Objetivos da encarnação

Antonio Celso Dias Duarte

Data: 02/09/96

Tempo: 25 m

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Texto Básico :

Introdução

Para aqueles dos nossos amigos aqui presentes que já se encontram um pouco mais familiarizados com a literatura espírita, as recentes descobertas científicas apresentam um certo “gostinho”de “eu já ouvi isso antes...”. Neste final de século, começam a tornar-se mais claras as observações dos espíritos elevados ao afirmarem que as futuras descobertas da ciência, confirmarão e a aproximarão ainda mais das verdades que há muito já nos vêm sido passadas pela doutrina espírita.

Há pouco tempo a comunidade científica sofreu um enorme impacto ao se deparar com indícios da existência de vida no planeta Marte. Para nós espíritas, esta é apenas uma constatação do que há mais de 100 anos está escrito no capítulo III d’O Evangelho Segundo o Espiritismo: “Há Muitas Moradas na Casa de Meu Pai”.

Outra confirmação de igual importância, mas que teve menor repercussão, eu pude encontrar folheando as páginas de uma revista semanal, bastante conhecida de todos: em uma reportagem de apenas poucas linhas, a revista apresenta a descoberta de um gene que é responsável pela duração da vida de uma pessoa. O resultado da pesquisa de médicos norte-americanos indica que a duração da vida dos animais - e aí se incluem os seres humanos - pode estar decidida antes mesmo do seu nascimento.

Mais uma vez, esta descoberta deixa de ser novidade para aqueles que já tiveram a oportunidade de ler André Luiz. Dependendo de nossa capacidade e merecimento, ainda no plano espiritual podemos participar da elaboração dos planos para nossa próxima reencarnação, e um dos pontos que pode ser trabalhado é justamente o tempo de que poderemos dispor na vida encarnada. Este é sem dúvida, um assunto detalhado e fascinante que no entanto não é o tema desta noite. O ponto que desejamos salientar é que se existe essa riqueza de detalhes e cuidados do plano espiritual ao se preparar uma reencarnação, é porque de fato, ela deve ser de extrema importância. Este sim, é o nosso assunto de hoje: vamos conversar um pouco sobre os objetivos da encarnação.

Objetivos do Espírito

Muito já se esclareceu aqui, sobre os objetivos divinos em relação à humanidade: por Sua imensa justiça, Deus concedeu a todos o mesmo ponto de partida, as mesmas aptidões iniciais, as mesmas metas de progresso constante e a mesma liberdade de proceder.

Imaginemos agora, um espírito que se encontre nessas condições iniciais de sua longa jornada: sem dúvida alguma, tem muito que aprender. Mas com um universo assim tão amplo e desconhecido, por onde começar? Aprender o que? Como são essas aptidões iniciais, e como fazer uso delas? Com tanta liberdade de proceder, para que lado ir? Progredir como? São tantas dúvidas e tantas perguntas, que podemos correr o risco de ficarmos literalmente paralisados! E Deus que nos havia criado como espíritos simples e ignorantes, deve ter ficado pensando: “-E agora? Como resolver esse problema?” A solução a que Ele chegou foi a encarnação! Vamos tentar ver porquê!

Co-autores

Deus não é egoísta, não criou o universo apenas para si próprio. Ao contrário: Ele deseja que todos nós participemos como co-autores em sua obra. Por isso o nosso progresso, por isso a nossa evolução. No entanto, as lições não as aprendemos apenas na teoria. Este fato é facilmente confirmado por todos aqueles que puderam freqüentar uma faculdade, e nisso trago minha experiência: quando recém-formados, acreditamos que temos o conhecimento universal em nossas mãos. No entanto, algumas cabeçadas depois, é que acabamos descobrindo que não sabemos absolutamente nada mesmo!

Dentro deste contexto, a encarnação é um misto de laboratório, oficina e escola prática. É nesse caldeirão de situações, que vamos formular e aplicar nossas teorias, colher os bons resultados, analisar as experiências que não deram o resultado esperado, e voltar à “velha prancheta de desenhos”.

Limitações

A primeira característica de que nos lembramos quando falamos de encarnação, vem de uma observação de André Luiz: o corpo material limita a plenitude de nossos sentidos, muitos dos quais ainda não podemos compreender nem mesmo utilizar. Para começarmos a exploração e desenvolvimento de nossas aptidões, contamos apenas com cinco deles. E vejam como realmente Deus é sábio: se utilizando apenas cinco sentidos, vivemos trocando os pés pelas mãos, imaginem a confusão que poderíamos aprontar se todos estivessem disponíveis!

Desta forma, uma situação que de alguma forma restringe um pouco nosso raio de ação, serve também como proteção, evitando por vezes que nossa falta de experiência cause estragos maiores: o filho que pede a primeira bicicleta, certamente ganhará um triciclo; já o filho que pede o primeiro par de patins, pode acabar é ficando na mão!

Aquilo que para a criança é visto como um castigo - nós adultos bem o sabemos - chama-se na verdade, prudência.

Livre-Arbítrio

Estas características fazem da encarnação o campo ideal para o exercício de nossas primeiras experiências no uso do atributo que nos identifica como seres humanos: o livre-arbítrio. Uma vez que com ele, passaremos a ser responsáveis por todas as atitudes que tomarmos, é prudente que possamos começar de uma forma um pouco mais controlada.

Inteligência

O bom uso da inteligência, é um dos pilares que sustentam nosso processo evolutivo, pois ela nos auxilia a melhor compreender os desígnios de Deus, sendo essa uma forma de nos aproximarmos Dele. Como vimos em nossa introdução, as estradas da religião e da ciência seguem caminhos distintos; porém o uso da inteligência está permitindo descobertas que levam os cientistas a melhor compreender as verdades universais. Em outras palavras, partindo da negação total, os cientistas estão aprendendo a conhecer Deus.

Trazendo ainda, o uso dessa inteligência para o nosso cotidiano, percebemos como as invenções permitiram facilitar a comunicação que mantemos com o plano espiritual: há alguns anos, as psicografias eram feitas com penas; hoje nossos médiuns podem confortavelmente utilizar uma esferográfica! Somente o futuro poderá dizer que recursos mais estarão disponíveis para agilizar nossa comunicação com os espíritos!

Mais uma vez, é dos questionamentos e das dificuldades trazidos pela encarnação, que tiramos os estímulos que nos permitem desenvolver a inteligência: somente através do seu uso, perguntas serão esclarecidas e obstáculos serão superados.

Moral

O único grau permanente de parentesco que nos une, é a irmandade, uma vez que somos todos filhos do mesmo Pai. No entanto, para chegarmos ao exercício da fraternidade plena, Deus nos permite experiências diversas de parentesco com os mesmos espíritos. Isso nos garante o princípio de igualdade, pois se um espírito, durante suas encarnações fosse sempre o pai, em relação a um outro espírito, isso daria margem a algum sentimento de superioridade (“-Tudo o que você aprendeu, fui eu, como pai, quem ensinou”...). No entanto, se os papéis se invertem em encarnações sucessivas, em nada um espírito será superior ao outro. Dessa forma, o sentimento que nos unirá cada vez mais, é o da solidariedade.

Cresceremos unidos, ou em outras palavras, chegaremos ao progresso moral, através do refinamento destes três princípios: fraternidade, igualdade e solidariedade, que como vimos, encontram um vasto campo de experiências nos agrupamentos familiares. A família, portanto, não surgiu ao acaso: Deus estabeleceu sobre base espiritual os laços que nos aproximam. E permitiu que sobre bases materiais pudéssemos exercitar nosso crescimento moral. Mais uma vez, é a encarnação nos dando um “empurrãozinho”...

Plano Espiritual

Pelo que estamos podendo observar até aqui, a encarnação parece ser realmente um bom negócio para nós, espíritos. Tão bom, que podemos até questionar: “-Mas se tudo o que eu preciso para evoluir eu encontro na encarnação, sobrou alguma coisa para eu aprender no plano espiritual?”

Na verdade sobrou ainda muita coisa. André Luiz esclarece na obra Evolução em Dois Mundos, que “a consciência desencarnada não deixa de encontrar possibilidades de evolução. Outras formas de trabalho e estudo asseguram o progresso do espírito”, tema que propicia assunto para a apresentação de outras palestras.

Contudo, ainda bem poucos de nós estamos preparados para adquirir acesso definitivo aos planos superiores. Continua André Luiz: “A grande maioria permanece ligada a ideologias, raças, pátrias, famílias e lares do mundo”. Essas ligações são fortes o suficiente para que deixemos de usufruir em sua plenitude os recursos oferecidos pela existência espiritual. Torna-se difícil a dedicação a um trabalho ou estudo, quando nossa mente encontra-se ligada a um ponto distante. Por esse motivo, a melhor escola que atende às nossas necessidades imediatas, ainda é a encarnação. Nela permaneceremos até que se tenham exaurido as possibilidades de crescimento, quando então, nosso espírito sempre em busca de conhecimento, estará mais preparado para que possamos prosseguir, desta vez na existência definitiva no plano espiritual.

Conclusão

Em resumo, esperamos poder ter trazido com esta breve apresentação, alguns esclarecimentos sobre alguns pontos relacionados com a vida encarnada:

· A encarnação não é nenhum castigo: não estamos voltando à vida material para sofrer e sim, para aprender. Se dificuldades existem, são frutos do mau uso que fizemos de nosso livre-arbítrio, e não porque Deus deliberadamente assim o quis;

· As limitações impostas pela existência encarnada são necessárias para preservar os “iniciantes” de cometer equívocos ainda maiores;

· A inteligência e a moral, exercitadas e desenvolvidas durante a vida encarnada, permitem que nos aproximemos mais de Deus, e que o auxiliemos de forma mais efetiva, como colaboradores de sua obra, e não como meros expectadores;

· A permanência na vida encarnada irá depender única e exclusivamente de nossa dedicação, esforço e velocidade de aprendizado: quem aprende mais rápido, volta menos vezes ao plano material;

· Novos campos de aprendizado esperam por nós no plano espiritual.

Fecho

Ilustra a apresentação de hoje, um pensamento do espírito Lucius:

“O Espírito tem uma necessidade básica de crescimento, de maturidade. Para amadurecer, deve aprender a vencer o mundo, dominar o meio e atuar livremente dentro de suas necessidades espirituais e eternas. Essa é a nossa meta.”