Os escândalos da vida

Carlos Alexandre Fett

"Ai do mundo por causa dos escândalos; porque é mister que venham os escândalos; mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!" (Jesus, no Evangelho segundo Mateus, capítulo 18, versículo 7).
É triste vermos o que vem ocorrendo em nossa sociedade. Todos os dias muitas notícias que chegam até nós nos dão a dimensão da falta de senso que tomou conta de grande parte do povo. Desde assassinatos despropositados, com crianças sendo os autores; passando por cenas de sexo e ódio em novelas e seriados nos horários de fácil acesso a qualquer idade; até os programas "campeões de audiência", como "Ratinho" e coisas do gênero, onde quanto mais brigas, intrigas e traições se mostrar, melhor.
O que mais deve nos assustar é a naturalidade como temos encarado estes acontecimentos. Parece que não nos impressionamos mais com o terrível. O feio, as atitudes erradas, passaram a ser normais em nossa vida.
Isso traz à memória outra passagem do Evangelho de Jesus, em que o Mestre afirma que haveria tempo na existência do homem que "por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará"(Mateus, cap. 24, vers. 12).
Qual o futuro que podemos esperar para nossos filhos em uma sociedade onde se incentiva a desunião, a liberdade sem responsabilidade, a falta de educação? Como ensiná-los fraternidade e amizade onde apenas exemplificamos egoísmo e orgulho?
O que programas televisivos que estimulam nossos baixos instintos acrescentam na educação do ser humano? É pura diversão, lazer, relaxamento, defendem seus assistentes. Diversão? Lazer? Relaxamento? Com o quê? Com a discórdia entre casais? Com o desrespeito aos ignorantes, expondo-os ao ridículo? Com o escancaramento da intimidade alheia, mostrando as mazelas do próximo e julgando-os sarcasticamente? Povoando nossa mente de depoimentos deprimentes, onde o que importa é que haja tragédia e aflição, explorando financeiramente o lado obscuro dos apresentados? Ou, no caso de algumas novelas, estimulando o adultério, a traição entre amigos, o apego excessivo ao dinheiro?
Ah!, dirão, mas programas como o Ratinho ajudam os necessitados. E as novelas apenas mostram o que de ruim tem na sociedade.
São estes programas que mostram claramente o estágio de evolução espiritual que nos encontramos. Porque eles só existem por existir pessoas que os assistem, demonstrando o que temos dentro de nosso espírito.
Jesus alertava que é necessário que venham os escândalos no mundo, na passagem do Evangelho mostrada no início do artigo. Ele sabia da situação de ignorância que o povo detinha quando de sua existência material entre nós.
Não pensemos que depois de dois mil anos a evolução moral da sociedade foi muita. Evoluímos muito material e tecnologicamente. Aperfeiçoamos nossas leis civis. Porém, o sentimento de egoísmo, orgulho, violência e desinteresse pelas coisas de Deus ainda é fortíssimo.
O materialismo selvagem em que vivemos, em que medimos a pessoa pelo que ela possui, veste ou come, ajuda a estimular as más tendências que todos possuímos.
O resultado são os escândalos aos quais Jesus se referiu, e que Ele mesmo dizia serem necessários em um mundo atrasado moralmente como a Terra.
A Doutrina Espírita explica que todas as dificuldades e sofrimentos da existência têm basicamente duas causas: ou são provas para nossa paciência e resignação, levando-nos a aprimorar a inteligência e a moral na busca de soluções; ou expiações, onde sofremos em nós mesmos o mal que fizemos para o próximo nessa ou em outras encarnações. Com isso, esclarece o que o Mestre dizia sobre a necessidade de haver escândalos, sofrimentos, erros, dificuldades.
Mas Ele alerta: ai daqueles por quem vêm os escândalos! Este aviso de Jesus demonstra que devemos tomar todo o cuidado para não servirmos de divulgadores da maledicência, da mentira, da soberba, do ódio, da traição, da vingança, do desprezo. Porque, com certeza, aquilo que plantarmos, receberemos em nós mesmos.
Precisamos começar a ajudar na modificação do futuro de nossos filhos. As crianças de hoje têm uma capacidade impressionante de absorver o que vai à sua volta. E o que mais têm encontrado são orientações e exemplos que fogem à Lei de Deus.
Poucos de nós nos detemos por alguns instantes ao lado dos filhos e mostramo-lhes a importância de valorizar a amizade, de não zombar do menos capacitado, de se condoer com o sofrimento e procurar ser útil de alguma forma. Ao contrário, comprazemo-nos com o erro, e tornamo-nos espelhos vivos dos maus costumes. Então, nossa força moral para educarmos reduz-se a zero.
Tenhamos a consciência tranqüila. Não a envenenemos com "distrações" fúteis. Sejamos sensatos e busquemos o que nos traga paz, não angústia. Sejamos divulgadores do Cristo, e não dos escândalos.
O grande segredo: façamos, desejemos, ajudemos ao próximo como se fosse a nós mesmos. Eis o resumo do objetivo maior da vida. Com certeza, iremos nos sentir bem melhor, entendendo o que é a felicidade prometida por Deus.