O que é que você pensa?
Pensamos
da maneira que pensamos e escrevemos do jeito que escrevemos porque nossa
civilização, a ocidental, evoluiu nessa direção. Não se trata de um simples
condicionamento, mas de reconhecer que vivemos em sociedade e, nesse processo
interativo, a produção de um texto deve sempre levar em consideração o
conhecimento já existente. A nossa cultura é produzida e se transmite em grande
parte por meio das várias formas de redação, cujo exemplo mais típico é o
ensaio. Por isso, é um texto utilizado para difundir o conhecimento e para
avaliar a capacidade de compreensão de quem o redige. Grande parte dos trabalhos
escolares e das redações solicitadas nos vestibulares — chamados genericamente
de dissertações — é na verdade um pequeno ensaio. Outras formas de redação, como
o relatório, a carta comercial e a tese, também se organizam e têm uma linguagem
semelhante à do ensaio. Assim, podem ser consideradas como formas variantes
dele.
1. Como redigir
O que é necessário para escrever um bom texto, que tenha
qualidade e prenda a atenção do nosso leitor? O essencial já temos: nós
pensamos. Mas também é necessário que nosso pensamento se desenvolva
coerentemente, com clareza, para que possamos comunicar nossas idéias de forma
convincente para quem nos lê. Precisamos, portanto, ter algumas orientações
básicas de como organizar e estruturar nossas idéias.
2. Redigir é difícil
Muitas pessoas costumam dizer que têm idéias, mas não
conseguem passá-las para o papel. Uma das razões para isso é o fato de que o
pensamento humano não é e nunca será absolutamente exato. Até a expressão 2 + 2
= 4 é passível de discussão. Temos a capacidade de questionar e podemos
repensar, refazer, reestruturar e aperfeiçoar nossas idéias. Mas às vezes temos
dificuldades para expressá-las, porque:
| • |
Não amadurecemos nossas idéias
suficientemente. |
| • |
Não temos as informações e os dados
necessários para desenvolver nossas idéias. |
| • |
Não estamos explorando toda a nossa
capacidade de pensar. |
2a. A prática da redação
Pensar, como redigir, requer prática. Ninguém jamais saberá tudo de redação.
Você pode aprender muito com a leitura, ter informações novas, alimentar seus
pensamentos com novos dados. Mas não aprenderá a escrever lendo.
Para lembrar:
| Aprende-se a escrever
escrevendo. Nada substitui sua prática. Da mesma forma que nenhum livro ou
professor moverá os seus braços para que você aprenda a nadar ou segurar os
seus pincéis se desejar pintar. A prática é essencial, sem ela você não
consegue nada. |
Uma prática consciente e bem orientada pode ajudar
qualquer pessoa a melhorar seu texto, seu desempenho expressivo. Não é preciso
ter um dom especial para isso. Se você encontra dificuldade, é porque a tarefa é
complicada mesmo.
2b. A reescrita ajuda a redigir
Não espere fórmulas prontas e infalíveis para
melhorar a sua redação. Algumas vezes precisamos refazer um trabalho, porque não
ficamos satisfeitos com sua primeira ou segunda versão.
| Os exercícios de
reescrita exigem paciência e dedicação. Mas a insatisfação e a insegurança
com as primeiras versões de nossos textos podem ser o gérmen da autocrítica,
essencial para quem deseja melhorar seu texto. |
2c. Como se comporta o redator
O bom redator de ensaio deve ser necessariamente curioso, ávido de conhecimento,
atento e preocupado em compreender e em desvendar. Além disso, precisa ter o
espírito sempre aberto às novas informações.
3. O pensamento e a redação
Ninguém pode entrar na sua cabeça, penetrar em seu cérebro
e conhecer o modo como você pensa. Mas é possível avaliar a eficiência de seus
processos mentais, na medida em que você se expressa, redigindo. Nesse caso,
seja qual for a sua maneira de pensar, com certeza haverá estruturas comuns de
pensamento que servirão de base para que ocorra um entendimento objetivo entre
você e seu leitor.
4. Pensando o texto
Pensar significa ter idéias, refletir, raciocinar,
meditar, cogitar, lembrar-se, julgar, supor etc. Pensar é uma faculdade que nos
permite organizar mentalmente nossa interação com o mundo à nossa volta. Por
meio do pensamento, elaboramos todas as informações que recebemos e orientamos
as ações que interferem na realidade e organização de nossos escritos. O que
você leu até agora e continuará lendo é produto de um pensamento transformado em
texto.
| Cada um de nós
tem seu modo de pensar e, quando escreve, procura organizar as idéias de um
modo que facilite a compreensão do leitor. |
5. A arte do diálogo
Quando escrevemos, é importante pensar em um leitor com
quem vamos dialogar — mesmo que esse leitor não se manifeste explicitamente.
Ofélia perguntou devagar, com recato pelo que lhe acontecia:
— É um pinto?
Não olhei para ela.
— É um pinto, sim.
Da cozinha vinha o fraco piar. Ficamos em silêncio como se Jesus tivesse
nascido. Ofélia respirava, respirava.
— Um pintinho? certificou-se em dúvida.
— Um pintinho, sim, disse eu guiando-a com cuidado para a vida.
— Ah, um pintinho, disse meditando.
— Um pintinho, disse eu sem brutalizá-la.
Já há alguns minutos eu me achava diante de uma criança. Fizera-se a
metamorfose.
— Ele está na cozinha.
— Na cozinha? Repetiu fazendo-se de desentendida.
— Na cozinha, repeti pela primeira vez autoritária, sem acrescentar mais
nada.
— Ah, na cozinha, disse Ofélia muito fingida, e olhou para o teto.
(...).
Clarice Lispector, A
Legião Estrangeira |
|
O diálogo literário sempre prevê o
interlocutor |
Para lembrar:
| Pensar supõe
diálogo e ao escrever precisamos sempre ter presente que nossa meta são os
leitores ou um determinado leitor. |
 |
| O filósofo Platão
utilizou seu mestre Sócrates como personagem de seus Diálogos |
O diálogo com o nosso leitor deve ter o sentido de uma
conversa aprofundada e inteligente, principalmente quando estamos redigindo um
ensaio. A palavra "diálogo" origina-se do grego e é composta do prefixo dia
(que significa movimento através) e logos (palavra). Ou seja, para os
gregos, a arte do diálogo tinha o sentido de convencer através da palavra.
6. O diálogo entre os gregos
Na Grécia antiga, a arte do diálogo chamava-se "dialética" e teria surgido entre
500 e 400 a.C. Há uma polêmica em torno de quem seria o fundador dessa arte. Uma
parcela dos estudiosos credita o feito ao filósofo Zênon (490 a 430 a.C.).
Outros consideram Sócrates (469 a 399 a.C.) o pai da dialética. Na filosofia
moderna, o conceito de dialética é muito controvertido. Mas, deixando as
controvérsias de lado, ficamos com o significado original dos gregos.
— Então terá também a vida — continuou Sócrates — um contrário, como a
vigília tem por contrário o sono?
— Certamente — disse ele.
— Que contrário?
— A morte — respondeu.
— Então, estas duas coisas nascem uma da outra se são contrárias; e, como
são duas, há entre elas dois nascimentos?
— Sem dúvida.
— De um desses dois pares que acabo de mencionar, e das suas gerações, irei
falar eu agora — disse Sócrates. — Tu falarás do outro. Lembro, pois, ser um
o sono e o outro, a vigília e que do sono nasce a vigília, como da vigília o
sono, e que os seus nascimentos levam uma ao adormecimento e o outro ao
acordar. Achas que isto é suficientemente claro?
— Claríssimo.
— É agora a tua vez — prosseguiu Sócrates — de dizer o mesmo da vida e da
morte. Não admites que o contrário da vida seja a morte?
— Sim.
— E que nasçam uma da outra?
— Sim.
— Então, que é que nasce da vida?
— A morte — respondeu ele. (...)

Platão, Diálogos III
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7. O escritor e o leitor
Assim como em todo diálogo sempre há um interlocutor, o
texto precisa do leitor para cumprir sua finalidade. Todo texto conceitual,
especialmente o ensaio, busca responder a um possível questionamento do leitor.
É como se o escritor antecipasse as possíveis perguntas que o leitor poderia
fazer sobre o assunto que seu texto procura desenvolver.
Glossário
Gérmen: em sentido
figurado, significa princípio, origem, causa.
Interação: (inter + ação);
relação.
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