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A Influência Africana na Formação Religiosa no BrasilPalestra Virtual Palestrante: Evaldo Campos Organizadores da palestra:"Médium digitador": "jaja" (nick: Evaldo_Campos) Oração Inicial:<jaja> Senhor Jesus, estamos aqui reunidos em Teu nome, Mestre querido, com o objetivo de estudar, à luz da Doutrina Espírita, os Teus ensinamentos. Que possamos nos sentir envolvidos pelas vibrações dos amigos espirituais que dirigem os trabalhos do II Congresso Espírita de Sergipe. Fica conosco, hoje e sempre! Que assim seja! Apresentação do Palestrante:<Evaldo_Campos> Sou advogado, professor de direito penal da Universidade Tiradentes, procurador da república, aposentado, ex-aprendiz de atividade política, como vereador em Aracaju e secretário de estado, em Sergipe, primeiro da administração pública e depois da ação parlamentar. Espírita há cerca de 10 anos, sendo instrutor de estudos mediúnicos no Pronto Socorro Bezerra de Menezes e palestrante espírita no Estado de Sergipe e, ocasionalmente, na Bahia e em Alagoas. (t) Exposição do Palestrante:<Evaldo_Campos> É muito difícil encontrar-se um estudo religioso e exemplo sobre a influência das religiões africanas no Brasil. Em verdade, coube a sociólogos e antropólogos o estudo da raça negra e da escravidão e, nesse estudo, o exame da contribuição afro para a formação do homem brasileiro e também das nossas manifestações religiosas. Vê-se, entretanto, entre aqueles que analisaram o tema, a pretensão de localizar um africanismo puro, interferindo na formação da sociedade brasileira. Essa visão, todavia, não retrata a realidade e sem que precisemos remontar à pré-história da religião na África, verificaremos que, embora estejamos diante de um único continente, nele visualizamos um grande mosaico, ao mesmo tempo étnico, linguístico, cultural e religioso. Só para selecionar três das mais importantes manifestações religiosas no continente negro, destacaremos o Catolicismo, representados pelos nomes exponenciais de Santo Antão, nascido em Coma, no Egito, no ano de 251 e que teve papel fundamental na definição dos rumos de tormentosa questão que agitou um dos primeiros concílios da Igreja Católica e Santo Agostinho, nascido em Tagasta, antiga Nomídia e hoje Argélia, no ano 354 e que veio como o anterior integrar a constelação dos santos da Igreja Católica. Vemos ainda o Islamismo espalhando-se pela convicção e pela força da espada e as religiões consideradas autóctones, sob a denominação genérica de fetichismo. O mosaico religioso, portanto já era uma realidade, bem antes da descoberta do Brasil. Também, sob o ponto de vista social, o quadro não é diferente, mas reflete profunda diversidade, como revela a classificação de Heskovits, que distribui os povos da África nas seguintes culturas: Joisan, Oriental do Gado, Ponta Oriental, Congo, Costa da Guiné, Sudão Oriental, Deserto e Egito. Já Denise Paulme nos oferece um panorama diversificado das etnias distribuídas no solo africano, que ela retrata como: Melanoafricanos: Sudaneses, Guinéus, Congoleses, Nilóticos e Sul-Africanos; Abissínios: Oromi, Ambara e Tigray; Etíopes: Semi-camíticos e Fulge; Negritos: Bosquimanos e Hotentotes. Sob o ponto de vista linguístico, foram identificados três grandes ramos: Camito-Semíticos, os de língua negro-africanas, que se subdividem em Sudaneses, Nilóticos, Semibanto e os de língua Joisan. Das pesquisas realizadas na Bahia pelo estudioso Artur Ramos, proclamou-se que, dessas culturas, as que vieram para o Brasil, quando se iniciou o processo de nossa colonização, foram as Sudanesas, que se dividem em Iorubanas, com os grupos Nagô, Ijechá e outros menores, as Daomeanas, com os Gege, os Efan e outros menores e a Fanti-Ashanti (esta última com pequeníssima representação no Brasil e presença maciça nas Guianas). A cultura Guineano-Sudanesa-Islamizada, representada pelos grupamentos Peuhl, Mandinga, Tapa e Borem e as culturas Bantas, representadas pelos Angola-Congolês e Contra-Costa. Destas, a Sudanesa e a Banta foram as que mais influíram na formação do homem e, por via de conseqüência, na formação religiosa de nosso país. A cultura islamizada, por ser extremamente fechada, evitou qualquer contato com a cultura colonizadora, isolando-se e, por haver fomentado alguns movimentos de revolta, sofreu profunda repressão, com seus membros separados e espalhados por todos os cantos do Brasil. Os Sudaneses fixaram-se preferencialmente na Bahia, onde deixaram marcas preciosas de sua passagem, através do grupo Iorubano, grupo dominante, cuja língua, o nagô, veio a ser considerada a língua geral dos negros. Seu vestuário foi marcante com as saias rodadas, com os panos vistosos e os braceletes e argolões, que enfeitavam aquelas que dele se valiam. Amantes da música, que levaram às práticas religiosas, introduziram em nossa cultura o tambor e aquele alongado, em oposição ao tambor banto, que mais se assemelha a uma barrica, os agogôs, os afofiés e os atabaques. Estabeleceram rituais e atos litúrgicos, comandados por uma hierarquia religiosa, esta encabeçada pelos babalorixás ou babalaôs. Foram tidos tantos pelos que eram declarada ou veladamente racistas, como Nina Rodrigues, Artur Ramos, Gilberto Freire, Edson Carneiro, de os mais evoluídos entre os povos africanos. Deles, dizia-se que eram altos, fortes, inteligentes e esteticamente bonitos e que a Bahia os haveria recrutados por razões "tanto estéticas, quanto amorosas". Os Bantos estabeleceram-se, preferencialmente, em Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Valiam-se da língua Quimbundo. Possuíam também cultos, celebrados ritualisticamente, obedecendo a uma hierarquia religiosa, deixando-nos instrumentos até hoje conhecidos na música popular brasileira e nas atividades folclóricas, como o tambor tipo barrica, o jongo, o berimbau e a cuíca. E na música, deixaram-nos um legado inseparável da cultura brasileira: o samba. Dos Sudaneses-Islamizados, aqueles que se retraíram, não admitindo a penetração em sua cultura de elementos da cultura colonizadora, o que nos restou até hoje é o famoso traje de baiana. Esse conglomerado étnico, cultural, religioso e linguístico, tanto na África quanto já aqui no Brasil, jamais poderia apresentar-se nas terras da América como um africanismo puro, mas como um movimento sincrético, já que o sincretismo surgira na própria África, em face da multiplicidade de manifestações religiosas, lá existentes, o que talvez explique o batismo a que eram submetidos os negros escravos, antes de viajarem para o Brasil. As chamadas "peças da África" recebiam do português escravizador as águas lustrais do batismo, como se isso significasse a outorga de uma alma humana àqueles a quem eles consideravam como coisas colocadas no jogo do comércio. Aqui no Brasil, mais imperiosa ainda a necessidade do sincretismo. A escravidão misturou os negros, sem preocupação com grupos, famílias ou convicções religiosas, obrigando-os a compartilhar os seus cultos trazidos da terra natal. Por parte do português, havia talvez como capa a encobrir-lhe a brutalidade da escravidão, uma demonstração para o público do seu propósito de converter aquelas almas pagãs, levando-as, compulsoriamente, à aceitação da fé católica. Por parte dos escravos, havia também a preocupação de facilitar aquela convivência forçada, porém definitiva, o que os levava a encurtar a distância entre a senzala e a casa grande, assimilando em seus cultos os santos reverenciados pelos seus senhores. Assim, Iansã e Oxalá, entre outros, encontraram sua correspondência com santos que formavam a constelação católica. Ainda o sincretismo seria uma realidade por força do contato dos negros com as celebrações místicas dos índios. Também o ideal do branqueamento, hipótese que alimentou os espíritos da inteligência brasileira, alarmada com o número extraordinário de negros no país, contribuiu para, ao seu modo, acomodar os diversos grupos, reconhecendo neles verdadeiras manifestações sincréticas e proclamar que, por conta da inferioridade intelectual de tais manifestações, pouco a pouco, elas seriam absorvidas pela religião dos brancos, a católica, que lhes era nitidamente superior. Esta, em verdade, foi a tendência manifestada pelo estudioso Artur Ramos. Antes dele, Nina Rodrigues, maranhense, desde a juventude radicado na Bahia, e o primeiro a escrever sobre os negros, manifestara sua preocupação com a contribuição negra na formação do homem brasileiro. Pretextando defender os negros das ameaças contidas no código penal de 1890, que considerava as manifestações originárias da África como prática de atos criminosos, postura que o código de 1830 não tivera, o que vem revelar que somente após a Lei Áurea é que o governo se tomou de preocupação para o que os negros pudessem fazer, ele lançou uma tese de falso paternalismo, condenando o diploma legal. Justificava a sua postura, dizendo que, sendo os negros inferiores, não poderiam ter responsabilidade penal, porque eram absolutamente ininputáveis. Para ele, pior que os negros somente os mulatos, estes sim, definitivamente degenerados, salvo raras exceções. Ele era uma dessas exceções. Ainda Nina Rodrigues, preocupado com o furor que a sua tese causara, tentou amenizá-la, surgindo assim a primeira grande divisão dos negros. Os Iorubanos, radicados na Bahia, que eram negros superiores e que, por isso, o seu culto merecia o status de religião e os negros Bantos, seguidos de todos os demais segmentos que teriam se mesclado com outras manifestações religiosas, como práticas inferiores e degradadas, puro fetichismo, que se constituía num perigo para a surgente sociedade brasileira. Sucedido por seu discípulo, Artur Ramos, a tese da divisão continuou, porém com outro enfoque, não era a etnia a causa da degradação, mas a diversidade cultural. Os negros Iorubanos, por serem superiores, teriam ultrapassado o período pré-lógico e deixado para trás a fase da magia e do fetichismo. Sua crença era uma verdadeira religião, que haveria, entretanto, de ser depurada no futuro, ao ser absorvida pela religião católica. Logo em seguida, o mesmo autor percebeu que havia várias culturas Iorubanas na Bahia e selecionou duas delas, a Nagô e a Gege. Para limitar o conceito de religião aos rituais praticados por um sincretismo, ou seja, uma junção das manifestações religiosas destes dois grupos. Os demais, ele chamava de sincretismo Banto, Malê, Católico, Espírita, Teosófico e acrescia mais outros dois grupos africanos. Aqui ele localizava a perversão de grupos que ainda estavam no pré-mágico e navegavam apenas nas águas do fetichismo. Enquanto isso, ocorria na Bahia, em Pernambuco, conduzidos por Ulisses Pernambucano de Melo, um grupo de psiquiatras trilhava o mesmo caminho, criando para "defender os negros" o serviço de higiene mental, ligado ao departamento de psiquiatria, com a incumbência de separar os negros que cultuavam a verdadeira tradição africana, portanto puros e praticantes de uma religião, a Nagô, daquele outros, que representavam a degeneração da raça e que viviam a prática do fetichismo, cujo único objetivo era a disseminação do mal. Desse modo, os negros teriam de oscilar entre a criminalidade que lhes era acenada já agora pela Consolidação Piragibe de 1932 e as grades do manicômio. Deixavam de ser criminosos para serem enquadrados como doentes mentais. Mais adiante, surgiu, na Bahia, Edson Carneiro, que, repudiando a teoria da superioridade racial, abraçava a tese de Artur Ramos, que justificava o atraso de alguns grupos como decorrente da diversidade cultural. Foi exatamente em Edson Carneiro que o Espiritismo foi responsabilizado, com muita ênfase, pela perversão das práticas afro-sincretizadas. Esse entendimento, todavia, não se sustenta em nenhuma razão lógica ou histórica, ou em qualquer fato que tenha sido objeto de pesquisa científica. Enquanto todas as manifestações afro, tanto aquelas consideradas como pura, porque fiéis à tradição africana, como aqueloutras rotuladas como degeneradas, porque distantes das origens da terra máter, sempre se apresentaram e continuam se apresentando em templos ou terreiros, obedientes aos mais variados rituais, estabelecendo uma hierarquia funcional, o que não se vê na Doutrina Espírita, que não possui igrejas, que não conhece ritual de qualquer espécie, que não se apresenta com liturgia ou hierarquia sacerdotal. Ela é ciência, filosofia e religião, que trata da natureza, origem e destino do espírito, bem como de suas relações como mundo corporal. Nega a existência de milagres e do sobrenatural e não crê nem pratica sortilégios e fetiches. Por outro lado, o Espiritismo só veio ao mundo como doutrina em 1857, e só no Brasil os negros africanos chegaram desde 1530. Embora distintos, Espiritismo e práticas espiritualistas afro-sincretizadas, há de se ter com elas o mais profundo respeito. Lá também se pode praticar a caridade e construir em cada ser o sentimento maior do amor. Devemos ser gratos ao africano, que foi capaz de conviver com seu escravizador sem guardar o ódio no coração, estabelecendo com ele relações amistosas, incutindo-lhe na alma a crença num ser superior, no mundo invisível, do qual este visível é mera cópia, na perenidade da vida e na comunicabilidade do espírito. Com ele, aprendemos a resignação e a convivência em regime fraterno. Explorado, soube compreender, perdoar e até amar o conquistador, ajudando-nos a que sejamos essa mistura de raças, marcada pela vocação para a fusão, para a mistura, que nos torna efetivamente diferentes, capacitando-nos a que sejamos o coração do mundo. Para eles a minha homenagem, em forma de verso: Eu vejo teu solo repleto de vida, |
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