Existem muitas opções de estrutura?
A
estrutura linear é, sem dúvida, a mais utilizada por ser a mais ensinada nas
escolas. Nela ficam bem caracterizadas as partes do ensaio, principalmente a
conclusão. Mas não é o único tipo de estrutura que podemos usar. Em determinados
casos, ela não é a mais adequada, podendo ser substituída por outras mais
apropriadas ao desenvolvimento de um tema — como a estrutura cíclica ou a
cíclico-linear. Além dessas estruturas básicas, existem outras, como a linear
paralela, a jornalística e a de colagem, que podem ser usadas em algumas
situações especiais. Essas são estruturas variantes das básicas e confirmam que
o ensaio não é uma forma tão rígida como parece à primeira vista.
1. A estrutura linear
Caracteriza-se por definir uma seqüência de raciocínio.
Nela, os argumentos vão progressivamente se somando em direção à conclusão.
Na estrutura linear as idéias
têm peso e função bem diferenciados.
Cada idéia se relaciona com a anterior e também com a posterior. |
As idéias, os dados, as informações ou as inferências
conduzem o leitor para a questão principal, que está sempre na conclusão.
1a. O pensamento do leitor é direcionado
No ensaio linear, o autor do texto vai induzindo o leitor a determinadas
conclusões. Por ter esse caráter indutivo, a estrutura linear é a mais utilizada
em textos didáticos. Quando o redator do texto usa essa estrutura, ele espera
que o leitor acompanhe seu raciocínio passo a passo, e só no final entenda todo
o seu significado ou onde se quer chegar.
1b. Como identificar o texto linear
Nesse tipo de texto, as idéias são identificadas com clareza. Podem ser
introdutórias, de desenvolvimento ou conclusivas. A conclusão é formada por uma
ou mais idéias resultantes de uma argumentação que veio sendo construída desde a
introdução.
O objetivo é que o interesse
do leitor cresça a cada passo.
Por essa razão, o trabalho nunca será satisfatório se a sua
conclusão for redundante ou repetitiva. |
 |
| No gráfico, a seqüência de
idéias está colocada em uma linha reta. Daí o nome "linear" |
Uma conclusão que repete idéias do desenvolvimento, por
exemplo, desestimula o leitor e contraria o princípio da estrutura linear, pois
não acrescenta nada de novo no final. Se imaginarmos a seqüência de idéias na
estrutura linear e a colocarmos em um esquema, poderemos representá-la como no
gráfico:
1c. Como um problema matemático
Podemos comparar o texto linear com um problema de Matemática. O enunciado do
problema seria a introdução; as operações e os cálculos, o desenvolvimento; e a
resposta ou o resultado, a conclusão.
Para lembrar:
| Na resolução do texto, a
idéia principal está sempre no final. Ao ler um texto linear, temos
exatamente essa expectativa. |
O leitor percebe que o principal está no final e vai
lendo com um interesse crescente, ou, ao menos, lê as informações e as idéias
novas que se sucedem até chegar ao ápice, que é a conclusão.
O desejo de acabar com a poluição esbarra em
interesses muito poderosos, não só de quem a gera, como os de quem se
utiliza direta ou indiretamente dela. Suponhamos que se decidisse acabar
com a poluição causada pelos motores movidos a derivados do petróleo.
Tal decisão implicaria o fechamento das indústrias automobilísticas, no
fim da prospecção, extração, refino, distribuição e venda do petróleo —
já que é impossível que esses motores não poluam —, sem contar o grande
número de atividades ligadas a essas indústrias básicas; as indústrias
de autopeças, por exemplo. Se pensamos nas outras aplicações de
derivados de petróleo — lembremos o plástico — vemos que é praticamente
impensável a decisão de inviabilizar seu uso, a não ser que pagássemos o
preço de desestruturar as sociedades como as conhecemos, acabando com o
lucro e também com os empregos que essas atividades geram. Procura-se
produzir motores menos poluentes e de menor consumo, desestimula-se o
uso do automóvel e de outros paliativos parecidos. O plástico, de
difícil ou quase impossível reciclagem pela natureza, continua sendo
produzido em larga escala e está presente em inumeráveis objetos de
consumo. Nenhum governo vai cometer a loucura de proibir sua fabricação
e seu consumo... Qual o lucro de se acabar com a poluição dos rios, por
exemplo? Quem vai investir os bilhões necessários para limpar o rio? Os
governos fazem o que podem, mas o cheiro nos mostra que podem pouco. É
mais fácil acusar a população de jogar detritos no rio e tapar o
nariz...
Por isso acabar com ela é tão difícil.
Somente em casos de danos muito escandalosos, para o homem ou para a
natureza, tomam-se providências. Uma política de fato eficiente para
terminar com a poluição vai demorar, com certeza.
|
|
|
| A redação de aluno acima
desenvolve o tema "Ninguém gosta da poluição. Por que não se acaba com ela?"
utilizando a estrutura linear |
1d. A estrutura mais usada
A estrutura linear é a mais usada porque é a que reflete o próprio processo de
acúmulo do conhecimento. Ou o modo como costumamos apreender as coisas.
| Essa forma de raciocínio está
muito presente em nossa cabeça, principalmente se freqüentamos a escola.
|
A maior parte das disciplinas escolares, sobretudo na
área de Ciências, distribui os conteúdos linearmente a cada aula com o propósito
de facilitar a aprendizagem. Nesse caso, também se pretende que o aluno tenha a
sensação de começo, meio e fim.
2. Estrutura cíclica
O que caracteriza essa estrutura é a coincidência entre a
introdução e a conclusão. O texto cíclico começa pela conclusão e as mesmas
idéias são sintetizadas ao final. Embora seja menos comum, na prática podemos
encontrar muitos textos que se organizam ciclicamente. Por isso, não deixe de
utilizá-la quando achar que é a melhor opção para o seu texto.
Para lembrar:
| É preciso saber com certeza
quando é melhor utilizar a estrutura cíclica. Para isso, é bom ter muito
claro desde o início da redação como deve ser a conclusão, ou qual a síntese
que ela deve fazer. Com a conclusão definida, a questão passa a ser a de
adequar a estrutura ao objetivo do texto e também ao leitor a que ele se
destina. |
A mesma redação de aluno
(mostrada abaixo) é trabalhada na estrutura cíclica.
Abre com a síntese e termina repetindo idéias semelhantes no último
parágrafo ou conclusão |
Acabar
com a poluição é difícil, pois existem muitos interesses em torno
dessa questão. Somente em casos de danos muito escandalosos, para o
homem ou para a natureza, tomam-se providências. Uma política de
fato eficiente para terminar com a poluição vai demorar, com
certeza." |
Suponhamos que se decidisse acabar com a
poluição causada pelos motores movidos a derivados do petróleo.
Implicaria o fechamento das indústrias automobilísticas, no fim da
prospecção, extração, refino, distribuição e venda do petróleo — já
que é impossível que esses motores não poluam —, sem contar o grande
número de atividades ligadas a essas indústrias básicas. Se pensamos
em outros derivados de petróleo — o plástico — vemos que é
praticamente impensável inviabilizar o seu uso, a não ser que
pagássemos o preço de desestruturar as sociedades como as
conhecemos, acabando com o lucro e também com os empregos que essas
atividades geram.Procura-se produzir motores menos poluentes e de
menor consumo, desestimula-se o uso do automóvel e de outros
paliativos parecidos.
O plástico, de difícil reciclagem pela natureza, continua sendo
produzido em larga escala. Nenhum governo vai cometer a loucura de
proibir sua fabricação e seu consumo...
Qual o lucro de se acabar com a poluição dos rios, por exemplo? Os
governos fazem o que podem, mas o cheiro nos mostra que podem pouco.
É mais fácil acusar a população de jogar detritos no rio e tapar o
nariz... |
Custa muito caro acabar
com a poluição, o que que acaba limitando a ação governamental a
situações emergenciais, quando os danos são realmente escandalosos.
 |
|
|
2a. Um
caminho que volta
Podemos decidir que, em determinados casos, a melhor maneira de fazer com que o
leitor se interesse pelo texto seja apresentar, logo no início, a conclusão. É a
forma de provocarmos curiosidade. É como se antes de resolvermos um problema
matemático, apresentássemos o resultado final.
| O texto cíclico começa pela
conclusão. Essa é a característica básica dessa estrutura. Mas, para ser
utilizada de forma satisfatória, é essencial que se tenha bom domínio do
conteúdo e da estrutura de suas idéias. Só assim o redator poderá trabalhar
livremente com seus argumentos. |
2b. Pensamentos linear e cíclico
Redigir cíclica ou linearmente pode ser uma questão de simples aptidão pessoal.
É como se houvesse "pessoas cíclicas" e "pessoas lineares".
| Isso significa que alguns
privilegiam o raciocínio indutivo, outros preferem o raciocínio dedutivo, e
outros ainda usam com desenvoltura os dois raciocínios. |
As "pessoas cíclicas", em geral, são mais intuitivas e
conseguem antecipar com facilidade as conclusões. Mas essa é uma característica
que depende de cada um. Há pessoas, por exemplo, que conseguem escrever tanto o
texto indutivo quanto o dedutivo com a mesma facilidade.
Não há nada de errado em termos maior ou menor facilidade
para uma determinada estrutura ou tipo de texto. Erro é considerar que nossa
mente só pode funcionar de um único jeito. É possível que muita gente nunca
tenha experimentado a estrutura cíclica simplesmente pelo fato de ela ser pouco
conhecida e não ter sido ensinada na escola até agora. Mas, para desenvolver
essa estrutura instigante, a única coisa de que precisamos é a prática.
2c. Resultado de impacto
Em geral, utilizamos a estrutura cíclica em textos
polêmicos ou quando desejamos surpreender. O impacto acontece já no início do
texto, ao serem dadas ao leitor as idéias mais importantes sobre o assunto
discutido. Por essa razão, tal estrutura é muito usada em discursos políticos e
nas falas dos advogados. Imagine, por exemplo, o impacto que um advogado
causaria em uma sessão de júri caso chegasse para defender um acusado de
assassinato e, em sua primeira intervenção, dissesse: "O réu é inocente!" Essa
surpresa é o que se pretende com o uso da estrutura cíclica.
2d. Quando é melhor usar a estrutura cíclica
 |
| Na estrutura cíclica, a introdução e a
conclusão coincidem |
É bom usá-la se desejamos garantir o interesse do
leitor desde o início do texto. É, em certa medida, o caso dos relatórios ou dos
textos jornalísticos. Esse tipo de estrutura garante que a introdução seja uma
entrada no assunto, sem rodeios. Para isso, não há maneira mais eficiente do que
começar pela conclusão.
O gráfico ao lado ilustra a estrutura cíclica:
2e. Como um teorema
Podemos comparar a estrutura cíclica do texto com um teorema de Matemática, que
tem estrutura igual. Nesse caso, a introdução equivale à hipótese e a conclusão
equivale à tese. Já o desenvolvimento é a demonstração.
3. A estrutura cíclico-linear
As várias estruturas do texto resultam da busca pela
objetividade e, ao mesmo tempo, do esforço para interessar o leitor. A estrutura
cíclico-linear é um bom exemplo desse esforço. Ela também tem a preocupação de
manter o leitor o tempo todo atento ao processo de raciocínio que o autor do
texto desenvolve ao redigir.
3a. A idéia que se repete
A estrutura cíclico-linear usa o processo progressivo, ou indutivo, de
argumentação da estrutura linear, e utiliza a estratégia de repetição, da
estrutura cíclica. O leitor desse tipo de texto é levado a usar os dois
processos de raciocínio — indutivo e dedutivo — ao mesmo tempo.
Para lembrar:
| Na estrutura
cíclico-linear, a repetição se dá não apenas no começo e no fim do ensaio,
mas também durante o desenvolvimento, como se fosse um refrão. E o que se
repete não é necessariamente uma idéia essencial para a argumentação.
|
Pelo contrário, normalmente esse refrão é uma idéia
secundária, que às vezes é até dispensável. Essa idéia, geralmente sintetizada
em uma frase, representa uma intervenção ritmada do autor no conteúdo do texto.
O
desejo de acabar com a poluição esbarra em interesses muito poderosos,
não só de quem a gera, como os de quem se utiliza direta ou
indiretamente dela.
A poluição dá lucro? Suponhamos que se decidisse acabar com a poluição
causada pelos motores movidos a derivados do petróleo. Tal decisão
implicaria o fechamento das indústrias automobilísticas, no fim da
prospecção, extração, refino, distribuição e venda do petróleo — já que
é impossível que esses motores não poluam —, sem contar o grande número
de atividades ligadas a essas indústrias básicas; as indústrias de
autopeças, por exemplo.
A poluição dá lucro? Se pensamos nas outras aplicações de derivados de
petróleo — lembremos o plástico — vemos que é praticamente impensável a
decisão de inviabilizar seu uso, a não ser que pagássemos o preço de
desestruturar as sociedades como as conhecemos, acabando com o lucro e
também com os empregos que essas atividades geram. O que é possível ser
feito até que se faz. Procura-se produzir motores menos poluentes e de
menor consumo, desestimula-se o uso do automóvel e de outros paliativos
parecidos.
A poluição dá lucro? O plástico, de difícil ou quase impossível
reciclagem pela natureza, continua sendo produzido em larga escala e
está presente em inumeráveis objetos de consumo. Nenhum governo vai
cometer a loucura de proibir sua fabricação e seu consumo...
Do mesmo modo, com quase todas as formas de poluição, vamos encontrar
razões muito poderosas que inviabilizam seu término a curto prazo.
A poluição dá lucro? Qual o lucro de se acabar com a poluição dos rios,
por exemplo? Quem vai investir os bilhões necessários para limpar o rio?
Os governos fazem o que podem, mas o cheiro nos mostra que podem pouco.
É mais fácil acusar a população de jogar detritos no rio e tapar o
nariz...
A poluição dá lucro? Sim. Por isso acabar com ela é tão difícil. Somente
em casos de danos muito escandalosos, para o homem ou para a natureza,
tomam-se providências. Uma política de fato eficiente para terminar com
a poluição vai demorar, com certeza.
|
|
Nesse caso, a redação sobre
poluição utiliza a
estrutura cíclico-linear, repetindo a intervalos um refrão ou uma idéia |
3b. Como um refrão
O que caracteriza esse tipo de texto e o diferencia da redação linear é a
reiteração de uma frase no seu decorrer. Essa frase é conotativa, porque vai se
enriquecendo dos significados das idéias que a antecedem. Sua função é
semelhante à do refrão. E seu efeito é retórico, mexendo com o emocional ou com
a sensibilidade do leitor.
| É comum
observarmos essa estrutura em discursos de políticos, advogados e
sindicalistas, que geralmente usam essa frase repetida com sentido irônico.
A frase repetida serve também para marcar uma idéia, fazendo com que o
leitor ou o ouvinte não a esqueçam mais. |
A função do refrão no texto é a mesma do refrão de uma
música. As pessoas nem sempre lembram da canção inteira, mas normalmente se
recordam do refrão.
3c. Como posicionar a frase que se repete
É possível variar bastante a sua colocação no texto. Pode aparecer em parágrafos
curtos posicionados entre parágrafos longos a intervalos regulares. Também pode
ser uma frase que ocupa sempre o final dos parágrafos. Ou ainda aparecer
indistintamente durante o texto. Qualquer que seja o modo, seu objetivo é o de
funcionar como reforço da argumentação e ser, de fato, um refrão interessante.
Mais linear do que cíclica
Se retiramos essa frase repetida ou mudamos a sua redação, o texto volta a
tornar-se simplesmente linear. Assim, comprova-se o seu efeito retórico, que é
um recurso para reforçar idéias.
3d. O desenho da estrutura
A estrutura cíclico-linear também pode ser representada por um gráfico. Mas,
para isso, é preciso prever o posicionamento da frase repetida. Imagine que o
quadro seguinte representa um texto que tem a frase repetida em intervalos mais
ou menos regulares:
|
A Criatividade das Estruturas |
| Estrutura
Linear e Cíclica |
São as estruturas básicas do texto e as mais
utilizadas.
Têm servido durante séculos como base de todo tipo de texto
conceitual, desde simples informes até complexos tratados.
|
| Outros tipos de
Estruturas |
Linear paralela, jornalística, semicíclica,
não-linear, falsa cíclica e de painel ou de colagem.
São estruturas variantes, que devem ser usadas em situações muito
específicas. |
|
|
4. A estrutura linear paralela
Caracteriza-se por desenvolver, paralelamente, duas ou
mais linhas de raciocínio. É a estrutura ideal quando se quer confrontar idéias
contraditórias ou desenvolver mais de um aspecto de um mesmo assunto.
| É usada, por exemplo, quando
um autor quer apresentar duas visões diferentes de um mesmo conteúdo e
confrontá-las, para tirar suas conclusões sobre qual delas é a mais correta.
|
Se esse autor for colocando, alternadamente, idéias de
uma e de outra visão até chegar à conclusão, temos uma estrutura linear simples.
Mas se ele coloca as posições separadamente, temos a estrutura linear paralela.
• Em princípio, o autor expõe e desenvolve uma primeira
idéia ou conceito.
• Em seguida, apresenta e desenvolve a segunda idéia ou
conceito.
• Por fim, chega à conclusão.
Nesse caso, a estrutura linear paralela apresenta duas
introduções, dois desenvolvimentos e uma conclusão. Alguns textos estruturados
dessa maneira podem explorar mais de duas linhas de raciocínio. Outros têm mais
de uma conclusão. Existem outros ainda que deixam a conclusão para o leitor.
Mas, em qualquer caso, são exemplos variantes da estrutura linear e podem ser
reduzidos a estruturas lineares simples.
5. A estrutura jornalística
A estrutura jornalística é essencialmente diferente das
demais. O texto típico de jornal não tem conclusão, é simplesmente informativo.
Essa é uma forma de garantir a imparcialidade da notícia — embora isso seja
quase impossível. Nesse texto, as conclusões sobre o fato relatado devem ficar a
cargo do leitor. O que caracteriza o texto jornalístico informativo é o lead,
que responde às seis perguntas básicas — o quê? quem? quando? onde? como? e por
quê?
A
Associação dos Pioneiros da Televisão prepara o lançamento de uma edição
de luxo de dois CDs com 28 músicas que marcaram a programação da TV
entre 1950 e 1965. O objetivo é resgatar parte da história musical do
início da TV no Brasil e arrecadar fundos para a construção do primeiro
museu da televisão brasileira.
|
|
Exemplo de texto
noticioso direto, simples e objetivo, extraído do jornal O Estado de
S.Paulo |
Para lembrar:
| Apesar de ter uma função
adequada aos objetivos de jornais e revistas, essa estrutura também pode ser
usada em relatórios ou em textos que não são propriamente opinativos. Isso
porque é uma maneira eficaz de apresentar, logo de início, o essencial do
conteúdo. |
6. Semicíclica
Há ensaios que apresentam características das estruturas
cíclica e linear, mas não são cíclico-lineares, com seu típico refrão. São em
parte cíclicos e em parte lineares. Ou seja, têm uma estrutura semicíclica. Toda
estrutura tem por função favorecer uma melhor exposição do conteúdo. No caso da
semicíclica também é assim.
| Essa estrutura é adequada
para teses polêmicas ou para conteúdos que, por sua complexidade, necessitem
de trechos explicativos. |
Na estrutura semicíclica, o autor lança sua tese,
discute e conclui ciclicamente. Mas essa tese é, na verdade, somente o ponto de
partida para o que o autor realmente deseja, que é desenvolver a discussão. A
introdução torna-se cíclica, mas na seqüência o texto passa a ser linear e segue
assim até o final.
Para lembrar:
| A estrutura semicíclica não é
adequada para ensaios muito curtos. |
7. A estrutura não-linear
A estrutura não-linear apresenta uma linha de raciocínio
"quebrada". O texto que a utiliza tem uma seqüência a princípio sem lógica. À
primeira vista, parece que o autor salta de um trecho para outro, dando a
impressão de falta de unidade. Mas isso só aparentemente. A unidade se dá em um
plano mais profundo e exige uma participação ativa do leitor na recomposição da
linha.
| Essa estrutura revela uma
postura crítica em relação à linearidade. O autor recusa-se a dar idéias
"mastigadas" ao leitor, exigindo dele uma participação crítica. |
Esse é um recurso tipicamente literário, característico
de muitos romancistas modernos, especialmente dos latino-americanos, como Juan
Rulfo, Julio Cortázar e Osman Lins. Alguns ensaístas empregaram esse recurso em
seus textos, muitas vezes usando imagens conotativas, mas sem que o texto
deixasse de ser primordialmente conceitual.
Como
se o tempo tivesse retrocedido.
Tornei a ver a estrela unida à lua. As nuvens se desfazendo.
Os bandos de estorninhos. E em seguida a tarde ainda cheia de luz.
As paredes refletindo o sol da tarde. Meus passos ecoando nas pedras. O
arrieiro que me dizia: 'Procure a Dona Eduviges, se ainda estiver viva!'
Depois um quarto às escuras. Uma mulher roncando ao meu lado. Notei que
a sua respiração era irregular, como se estivesse entre sonhos, até
mesmo como se não dormisse e apenas imitasse os ruídos que o sono
produz. A cama era de bambu, coberta de sacos que cheiravam a mijo, como
se nunca tivessem sido arejados ao sol; e o travesseiro era uma xerga
que envolvia paina ou uma lã tão dura ou tão suada que teria enrijecido
como um lenho.
Juan Rulfo, Pedro
Páramo — O Planalto em Chamas |
|
A estrutura
não-linear, como a do texto ao lado, exige atenção redobrada e uma
participação crítica do leitor |
8. A falsa cíclica
Caracteriza-se por ter uma introdução que, aparentemente,
anuncia uma estrutura cíclica. Mas o texto é linear. A introdução é usada pelo
autor para apresentar as idéias principais do texto em uma espécie de resumo.
| Nessa estrutura, o autor
esclarece de imediato as suas intenções com o texto, muitas vezes usando
frases como "Minha intenção é (...)"; "Meus objetivos são (...)"; "Os
propósitos deste texto são (...)" etc. |
As idéias principais também podem ser mostradas de
forma interrogativa, logo na abertura do texto. Outro recurso do autor é
apresentar algumas respostas no final da introdução, que serão discutidas mais
adiante.
A
introdução da falsa cíclica
É uma espécie de prefácio que se agrega ao texto para indicar ao leitor os
objetivos da discussão. O texto que vem após essa introdução tem características
introdutórias lineares. Por isso, se excluirmos a introdução ou o prefácio da
falsa cíclica, ela se transforma em uma estrutura linear, sem prejuízos
fundamentais às idéias do autor.
9. Estrutura de painel ou de colagem
Sua característica é uma colagem de textos, sendo que cada
um possui certa autonomia. Essa estrutura é parecida com a não-linear. A
diferença é que, neste caso, a falta de unidade é muito evidente, sem "segundas
intenções".
| O autor oferece diversos
textos ao leitor, em uma seqüência aparentemente arbitrária, esperando que
ele os relacione. |
Às vezes, é uma montagem de trechos de textos de
diversos autores, unidos por esse novo autor, que pretende provocar discussão
sobre determinado conteúdo. É um recurso usado pelos professores para provocar
discussões em grupo. Mesmo quando se caracteriza como um conjunto de textos
alheios, há uma certa "autoria", levando-se em conta a pesquisa, as escolhas e a
montagem. O uso dessa estrutura só se justifica em situações muito especiais.
Para lembrar:
| Há muitas estruturas de texto
e as apresentadas aqui não esgotam todas as possibilidades. Ao escrever,
fique à vontade para reconhecer as estruturas e batizá-las. Ou mesmo para
criar seu texto dentro de uma estrutura nova. Só tenha cuidado para não
forçar situações pretensamente criativas. Esse erro é fatal e o resultado
pode cair no ridículo ou comprometer a eficiência do que se está escrevendo.
Na dúvida, tenha sempre como parâmetro o bom senso e, acima de tudo, o seu
leitor. |
"Dois anos
depois de instalada a ditadura Vargas começa a 2ª Guerra Mundial.
Apesar das afinidades do Estado Novo com o fascismo, o Brasil se
mantém neutro nos três primeiros anos da Guerra. Vargas aproveita-se
das vantagens oferecidas pelas potências antagônicas e, sem romper
relações diplomáticas com os países do Eixo — Alemanha, Itália e
Japão —, consegue, por exemplo, que os Estados Unidos financiem a
siderúrgica de Volta Redonda."
Trecho extraído do item Política Externa no
Estado Novo, in Almanaque Abril,
"Brasil/História
da República"
|
"A
industrialização era a todo momento associada pelo Governo e grupos
nacionalistas do Exército à Segurança Nacional e ao desenvolvimento
nacionalista, o que era uma forma de unir ideologicamente diversas
classes e camadas da sociedade brasileira (...)."
Trecho extraído de "O Estado Novo — A Ditadura
de Vargas — 1937/1945", in História da
Sociedade Brasileira, de Francisco
Alencar e outros
|
"A eclosão
da Segunda Guerra Mundial, em 1939, acabou interferindo na política
interna do país. Negociando o apoio brasileiro aos Aliados, o
governo getulista conseguiu financiamento para a construção da
siderúrgica de Volta Redonda, inaugurada em 1940."
Trecho extraído de "Crise e Retorno de
Vargas", in História — Cotidiano e Mentalidades, de Ricardo
Dreguer e Eliete Roledo |
|
|
A partir de uma colagem
de três diferentes extratos de textos de vários autores, o estudante (ou o
novo autor) produz um quarto texto de estrutura linear, com o objetivo de
provocar discussão sobre determinado conteúdo
 |
A
eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, acabou interferindo na
política interna do país. |
Apesar das afinidades do Estado Novo com o fascismo, o Brasil se
mantém neutro nos três primeiros anos da Guerra. Vargas aproveita-se
das vantagens oferecidas pelas potências antagônicas e, sem romper
relações diplomáticas
com os países do Eixo — Alemanha, Itália e Japão — consegue, por
exemplo, que os Estados Unidos financiem a siderúrgica de Volta
Redonda, |
|
inaugurada em 1940. |
|
O que Vargas queria a qualquer preço era a industrialização, |
a todo momento associada pelo Governo e grupos
nacionalistas do Exército à Segurança Nacional e ao desenvolvimento
nacionalista, o que era uma forma de unir ideologicamente diversas
classes e camadas da sociedade brasileira (...). |
|
|
Glossário
Conotativo: relativo a
conotação; sentido que se acrescenta à acepção usual de uma palavra ou
expressão.
Hipótese: teoria provável,
mas não demonstrada; a proposição de um teorema.
Inferência: operação lógica
pela qual se tira uma conclusão de uma ou várias proposições admitidas como
verdadeiras.
Paralelo: semelhante,
análogo, correlato.
Refrão: na música, frase
melódica que se repete a intervalos regulares; na poesia, verso ou estrofe que
se repete, normalmente, a intervalos regulares; estribilho.
Reiteração: repetição,
insistência, renovação.
Retórico (relativo a retórica):
arte de falar ou escrever bem, com o propósito de
convencer, persuadir.
Teorema: proposição
científica que pode ser demonstrada.
Tese: o primeiro momento do
processo dialético. Proposição formulada para ser defendida.
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