Como é organizado um texto bem redigido?
As partes que compõem o texto — a introdução, o desenvolvimento e a conclusão —
devem se organizar de maneira equilibrada. A introdução é o ingresso no assunto
e, nos ensaios bem redigidos, caracteriza-se como um argumento inicial. O
desenvolvimento é a parte maior do ensaio, responsável pela relação entre a
introdução e a conclusão. Esta, por sua vez, é o componente mais importante do
texto. É a linha de chegada. Os dados apresentados, as idéias e os argumentos
convergem para esse ponto em que se fecha a discussão ou a exposição.
1. Uma boa introdução
A introdução apresenta a idéia central do texto. Essa
apresentação deve ser direta. Em um bom texto, o autor entra no assunto sem
"rodeios", porque o ensaio é uma exposição objetiva que deve estimular o leitor
a pensar sobre o conteúdo desde a leitura do título. Assim, é preciso evitar os
"chavões", os lugares-comuns.
| A introdução que serve a
qualquer ensaio deve ser evitada, pois não serve para nenhum. Fuja de frases
como "Desde os primórdios da civilização que o homem..." ou "O homem é um
ser social". Frases que podem ser usadas para abrir diferentes temas são
péssimas. |
1a. O tamanho ideal
As introduções vagas, imprecisas, genéricas contrariam o caráter de tese que
toda introdução deve ter. Nos textos bem redigidos, a introdução raramente
excede a 1/5 do ensaio. Por ser uma colocação inicial, realmente não há por que
ser longa. Assim, em uma redação de 40 linhas, por exemplo, a introdução não
deve ir além das oito ou dez primeiras linhas. Com freqüência, introduções
maiores do que 1/5 são um primeiro indicador de que os textos são malfeitos. Se
isso acontece, é porque:
• O autor já está avançando no desenvolvimento.
• Há argumentos que não serão discutidos.
• Quem redige pode estar querendo "encher
lingüiça".
1b. Ensaios curtos
A proporção de 1/5 só não vale para textos muito curtos,
de 20 linhas ou menos. Nesses casos, a introdução pode exceder a esse tamanho,
confundindo-se com o desenvolvimento.
Para lembrar:
| Em uma redação de vestibular,
por exemplo, em que se pede ao aluno para escrever apenas 15 ou 20 linhas, o
melhor é considerar o próprio título como introdução e ir direto ao
desenvolvimento. |
Com essa estratégia, ganha-se espaço para os argumentos
mais consistentes e o primeiro parágrafo pode ter mais de três ou quatro linhas,
que correspondem a 1/5 do total de linhas solicitadas.
1c. Ensaios médios e longos
Nos ensaios longos, de várias páginas, a introdução pode ser um capítulo ou uma
parte precedida por subtítulo. Nesse caso, poderá ter vários parágrafos. Em
ensaios curtos, de 25 a 80 linhas, por exemplo, ela será o primeiro parágrafo.
A
alienação social se exprime numa 'teoria' do conhecimento espontânea,
formando o senso comum da sociedade. (...) |
|
Um exemplo desse senso
comum aparece no caso da 'explicação' e da pobreza, em que o pobre é
pobre por sua própria culpa (preguiça e ignorância) ou por vontade
divina ou por inferioridade natural. Esse senso comum social, na
verdade, é o resultado de uma elaboração intelectual sobre a realidade,
feita pelos pensadores ou intelectuais da sociedade — sacerdotes,
filósofos, cientistas, professores, escritores, jornalistas, artistas,
que descrevem e explicam o mundo a partir do ponto de vista da classe a
que pertencem e que é a classe dominante de sua sociedade. Essa
elaboração intelectual incorporada pelo senso comum social é a
ideologia. Por meio dela, o ponto de vista, as opiniões e as idéias de
uma das classes sociais — a dominante e dirigente — tornam-se o ponto de
vista e a opinião de todas as classes e de toda a sociedade.
A função principal da ideologia é ocultar e dissimular as divisões
sociais e políticas, dar-lhes a aparência de indivisão e de diferenças
naturais entre os seres humanos. Indivisão: apesar da divisão social das
classes, somos levados a crer que somos todos iguais porque participamos
da idéia de 'humanidade', ou da idéia de 'nação' e 'pátria', ou da idéia
de 'raça' etc. Diferenças naturais: somos levados a crer que as
desigualdades sociais, econômicas e políticas não são produzidas pela
divisão social das classes, mas por diferenças individuais dos talentos
e das capacidades, da inteligência, da força de vontade maior ou menor
etc.
|
|
A produção
ideológica da ilusão social tem como finalidade fazer com que todas as
classes sociais aceitem as condições em que vivem, julgando-as naturais,
normais, corretas, justas, sem pretender transformá-las ou conhecê-las
realmente, sem levar em conta que há uma contradição profunda entre as
condições reais em que vivemos e as idéias. (...)
 |
|
Marilena Chauí,
Convite à Filosofia |
2. Delimitação do tema
Se o tema do ensaio é muito amplo, podendo ser explorado
de vários ângulos, às vezes é necessário delimitá-lo, fixando-se em um desses
ângulos e aprofundando sua discussão.
Para lembrar:
Delimitar é reduzir a
abrangência de um conteúdo.
A delimitação é feita geralmente na introdução e pode ser explícita ou
implícita. |
2a. Delimitação explícita
É aquela em que se utilizam as primeiras pessoas, singular e plural, do verbo —
eu e nós. Desse modo, o autor faz-se presente no texto e anuncia claramente que
está delimitando. Observe o exemplo ao lado, em que o autor emprega a 1ª pessoa
do plural:
O que
pretendemos com este trabalho é tecer algumas considerações gerais sobre o
nível de formação, informação e interesses dos alunos que nos chegam para um
curso de Literatura. Acreditamos que as observações que realizaremos podem
ser aplicadas tanto aos alunos que ingressam no 2º grau, como àqueles que
iniciam o curso superior. 
Adilson Citelli, " O Ensino da Literatura no 2º Grau",
in Língua e Literatura: o Professor Pede a Palavra |
2b. Delimitação implícita
Nesse caso, o leitor deduz que o tema está sendo delimitado, pois o autor não
diz isso claramente. Ou seja, não há a presença do verbo nas primeiras pessoas.
Mas, mesmo assim, percebemos que a discussão está sendo delimitada. Observe o
exemplo abaixo:
Esta
pequena obra visa ao estudante de Letras das nossas universidades, sem
também perder de vista o secundarista e o vestibulando. É um resumo de
teorias sobre os pontos fundamentais do estudo de Literatura, em nível
bastante elementar, mas procurando ser informativo e, ao mesmo tempo,
tentando orientar o estudante no intrincado dos problemas, sem todavia
acumulá-lo com excessos doutrinários.
Afrânio Coutinho, Notas
de Teoria Literária |
2c. Quando usar uma ou outra delimitação
Essa decisão depende do autor, do objetivo de seu texto e de suas intenções com
o seu leitor. Ou seja, o autor do texto deve ter sensibilidade para definir qual
é o melhor caminho a seguir.
| Em algumas situações, porém,
a delimitação explícita pode ser arriscada ou um pouco pedante. Em um
vestibular, que é uma situação bastante impessoal, pode parecer pretensão
escrever o texto usando o verbo na primeira pessoa. |
Em outros casos, o autor do texto pode ter segurança
suficiente para utilizar a delimitação explícita, sem parecer presunçoso. O
importante é não esquecer que o bom senso deve prevalecer sempre.
3. O desenvolvimento
As idéias, os dados e os argumentos que sustentam e
explicam as posições do autor são apresentados nessa parte do texto.
Para lembrar:
O desenvolvimento orienta a
compreensão do leitor até a conclusão.
Faz a relação entre a introdução e a conclusão. |
Podemos
comparar o desenvolvimento a uma ponte. De um lado, está a introdução. Do outro,
a conclusão. Essa ponte é formada por idéias bem organizadas em uma seqüência
que permite a relação equilibrada entre os dois lados. O desenvolvimento depende
de outras partes. Isoladamente, a introdução e a conclusão podem fazer algum
sentido. O desenvolvimento não tem essa autonomia, porque ele tem a função de
relacionar trechos do texto.
3a. O ponto de vista do autor
É no desenvolvimento que o autor do texto revela toda a sua capacidade de
argumentar. É aí que ele defende seus pontos de vista e, de forma inteligente,
tem de dirigir a atenção do leitor para a conclusão. Nessa parte do texto, todas
as possíveis linhas de argumentação devem ser consideradas. É que a antítese, ou
o desenvolvimento, tem a função de fundamentar as conclusões.
3b. Organizar o desenvolvimento
Não dá para redigir um bom ensaio sem termos clareza de qual será a conclusão.
Sem essa clareza é como se fôssemos iniciar a construção de uma ponte sem saber
onde ela vai dar.
Para lembrar:
| É arriscado
começar a redigir um ensaio — ou a chamada "dissertação" — sem se ter a
noção da conclusão a que se quer chegar. O risco é maior para quem está
aprendendo a redigir. Por isso é tão importante planejar o texto. |
3c. Distribuindo as idéias
Se a introdução deve corresponder a aproximadamente 1/5 do texto e a conclusão
também, o desenvolvimento ocupará 3/5 dele, no mínimo. Em ensaios longos, o
desenvolvimento pode ter capítulos ou trechos destacados por subtítulos. Em
ensaios curtos, terá alguns parágrafos. Para o leitor, o ensaio deve parecer uma
redação inteligente e bem estruturada, que constrói uma argumentação sólida e
lhe permite conclusões enriquecedoras. Precisa ser saboroso e prender sua
atenção, de forma que só no final ele complete satisfatoriamente o sentido da
argumentação.
Para lembrar:
| Todo texto pode (e deve!) ser
surpreendente para o leitor, com suas conclusões muito bem fundamentadas.
Para o autor, não. Não pode haver surpresas. É importante estar previsto
antes da redação. Para isso, é preciso planejá-lo, principalmente prevendo a
conclusão. |
4. Evitar falhas
Muito cuidado com as falhas no desenvolvimento. Entre
elas, existem duas principais:
| • |
O desvio da argumentação — O autor toma um
argumento secundário, por exemplo, e se distancia da discussão inicial; ou
então, concentra-se em apenas um aspecto do tema e esquece a sua amplitude
(toma a parte pelo todo). |
| • |
A argumentação desconexa — Acontece quando o
autor tem muitas idéias ou informações sobre o tema e não consegue
encadeá-las. Ele também pode ter dificuldade para estruturar suas idéias e
definir uma linha lógica de raciocínio. |
4a. O plano
As falhas do desenvolvimento podem ser evitadas se antes da redação o autor
fizer um plano do que irá escrever.
Para lembrar:
| O plano é um roteiro em que
organizamos as idéias e a seqüência que iremos utilizar no texto. Ele deve
ser o mais enxuto possível. Nos ensaios curtos, o plano deve prever pelo
menos as partes do texto e os parágrafos. Nos ensaios longos, é bom incluir
os subtítulos. |
Retomando nossa imagem da ponte, o plano são os pilares
que sustentam essa construção, mostrando sua lógica de raciocínio e antecipando,
para quem escreve, o que depois aparecerá em uma seqüência clara e racional para
o leitor.
| O Plano da
Redação |
| • |
Ao planejar um texto que irá discutir o
uso de fotografias no ensino de História, o autor precisa ter clareza do
público leitor e do tamanho, ou do número de linhas, que deve ter o seu
texto. |
| • |
É necessário definir a maneira como
montará a introdução — que, além de direta e objetiva, precisa
apresentar o tema ao leitor e, mais do que isso, estimulá-lo a refletir
sobre o assunto em questão. É importante pensar também no tamanho da
introdução. |
| • |
Na seqüência, o roteiro define os
argumentos ou as idéias que serão debatidas no desenvolvimento do texto.
Pode ser uma idéia ou várias; o imprescindível é que ela faça a relação
entre a introdução e a conclusão. |
| • |
O passo seguinte é pensar na "amarração"
das idéias desenvolvidas e que, de forma sintética, levem a uma
conclusão de seus pontos de vista. |
|
5. A conclusão
Parte mais importante do texto, é o seu ponto de chegada.
Os dados utilizados, as idéias e os argumentos convergem para este ponto em que
a discussão ou a exposição se fecha. A conclusão tem o valor da síntese no
pensamento dialético. E, na sua estrutura normal, não deve deixar abertura para
continuidade da discussão. Em uma comparação, a conclusão é equivalente à
resposta em um problema de Matemática.
5a. Concluir sem repetir
Um texto bem concluído é aquele que evita repetir argumentos já utilizados.
| A repetição de argumentos e o
uso de fórmulas feitas empobrecem qualquer redação. Fuja de expressões como:
"Portanto, como já dissemos antes (...)" ou "Então, como já vimos (...)". |
Além disso, o caráter de fecho da conclusão deve ficar
evidente na clareza e força dos argumentos do autor. Portanto, é desnecessário e
pouco elegante escrever "Concluindo (...)" ou "Em conclusão (...)".
5b. O tamanho ideal
Proporcionalmente, o tamanho da conclusão é equivalente ao da introdução, ou
seja, 1/5. Essa é uma característica e uma qualidade de quase todos os textos
bem redigidos. Nas conclusões que ultrapassam essa proporção; ou seja, naquelas
que ficam muito longas, é possível que haja um dos seguintes erros:
| • |
O desenvolvimento não é suficientemente
explorado e invade a conclusão. |
| • |
O desenvolvimento não é suficiente para
fundamentar a conclusão e há necessidade de mais explicações. |
| • |
O autor está "enrolando", "enchendo
lingüiça", "floreando". |
| • |
O autor usa frases vazias, perfeitamente
dispensáveis. |
| • |
O autor não tem clareza de qual é a melhor
conclusão e se perde na argumentação final. |
| • |
Na falta de argumentos conclusivos de fato,
o autor fica girando em torno de idéias paralelas ou redundantes. |
5c. Quando a conclusão não conclui
A conclusão, é claro, deve concluir o texto. Por isso, não pode ser uma abertura
para novas discussões. Existem exceções. Acompanhe em seguida algumas delas:
| • |
O autor apresenta idéias polêmicas e deixa a
conclusão em aberto para não influenciar o posicionamento do leitor. |
| • |
O autor não fecha a discussão
propositalmente, estimulando o leitor a ler uma possível continuidade do
texto, como um outro capítulo. |
| • |
O autor não deseja mesmo concluir, mas
apenas apresentar dados e informações sobre o tema que está desenvolvendo. |
| • |
O autor quer que o próprio leitor tire suas
conclusões e enumera perguntas no final. |
Glossário
Chavão: fórmula muito
repetida de escrever ou falar; lugar-comum.
Intrincado: obscuro,
confuso, emaranhado, complicado.
Tema: é uma formulação que
circunscreve e delimita um conteúdo. É o assunto de que se fala ou de que se vai
falar.
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