Pedra Tumular do Sr. Allan Kardec

Jornal Universo Espírita - Edição 33

O Cemitério do Père-Lachaise, o mais importante de Paris, é uma das necrópoles mais visitadas em todo o mundo, e isto desde a sua inauguração, em 1804. Ainda hoje atrai a admiração dos turistas que vão à Cidade Luz.

O dólmen de Kardec tornou-se ponto obrigatório dos visitantes do Père-Lachaise, sejam eles espíritas ou não.

A imprensa de várias nações tem salientado essa curiosa preferência, explicando-a quer pela forma original do sepulcro, quer pela divulgação sempre crescente do nome Allan Kardec, ou ainda pela profusão de flores depositadas junto ao dólmen, demonstrando assim, conforme o pensamento de Samuel Smiles que "os homens verdadeiramente grandes e bons nunca morrem, nem mesmo neste mundo".

A desencarnação de Allan Kardec ocorreu no dia 31 de março de 1869, pela manhã, subitamente, pela ruptura de um aneurisma. Foi enterrado no dia 2 de abril de 1869, no Cemitério Montmartre, o mais antigo de Paris.

A idéia de levantar um monumento - que fosse testemunha da simpatia e do reconhecimento dos espíritas em geral à memória do inolvidável mestre - nasceu logo na primeira reunião da Sociedade Espírita de Paris, após a cerimônia fúnebre de Allan Kardec. Essa aspiração, humana mas sincera, ganhou vulto e em pouco tempo a ela aderiu grande número de correligionários.

Túmulo Kardec"Na reunião da Sociedade de Paris que se seguiu imediatamente às exéquias do Sr. Allan Kardec, os espíritas presentes, membros da Sociedade e outros, emitiram a opinião unânime de que um monumento, testemunha da simpatia e do reconhecimento dos espíritas em geral, fosse edificado para honrar a memória do coordenador de nossa Filosofia. Um grande número de nossos aderentes da província e do estrangeiro se associaram a este pensamento. Mas o exame da proposição teve necessariamente de ser retardado, porque convinha verificar primeiro se o Sr. Allan Kardec havia feito disposições a tal respeito e quais eram essas disposições.

Tudo bem examinado, nada mais se opondo ao estudo da questão, a comissão, depois de madura reflexão, deteve-se, salvo modificação, numa decisão que, permitindo satisfazer ao anseio legítimo dos espíritas, lhe parece harmonizar-se com o caráter bem conhecido do nosso saudoso presidente.

É bem evidente para nós, como para todos que o conheceram, que o Sr. Allan Kardec, como Espírito, não se interessa de modo algum por uma manifestação deste gênero, mas o homem se apaga, neste caso, diante do chefe da doutrina, e o exige a dignidade, direi mais, o dever daqueles que ele consolou e esclareceu, que se consagre por um monumento imperecível o lugar onde repousam os seus restos mortais.

Seja qual for o nome que a designou, é fora de dúvida, para todos os que estudaram um pouco a questão e para os nossos próprios adversários, que a Doutrina Espírita existiu por toda a antigüidade, e isto é muito natural, pois ela repousa nas leis da natureza, tão antigas quanto o mundo; mas também é evidente que, de todas as crenças antigas, é ainda o Druidismo, praticado por nossos antepassados, os Gauleses, a que mais se aproxima de nossa Filosofia atual. Também é nos monumentos funerários que cobrem a antiga Bretanha que a comissão reconheceu a mais perfeita expressão do homem e da obra que se tratava de simbolizar.

O homem era a simplicidade encarnada; se a doutrina é, ela própria, simples como tudo quanto é verdadeiro, é tão indestrutível quanto as leis eternas sobre as quais repousa.

O monumento se comporia, pois, de duas pedras de granito bruto, erectas, encimadas por uma terceira, repousando obliquamente sobre as duas primeiras, numa palavra, de um dólmen. Na face inferior da pedra superior seria gravado simplesmente o nome de Allan Kardec com esta epígrafe: Todo efeito tem uma causa; todo efeito inteligente tem uma causa inteligente; a potência da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.

Esta proposição, acolhida por sinais unânimes de assentimento dos membros da Sociedade de Paris, nos pareceu que devia ser levada ao conhecimento dos nossos leitores. Não sendo o monumento apenas a representação dos sentimentos da Sociedade de Paris, mas dos espíritas em geral, cada um devia ser posto em condições de apreciá-lo e para ele concorrer." (Revista Espírita 1869, páginas 173 e 174, Editora Edicel.)

Projetada a construção do dólmen, Madame Allan Kardec confiou a uma comissão a direção dos trabalhos. Escolheu-se um terreno no Cemitério Père-Lachaise. Em 29 de março de 1870 procedeu-se a exumação dos despojos mortais de Allan Kardec e a sua transferência do Cemitério Montmartre para o Cemitério Père-Lachaise.

No dia 31 de março de 1870 os espíritas inauguravam o monumento dolmênico levantado em memória de Allan Kardec, com a presença de grande número de espíritas de Paris.

O dólmen de Kardec, simples e severo em suas linhas, é constituído de três moles de granito em posição vertical, sobre as quais repousa uma quarta pedra tabular. No centro se eleva um pedestal, no topo do qual está colocada a herma, em bronze, de Allan Kardec, quase em tamanho natural. Na face direita do referido pedestal lêem-se as seguintes inscrições: "Fundador da Filosofia Espírita" - "Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. A potência da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito" - "3 de outubro de 1804 / 31 de março de 1869".

No bordo frontal da pedra acha-se gravado o apotegma que resume a Doutrina Espírita, de justiça e progresso: "Nascer, morrer, renascer ainda, progredir sem cessar, tal é a lei.

(Fontes de consulta: Revista Espírita 1869 e Allan Kardec, de Zeus Wantuil e Francisco Thiesen.)