A Carreira de Allan Kardec

Steve Hume

Este artigo é um entre inúmeros, tratando de “Espiritualismo e a Instituição”,
publicado no “Ark Review.”

No início desta série de artigos, eu escrevi que o Título Espiritualismo e a Instituição é um tanto equivocado. O que nós estamos realmente falando na verdade, é do efeito do peso das opiniões geralmente negativas, que a mediunidade tem provocado contra ela mesma. No final das contas, “Espiritualismo”, é somente um pretexto, uma conveniência verbal sobre o qual nós colocamos o fenômeno da mediunidade, e os ensinamentos que provem dela através de um contexto moderno.

“Instituição” é outra palavra conveniente que é usada para designar um conhecimento sobre qualquer assunto que é oficialmente aceito e endossado por uma considerável parcela da sociedade.

A razão pela qual eu sinto ser necessário reiterar os conceitos acima, é que no decorrer dos próximos meses estarei usando palavras diferentes cada vez que estiver referindo-me à “religião” que se formou em volta do conceito de mediunidade.

“Espiritismo” é a palavra associada com a prática mediúnica em toda a América Latina, particularmente no Brasil,(onde rivaliza com o Catolicismo,) e nas Filipinas. No entanto, a influência de um homem no Espiritismo particularmente no Brasil, é tão grande que o movimento é freqüentemente chamado de “Espiritismo Kardecista” ou Kardecismo.

Há muitos paradoxos no impacto que o francês Allan Kardec (1804 – 1869) teve sobre os assuntos humanos. O mais importante nisso, é que o seu trabalho constituiu o único exemplo de uma moderna apreciação sobre a mediunidade que exerceu e continua exercendo um efeito verdadeiro, profundo, numa parcela significativa da sociedade. No seu livro “Espíritos e Cientistas” – Ideologia, Espiritismo e Cultura Brasileira, o antropologista David J. Hess cita evidências que sugerem que os ensinamentos espíritas coletados por Kardec, influenciaram as teorias ( Hess quase insinua um plágio) dos mais importantes fundadores da moderna psicologia e psiquiatria, como Pierre Janet.

Ainda, apesar disso, Kardec permanece quase desconhecido ou pobremente entendido pelos Espiritualistas na Inglaterra. O erro mais comum e mais fatal, é ao dizerem que kardec era médium e que os ensinamentos eram dele mesmo.

Arthur Findlay mostrou essa falta de entendimento ao referir-se a Kardec nestes termos:

“No Brasil um extenso movimento tem sido dirigido pelos escritos do francês Allan Kardec. Ele no entanto, influenciou o pensamento de seus seguidores mais para a doutrina da reencarnação do que na crença do progresso, dos Espiritualistas Americanos e Britânicos”.

O fato de que um dos mais importantes livros de Kardec foi publicado sob o título de Livro dos Médiuns, dá uma idéia de quão longe da verdade Findlay estava. Isso, junto com o mesmo conceito do progresso eterno, contínuo, como princípio central, já sugerem como ele não era familiarizado com o trabalho do Francês Allan Kardec. De fato, a diferença significativa entre Espiritismo e espiritualismo é que, para os primeiros a “Doutrina da Reencarnação”, é um ensinamento central enquanto que no Espiritualismo a crença em reencarnação não é geralmente muito difundida, apesar de ser extremamente comum. Há muitos Espiritualistas que rejeitam esse conceito com aparente desdém. No entanto, não é minha intenção colocar mais combustível nesse já super aquecido debate sobre a reencarnação. A única coisa que eu pessoalmente posso dizer é que eu encontro argumentos de ambos os lados do debate que são persuasivos de um lado e algumas vezes sensível e ilógicos de outro.

O que eu espero mostrar no entanto, é a maneira de Kardec analisar as comunicações espíritas de natureza filosóficas, proporcionando uma maneira de aumentar o entendimento nessas conclusões e talvez também, dissolver um pouco a rejeição que parece provocar em ambos os lados cada vez que o assunto é abordado.

Em primeiro lugar, se nós queremos realmente entender porque o trabalho de Kardec continua a ter sucesso tão espetacular e ao mesmo tempo situá-lo no seu contexto correto, nós precisamos dar uma olhada no histórico da sua vida. “Allan Kardec”, é o pseudônimo adotado por Hyppolite Léon Denizard Rivail, sob o qual ele publicou seus livros sobre Espiritismo. Rivail nasceu em Lyon no dia 03 de outubro de 1804, numa família que tinha por várias gerações sido formada por advogados e magistrados. Desde criança, mostrava aptidões por Ciência e Filosofia e na idade de dez anos foi enviado para o Instituto Pestalozzi, cujos métodos de ensino radicalmente inovadores, estavam atraindo alunos das mais bem posicionadas famílias da Europa.

Hess enfatiza a importância desse fato na vida de Rivail, pois o método Pestalozzi de ensino era baseado nos princípios do Iluminismo. Os estudantes eram encorajados a abraçar os ideais de reformas políticas e sociais e embora Rivail permanecesse católico, ele adotou a atitude “mente aberta” de um Livre Pensador. Ele acreditava que a educação era a chave para harmonizar as relações entre o “Rico e o Pobre”. Esses fatores parecem ter influenciado muito o interesse que os ensinamentos dos espíritos provocaram em Rivail mais tarde. Não foi só o fato dele ser mente aberta o suficiente para não rejeitar os ensinamentos por razões religiosas, mas eles foram como uma confirmação de sua crença na igualdade e que iam também de encontro a muitos dos dogmas da Igreja. Também, Rivail chegou ao Instituto Pestalozzi numa época em que estavam acontecendo uma disputa interna entre o dominador administrador Joseph Schmid e o teórico Johannes Niederer que ajudou a dar publicidade as idéias de Pestalozzi. Hess especula até que, provavelmente, Rivail aprendeu lições valiosas com ambos: Com Schimid, as habilidades políticas e administrativas que o ajudariam mais tarde a fundar e manter um movimento internacional. Com Niederer, aprendeu a arte de apresentar idéias novas e controversas à um público séptico e as Instituições da mesma forma. Rivail rapidamente provou ser uma criança gênio de rara distinção. A disputa interna na Escola provocou a demissão de dezesseis mestres e na idade de quatorze anos, Rivail foi convidado a ministrar aulas para os seus próprios colegas. Ele também tornou-se um dos alunos favoritos, um dos discípulos mais ardentes do Instituto Pestalozzi e deixou Yverdun com uma graduação em Letras e Ciências e um doutorado em medicina.

Após deixar o Instituto Pestalozzi, Rivail fixou-se em Paris, quando em 1824 publicou seu primeiro livro. Esse livro era baseado no seu próprio sistema de ensinar matemática e foi reeditado até 1876. No ano seguinte, com a idade de vinte e um anos, ele abriu sua própria “Escola de Primeiro Grau” e em 1826 ele abriu outra, o “Instituto Técnico Rivail’. Ele ensinava Química, Física, Matemática, Astronomia, Anatomia comparada e retórica. Falava nove línguas, sendo que o italiano e espanhol fluentemente. Rivail também enviou várias propostas de reforma Educacional à Câmara Legislativa da França, que foram muito elogiadas embora não adotadas.

Em 1832 ele desposou Amelie Gabrielle Boudet, que era professora de Artes e Escritora. Mas um “desastre” aconteceu em 1835 quando o tio de Rivail que também era seu sócio, afundado em enormes dívidas de jogo, forçou o fechamento de uma das escolas. No entanto, Rivail começou a escrever uma série de livros, de textos de vários assuntos para a Universidade Francesa e também começou a dar aulas particulares em sua própria casa. Em 1848, quando a mediunidade das Irmãs Fox estava provocando uma comoção na América, ele já era um Educador muito conhecido e conceituado que poderia facilmente e confortavelmente se manter pelo resto de sua vida com o que provinha de seus livros. Em 1854 um amigo que tinha muito interesse nos fenômenos de mesmerismo, Mr. Fortier, contou a Rivail sobre a mania das mesas girantes que tinha àquele tempo alcançado a França. Mais tarde ele inclusive falou que Fortier disse-lhe que “Não somente fazem uma mesa mexer-se mas também fazem-na falar. Faça a ela uma pergunta, e ela responde”. A resposta de Rivail foi típica de um famoso acadêmico do século XIX, que mais tarde iria arriscar sua reputação por publicar trabalhos endossando a mediunidade. Ele respondeu, “Eu acreditarei nisso quando puder ver e quando me provarem que uma mesa tem cérebro para pensar e nervos para sentir e que ela possa se tornar uma sonâmbula. Ainda assim, continuo não vendo nada além de uma fábula contada para provocar sono”.

Como muitos outros na América e na Inglaterra, Rivail achava que as mesas girantes eram um efeito “puramente material” e só um ano depois que ele deixou-se convencer a comparecer à uma sessão de mesas girantes na casa da Sra. Roger, uma das pessoas pesquisadas por Fortier. Foi aqui que ele testemunhou o fenômeno das mesas girantes que “pulavam e corriam sob condições que excluíam dúvidas” e algumas “tentativas bastante imperfeitas de escrita mediúnica numa lousa”.

Mas tudo isso somente serviu para despertar a curiosidade natural de Rivail, que fez uma nota mental para investigar o assunto mais tarde. Ele escreveu: “Minhas idéias estão longe de serem modificadas, mas eu vi naqueles fenômenos um efeito que deve ter tido uma causa. Eu prevejo sob a aparente frivolidade e entretenimento associados à esses fenômenos algo sério, talvez a revelação de uma nova lei, a qual eu prometo a mim mesmo que vou explorar”.

Rivail foi então apresentado ao Sr. Baudin, que organizava sessões espíritas semanais em sua casa. As duas filhas de Baudin (que eram um tanto frívolas e não muito cultas), tinham o hábito de obter comunicações pelo uso das pancadas na mesa. Normalmente os resultados de suas experiências eram uma ampla confirmação da regra de ouro, “semelhante atrai semelhante”. As banalidades usuais foram substituídas pela filosofia de um “caráter muito sério e grave”, e Rivail adotou a prática regular de sempre chegar às reuniões armado com uma lista de perguntas perspicazes aos novos comunicadores.

Embora as narrações Inglesas dos eventos desse período variam bastante, é certo que, de alguma forma a médium de prancheta Celina Japhet também envolveu-se em obter respostas para as perguntas de Rivail.

Na breve biografia de Rivail que Anna Blackwell escreveu no prefácio da tradução que ela fez para o Inglês do primeiro livro dele, ela mencionava que essas sessões formaram a base da teoria espiritista do uso das mesas girantes , das pancadas e da escrita na prancheta. No entanto, quando um grupo de outros investigadores que já haviam coletado mais de cinqüenta cadernos cheios de comunicações, pediram a Rivail para organizá-los em algum tipo de seqüência, ele inicialmente recusou. Se ele estava ou não suficientemente entusiasmado com o assunto para ficar absorvido pela empreitada nos não sabemos, o fato é que ele mudou de opinião. Após dois anos analisando as comunicações, ele observou para sua esposa: “Minhas conversações com as inteligências invisíveis revolucionaram completamente minhas idéias e convicções. As instruções que me são transmitidas constituem uma teoria completamente nova sobre a vida humana, deveres e destino que me parecem ser perfeitamente racional e coerente, admiravelmente lúcida, consoladora e intensamente interessante. Eu tenho um grande desejo de publicar essas conversações num livro. Eu acho que se isso me interessa tão profundamente, com certeza deve interessar a outros também.”

Quando Rivail submeteu essa idéia aos comunicantes, eles responderam: “Ao livro, como ele é um trabalho mais nosso que seu, você dará o nome de “O Livro dos Espíritos” e irá publicá-lo não sob seu próprio nome, ma sob o pseudônimo de Allan Kardec. (“Kardec” era um antigo nome Bretão da família de sua mãe). Adote seu nome de Rivail para seus próprios livros que já foram publicados”.

Rivail então assumiu a tarefa de editar os cinqüenta cadernos, classificando os diferentes tipos de comunicações de acordo com seu caráter e a consistência profunda de seus argumentos. À estas ele acrescentou mais comunicações de Japhet e então, ainda não convencido de que o material estava suficientemente verificado, submeteu suas perguntas à um grande número de outros médiuns. No decorrer dessa empreitada ele adotou o método que ele chamava de “princípio da concordância ou da conformidade” pelo qual ele aceitava como mais perto da verdade, as respostas que poderiam não somente “resolver todas as dificuldades das perguntas” mas eram também consistentes com as respostas de outras fontes independentes.

Quando o Livro dos Espíritos apareceu em dezoito de abril de 1857, obteve tanto sucesso que uma Segunda edição, aumentada ainda com mais material, foi impressa no próximo ano e o nome Allan Kardec tornou-se uma palavra familiar em todo o continente. A publicação do Livro dos Espíritos causou algo como uma sensação na França não só porque o autor era um sóbrio, respeitável intelectual, mas também porque ele continha comunicações dos espíritos, que respondiam suas perguntas relacionadas à todos os assuntos, desde a estrutura interna da matéria até a natureza de Deus, a ética humana, o universo e o lugar da humanidade dentro dele. Na verdade, o do Livro dos Espíritos provavelmente não era o tipo de conteúdo que o público esperava que surgisse depois da mania da mediunidade que no espaço de nove anos havia arrebatado a América e a Europa após ser iniciado por duas crianças.

No entanto, o terreno já havia sido preparado para a aceitação do primeiro livro de Kardec pelo mesmerista Alphonse Cahagnet que publicou em 1848 o primeiro de três volumes do trabalho intitulado “Segredos da Vida Futura Desvendados”. Cahagnet que era marceneiro, conseguiu suas informações de pessoas que, após serem “mesmerisadas” relatavam mensagens do mundo espiritual. Mas havia uma diferença muito grande entre Cahagnet e Rivail. Colin Wilson menciona que o primeiro não acreditava em reencarnação, porque as pessoas que ele “mesmerisou” não lhe disseram nada sobre esse assunto e que ele referia-se aos médiuns escreventes com desdém. Rivail, por outro lado, trabalhou quase que totalmente com médiuns escreventes, e de uma sorte ou de outra tornou-se convencido de que a reencarnação era um fato. Isso porque a maioria das personalidades espirituais que se comunicaram através de diferentes médiuns que ele consultou, referiam-se a reencarnação e explicavam sua operação com detalhes consideráveis. Mas o fator crucial era provavelmente o método que Rivail usava para decidir se os ensinamentos filosóficos de um espírito eram realmente verdadeiros. Muitos anos após suas tentativas iniciais em provar o fenômeno mediúnico e também nas contradições que surgiam nas afirmações dos espíritos sobre a vida espiritual ele escreveu:

“Eu tentava identificar as causas do fenômeno interligando os fatos de maneira lógica, e não aceitava uma explicação como válida a menos que ela pudesse resolver todas as dificuldades da pergunta. Esta sempre foi a maneira que eu procedi em minhas investigações desde a idade de quinze e dezesseis anos. Uma das minhas primeiras observações foi de que os Espíritos sendo somente as almas dos homens, não apresentavam sabedoria ou conhecimento absolutos. Seu conhecimento era limitado ao nível de seu adiantamento e sua opinião tinha o valor de uma opinião pessoal. Reconhecendo esse fato, desde o começo livrou-me de cometer sérios erros não acreditando na infalibilidade dos Espíritos e me precaver ao não formular teorias prematuras baseadas na opinião de somente um ou alguns Espíritos”. Este foi basicamente o âmago do método de Rivail. Ele propunha aos Espíritos questões sobre moralidade, ética, justiça divina, sendo que ele aparentemente já havia decidido que os comunicantes que explicassem tudo em termos de reencarnação, satisfaziam seus critérios satisfatoriamente.

Pretendo mais tarde dar uma explicação mais detalhada sobre o ponto de vista dos Espíritos de Kardec. No momento é suficiente dizer que eles apresentavam a reencarnação como essencial para o progresso espiritual e aqui estava o que mais causava atrito entre os que defendiam Kardec e os que defendiam Cahagnet. Mas, surpreendentemente, o Livro dos Espíritos reserva pouco espaço para se discutir a reencarnação com mais profundidade. Embora a influência dos trabalhos de Cahagnet de certa forma ajudaram na divulgação, no sucesso inicial de seu livro na França e resto da Europa, a longa permanência da influência em toda parte do Livro dos Espíritos deve-se a outros fatores. David J. Hess a atribui à grande habilidade de Rivail como educador profissional que foi desenvolvida no Instituto Pestalozzi durante sua juventude. De fato, Hess menciona que o Livro dos Espíritos se assemelha muito com os livros de texto “Pestalozzianos”. Talvez seja por isso que o assunto central é apresentado de um jeito que a variedade de assuntos e idéias apresentadas pelos Espíritos se relacionam entre si, apresentando uma unidade sem contradições internas. Na verdade o que o Livro dos Espíritos apresenta é uma representação de todo o Cosmos, centrada nos aspectos morais e éticos da vida Espiritual e como esses se relacionam com o uso da mediunidade pela humanidade, tudo apresentado em um volume. Com efeito, embora Rivail não iniciou o Espiritismo Francês, ele criou um sistema de explicá-lo tão à frente de seu tempo que literalmente podemos dizer que o Espiritismo começou desse ponto em diante.

O livro alcançou um vasto número de leitores de todas as classes da sociedade. Alguns eram atraídos pelos ensinamentos dos Espíritos dos assuntos científicos. De fato, é impressionante como algumas das respostas às perguntas de Rivail podem ser interpretadas como surpreendentemente à frente de seu tempo. Um exemplo é a pergunta: “Existe o v[acuo absoluto em alguma parte do espaço”? E Rivail obteve como resposta: “Não. Não existe vácuo. O que parece vácuo para vocês, é ocupado por matéria num estado que escapa à ação de seus instrumentos e entendimento”.

Essa afirmação (dada em 1850), que o espaço que parece estar vazio está realmente cheio de matéria, somente recebeu confirmação muito recentemente com a descoberta do que é chamado “quantum Vacuum”. Na mesma época os Espíritos casualmente também anunciaram: “o que vocês chamam de molécula (ou talvez “partícula” ou “átomo” está realmente bem longe de ser a molécula elementar”. Este fato científico só foi confirmado quando J.J. Thomson descobriu o elétron, quase meio século mais tarde.

No entanto, o Livro dos Espíritos teve muitos convertidos ao Espiritismo das classes trabalhadoras da França, talvez pela simples razão de que os Espíritos não tinham nada de elogioso para falar sobre a desigualdade, que era e ainda é inerente à sociedade humana. De fato, a atitude Espiritista com relação à esse assunto pode ser resumida na resposta que deram a esta pergunta de Rivail: “O qual, dentre todos os vícios, pode ser considerado como a raiz de todos os outros”? Obteve como resposta: “Egoísmo, como temos repetidamente lhe falado, pois é do egoísmo que todo o mal provém. Por mais que luteis contra ele não chegareis a extirpá-lo enquanto não o atacardes pela raiz, enquanto não lhes houverdes destruído a causa. Que todo os vossos esforços tendam para esse fim, porque nele se encontra a verdadeira chaga da sociedade. Quem nesta vida quiser se aproximar da perfeição moral deve extirpar do seu coração todo sentimento de egoísmo, porque o egoísmo é incompatível com a justiça, o amor e a caridade. Ele neutraliza todas as outras qualidades”.

Isso significa que o discurso dos espíritos era sempre ancorado no princípio central da caridade, não somente com relação às coisas materiais, mas com relação à muitas outras coisas inclusive a pratica da mediunidade. Mas os Espíritos de Kardec também denunciaram sexismo, racismo, pena de morte, escravidão e qualquer outra forma de injustiça social e preconceito como sendo contrários às Leis Divinas , mas recomendavam liberdade de pensamento, liberdade de consciência, igualdade de tolerância. Com efeito, o que estava sendo proposto era um programa Espiritual que estava anos luz à frente do conservadorismo da Igreja Católica.

O ponto de vista que analisaremos à seguir também representa o que talvez seja a maior diferença entre o retrato que os Espíritos de Kardec faziam da vida espiritual e as notícias enviadas por outros. Rivail parecia somente estar interessado nos conceitos morais e científicos da raça humana e conduzia suas perguntas de acordo. Assim, o Livro dos espíritos não menciona como eram as casas dos espíritos, etc., que é uma característica comum da literatura espiritualista. O assunto principal é quase totalmente orientado para o efeito que a conduta moral tem sobre o indivíduo, tanto na Terra quanto no Além.

Encorajado pelo sucesso do Livro dos Espíritos, Rivail decidiu começar um jornal mensal. Incapaz de obter uma ajuda financeira para essa empreitada ele pediu conselho de seus guias através da mediunidade de Miss E. Dufaux e foi aconselhado à fundar o jornal ele mesmo e não se preocupar com as conseqüências. Sendo assim, a primeira edição de La Revue Spirit saiu em primeiro de Janeiro de 1858, e como aconteceu com o Livro dos Espíritos, seu sucesso suplantou as expectativas de Rivail. Ele também fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Psicológicos. Mas o seu trabalho para o Espiritismo havia somente começado. Ele publicou o Livro dos Médiuns em 1861, que trata somente do ponto de vista dos Espíritos sobre o desenvolvimento e o uso da mediunidade. Para este e para outros trabalhos, ele usou mais médiuns que para o Livro dos Espíritos, empregando o mesmo método de apresentação, isto é: Suas perguntas seguidas das respostas dos Espíritos que eram suplementadas pelas suas próprias observações e comentários.

Rivail rapidamente tornou-se a primeira autoridade em mediunidade na França e foi homenageado pelos Espiritistas em sua cidade natal de Lyon. Tanto que, em 1862 ele teve que pedir-lhes que não gastassem mais dinheiro com homenagens, com banquetes, como haviam feito no ano anterior.

Anna Blackwell menciona que ele constantemente recebia a visita de personalidades influentes dos meios social, literário, artístico e científico e que ele foi, por várias vezes, convocado pelo Imperador Napoleão III, para responder perguntas sobre a doutrina do Espiritismo. Mas na verdade, o sucesso crescente do Espiritismo em geral, não fez muito para elevar Rivail ou o Espiritismo para um lugar de honra em certos segmentos das Instituições Francesas. Até entre os próprios Espíritas havia alguns que ressentiam sua crescente influência no movimento Espírita. Esta oposição, particularmente vinda da igreja, na verdade não causou muito surpresa para Rivail. Mas pode-se imaginar quão penoso foi para Rivail perceber a oposição dentro do Movimento Espírita. De fato, ele já havia sido avisado de tudo isso pelos Espíritos em 1856, bem antes de se tornar um campeão da causa Espiritista; “Ódios terríveis serão incitados contra você. Inimigos implacáveis vão tramar a sua ruína. Você será exposto à calúnia e a traição, até por aqueles que mais parecem dedicados à você. Seus melhores trabalhos serão rejeitados e negados”. Esta comunicação foi dada pelo “Espírito da Verdade”.

A Igreja católica, tanto na França quanto em toda parte, estava particularmente ávida por desacreditar tanto o Espiritismo quanto Rivail. David J. Hess, em seu livro: “Espíritos e Cientistas: Ideologia, Espiritismo e a cultura Brasileira”, menciona várias atitudes tomadas pela Igreja contra o novo movimento, que era considerado pior que o Protestantismo. Antes da publicação do “Livro dos Espíritos” em 1856, o Santo Ofício, sob as ordens do Papa Pio IX, proibiu a mediunidade e qualquer outra superstição análoga, por serem “heréticas, escandalosas e contrárias aos costumes honestos”. Mas em 1861 o Bispo de Barcelona tomou uma atitude mais direta. Ele ordenou um auto de fé, conhecido como Decreto de Barcelona, contra trezentos livros Espíritas, incluindo muitos de Rivail, que foram confiscados e queimados em público. No entanto, a ação do Bispo não fez mais que incitar o nacionalismo Francês e contribuiu para o crescimento mais profundo do Espiritismo tanto na França como na Espanha. Hess acrescenta que quando o Bispo morreu, nove meses depois, seu espírito arrependido manifestou-se através de vários médiuns franceses implorando pelo perdão de Rivail que foi concedido. Na França, o diretor da Faculdade de Teologia de Lyon começou a dar cursos de educação pública contra o Espiritismo e Mesmerismo, isso em 1864. Os clérigos escreviam que Espiritismo era a exaltação do demônio.

Rivail acusou a Igreja de incitar de uma maneira deliberada o ódio contra o Espiritismo: “Do púlpito, nós Espiritistas temos sido chamados de inimigos da sociedade e da ordem pública..... Em alguns lugares, os espiritistas eram censurados ao ponto de serem perseguidos e injuriados nas ruas; as pessoas dignas eram proibidas de alugar para Espiritistas, eram avisados para evitá-los como pragas. As mulheres eram aconselhadas a se separarem de seus maridos..... Caridade era recusada aos necessitados, trabalhadores perderam sua subsistência somente por serem Espiritistas. Pessoas cegas tiveram alta de determinados hospitais, contra suas vontades, simplesmente por se recusarem a renunciar a suas crenças.”

Certos setores das Instituições Científicas Francesas reagiram com bastante hostilidade à expansão do Espiritismo, assim como na América e Grã-Bretanha. Hess menciona que um membro da academia de Medicina, Dr. Dechambre, publicou uma crítica do movimento em 1859, citando casos de insanidade, alegando que foram causados pelo Espiritismo. Essas reportagens começaram a circular em 1863. Na frança começou a circular uma teoria, que se originou na América, dizendo que as batidas dos Espíritos eram produzidas pelo estalar das juntas dos joelhos e dos dedos dos pés. A variação francesa dessa teoria foi apresentada à academia de medicina por um cirurgião, Dr. M. Jobert, que atribuía barulhos à habilidade de se estalar o pequeno tendão do músculo do peito do pé.

No entanto, de acordo com as predições dos Espíritos, já mencionadas, Rivail também se deparou com a amarga oposição interna do Espiritismo comentando a exatidão dos avisos do “Espírito da Verdade”, ele escreveu onze anos mais tarde: “A Sociedade Espírita de Paris tem sido um constante foco de intrigas, desfechadas justamente por aqueles que me declaram amizade e lealdade, mas que na minha ausência me caluniam. Eles dizem que aqueles que favorecem meu trabalho são pagos por mim com dinheiro que recebo do espiritismo”.

Eu já mencionei antes que o endosso que Rivail dava à teoria da reencarnação causou certo atrito com os seguidores do mesmerista Alphonse Cahagnet. Também é fácil imaginar que a proeminência que ele atingiu tão rapidamente no movimento Espírita despertou muita inveja. Poucos esforços humanos, até aqueles supostamente dedicados aos assuntos espirituais, não estão totalmente livres de se envolverem em rivalidades e controvérsias. Parece que, longe de ficarem gratos à Rivail pela ampla expansão e divulgação que ele conseguiu para o Espiritismo, alguns espiritistas ficaram ressentidos pela sua influência.

Não e sem razão que podemos assumir que no caso de Rivail, uma grande parcela do atrito que ele despertava era resultado do modo como ele encarava a mediunidade. Como nos já vimos, ele veio para o movimento espírita como um observador relativamente desinteressado, com nenhum envolvimento emocional, nem idéias pré concebidas sobre o assunto. Uma vez tendo chagado à conclusão de que as comunicações eram na verdade um trabalho das entidades desencarnadas, ele estava mais apto a julgar objetivamente do que alguns médiuns em particular e seus seguidores, os quais, como nos dias de hoje, poderiam estar ocasionalmente propensos a sofrer a síndrome “Meu guia tem mais conhecimento que o seu Guia”.

Eu dei uma idéia do modo como Rivail julgava o valor das afirmações de natureza filosófica dos Espíritos. Mas ele também adotava um critério para saber se um comunicante era mesmo a pessoa que dizia ser. Trabalhando com o princípio de que “Semelhante atrai semelhante”, e que todo ser humano tem alguma imperfeição na sua natureza moral, ele não descartava a hipótese de que até os melhores médiuns (especialmente os escreventes) poderiam, em alguma etapa de sua carreira, caírem presas de personalidades Espirituais que poderiam induzi-lo ao erro, simplesmente tomando emprestado algum nome reverenciado “lisonjeando a vaidade do médium para ganhar aceitação para os mais ridículos argumentos”. Nesses casos, onde boa evidência da identidade poderia ser difícil ou impossível de obter, ele recomendava que a comunicação devia ser julgada de acordo com os sentimentos expressos, e com a maneira como eles eram expressados: estariam de acordo com o que poderíamos esperar da personalidade mencionada? Ainda assim, mesmo se essas condições eram encontradas, ele somente aceitava (no máximo) a “probabilidade moral” de que a identidade estava correta.

O Livro dos Médiuns publicado em 1861, como o título sugere, é totalmente dedicado à mediunidade. É na verdade um guia para o desenvolvimento e uso apropriado do Dom, e é ostensivamente escrito de acordo com o ponto de vista dos espíritos comunicantes. Desnecessário dizer que todos eram personalidades altamente evoluídas, alguns bem conhecidos, outros anônimos. O material para o Livro dos Médiuns, e outros que se seguiram, foi conseguido em grande parte através de médiuns de escrita automática na sociedade Parisiense de Estudos Psicológicos de Rivail, e também incluíam o trabalho de outros médiuns que lhe enviavam comunicação de toda parte da França e do exterior.

Assim como no “Livro dos Espíritos” Rivail pretendia apresentar um ponto de vista considerado fidedigno pois era obtido de uma grande variedade de fontes independentes, de várias partes do mundo e que concordavam umas com as outras. Uma espécie de consenso de opiniões entre os espíritos avançados.

Todo aspecto considerável de todo tipo de mediunidade e manifestações espíritas é tratado no “Livro dos Médiuns” (até o charlatanismo recebe um capítulo próprio). Mas Rivail devotou atenção especial de como o caráter e as idéias pré concebidas dos médiuns atrapalhavam na habilidade com que os Espíritos podiam se comunicar efetivamente.

Ele identificou vinte e seis considerações que devem ser levadas à sério ao se julgar o valor das comunicações, e deu exemplos de alguns que não poderiam ser atribuídas ao suposto autor. Um bom exemplo é a seguinte: “Vão em frente crianças, marchem adiante com os corações exultantes, cheios de fé; a estrada que vocês seguem é muito linda. . .”. Esta comunicação, que continuava sempre neste tom frívolo, banal, era assinada por “Napoleão”, e trouxe o seguinte comentário de Rivail:

“Se havia um homem grave e sério, Napoleão enquanto vivo, era um. Seu estilo breve e conciso de se expressar é conhecido de todos, e ele deve ter estranhamente se degenerado após sua morte, se ditou uma comunicação tão prolixa e ridícula como esta”.....

Esta atitude com certeza deve ter ofendido certos médiuns e Grupos Espíritas que tinham o hábito de aceitar comunicações como essa como verdadeiras. O fato de Rivail referir-se a essas pessoas com certo desprezo num capítulo sobre os perigos da obsessão Espiritual, indica que ele estava muito inteirado do ridículo que elas poderiam passar sob o crivo dos ávidos críticos.

A referência que Rivail faz aos “inimigos” do Espiritismo, “aqueles que fingem ser amigos para na verdade injuriar deslealmente”. Recomenda também que as Sociedades Espíritas se mantenham pequenas porque “esses tipos de pessoas acham muito mais fácil semear a discórdia entre grandes assembléias do que em grupos menores nos quais todos os membros se conhecem”. Ele também sugere que estava preocupado pois o movimento continha pessoas as quais ele considerava estarem erradamente motivadas.

O Livro dos Médiuns complementa o Livro dos Espíritos perfeitamente, no sentido de que ele proporciona um guia para as muitas dificuldades que podem surgir durante a prática da mediunidade.

Em 1864, juntou-se à essas obras “O Evangelho Segundo o Espiritismo” que contem os ensinamentos dos Espíritos sobre o novo Testamento. Este trio de livros é considerado pelos espiritistas como sendo a pedra angular sobre a qual o moderno movimento foi construído. No entanto, Rivail publica mais dois trabalhos sob o nome “Kardec”: O Céu e o Inferno (1864), que foi baseado nos comentários dos Espíritos sobre a natureza real destes, nos estados mental e Espiritual; e “Gênesis” (1867) que mostrava, a concordância da teoria dos Espíritos com as descobertas da Ciência Moderna e o teor dos registros Mosaicos explicados pelos Espíritos. Ele também publicou dois pequenos tratados titulados “O que é Espiritismo” (1859) e “Espiritismo reduzido a sua mais simples expressão” (1860) que era um diálogo entre Rivail e três críticos do Espiritismo: “O Crítico”, “O Céptico” e “O Padre”.

Em 1867, com a publicação de “Gênesis”, Rivail completou a série de livros que hoje são considerados pelos Espiritistas mais evangelizados como “A terceira Revelação” de Deus para a Humanidade. A primeira, seria os ensinamentos de Moisés e a Segunda os ensinamentos de Jesus. Rivail não menciona que o Espiritismo ou as comunicações dos Espíritos eram a terceira Revelação, mas como quase todos os outros aspectos dos ensinamentos de Kardec, essa idéia não surgiu dele mas dos Espíritos comunicantes, sendo que um destes expressou-se mais sucintamente no Evangelho Segundo o Espiritismo: “Moisés mostrou à Humanidade o caminho; Jesus continuou o seu trabalho; O Espiritismo veio finalizá-lo”.

Rivail escreveu sobre este aspecto do Espiritismo:_ “A Lei do Velho Testamento foi personificada em Moisés: a do Novo Testamento em Cristo. Espiritismo é então a terceira Revelação da Lei de Deus. Mas não é personificada por ninguém porque representa ensinamentos dados, não pelo Homem mas pelos Espíritos que são as Vozes do Céu, para todas as partes do mundo, através da cooperação de inúmeros intermediários. Numa maneira de falar é um trabalho coletivo formado por todos os Espíritos que trazem esclarecimento à toda humanidade, fornecendo os meios de se entender o Mundo e o destino que espera todo o indivíduo no seu retorno ao mundo Espiritual.”

Já mencionei antes que os professores de Kardec descrevem o mundo e a vida Espiritual quase inteiramente em termos do efeito que a conduta moral do indivíduo tem neste mundo e no outro. Rivail não tinha medo de mostrar os dois lados da moeda. O Céu e o Inferno (1864) não era somente a descrição dos Espíritos da real natureza desses estados, também incluía comunicações de espíritos recém desencarnados de toda classe moral. Do mais maldoso ao mais caridoso e bom. Cada tipo de personalidade descrevia suas condições no momento e como as suas ações na terra contribuíram para o seu deleite ou tristeza.

Ao contrário dos dogmas da Igreja Católica que pinta um quadro de sofrimento sem fim até para aqueles cujo único pecado foi simplesmente o de não serem católicos, os Espíritos comunicantes mantinham a afirmação de que os sofrimentos na próxima vida só perduram até o momento em que o indivíduo se esforça para retificar a causa, e que a todos é dada a oportunidade de conseguir isso.

Aqueles que têm experiências no campo difícil do resgate devem ficar interessados no caso do assassino que havia sido recentemente executado: “um envenenador sistemático, um médico que empregou sua posição profissional para ter êxito em muitos assassinados horríveis pelos quais ele havia sido executado. Este homem, se manifestou espontaneamente numa sessão e apesar de reclamar que: “as luzes ofuscam e penetram como flechas afiadas no íntimo do meu ser” e tempestuosamente rejeitou a ajuda oferecida pelo círculo. . ..”Eu me basto; serei capaz de resistir à essa luz odiosa”.

Rivail afirma no entanto, que esse Espírito eventualmente começou a melhorar, progredir, arrependeu-se e tornou-se o autor de “muitas comunicações boas e sábias”.

Outros assassinos descreveram um estado de confusão e terror ante o fato de terem que encontrar suas vítimas. Um deles descreveu como tudo aconteceu e explicou porque isso lhe causava tanto sofrimento:

“___ P: O que você sente ao vê-los”?

“___ R: Vergonha e Remorso. ... e eu ainda os odeio. Eles rezam para eu expiar meus crimes. Você não pode imaginar que tortura horrível é dever tudo àqueles que você odeia”.

Haviam também comunicações de muitos outros tipos de descrentes. Alguns, embora não tenham cometido nenhuma maldade em suas vidas, também não fizeram nada de bom e sentem remorso por isso.

Outros que levaram uma vida pautada no bem descrevem uma relativa felicidade e a esperança de que possam continuar em serviço ao próximo na nova vida. No entanto, o capítulo que muitos espiritistas consideram bastante controverso é aquele no qual os Espíritos descrevem suas “Expiações Terrestres” ou como eles haviam expiado crimes do passado, retornando à Terra pela reencarnação.

Um desses casos envolveu o Espírito de um jovem servente que trabalhava para um conhecido de Rivail, que havia morrido subitamente enquanto estava de licença. O Espírito contou à Rivail que numa vida anterior havia sido uma criança rebelde, filho de pais ricos que morreram e o deixaram órfão. Ele foi então adotado por um amigo de seu pai que o tratou como seu próprio filho, mas ele não reconheceu essa bondade e foi-lhe muito ingrato. Para expiar essa falta, quando ambos reencarnaram ele veio numa posição em que pudesse servir seu antigo guardião: “Eu vim determinado à expiar meu antigo orgulho nascendo numa posição servil nesta atual existência; uma determinação que permitiu-me provar minha gratidão à ele, que foi meu benfeitor na encarnação passada. Eu até tive a oportunidade de salvar sua vida. Esta existência humilde provou-se muito útil para mim. Eu adquiri força de caráter suficiente para evitar ser corrompido pelo contato do meio ambiente que é quase sempre cheio de vícios; e eu agradeço à Deus que agora adquiri a felicidade que desfruto”. Rivail então questionou-o quais foram as circunstâncias em que ele salvou a vida de seu patrão, e recebeu o relato com detalhes que ele transcreve no livro e que foi posteriormente verificada como verdade junto ao antigo empregador do jovem.

É de se notar no entanto que muitos Espíritos interrogados não se lembram de nenhuma existência anterior (outra além da que ele acabou de deixar), ficando impossível saber que relevância ela teve na presente circunstância em que eles se apresentam: Os Espíritos explicam à Kardec, o porque dessa falha em se lembrar da vida passada: essas lembranças só são permitidas “se “ e “quando” elas podem servir à algum propósito útil, e que essa memória deve emergir gradualmente, talvez após um longo período de tempo.

Qualquer que seja a última verdade à respeito da reencarnação, permanece o fato de que ela é o meio pelo qual os Espiritistas continuam a racionalizar moralidade e ética num contexto de Justiça Divina. É também o caso que o renascimento não é visto somente como um mecanismo para se expiar as faltas passadas e nem é visto como compulsório. Os professores de Kardec enfatizavam que a reencarnação e usualmente um fator de escolha consciente após um intervalo no mundo Espiritual que pode ser longo ou curto de acordo com as circunstâncias individuais, e que ela freqüentemente ocorre porque um Espírito deseja praticar algum ato de caridade para alguns menos afortunados ou atuar em alguma missão Espiritual em particular. Então, seria muito errado assumir que todos que sofrem na Terra estão sendo “punidos” pelas faltas do passado e que merecem seus sofrimentos. A versão dos Espiritistas da doutrina da reencarnação requer que, mesmo que esse seja o caso, aqueles que sofrem por esse motivo devem ser tratados com compaixão.

Como veremos, o fato dos Espiritistas acreditarem em reencarnação não nos leva a justificar as injustiças sociais no Brasil, (onde o movimento é a principal religião) como se pode ver no sistema de castas Hindu. Muito pelo contrário, como podemos atestar na atuação maciça que o Espiritismo nesse País tem na assistência social aos pobres e também na contribuição que lá e dada ao tratamento das doenças mentais.

Hess menciona que era um desejo especial de Rivail que a classe médica desse atenção aos ensinamentos dos Espíritos sobre insanidade, que eles explicavam que freqüentemente era causada pela mediunidade que embora natural estava descontrolada e havia se tornado uma forma de obsessão espiritual.

Em 1862 e 1863 ele dedicou uma série de artigos na Revue Spirite aos pacientes do asilo de Morzines, os quais ele considerava como sendo vítimas dessa condição infeliz, as quais eram algumas vezes causadas pela atuação de personalidades Espirituais malignas vingando-se de seus inimigos de uma existência anterior e que já haviam reencarnado.

Infelizmente, as expectativas de Rivail para o Espiritismo não se realizariam nem na sua existência nem em seu próprio País. Eu mencionei antes a veracidade das predições do “Espírito da Verdade” sobre as oposições que ele enfrentaria tanto das Instituições francesas como no seio do próprio Espiritismo. Rivail também havia sido avisado de que o esforço de liderar o movimento teria um efeito desastroso sobre sua saúde e que o levaria à desencarnar mais cedo. Dez anos pós a predição, em 1867, ele comentou: ___ “ Eu não tenho encontrado paz e mais de uma vez quase sucumbi; sob esse excesso de trabalho minha saúde tem deteriorado e minha vida tem sido comprometida. .... Tudo que foi predito pelo Espírito da Verdade está acontecendo “.

Em trinta e um de março de 1869, tendo acabado de elaborar a constituição de uma Sociedade que ele pretendia que levasse em frente seu trabalho, Hippolyte Leon Denizard Rivail, mais conhecido como “Allan Kardec” morreu, subitamente pela ruptura de um aneurisma no coração, enquanto estava sentado em sua escrivaninha ocupado em organizar uma pilha de papéis.

Rivail, foi enterrado no famoso Cemitério de Montmarte em Paris e seu amigo, o eminente astrônomo e pesquisador científico Camille Flammarion discursou em seu funeral. Hoje seu túmulo é um lugar de peregrinação para os Espiritistas de todo o mundo e onde é celebrada também uma cerimônia anual em sua lembrança que é assistida por centenas de pessoas. Mas essa adoração vem quase que totalmente do exterior porque após a morte de Rivail o movimento Espírita na França declinou ao ponto de hoje, quase não existir.

Em 1873, no entanto, quatro anos após a morte de Rivail a Sociedade de Estudos Espirituais foi formada no Rio de Janeiro, Brasil. E foi a partir desta data que o Espiritismo iria crescer constantemente até que viria a ocupar uma posição de liderança que Rivail havia visualizado.

Alguns anos atrás, um amigo meu que havia demonstrado um certo interesse na filosofia espírita pediu-me que lhe emprestasse meu Livro dos Espíritos (uma edição antiga, “cheia de orelhas”). Logo após me devolver o livro, ele embarcou para uma longa viagem de seis meses pela América Latina. Por vários motivos, nós não tivemos tempo de discutir o livro antes de sua partida. Esse colega deixou a Inglaterra achando que havia somente acabado de ler um trabalho extremamente obscuro apesar de interessante, elaborado por um esquecido francês do século XIX.

Após seu retorno no entanto, ele me contou de sua surpresa ao andar por uma rua no Brasil e deparar com um imponente edifício adornado com o nome “Kardec”. Mais tarde, ele pode constatar que praticamente quase todo brasileiro que ele encontrava conhecia Kardec, e que alguns já haviam lido o Livro dos Espíritos.

O Espiritismo cresceu em importância no Brasil desde que chegou da França, ao ponto de ser parte integrante da vida brasileira entre todas as classes sociais.

A influência de Kardec no movimento pode ser medida pelo fato de que ele é freqüentemente chamado de Kardecismo. Isso também serve para distinguir Espiritismo de Umbanda e Candomblé, dois cultos que, apesar de serem baseados na mediunidade, têm origens africanas.

O escritor Guy Lyon Playfair, que morou e trabalhou no Brasil por muitos anos colocou em seu livro “O poder Desconhecido” o resultado de uma pesquisa de opinião pública que uma conceituada revista brasileira organizou em 1971: 70% dos brasileiros declararam-se católicos contra somente 11% que se diziam Espíritas; 68% diziam que acreditavam no Espiritismo; 49% já haviam visitado um Centro Espírita; 27% já sentiram a influência dos Espíritos em suas vidas e 15% declararam que já se comunicaram com desencarnados. Somente 1% dos que se disseram católicos foram capazes de manter o princípios básicos de sua religião. Isso levou Playfair a suspeitar que “ ..... . Muitos brasileiros são bons católicos nas manhãs de Domingo e bons Espiritistas no resto da semana. .... Os brasileiros professam o catolicismo porque seus pais o faziam, e o Espiritismo porque funciona para eles, freqüentemente transformando suas vidas”.

É no trabalho prático que o Espiritismo faz no Brasil, particularmente para os mais pobres e necessitados, que parece estar a razão do sucesso do movimento. Esta era na verdade a prescrição dos comunicantes de Kardec para o bem sucedido uso da mediunidade em larga escala.

Apesar do fato de a literatura Espírita Brasileira Ter sido acrescida de muitos outros autores como Adolfo Bezerra de Menezes (muitas vezes chamado de Kardec Brasileiro), os conceitos chaves de Kardec sobre a caridade e a abordagem que ele faz da mediunidade estão no coração do movimento.

Francisco Cândido (Chico) Xavier é provavelmente o melhor exemplo da mediunidade em ação, segundo abordagem Espiritista. Apesar de ter recebido somente a instrução primária, ele se tornou no Brasil o “autor” mais fecundo, que produziu na média, três livros por ano desde 1932, em assuntos diversos como filosofia Espírita, Literatura, História e Ciência. Seus livros já venderam muitos milhões , e tem sido traduzidos para muitas línguas, e seu nome é muito conhecido, familiar, em seu País natal. No entanto, “escritor “seria provavelmente um termo mais apropriado para o Chico, porque ele é um médium de escrita automática que não recebe nenhum crédito ou dinheiro por seu trabalho prodigioso. Ele trabalhou como um funcionário humilde do governo até se aposentar em 1961 e ainda leva uma vida extremamente modesta apesar dos “royalties “ de seus livros que são todos empregados em benefício dos pobres.

Playfair menciona um enorme conjunto de prédios construídos pela Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP) chamado Casa Transitória que proporciona ajuda às famílias carentes e educação para crianças das favelas e também a Casa André Luiz em Guarulhos que abriga 1.400 crianças retardadas. Na maioria das grandes cidades brasileiras existe a assistência dos Espiritistas em Centros de Treinamento, Orfanatos, Berçários, Hospitais e até Hospícios; a Casa de Maria Madalena perto do Rio de Janeiro que se dedica à cuidar dos doentes de AIDS sem recursos.

Eu já mencionei antes que existe evidências de que os trabalhos de Kardec influenciaram alguns fundadores da moderna psicologia e psiquiatria, e de que o próprio Rivail era um entusiasta de que o Espiritismo deveria ter um papel no tratamento das doenças mentais.

Hess menciona as “dezenas de hospitais psiquiátricos, alguns dos quais mantém convênios com sistema estadual de saúde, que são de propriedade e mantidos por Espiritistas. Nesses Institutos os pacientes recebem tratamento convencional dos psiquiatras e psicólogos combinado com uma forma especializada de terapia chamada “desobsessão”, que é aplicada em um Centro Espírita das redondezas.

No Brasil, o Espiritismo é um movimento religioso vibrante que proporciona esperança, conforto e inspiração para milhares de pessoas que de outra maneira não teriam alívio para a pobreza que nesse País é muito grande. Mas isso não seria possível, se o movimento não contasse com a ajuda das classe profissionais e dos batalhões de pessoas da sociedade que se unem a esse a trabalho conjunto de assistência. Existem tantos Espíritas doutores na cidade de São Paulo, que eles se uniram e formaram sua própria associação Médica.

A grande consideração que esse movimento tem no País, pode ser avaliada pelo fato de que existem três edições separadas de selos postais trazendo a estampa de Rivail. O primeiro foi em 1957 para celebrar o centenário do Livro dos Espíritos. Houve também uma cerimônia solene na câmara Legislativa no Distrito Federal de Brasília, no dia 03 de outubro de 1995 para comemorar a data de nascimento de Rivail. O Sr. Jorge Cauhi, representante da Câmara e o Sr. Divaldo Pereira Franco, um médium muito conhecido, falaram sobre Rivail e a importância do Espiritismo. Dois outros políticos fizeram um depoimento sobre como o Espiritismo ajudou-os em suas vidas pessoais. Isso aconteceu ao mesmo tempo em que delegados de trinta e quatro países encontraram-se na cidade para o “I Congresso Internacional de Espiritismo”.

Parece incrível, que o quarto maior País da Terra tenha abraçado o Espiritismo como parte integrante de sua cultura, sendo que os ensinamentos Espíritas foram dados à um intelectual Francês, menos de dez anos após duas crianças americanas iniciarem as comunicações mediúnicas (as quais ele no começo negou veementemente).

O impacto que os ensinamentos de Kardec continuam a ter, simplesmente não tem precedentes no “Espiritualismo” e o mais impressionante é quando consideramos que eles foram coletados logo após o fenômeno das batidas de Hydseville. No entanto, certamente isso não quer dizer que todos os aspectos dos ensinamentos de Kardec devem ser considerados inquestionavelmente corretos em todos pontos. Hess observou que alguns intelectuais Espíritas brasileiros reclamam que os membros mais evangélicos do movimento consideram as obras de Kardec “quasi-sagrados”. Eles preferem considerar os textos como “Algumas vezes falhos mas na maioria das vezes verdadeiros, escritos por um brilhante pensador do século dezenove”.

A realização mais significativa de Rivail foi Ter desenvolvido um método sistemático de investigação das comunicações mediúnicas de natureza filosófica que resultaram num bloco de ensinamentos para satisfazer todas as necessidades.

A natureza igualitária que as mensagens transmitem naturalmente atraem o apoio dos pobres pois lhes oferece conforto e esperança; enquanto que os aspectos científicos dos ensinamentos, especialmente aqueles que dão explicações sobre os fenômenos Espíritas, interessam os mais informados e cépticos.

O resultado final foi uma visão das comunicações Espíritas que tem feito consideráveis incursões no pensamento estabelecido, nas Instituições, num País que, sem dúvida desempenhará um papel central nos assuntos mundiais num futuro próximo.

É também um fato que o Espiritismo que é muito popular no México e em outros países da América Latina, está vagarosamente estabelecendo bases sólidas em toda parte, particularmente nos Estados Unidos, onde existem agora Centros Espíritas sob o recém formado Conselho Espiritista dos Estados Unidos da América.

Quão irônico é considerarmos que a mais antiga filosofia Espírita pós Hydseville continua a ser a mais produtiva e bem sucedida!

O autor deseja agradecer a Janet Duncan do Grupo de Estudos Allan Kardec, pelo auxílio durante a preparação deste artigo.