Mundos - André Luiz/Chico Xavier - Waldo Vieira