O Orador e o Símbolo

Centro Espírita Ismael

Sérgio Biagi Gregório

DEPARTAMENTO DE ENSINO DOUTRINÁRIO

CURSO DE EXPOSITOR ESPÍRITA

O ORADOR E O SÍMBOLO (Cópia de Dicionário)

APRESENTAÇÃO

O objetivo deste trabalho é fornecer subsídios para uma melhor interpretação do sentido simbólico que alguns termos expressam.

ÁGUA

As significações simbólicas da água podem reduzir-se a três tema dominantes: fonte de vida, meio de purificação, centro de regenerescência. Esses três temas se encontram na mais antigas tradições e formam as mais variadas combinações imaginárias — e as mais coerentes também. As águas, massa indiferenciada, representando a infinidade dos possíveis, contêm todo o virtual, todo o informal, o germe dos germes, todas as promessas de desenvolvimento, mas também todas as ameaças de reabsorção. Mergulhar nas águas, para delas sair sem se dissolver totalmente, salvo por uma morte simbólica, é retornar às origens, carregar-se de novo num imenso reservatório de energia e nele beber uma força nova: fase passageira de regressão e desintegração, condicionando uma fase progressiva de reintegração e regenerescência. A água se torna o símbolo da vida espiritual e do Espírito, oferecidos por Deus e muitas vezes recusados pelos homens. Jesus retoma esse simbolismo no seu diálogo com a samaritana: Aquele que beber da água que eu lhe darei não terá mais sede... A água que eu lhe darei se tornará nele fonte de água a jorrar em vida eterna (João, 4). (1)

ALIANÇA

O termo aliança (bérith em hebraico) possui o sentido de compromisso ou de pacto, relativo a uma pessoa ou coletividade. Esses dois sentidos encontram-se igualmente na duas palavras gregas: diathéke e synthéke; e nas latinas: foedus e testamentum. Daí as expressões Antigo e Novo Testamento , em vez de Antiga e Nova Aliança. A Antiga Aliança designa um compromisso assumido por Jeová em relação a Abraão; é precedida pela aliança celebrada entre Deus e Noé após o Dilúvio, cujo signo exterior é o arco-íris, como o cordeiro pascal será o signo da aliança mosaica. A propósito dessa aliança significada pelo arco-íris, pode-se falar, no mesmo contexto, de uma revelação de Deus pela natureza, correspondente à aliança com Noé. A continuidade da aliança não está ligada à fidelidade de um homem ou de um povo, e Jeová mantém seu pacto independentemente da atitude de seu parceiro; Israel sabe disso e, por essa razão, suplicará a Deus que se lembre de sua aliança, Jean Daniélou, ao analisar o sentido da Aliança (DANA, 46), comenta de que modo a aliança é simbolizada por uma vítima dividida. Por ordem de Jeová, Abraão toma uma novilha, uma cabra, um carneiro, uma rola e uma pomba, cortando-os ao meio; entre os animais divididos passará uma archote aceso significando a aliança, que une o que é dividido e participa de um mesmo sangue. Na Nova Aliança a vítima será o Cristo, e o signo, a Eucaristia. Assim sucedem-se as alianças umas às outras, não se destruindo, mas assumindo as antecedentes. (1)

ALQUEIRE

O alqueire europeu, medida destinada à pesagem dos grãos, correspondia, pouco mais ou menos, a treze litros (no Brasil, essa antiga medida de capacidade para secos e líquidos era variável de região para região). Na China, encontra-se medida de utilização análoga, embora atualmente contenha apenas 10 a 31 litros: é o teú (em vietnamita, dau). De uso muito antigo, o teú teve normalizada sua capacidade desde a época dos Han (dinastia fundada por Liu Pang, por volta do ano 202 ou 206 a. C.). E como as organizações taoístas dessa época cobravam, a título de imposto celeste, cinco alqueires de arroz, os alqueires representaram, durante longo tempo, para o profano, um emblema do próprio taoísmo. O uso simbólico do alqueire deve-se essencialmente a seu emprego pelas sociedades secretas relacionadas com a T'ien-ti-huei, ou Sociedade do Céu e da Terra. No centro da loja, num espaço denominado Cidade dos Salgueiros, encontra-se um alqueire cheio de arroz vermelho. E como essa Cidade dos Salgueiros resume a loja inteira, o teú representa e substitui a cidade: os caracteres um-yang tcheng (cidade dos salgueiros) estão, além do mais, desenhados na medida do alqueire. Aliás, quando soerguem o teú, os novos iniciados dizem explicitamente: nós soerguemos a Cidade dos Salgueiros a fim de destruir Ts'ing, e restaurar Ming. Ora, Ming não é apenas uma dinastia, é sobretudo a luz. Restaurar a luz ao soerguer o teú corresponde, estranhamente, a um simbolismo que nos é familiar: essa luz, embora não esteja oculta debaixo, está contida, pelo menos, no interior. Signo de reunião, arca da aliança, sede dos símbolos essenciais, o teú contém arroz, que é o alimento da imortalidade. E se contém esse alimento, é por causa da potência de Ming, i.é, ainda em virtude da luz, ou do conhecimento. Além disso, o teú é o nome dado à Ursa Maior que, situada no meio do céu tal como o soberano no coração do Império, regulamenta as divisões do tempo e a marcha do mundo. Se o teú é a Ursa Maior, em torno dele as quatro portas cardeais da loja correspondem às quatro estações. Na vertical do polo celeste, o alqueire é o ponto de aplicação da atividade do Céu. Na Cidade dos Salgueiros, representa o mesmo que linga na cella do templo hindu, sede da luz na caverna do coração (FAVS, GUET, GRIL, MAST, SCHL, WARH). Um dos filhos do deus irlandês, Diancecht (Apolo, em seu aspecto de deus-médico) é chamado de Miach (alqueire). Miach é morto pelo pai, por ter enxertado em Nuada, o rei maneta, um braço vivo, em vez do braço de prata cuja prótese fora feito pelo próprio Diancechet. A filha de Diancecht, Airmed, classificou as plantas, em número de trezentas e sessenta e cinco, que cresceram sobre o túmulo de seu irmão, Miach. Diancecht, entretanto, colocou-as novamente em desordem, a fim de que ninguém pudesse utilizá-las. Miach (alqueire) simboliza a medida de equilíbrio cósmico, e Diancecht mata o próprio filho porque o conhecimento das plantas não deve ser divulgado. Ele põe esse conhecimento "debaixo do alqueire" (fr. mettre sous le boisseau: manter oculto, escondido). (OGAC, 16, 223, nota 4; ETUC n.º 398, 1996, p. 272-279). (1)

APOCALIPSE

Em primeiro lugar, o apocalipse é uma revelação que se apóia em realidades misteriosas; em segundo, uma profecia, pois essas realidades ainda estão por vir; finalmente, uma visão, cujas cenas e cifras valem como símbolos. Essas visões não têm valor por si mesmas, mas, sim, pelo simbolismo de que estão carregadas; pois tudo ou quase tudo em um apocallpse tem valor simbólico: as cifras, as coisas, as partes do corpo, os próprios personagens que entram em cena. Ao descrever uma visão, o vidente traduz em símbolos as idéias que Deus lhe sugere, procedendo, assim, por acumulação de coisas, de cores, de cifras simbólicas, se qualquer preocupação com a incoerência dos efeitos obtidos. A fim de compreendê-lo é preciso, pois, participar de seu jogo e retraduzir as idéias, os símbolos que ele propõe, sob pena de adulterar o sentido de sua mensagem (BIBJ, 3, 414) (1)

ÁRVORE

Tema simbólico mais rico e mais difundido. Símbolo da vida, em perpétua evolução e em ascensão para o céu, ela evoca todo o simbolismo da verticalidade. Árvore põe igualmente em comunicação os três níveis do cosmo: o subterrâneo, através de suas raízes sempre a explorar as profundezas onde se enterram; a superfície da terra, através de seu tronco e de seus galhos inferiores; as alturas, por meio de seus galhos superiores e de seu cimo, atraídos pela luz do céu. Simbólica: raízes (terra); galhos (céu) — universalmente considerada como símbolo das relações que se estabelecem entre a Terra e o Céu. (1)

1) FIGUEIRA

Assim como a oliveira e a videira, é uma das árvores que simbolizam a abundância. Também ela, porém, tem seu aspecto negativo: quando seca, torna-se a árvore do mal e, na simbólica cristã, representa a Sinagoga que, por não ter reconhecido o Messias da Nova Aliança, já não tem frutos; do mesmo modo representará particularmente as Igrejas cujos ramos tiverem sido dessecados pela heresia. A figueira simboliza a ciência religiosa. Jesus amaldiçoa a figueira. Deve-se notar que Jesus se dirige à figueira, ou seja, à ciência que essa árvore representa. (1)

2) CARVALHO

O Carvalho, em todos os tempos e por toda a parte, é sinônimo de força: e essa é claramente a impressão que dá a árvore na idade adulta. Aliás, carvalho e força exprimem-se pela mesma palavra latina: robur, que simboliza tanto a força moral como a força física. De acordo com certa passagem da obra de Plínio, o Velho, que se apóia sobre a analogia do grego (drus), o nome dos druídas está em relação etimológica com o nome de carvalho; daí resulta a tradução homens de carvalho, que conseguiu se introduzir até mesmo nas obras eruditas modernas. O nome druida é, etimologicamente, o da ciência (dru [u] idos muitos sábios) e há uma primeira equivalência semântica com o nome do bosque e da árvore (-vid). Mas a árvore é, também, um símbolo de força, e os druidas celtas têm direito à sabedoria e à força. (1)

3) VIDEIRA

Nas religiões que cercavam a antiga Israel, a videira passava por ser uma árvore sagrada, até mesmo divina, e seu produto, o vinho, como bebida dos deuses. Encontramos um vago eco dessas crenças no Antigo Testamento (Juízes, 9, 13; Deuteronômio, 32, 37 s.). Desde a sua origem o simbolismo da videira adquire um aspecto eminentemente positivo. A videira é, antes de tudo, a propriedade e, assim, a garantia da vida e o que lhe dá o seu valor: um dos bens mais preciosos do homem (1 Reis, 21, 1 s.). Uma boa esposa é para o marido como uma videira fecunda (Salmos, 128, 3). Jesus proclama que ele é a verdadeira cepa e que os homens não podem pretender ser a videira de Deus se não permanecerem nele. De outra forma, não passam de galhos secos que só servem para ser lançados ao fogo (João, 15, 1). Em Mateus, 21, 28-46 a videira, na parábola dos vinhateiros homicidas, designa o reino de Deus que, inicialmente confiado aos judeus, será passado a outros. O simbolismo da videira estende-se a cada alma humana. Deus é o vinhateiro que pede a seu filho que visita a vinha (Marcos, 12, 6). E, substituindo Israel, o Cristo tornar-se-á, por sua vez, comparável a uma videira, sendo o seu sangue o vinho da Nova Aliança. (1)

BATISMO

Diz-se da atividade de João Batista no deserto: ... Então vieram até ele Jerusalém, toda a Judéia, e toda a região circunvizinha ao Jordão. E eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados (Mateus, 3, 5-6). É o que denominou batismo por imersão, tal como foi por longo tempo praticado. Esse rito de imersão é um símbolo de purificação e de renovação. Era conhecido nos meios essênios, mas também em outras religiões (que o associam aos ritos de passagem , especialmente aos de nascimento e morte) além do judaísmo e suas seitas. Entretanto, os editores da Bíblia de Jerusalém observam, a esse propósito, aquilo que diferencia o batismo de João dos outros ritos de imersão: tinha um objetivo não já ritual, mas moral; não se repetia, o que lhe dava o caráter de uma iniciação; finalmente, tinha caráter escatológico, introduzindo o batizado no grupo dos que professavam uma espera diligente do Messias que estava por vir, e que constituíam, por antecipação, a sua comunidade. Quaisquer que sejam as modificações trazidas pela liturgia das diversas confissões cristãs, ao ritos do batismo continuam a incluir dois gestos ou duas fases de notável alcance simbólico: a imersão e a emersão. A imersão, hoje reduzida à aspersão, é por si só rica de muitas significações: indica o desaparecimento do ser pecador nas águas da morte, a purificação através da água lustral, o retorno do ser às fontes de origem da vida. A emersão revela a aparição do ser em estado de graça, purificado, reconciliado com uma fonte divina de vida nova. Aliás, João Batista falará do fogo a propósito do batismo: Eu na verdade vos batizo em água para vos trazer à penitência: porém o que há de vir depois de mim é mais poderoso do que eu, e eu não sou digno de lhe levar a sandália. Ele vos batizará no Espírito Santo, e em fogo (Mateus, 3, 11). E os exegetas observarão que o fogo, meio de santificação menos material e mais eficaz do que a água, já no Antigo Testamento simboliza a intervenção soberana de Deus e de seu Espírito a purificar as consciências (Isaías, 1, 25) (1)

CRIANÇA

Infância é símbolo de inocência: é o estado anterior ao pecado e, portanto, o estado edênico, simbolizado em diversas tradições pelo retorno ao estado embrionário, em cuja proximidade está a infância. Infância é símbolo de simplicidade natural, de espontaneidade, e este é o sentido que lhe é dado pelo taoísmo: Apesar de vossa idade avançada, tendes a frescura de uma criança (Tchuang-tse, cap. 6). A criança é espontânea, tranqüila, concentrada, sem intenção ou pensamentos dissimulados (Lao-tse, 55, comentado em Tchuang-tse, cap. 23). Esse mesmo simbolismo é empregado na tradição hindu, na qual o estado de infância é denominado balya: é, exatamente como na parábola do Reino dos Céus, o estado prévio à obtenção do conhecimento (GUEV, GUEC). A idéia da infância é uma constante nos ensinamentos evangélicos e de toda uma parte da mística cristã, como, por exemplo, o caminho da infância de Santa Teresa do Menino Jesus, ao lembrar (Mateus, 13, 3): Em verdade vos digo, se não mudardes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus. Ou Lucas, 18, 17: Em verdade vos digo, aquele que não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele. Aliás, na tradição cristã, os anjos são muitas vezes representados como crianças, em sinal de inocência e de pureza. Na evolução psicológica do homem, atitudes pueris ou infantis — que em nada se confundem com as do símbolo criança — assinalam períodos de regressão; ao inverso, a imagem da criança pode indicar uma vitória sobre a complexidade e a ansiedade, a conquista de paz interior e da autoconfiança. Os franco-maçons são chamados de os Filhos da Viúva. Segundo diversas interpretações, essa Viúva seria a deusa Ísis à procura de seu marido despedaçado, ou a mãe do arquiteto Hirão, ou uma personificação da Natureza sempre fecunda. O tema da Viúva é freqüente nas mitologias. A expressão maçônica indicaria a solidariedade no princípio, seja ele qual for, que une os maçons; se o princípio for luz, energia, potência, natureza, eles seriam filhos da luz etc. (BOUM, 280-283). (1)

CRUZ

A cruz é um dos símbolos cuja presença é atestada desde a mais alta Antigüidade: no Egito, na China, em Cnossos, Creta, onde se encontrou uma cruz de mármore do séc. XV a. C. A cruz é o terceiro dos quatro símbolos fundamentais (segundo CHAS), juntamente com o centro e o círculo e o quadrado. Ela estabelece uma relação entre os três outros: pela interseção de suas duas linhas retas que coincide com o centro, ela abre o centro para o exterior; inscreve-se no círculo, que divide em quatro segmentos; engendra o quadrado e o triângulo, quando suas extremidades são ligadas por quatro linhas retas. A simbologia mais complexa deriva dessas singelas observações: foram elas que deram origem à linguagem mais rica e mais universal. Como o quadrado, a cruz simboliza a terra; mas exprime dela aspectos intermediários, dinâmicos e sutis. A simbólica do quatro está ligada, em grande parte, à da cruz, principalmente ao fato de que ela designa um certo jogo de relações no interior do quatro e do quadrado. A cruz é o mais totalizante dos símbolos (CHAS, 365) Apontando para os quatro pontos cardeais, a cruz é, em primeiro lugar, a base de todos os símbolos de orientação, nos diversos níveis de existência do homem. A orientação total do homem exige ... um triplo acordo: a orientação do sujeito animal com relação a ele mesmo; a orientação espacial, com relação aos pontos cardeais terrestres; e, finalmente, a orientação temporal com relação aos pontos cardeais celestes. A orientação espacial se articula sobre o eixo Este-Oeste, definido pelo nascer e por-do-sol. A orientação temporal se articula sobre o eixo de rotação da Terra, ao mesmo tempo Sul-Norte e Embaixco-Em cima. O cruzamento desses dois eixos maiores realiza a cruz de orientação total. A concordância, no homem, das duas orientações, animal e espacial, põe o homem em ressonância com o mundo terrestre imanente; a das três orientações, animal, espacial e temporal, com o mundo supratemporal transcendente pelo meio terrestre e através dele (CHAS, 27) A cruz tem, em conseqüência, uma função de síntese e de medida. Nela se juntam o céu e a terra ... Nela se confundem o tempo e o espaço... Ela é o cordão umbilical, jamais cortado, do cosmo ligado ao centro original. de todos os símbolos, ela é o mais universal, o mais totalizante. A tradição cristã enriqueceu prodigiosamente o simbolismo da cruz, condensando nessa imagem a história da salvação e a paixão do Salvador. A cruz simboliza o Crucificado, o Cristo, o Salvador, o Verbo, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Ela é mais do que uma figura de Jesus, ela se identifica com sua história humana, com a sua pessoa. (1) Cruz - a crucifixão era uma forma de pena oriental que foi introduzida no Ocidente pelos persas. Ela foi pouco usada pelos gregos, mas muito utilizada pelos cartagineses e romanos. Na literatura romana, a crucifixão é descrita como punição cruel e temida, não sendo aplicada aos cidadãos romanos, mas apenas aos escravos e aos não-romanos que houvessem cometido crimes atrozes, como assassínio, furto grave, traição e rebelião. A cruz não é mencionada no Antigo Testamento. Os romanos crucificavam os criminosos inteiramente nus e não motivo para se pensar que tenha sido feita alguma exceção para Jesus. As vestes do crucificado eram entregues aos soldados (Mt 27, 35). Uma inscrição com o nome do criminoso e a natureza do seu crime era feita sobre uma tabuinha, que o condenado levava pendurada no pescoço até o local da execução; essa tabuinha com a inscrição foi depois afixada acima da cabeça de Jesus na cruz. Por ironia de Pilatos, a inscrição de Jesus não indicava um crime, mas registrava simplesmente a expressão "rei dos judeus" (Mt 27, 37; Mc 15, 26; Lc 23, 38; Jo 19, 19-22). No Novo Testamento, o simbolismo teológico da cruz só aparece em uma afirmação do próprio Jesus e nos escritos de Paulo. Jesus disse que aqueles que o seguem deve tomar a sua própria cruz, perdendo assim a vida para conquistá-la (Mt ao, 38; 16,24; Mc 8, 34; Lc 9,23; 14,27). Não se trata apenas uma alusão à sua própria morte, mas também da afirmação de que seu seguimento exige a "negação de si mesmo" (Mc 8,34), o total desprezo pela própria vida, pelo bem estar, pelas posses pessoais, a tudo aquilo a que se deve renunciar para seguir a Jesus. Paulo pregava Cristo e — Cristo crucificado —, embora isso fosse escândalo para os hebreus e loucura para os gentios (1Cor1, 23; 2,2) ... Se Paulo pregasse a circuncisão, não haveria o escândalo da cruz (Gl 5, 11): com isso, ele quer dizer que a cruz, um escândalo para os hebreus, perderia o seu valor redentor se a circuncisão ainda fosse necessária ... Aqueles que pertencem a Cristo "crucificaram a carne", ou seja, dominaram eficazmente as paixões sensuais da natureza e aceitaram a renúncia cristã. (2)

ESCADA

Os diferentes aspectos do simbolismo da escada estão todos ligados ao problema das relações entre o céu e a terra. A escada é o símbolo por excelência da ascensão e da valorização, ligando-se à simbólica da verticalidade. Mas ela indica uma ascensão gradual e uma via de comunicação em sentido duplo entre diferentes níveis. Quando se trata de valor, observou Bachelard, todo progresso é concebido como uma subida; toda elevação se descreve por uma curva que vai de baixo para cima. A verticalidade seria a linha do qualitativo e da elevação; a horizontalidade, a linha do quantitativo e da superfície. A altura seria a dimensão de um ser visto do exterior. Na arte, a escada aparece como o suporte imaginário da ascensão espiritual. Ela é também o símbolo das permutas e das idas e vindas entre o céu e a terra. (1)

ESPADA

Em primeiro lugar, a espada é o símbolo do estado militar e de sua virtude, a bravura, bem como de sua função, o poderio. O poderio tem um duplo aspecto: o destruidor (embora essa destruição possa aplicar-se contra a injustiça, a maleficência e a ignorância e, por causa disso, tornar-se positiva); e o construtor, pois estabelece e mantém a paz e a justiça. Todos esses símbolos convêm literalmente à espada, quando ela é o emblema do rei (espada sagrada dos japoneses, dos antigos povos kampucheanos (cambojanos), dos khmers e dos chans, estes últimos conservando ainda o Sadet do Fogo da tribo jaraí). Quando associada à balança, ela se relaciona mais especialmente à justiça: separa o bem do mal, golpeia o culpado. Símbolo guerreiro, a espada é também o símbolo da guerra santa (e não o das conquistas arianas, tal como pretendem alguns, a propósito da iconografia hindu, a menos que se trate de conquistas espirituais). Antes de mais nada, a guerra santa é uma guerra interior, e esta pode ser igualmente a significação da espada trazida pelo Cristo (Mt 10, 34). Além do mais — sob seu duplo aspecto destruidor e criador —, ela é um símbolo do verbo, da palavra. A espada é também a luz e o relâmpago: a lâmina brilha; ela é, diziam os Cruzados, um fragmento da Cruz de Luz. A espada sagrada japonesa deriva do relâmpago. A espada do sacrificador védico é o raio de Indra (o que identifica ao vajra). Ela é, portanto, o fogo: os anjos que expulsaram Adão do Paraíso tinham espadas de fogo. Em termo de alquimia, a espada dos filósofos é o fogo do cadinho ... Do mesmo modo, a espada do Vixenu, que é uma espada chamejante, é o símbolo do conhecimento puro e da destruição da ignorância. (1) No AT "alguém que desembainha a espada" é um homem na idade militar. Matar "ao fio da espada" significa matar à maneira da espada, isto é, sem quartel. A espada fazia do equipamento normal do guerreiro. Um grito de guerra de Israel numa certa ocasião foi "a espada de Iahweh e de Gedeão". Metaforicamente a língua caluniosa é uma espada (Sl 55,21; 57,5; 59,8; Pr 12,18; 30,14). A espada é frequentemente representada como um monstro que devora (Dt 32, 42; 2Sm 2, 26; Is 1, 20; Jr 2,30; 12,2; 46,10 +). "A espada" metaforicamente significa guerra, e é muitas vezes mandada ou tirada por Iahweh (Lv 26,6,25; 2Sm 11, 25; Jr 5, 12; 46, 16). O emprego da espada em defesa de Jesus na sua detenção (Mt 26,51; Mc 14,47; Lc 22, 49s; Jo 18, 10s) é a ocasião de um dito, citado somente em Mt 26,52: "todos os que pegam a espada pela espada perecerão". Jesus disse que não veio trazer a paz, mas a espada (Mt 10,34), onde o contexto indica claramente que a espada significa a hostilidade provocada pela fé nele. Mt 26, 52 explicita o que implícito nos outros evangelhos a respeito da atitude de Jesus para com o uso da violência em sua defesa; ele a rejeita decisivamente. A generalização vai, porém, além de um fato particular e pode ser interpretada como nada menos do que a total recusa do uso de armas e da violência. Um apelo à violência, em último caso, não produz nada senão a destruição daquele que a ela apela. Cumpre não entender isso como um repúdio moral, mas simplesmente como uma declaração da inutilidade da violência; e os cristãos que acreditam numa violência legítima devem examinar a si mesmos para ver como poderiam conciliar sua fé com o juízo de Jesus sobre a violência. Parece que um mínimo de respeito pelas palavras do evangelho deva impedir a quem quer que seja de julgar legítimo o uso da violência para levar adiante a obra de Jesus Cristo. É possível que Lc 22, 35-38 conserve a mesma afirmação numa forma diferente. O convite de Jesus de procurar espadas é evidentemente metafórico, uma advertência a preparar-se para a luta; e a interpretação superficial literal das palavras pelos discípulos é deixada em Lucas sem comentários. No contexto imediatamente anterior que esta não era o momento para um exercício de esgrima. (2)

FOGO

A maior parte dos aspectos do simbolismo do fogo está resumida na doutrina hindu, que lhe confere fundamental importância. O fogo é o símbolo divino essencial do Masdeísmo. O Buda substitui o fogo sacrificial do hinduísmo pelo fogo interior, que é, ao mesmo tempo, conhecimento penetrante, iluminação e destruição do invólucro. O aspecto destruidor do fogo implica também, evidentemente, um lado negativo; e o domínio do fogo é igualmente uma função diabólica. A propósito da forja, deve-se observar que seu fogo é a um só tempo celeste e subterrâneo, instrumento de demiurgo e de demônio. A queda de nível é representada por Lúcifer, portador da luz celeste, no momento em que é precipitado nas chamas do inferno: fogo que queima sem consumir, embora exclua para sempre a possibilidade de regeneração (AVAS, BHAB, COOH, GOVM, HERS, SAIR) O fogo, na qualidade de elemento que queima e consome, é também símbolo de purificação e de regenerescência. Reencontra-se, pois, o aspecto positivo da destruição: nova inversão do símbolo. Todavia, a água é também purificadora e regeneradora. Mas o fogo distingue-se da água porquanto ele simboliza a purificação pela compreensão, até a mais espiritual de suas formas, pela luz e pela verdade; ao passo que a água simboliza a purificação do desejo, até a mais sublime de suas formas — a bondade (DIES, 37-38) (1)

GNOMOS

Gênios de pequeno tamanho, que, segundo a Cabala, habitariam debaixo da terra e seriam donos dos tesouros de pedras e metais preciosos. A lenda dos gnomos passou do Oriente para a Escandinávia e para a América Central. Simbolizariam o ser invisível, que, por inspiração, intuição, imaginação e sonho, faz visíveis os objetos invisíveis. Na alma do homem eles são como que lampejos de consciência, de iluminação e de revelação. São como que a alma oculta das coisas, orgânicas ou não; e quando eles se retiram, as coisas morrem ou ficam inertes e tenebrosas. O gnomo pode amar e odiar sucessivamente o mesmo ser. Pouco a pouco, na imaginação popular, assumiu a figura de um anão feio e disforme, malicioso e perverso. Em troca, sua mulher, ainda menor que ele, era de extraordinária beleza e trazia babuchas nos pés: uma de rubis, outra de esmeralda. O casal, ou gnomo desdobrado em complexo masculino e feminino, simboliza a aliança em todo ser de um lado feio e um lado belo, de um lado mau e um lado bom, de um lado terroso e outro cheio de luz. Trata-se, sem dúvida, de uma imagem dos estados de consciência, complexos e fugidios, em que coexistem ignorância e conhecimentos, riqueza e pobreza morais: exemplos da coincidência dos contrários, de conhecimento mantido em segredo ou ocultado. (1)

INFERNO (Hades)

Sobre esse tema, as crenças antigas — egípcias, gregas, romanas — variavam muito; e mesmo na Antigüidade já eram numerosas; por isso, aqui mencionaremos apenas o que julgamos essencial. Entre os gregos, Hades, o Invisível — segundo etimologia duvidosa — é o deus dos mortos. Como ninguém ousasse pronunciar-lhe o nome, por temor de lhe excitar a cólera, ele recebeu o apodo de Plutão (o Rico), nome que implica um terrível sarcasmo, mais do que um eufemismo, para designar as riquezas subterrâneas da terra, entre as quais se encontra o império dos mortos. E esse sarcasmo torna-se macabro quando se coloca uma cornucópia entre os braços de Plutão. Na simbologia, entretanto, o subterrâneo é o local das ricas jazidas, o lugar das metamorfoses, das passagens da morte à vida, da germinação. Após a vitória do Olimpo sobre os Titãs, foi feita a partilha do universo entre os três irmãos, filhos de Cronos e de Réia: a Zeus coube o Céu; a Poseidon (Netuno), o Mar; a Hades, o mundo subterrâneo, os Infernos ou o Tártaro. Senhor impiedoso, tão cruel quanto Perséfona, sua sobrinha e esposa, ele não dá trégua a nenhum de seus súditos (ou vítimas). Seu nome foi dado ao lugar por ele dominado; Hades tornou-se símbolo dos Infernos. E, ainda nesse caso, as características são as mesmas por toda parte: lugar invisível, eternamente sem saída (salvo para os que acreditavam nas reencarnações), perdido nas trevas e no frio, assombrado por monstros e demônios, que atormentam os defuntos (GRID). Na tradição cristã, a conjunção luz-trevas simbolizaria os dois opostos: o céu e o inferno. Plutarco já descrevia o Tártaro como privado de sol. se a luz se identifica com a vida e com Deus, o inferno significa a privação de Deus e da vida. A essência íntima do inferno é o próprio pecado mortal, em que os danados morreram (ENCF, 470). É a perda da presença de Deus; e, como já nenhum outro bem poderá jamais iludir a alma do defunto, separada do corpo e das realidades sensíveis, o inferno é a desventura absoluta, a privação radical, tormento misterioso e insondável de uma existência humana. A conversão do danado já não é mais possível; empedernido em seu pecado, ele está para sempre cravado na sua dor. (1)

O JUGO

Jugo - do hebreu môt , ôl - significa peça de madeira que serve para emparelhar dois animais para o mesmo trabalho. Era proibido prender sob um mesmo jugo dois animais de espécies diferentes.

Dava-se esse nome a uma medida agrária equivalente à superfície que um par de bois podia lavrar num dia. O jugo usado na Antiga Palestina era igual ao que ainda hoje se usa. Consistia em uma pesada barra de madeira posta nos ombros dos animais de tiro (bois ou burros), presa ao animal por uma cravelha, corda e correias, que passavam em redor dos chifres e debaixo do pescoço. Uma correia maior juntava o jugo com o cabo. (MACKENZIE, 1984) O jugo, por um motivo perfeitamente evidente, é símbolo de servidão, de opressão, de constrangimento. A passagem dos vencidos sob o jugo romano é suficientemente explícita. Mas o jugo assume sentido completamente diverso no pensamento hindu. A raiz indo-européia yug, de que deriva, é objeto de uma aplicação muito conhecida do sânscrito yoga, que tem efetivamente, o sentido de unir, juntar, por debaixo do jugo. É, por definição, uma disciplina de meditação, cujo objetivo é a harmonização, a unificação do ser, a tomada de consciência e, finalmente, a realização da única União verdadeira, a da alma com Deus, da manifestação com o Princípio. O inventor do jugo, que permite dominar e atrelar os bois, Buziges, foi também um dos primeiros legisladores. O jugo simboliza a disciplina de duas maneiras: ou ela é sofrida de modo humilhante, e é o aspecto sombrio do símbolo (cf. o famoso exemplo das forcas caudinas, jugum ignominiosum, lança posta sobre duas outras fincadas na terra e sob a qual passou o exército romano vencido pelos samnitas); ou a disciplina é escolhida voluntariamente e conduz ao domínio de si, à unidade interior à união com Deus. Existia em Roma um lugar, dito sororium tigillum, onde estava instalada uma trave em asna debaixo da qual passavam os assassinos para expiar seu crime. Depois de matar sua irmã Camila, que saíra, impudica dos apartamentos das mulheres para declarar em altos brados seu amor pelo inimigo do irmão, Horácio foi forçado a passar sob o jugo. Essa prática expiatória e purificadora era indispensável para recuperar o seu lugar na coletividade. Cumpria passar sob o jugo. Mas essa disposição ancestral do jugo significava mais que um ato de submissão às leis da cidade. Era, sem dúvida, escreve Jean Beaujeu, um vestígio das portas secretas ou arficiais pelas quais o moço, uma vez iniciado, passava de volta, do mundo sobrenatural onde vivera seu período de prova, ao mundo ordinário dos homens. Era, então, o símbolo da reintegração na sociedade. (1)

LUZ

Em numerosos casos, as fronteiras ficam indecisas entre a luz-símbolo e a luz-metáfora. Por exemplo, pode-se perguntar se a luz, aspecto final da matéria que se desloca com uma velocidade limitada, e a luz de que falam os místicos têm alguma coisa em comum, a não ser o fato de serem um limite ideal de um resultado (VIRI, 259). Vai-se na direção do símbolo, por outro lado, quando se considera a luz como um primeiro aspecto do mundo informe. Embrenhando-se na sua direção, entra-se num caminho que parece poder levar além da luz, isto é, além de toda forma, mas, igualmente, além de toda a sensação e de todo conceito (VIRI, 265 s.: a saída do Imaginário e a experiência da luz). A luz é relacionada com a obscuridade para simbolizar os valores complementares ou alternantes de uma evolução. Essa lei se verifica nas imagens da China arcaica, bem como nas de numerosas civilizações. Sua significação é que, assim como acontece na vida humana em todos os seus níveis, uma época sombria é seguida, em todos os planos cósmicos, de uma época luminosa, pura, regenerada. Expressões como luz divina ou luz espiritual deixam transparecer o conteúdo de um simbolismo muito rico no Extremo Oriente. A luz é o conhecimento: a dupla acepção existe igualmente na China para o caráter ming, que sintetiza as luzes do Sol e da Lua; ele tem, para os budistas chineses, o sentido de iluminação; no Islão, En-Nur, a Luz, é essencialmente o mesmo que Er-Ruh, o Espírito. A luz simboliza constantemente a vida, a salvação, a felicidade dadas por Deus (Salmos 4, 7: 36, 10; 97, 11; Isaías 9, 1) que é ele próprio a luz (Salmos 27, 1; Isaías 60, 19-20). A lei de Deus é uma luz sobre o caminho dos homens (Salmos, 119, 105); assim também sua palavra (Isaías 2, 3-5). O Messias também traz a luz (Isaías 42, 6, Lucas 2, 32). As trevas são por corolário, símbolo do mal, da infelicidade, do castigo, da perdição e da morte ( 18, 6, 18; Amos 5, 18). Os símbolos cristãos não fazem mais do que prolongar essas linhas. Jesus é a luz do mundo (João 8, 12; 9, 5); os crentes devem ser assim também (Mateus 5, 14), tornando-se os reflexos da luz de Cristo (II Coríntios 4, 6) e agindo de acordo com ela (Mateus 5, 16).

MONTANHA

O simbolismo da montanha é múltiplo: prende-se à altura e ao centro. Na medida em que ela é alta, vertical, elevada, próxima do céu, ela participa do simbolismo da transcendência; na medida em que é o centro das hierofanias atmosféricas e de numerosas teofanias, participa do simbolismo da manifestação. Ela é assim o encontro do céu e da terra, morada dos deuses e objetivo da ascensão humana. Vista do alto, ela surge como a ponta de uma vertical, é o centro do mundo; vista de baixo, do horizonte, surge como a linha de uma vertical, o eixo do mundo, mas também a escada, a inclinação a escalar. A montanha exprime ainda as noções de estabilidade, de imutabilidade, às vezes, até mesmo de pureza. Na mitologia taoísta, os Imortais iam viver sobre uma montanha, que era chamada A Montanha do Meio Mundo, em torno do qual giravam o Sol e a Lua. O simbolismo mitológico da montanha primordial ou cósmica encontra certo eco no Antigo Testamento. As altas montanhas, lembrando fortalezas, são símbolos de segurança (Salmos 30, 8). Deve-se lembrar o sermão sobre a montanha (Mateus 5, 1 s.) que, sem dúvida, na nova aliança, responde à lei do Sinai na antiga. Observemos ainda a descrição da transfiguração de Jesus sobre uma alta montanha (Marcos 9, 2) e a da ascensão sobre o monte das Oliveiras (Lucas 24, 50; Atos 1, 12). Resumindo as tradições bíblicas e as da arte cristã, que ilustram com diversos exemplos, de Champeaux e dom Sterckx extraem três significações simbólicas principais da montanha: 1. A montanha faz a junção da terra ao céu; 2. A montanha santa se situa no centro do mundo; 3. O templo é associado a essa montanha (CHAS, 164-199). (1)

MUNDO

O simbolismo do mundo, com os seus três níveis, celeste, terrestre e infernal, corresponde a três níveis de existência ou a três modos da atividade espiritual. A vida interior é assim projetada no espaço, seguindo o processo geral de formação de mitos. Esses mundos situados em espaços imaginários definem-se uns em relação aos outros: o mundo de baixo sob o mundo de cima, passando pelo mundo intermediário. Apenas essa linguagem e essa localização segundo um eixo vertical bastam para inscrever tais mundos em um movimento e uma dialética de ascensão, que acentuam sua significação psíquica e espiritual. Do mundo de cima, o mundo intermediário recebe a luz, que pára nele e não desce ao mundo de baixo; mas ele não a recebe a não ser na medida de seu desejo, de sua abertura ou de sua orientação. Ele conhece caminhos de sombras, essa fissuras morais, simbolizadas pelas fendas nas rochas, através das quais ele escorrega para o inferno. Segundo as concepções gregas e romanas, numerosos caminhos ligavam os mundos terrestres e infernais, os dos vivos e os dos mortos: crateras vulcânicas, fendas nas rochas, onde se perdem as águas, extremidades de terra. Em contrapartida, as montanhas elevadas faziam a comunicação com o céu. Mas eles imaginavam diversos estágios celestes e diversos abismos infernais, até o Tártaro, que servia de prisão para os deuses destronados. Trevas, frio, terrores, tormentos, vida empobrecida e fantasmagórica, caracterizavam os infernos; luz, calor, alegria, liberdade, reinavam nos céus. As Ilhas afortunadas, as moradas dos bem-aventurados, as Terras hiperbóreas eram reservadas para os heróis e para os sábios, imagens de um céu inferior àquele das beatitudes olímpicas, consagrado aos deuses e aos heróis divinizados. De Homero a Aristófanes e a Virgílio e Plutarco, diversas são as descrições de descidas aos Infernos, que testemunham com estranha fecundidade de imaginação dos horrores e, como que com complacência, essa loucura de criações aterradoras. (1)

PORTA

A porta simboliza o local de passagem entre dois estados, entre dois mundos, entre o conhecido e o desconhecido, a luz e as trevas, o tesouro e a pobreza extrema. A porta se abre sobre um mistério. Mas ela tem um valor dinâmico, psicológico; pois não somente indica uma passagem, mas convida a atravessá-la. É o convite à viagem rumo a um além... A passagem à qual ela convida é, na maioria das vezes, na acepção simbólica, do domínio profano ao domínio sagrado. Assim são os portais das catedrais, os torana hindus, as portas dos templos ou das cidades khmers, os torii japoneses etc. Nas tradições judaicas e cristãs, a importância da porta é imensa, porquanto é ela que dá acesso à revelação; sobre ela vêm se refletir as harmonias do universo. As portas do Antigo Testamento e do Apocalipse, ou seja, o Cristo em sua majestade e o último Julgamento, acolhem o peregrino e os fiéis. Suger dizia aos visitantes de Saint-Denis que convinha admirar a beleza da obra realizada, e não a matéria de que havia sido feita a porta. Ele acrescentava que a beleza que ilumina as almas deve dirigi-las no sentido da luz, cuja porta verdadeira é Cristo. Se Cristo em glória é representado no alto dos frontispícios das catedrais, é porque ele próprio é, de acordo com o mistério da redenção, a porta pela qual se chega ao Reino dos Céus: Eu sou a porta, quem entrar por Mim, será salvo (João 10,9). (1)

BIBLIOGRAFIA

(1) CHEVALIER, J. e GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). 12. ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1998.

(2) MACKENZIE, J. L. (S. J.) Dicionário Bíblico. São Paulo, Edições Paulinas, 1984.