Allan Kardec e o Espiritismo

Élzio Ferreira de Souza

Allan Kardec
Allan Kardec

18 de abril de 1857

Esta data marca o lançamento da 1a edição de O Livro dos Espíritos para o mundo. Com ele, Hyppolyte Léon Denizard Rivail mostrava uma nova faceta da sua personalidade de educador, utilizando o pseudônimo de Allan Kardec, que, dali por diante, seria o “nome de guerra” com que se consagraria para a posteridade, indicando o novo rumo da pesquisa do espírito. Este trabalho resultou em um marco bem definido no campo do Espiritualismo.

Ao descobrir a possibilidade de comprovar a existência dos espíritos através das intervenções destes no mundo físico com a intermediação dos médiuns, percebeu ele que isto se constituía num poderoso instrumento para investigar o novo mundo dos espíritos e assim oferecer aos espiritualistas um elemento decisivo no combate travado com o materialismo através dos tempos.

Até então as doutrinas espiritualistas não tinham ancorado em bases experimentais e sofriam o combate dos cépticos e agnósticos, que, por todos os lados, desancavam-lhe críticas, aproveitando os flancos mais frágeis dos ritos, dos dogmas, do sacerdócio, dos abusos cometidos pelas religiões, profligando a exploração dos pobres e a mancomunação delas com os poderosos, num comércio desavergonhado com os políticos.

Kardec percebeu que, frente à onda do positivismo e do materialismo, que se transformava em ideologia, tornava-se imprescindível enfrentá-los, utilizando as mesmas armas, e era isto justamente o que lhe oferecia a fenomenologia espírita – os fatos capazes de demonstrar a sobrevivência do Espírito.

O papel de Kardec

O mestre lionês é um exemplo do homem que “perdeu sua vida para salvá-la”. Renunciando a sua tarefa de mestre-escola, de autor de livros educacionais, aparentemente apagava-se para o mundo da cultura e mergulhava num terreno novo que a todos pareceria perigoso: sustentar que alguma coisa de essencial para a humanidade estaria a surgir do bailado das mesas que deslizavam nos salões parisiences. Esta foi a sua opção.

Apagando-se, porém, ressurgiu à frente de um pensamento de renovação cristã, desbordou sua atuação dos meios educacionais da França, para impor-se ao mundo como expressão de uma nova liderança religiosa, em que a visão do espírito não exige voltar as costas para as conquistas da ciência

Um estudo detalhado do movimento espírita demonstra, entretanto, que Allan Kardec não fundou o Espiritismo. Não guardou ele nenhuma ilusão a respeito. Este desvio pertence a alguns dos seus epígonos, que lhe falseiam a grandeza cometendo um erro histórico, confundindo ciência, modelo e teoria.

Em primeiro lugar, não custa repetir, o mestre destacava sempre a existência do Espiritismo através dos tempos, pois os ensinos dos Espíritos tinham sido fornecidos ao longo da história da humanidade aos mais diferentes povos, embora muitas vezes se apresentassem mesclados com as distorções geradas pelos homens nas mais distintas religiões e filosofias.

Era o Espiritismo Retrospectivo, do qual distinguia ele o Espiritismo Moderno para certificar o nascimento da nova onda do pensamento espiritualista, marcada pelo surgimento de um intenso e amplo intercâmbio com o mundo espiritual, qual uma “invasão organizada” de “extraterrestres” desprovidos da indumentária física.

Os fatos marcantes foram os fenômenos ocorridos, no ano de 1848, com as meninas Fox em Hydesville: os fenômenos empolgaram os Estados Unidos e ganharam os jornais e até o Congresso, clamando pela investigação dos fatos. Grande parte dos estudiosos situam aí o ponto inicial do movimento moderno, embora Kardec desse preferência ao ano de 1850, situando-o assim quatro anos antes de ter ele tomado conhecimento do assunto e iniciado seus próprios estudos e experimentações.

O preclaro Emmanuel (espírito), com exatíssima correção histórica, situa o seu desempenho, asseverando que “ninguém poderá afirmar que Kardec fosse o autor do Espiritismo. Este é de todos os tempos e situações da humanidade. Entretanto, é ele o missionário da renovação cristã” (Xavier 1990:61). Sem dúvida, este foi seu papel. O Cristianismo, envelhecido pelas religiões institucionalizadas, com as hierarquias organizacionais do sacerdócio, de conselhos, de jurisdições, de comandos escalonados municipais, estaduais, nacionais e internacional, sobrava ao ataque dos espíritos independentes que não se acomodavam mais às tramas dos conciliábulos, por perceberem que o pensamento cristão se via estrangulado exatamente nas mãos de quantos se abrigavam sob sua bandeira.

Ainda que a crítica iluminista dos séculos XVII e XVIII não se destinasse a lançar o homem nos braços do materialismo, a mancomunação das igrejas com os senhores do poder e da economia fez surgir uma onda de revolta que, atraindo espíritos brilhantes, desandou num ceticismo militante, terminando por envolver as massas operárias sempre iludidas por aqueles que lhes ofereciam o céu no além em troca da passividade, da fome e da miséria que curtissem na terra.

Exatamente, contra este estado de coisas, manifestou-se Kardec, procurando demonstrar que, embora as religiões organizadas se tivessem tornado “instrumentos de dominação” (RE 4/1866:101; G. I:8), conforme o estigma iluminista lançado sobre as mesmas, não eram “o ópio do povo” como apregoava Marx: a droga era fornecida pelos traficantes e novos vendilhões do templo, mas não era sua essência, muito menos a do Cristianismo em particular.

Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade estavam amortecidos não só pela reviravolta política na França de volta à era napoleônica, mas pela desvalorização dos ideais cristãos nos templos.

Havia uma necessidade imperiosa de atacar o ceticismo em seu próprio ambiente, e não havia nada melhor do que partir daqueles fatos que se mostravam tão perturbadores pelo inusitado da sua aparição, de sua força e extensão.

O positivismo estendia as suas raízes nas exigências do método indutivo; o movimento materialista capitaneado por Marx e Engels começara a arrebanhar o operariado; o chamado Socialismo utópico perdia terreno. Kardec não podia deixar de sentir que aquele era o momento de introduzir-se uma cunha espiritualista que permitisse aportar os navegantes do outro mundo desejosos de se fazerem presentes e de ditarem suas impressões a partir dele, desvendando sua existência e revelando leis desconhecidas.

E a este trabalho integrou sua vida quando atingira a idade de 50 anos (1854).

Metodologia

Kardec viveu numa época de predominância do positivismo, não há de admirar, pois, que se fixasse sobretudo na repetição dos fatos e nele se ancorasse para estabelecer a teoria espírita. A experiência, sustentava, sempre precedera à teoria (OP – “ Resposta aos detratores”).

Mas o importante não era apenas a recorrência dos mesmos, mas o conteúdo e as conseqüências: o que ensinavam aqueles que se diziam Espíritos e a comprovação da sobrevivência que resultava das identificações.

Era necessário conhecer o saber dos Espíritos e seus limites, a interferência dos médiuns e assistentes, as leis que governavam o intercâmbio entre os dois mundos.

Penetrar no mundo além exigia estabelecer um relacionamento permanente através de investigação de campo em que entrevistas se sucedessem, relacionando não apenas os Espíritos que se mostravam possuidores de maior conhecimento e espiritualidade, mas também o submundo astral para que se pudesse ter da nova sociedade uma visão mais ampla e compreender o funcionamento da Justiça após a morte.

Dando continuidade ao trabalho dos pioneiros franceses que lhe entregaram os cinqüenta primeiros cadernos contendo questionamentos aos Espíritos para que os ordenasse, estabeleceu assim uma sociologia do mundo invisível que se reflete em O Livro dos Espíritos.

Não sendo o ensino dos Espíritos uniforme, precisou estabelecer normas para sua fixação, a fim de firmar a prevalência, e, assim, introduziu o controle da racionalidade e o controle universal, ou seja, a exigência da concordância das revelações espontâneas feitas por médiuns situados em distintas partes do planeta, de modo independente.

Outros métodos têm sido utilizados na investigação dos fatos, tais como os de laboratório, estatísticos, intuitivos, etc., mas, no ajoeiramento do ensino, aqueles critérios ainda se mostram insubstituíveis.

Uma teoria kardecista?

Na exposição do Espiritismo, não faltam estudiosos que repilam com vigor a idéia de designar-se o pensamento exposto por Kardec com a denominação de teoria kardecista, estampando o argumento de que ele próprio teria afirmado e reafirmado de que a doutrina revelada pertencia aos Espíritos, de que não se poderia afirmar a existência de uma “doutrina de Allan Kardec” (QEE 2º diálogo), porque não era “uma concepção humana pessoal”, possuía “o valor de uma obra coletiva”, “as comunicações dos Espíritos fundavam o Espiritismo” (RE 4/1966:109 e 111).

Não se coloca em dúvida a sinceridade do mestre; ocorre, porém, que a revelação não lhe chegou às mãos acabada, e que todo um trabalho de observação, experimentação, sistematização, foi necessário para que ela adquirisse o status que lhe corresponde.

Em A Gênese (I:13), observou que o Espiritismo tinha uma dupla característica – a de revelação divina e a de revelação científica, constituído pelo trabalho experimental do homem.

Todo o norteamento inicial do trabalho lhe pertenceu, e foi ele quem sistematizou os ensinos, estabelecendo os princípios doutrinários. Neste teor, é que ele se reconhece como “aquele que fundou a teoria” (OP “O Projeto de 1868”), embora não fosse “uma concepção pessoal, nem o resultado de um sistema preconcebido” (OP - “Resposta aos Detratores”).

Se o Espiritismo não foi por ele fundado, se ele sistematizou os ensinos dos Espíritos, adjetivar a teoria ou seu pensamento corresponde a reconhecer a marca de sua participação.

Naturalmente, não há de faltar a objeção de quantos tragam à colação o fato de ter Kardec sustentado, reivindicando a criação da palavra Espiritismo, ter “o direito de lhe determinar as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita” (O P - “Allan Kardec e a nova constituição”), podendo concluir com isto da superfluidade de falar-se em uma teoria kardecista.

Mas as palavras do mestre devem ser entendidas corretamente. Com elas, não pretendia Kardec submeter todos à camisa de força da intolerância clerical, transportada para dentro do Espiritismo, nem pretendia exercer um poder semelhante ao do papa.

Foi tudo quanto menos desejou. Sem dúvida, o fato de denominar um ramo do conhecimento, de estabelecer métodos de investigação, de sistematizar o ensino, não confere o direito de excluir outros estudos independentes.

O Espiritismo como ciência e filosofia jamais poderia condicionar-se a estes limites por mais amplos que fossem, para lembrar Léon Denis na avaliação da obra kardecista (DM 1983:171s; NI: 1957:2).

E o próprio Kardec admitia a existência de escolas de espiritismo (QEE 3.º Diálogo, última questão), intitulando os estudos espíritas, realizados na América do Norte, de Escola Espírita Americana (RE 11/1861:381; 5/1864:146; 4/1869:96).

Uma leitura literal dos texto de Obras Póstumas citado acima só poderia encontrar vigência na esfera religiosa, desde que é no campo da religião que se estabelecem os limites de ingresso e adesão.

Mas, para quem estude o pensamento libertário de Allan Kardec, esta seria uma conclusão totalmente desfiguradora de suas idéias, pois, no discurso de 1868, ao definir o Espiritismo filosoficamente como uma religião, fez questão de aclarar seu pensamento, afirmando que “uma religião, em sua acepção nata e verdadeira”, era “um laço que religa os homens numa comunidade de sentimentos, de princípios e de crenças”, a fim de poder conceituar o Espiritismo, em seu aspecto religioso, como “a doutrina que funda os elos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza”(RE 12/1868:356 e 357).

Como se pode ver, as palavras de Kardec em 1866 terão que ser interpretadas à luz do seu pensamento sistemático, e não isoladamente. Ao reivindicar o direito de “determinar as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita”, não poderia ele referir-se senão àquilo que decorreria normalmente do estudo do objeto material e do objeto formal do Espiritismo, bem como da metodologia empregada.

Qualidades do espírita dizem respeito à ética espírita. E as crenças são uma conseqüência da própria investigação.

Em 1886, escrevia que “o Espiritismo proclamando a absoluta liberdade de consciência, não admite nenhum constrangimento em matéria de crença, e (...) jamais contestou a ninguém o direito de crer à sua maneira em matéria de Espiritismo, como em qualquer outra coisa” (RE 4/1866:112).

E Luís de França (espírito) corrobora estas palavras em mensagem recebida ainda em abril de 1866, asseverando que – “As obrigações impostas pelo Espiritismo são, pois, de um natureza essencialmente moral; são uma conseqüência da crença; cada um é juiz e parte em sua própria causa; mas as claridades intelectuais que traz a quem realmente quer conhecer-se a si mesmo e trabalhar em seu melhoramento são tais que amedrontam o s pusilânimes e, por isto, ele é rejeitado por tão grande número” (RE 5:/1886:159).

Para conhecer-se o que é ou não é Espiritismo, aliás, não há necessidade de consultar um indivíduo ou uma instituição, isto diz respeito à própria coerência interna da investigação psíquica: ao objeto estudado e ao tratamento dado a este objeto, e à coerência ética com a teoria dela decorrente.

Infalibilidade

Os críticos do Espiritismo procuraram gratificar a Allan Kardec com os títulos de sumo sacerdote, soberano pontífice, papa, tendo ele chamado a atenção de que jamais os aceitou nem os Espíritas lhe os conferiram (RE 4/1866:115).

Infelizmente, uma parcela do movimento espírita no Brasil deseja-lhe conferir um outro título que somente foi conferido ao Papa em 1870, o de infalível, o que, naturalmente, como a Chico Xavier, causar-lhe-ia horror.

A infalibilidade seria o “caixão e vela” do Espiritismo. Kardec nem se julgou infalível, nem conferiu aos Espíritos esta qualidade.

E a maior demonstração disto é o fato de ter retificado, ante novos ensinos, assertivas dos Espíritos transcritas na edição de 1857, ao publicar a 2a edição de O Livro dos Espíritos, em 1860.

Além do mais, poder-se-ia dizer que ele adotaria todas as sugestões lançadas provisoriamente nos papeis encontrados após a sua morte e publicadas no livro Obras Póstumas, no capítulo – “Constituição do Espiritismo” n.º VIII? Elas não parecem em contradita com o que escreveu na Revista Espírita 7/1864:197)?

A compreensão de Kardec em relação ao Espiritismo era sua própria posição: ele estaria sempre disposto a corrigir-se quando encontrado em erro, ou a explicar e reexplicar seu pensamento.

Ciência, Filosofia e Religião

Encontramos em Kardec o mais sério esforço para unir os três processos de conhecimento. É certo que os iluministas haviam estabelecido uma séria crítica às religiões tradicionais e apregoado a necessidade de uma religião natural, fundamentada na razão.

Constituíram-se duas correntes distintas na filosofia iluminista:

  1. a do supernaturalismo racionalista (Glanvill, Locke), que além da experiência individual, admitia a revelação e os milagres, submetidos à estrita racionalidade, acolhendo, destarte, os ensinos cristãos;
  2. o deísmo (Herbert of Cherbury, Voltaire, Diderot, Franklin, etc.), cujos corifeus, além da crítica racional, rejeitavam todas as religiões organizadas, inclusive as cristãs (Burns 1955:551s).

É dentro da primeira corrente que vamos encontrar as idéias explanadas por Kardec, assimilando a revelação divina, mas submetendo-a ao controle racional. Kardec, porém, percebeu que as comunicações dos Espíritos, cuja autenticidade era demonstrável, estavam a fornecer à filosofia a base necessária para formular experimentalmente os postulados que Kant fora obrigado a admitir como indispensáveis para corrigir o desencontro, existente na terra, entre virtude e felicidade: a liberdade nos atos, a imortalidade da alma, a justiça e a existência de Deus.

Uma religião diferente

Definindo o Espiritismo como ciência de observação e de experimentação, esforçou-se por todos os meios para conservá-lo dentro destes parâmetros: aceitável como princípio absoluto seria apenas aquilo que estivesse demonstrado com evidência, ou aquilo que resultasse logicamente da observação (G 1:55).

Não poderia deixar de interessar-se pelo conteúdo das mensagens dos espíritos que lhe forneciam as bases novas da ética cristã por ver nela os fundamentos para a renovação do mundo (E. I:9).

Isto fora exatamente o que lhe atraíra, passado o primeiro momento (Sausse 1993:29s). Ele entrevira “a chave do problema, tão obscuro e tão controvertido, do passado e do futuro da humanidade”, cuja solução lhe dominaria a sua vida (OP – “A minha primeira iniciação no Espiritismo”).

Um novo mundo se descortinava alongando a vida para além do túmulo, mais que uma descoberta constituía-se em uma “revolução nas idéias” (QEE 2º diálogo).

Os ensinos assestavam para a moral do Cristo sintetizada na regra áurea: “fazer os outros o que desejamos que os outros nos façam” (LE Intr. II); na caridade e na humildade encontrar-se-ia o processo de sua prática (E. XV:3).

Mas o Espiritismo iria fornecer à moral cristã uma base experimental: “o conhecimento dos princípios que relacionam os mortos com os vivos”, revelando ao homem seu passado e seu futuro, e apresentando “como sanção à doutrina as próprias leis da natureza”, o que o levaria a compreender a “solidariedade que liga todos os seres”: caridade e fraternidade tornar-se-iam assim necessidades sociais (G. I:56).

A moral não poderia ficar à parte da religião. Também Kant pensara assim: “A moral conduz infalivelmente à religião”, sendo a distinção puramente formal, e não de objeto.

Em Kardec, como em Pestalozzi, moral e religião acabavam por intercambiar-se. O Espiritismo tinha “por base as verdades fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma, a imortalidade, as penas e recompensas futuras” (EES, p. 28), nisto estaria a sua força (LE Concl. V), embora as fundamentasse de modo distinto a partir da parte experimental.

Os antropólogos Marion Aubrée e François Laplantine (1990:54).utilizaram a fórmula de Charles Fauvety, uma expressão que pode parecer-nos estranha, mas que dá a medida exata da diferenciação do Espiritismo em relação às outras religiões: religião laica, por desprovida de clero, de culto, de templo, ritual, e sacramento.

Visão de futuro

O Espiritismo se caracteriza por extensa gama de interesses o que o coloca em contato com as mais distintas ciências e filosofias.

O seus fundamentos decorrem da parte experimental. Não há verdades indiscutíveis.

O Espiritismo se apresenta como doutrina aberta à crítica. Em realidade, existem três fundamentos que são básicos, e que, se demonstrados em erro, decretariam a falência da teoria espírita: a existência do espírito, sua sobrevivência e imortalidade, Deus.

A experimentação fornece a prova dos dois primeiros, e indicia a existência divina (Amorim 1993:205). O Espiritismo, por isso, não se pode negar à discussão de qualquer uma das suas partes, a cada passo ele é chamado a provar a veracidade de cada uma das suas asserções, a partir da própria fundamentação fática. Isto o exige seu aspecto filosófico.

O grande mérito do mestre lionês foi não ter se arreceado ante as críticas e conduzido o Espiritismo além dos fenômenos, seguindo a direção para que eles apontavam.

O que nos parece uma decorrência lógica hoje, não se apresentava de fácil consecução: de um lado os ataques da Igreja e do outro dos cientistas céticos.

O que poderia parecer uma fantasia, na atualidade é a expressão do pensamento de cientistas e filósofos que estão cada vez mais convictos de que a matéria e a energia não lhes oferecem mais a solução última de seus problemas.

E não faltam os que, como Jean Charon, postulam a necessidade de levar em conta o espírito na descrição do universo pela Física (Souza 1991:80). A investigação espírita antecipou-se. A unidade da substância lhe constituiu uma das primeiras lições (LE 589 e 604).

A solidificação da matéria é apenas um estado transitório do fluido cósmico: a transformação da substância faz parte do continuum – matéria « energia (G 14:6). “O infinito existe mesmo em todas as coisas” (LE 35: Il en est de même de l’infini en toutes choses ). Além da matéria e da energia, o espírito, não mais uma abstração.

A fraternidade, a igualdade e a liberdade tornam-se imperativos decorrentes da comprovada realidade do espírito. As forças socializadoras, produto do evolucionário emergir da matéria, em constantes unidades coletivas cada vez mais complexas, desbordam dos átomos ao espírito (LE 540).

Uma moral não apenas filosófica, mas biológica, psicológica, espiritual. O espírito comandando os genes. O grupo de almas determinando a hereditariedade (LE 215; E 14:9; Xavier 1955:14). O espírito - a realidade no universo - é o espelho de Deus.

Bibliografia