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Das Leis Morais

– Parte terceira –

– Capítulo I –

Da lei divina ou natural

1 Caracteres da lei natural. 2 Origem e conhecimento da lei natural. 3 O bem e o mal. 4 Divisão da lei natural.

A lei natural é lei de Deus. É a única verdadeira para a felicidade do homem. Indica-lhe o que deve fazer ou deixar de fazer e ele só é infeliz quando dela se afasta. Todas as leis da Natureza são leis divinas, pois que Deus é o autor de tudo. Para que o homem possa aprofundar-se nas leis de Deus é preciso muitas existências.

Entre as leis divinas, umas regulam o movimento e as relações da matéria bruta: as leis físicas, cujo estudo pertence ao domínio da Ciência. As outras dizem respeito especialmente ao homem considerado em si mesmo e nas suas relações com Deus e com seus semelhantes. Contêm as regras da vida do corpo, bem como as da vida da alma: são as leis morais.

Todos podem conhecer a lei de Deus, mas nem todos a compreendem. Os homens de bem e os que se decidem a investigá-la são os que melhor a compreendem. Todos, entretanto, a compreenderão um dia, porquanto forçoso é que o progresso se efetue. A alma compreende a lei de Deus de acordo com o grau de perfeição que tenha atingido e dela guarda a intuição quando unida ao corpo. Essa lei está escrita na consciência do homem. Como ele a esquece e despreza, Deus a lembra através de seus missionários, que são Espíritos superiores que se encarnam na Terra, com a missão de fazer progredir a humanidade.

O caráter do verdadeiro profeta é ser um homem de bem, inspirado por Deus. Podemos reconhecê-lo pelas suas palavras e pelos atos. Impossível é que Deus se sirva da boca de um mentiroso para ensinar a verdade. Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da lei do Senhor, porque, sendo ele o mais puro de quantos têm aparecido na Terra, o Espírito divino o animava. Jesus pregava amiúde, na sua linguagem, alegorias e parábolas, porque falava de conformidade com os tempos e os lugares. Faz-se mister, agora, que a verdade se torne inteligível para todo mundo, daí porque vieram os Espíritos trazer o ensino claro e sem equívocos, para que ninguém possa pretextar ignorância e para que todos o possam julgar e apreciar com a razão. Importa que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é como a luz: o homem precisa habituar-se a ela, pouco a pouco; do contrário, fica deslumbrado.

A moral é a regra do bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. O bem é tudo o que é conforme à lei de Deus; o mal, tudo o que lhe é contrário. Deus deu inteligência ao homem para distinguir por si mesmo o que é bem do que é mal.

Os Espíritos foram criados simples e ignorantes. Deus deixa que o homem escolha o caminho. Tanto pior para ele, se toma o caminho mau: mais longa será sua peregrinação. É preciso que o Espírito ganhe experiência; é preciso, portanto, que conheça o bem e o mal. Eis porque se une ao corpo.

A lei de Deus é a mesma para todos; porém, o mal depende, principalmente, da vontade que se tenha de o praticar. Tanto mais culpado é o homem, quanto melhor sabe o que faz. Não basta que o homem deixe de praticar o mal; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem. Não há quem não possa fazer o bem. Somente o egoísta nunca encontra ensejo de o praticar. Para certos homens, o meio onde se acham colocados representa a causa primária de muitos vícios e crimes, mas, ainda aí, há uma prova que o Espírito escolheu, quando em liberdade, levado pelo desejo de expor-se à tentação para ter o mérito da resistência. O mérito do bem está na dificuldade em praticá-lo. Nenhum merecimento há em fazê-lo sem esforço e quando nada custe. Em melhor conta tem Deus o pobre que divide com outro o seu único pedaço de pão, do que o rico que apenas dá do que lhe sobra, disse-o Jesus, a propósito do óbulo da viúva.

A lei de Deus se acha contida toda no preceito do amor ao próximo, ensinado por Deus. Esse preceito encerra todos os deveres dos homens uns para com os outros. Demais, a lei natural abrange todas as circunstâncias da vida e esse preceito compreende só uma parte da lei. Aos homens são necessárias regras precisas; os preceitos gerais e muito vagos deixam grande número de portas abertas a interpretações.

A divisão da lei natural em dez partes, compreendendo as leis de adoração, trabalho, reprodução, conservação, destruição, sociedade, progresso, igualdade, liberdade e, por fim, a de justiça, amor e caridade, é de natureza a abranger todas as circunstâncias da vida, o que é essencial. Entretanto, a última lei é a mais importante, por ser a que faculta ao homem adiantar-se mais na vida espiritual, visto que resume todas as outras.

– Capítulo II –

Da lei de adoração

1 Objetivo da adoração. 2 Adoração exterior. 3 Vida contemplativa. 4 A prece. 5 Politeísmo. 6 Sacrifícios.

A adoração consiste na elevação do pensamento a Deus. É um sentimento inato no homem, como o da existência de Deus. A consciência da sua fraqueza leva o homem a curvar-se diante daquele que o pode proteger. Nunca houve povos destituídos de todo sentimento de adoração. Todos compreendem que acima de tudo há um ente supremo.

A adoração verdadeira não precisa de manifestações exteriores, pois ela parte do coração. A adoração exterior, se não constituir num vão simulacro, tem seu valor relativo. Deus prefere os que o adoram do fundo do coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal, aos que julgam honrá-lo com cerimônias que os não tornam melhores para com os seus semelhantes. Todos os homens são irmãos e filhos de Deus. Ele atrai a si todos os que lhe obedecem às leis, qualquer que seja a forma sob que se exprimam. É hipócrita aquele cuja piedade se cifra nos atos exteriores. Mau exemplo dá todo aquele cuja adoração é afetada e contradiz seu procedimento. A adoração em comum dá mais força aos homens para atrair a si os bons Espíritos. Entretanto, não devemos crer que menos valiosa seja a adoração particular, pois que cada um pode adorar a Deus pensando nele.

Perante Deus não tem mérito a vida contemplativa, porquanto, se é certo que não fazem o mal também o é que não fazem o bem e são inúteis. Demais, não fazer o bem já é um mal. Quem passa todo o tempo na meditação e na contemplação nada faz de meritório aos olhos de Deus, porque vive uma vida toda pessoal e inútil à humanidade e Deus lhe pedirá contas do bem que não houver feito.

A prece é sempre agradável a Deus, quando ditada pelo coração, pois, para ele, a intenção é tudo. Assim, preferível lhe é a prece do íntimo à prece lida. Orar a Deus é pensar nele; é aproximar-se dele; é pôr-se em comunhão com ele. A três coisas podemos propor-nos por meio da prece: louvar, pedir, agradecer. A prece torna melhor o homem, porquanto aquele que ora com fervor e confiança se faz mais forte contra as tentações do mal e Deus lhe envia bons Espíritos para assisti-lo. O essencial não é orar muito, mas orar bem. Aquele que pede perdão de suas faltas só obtém-no mudando de procedimento. As boas ações são a melhor prece, por isso que os atos valem mais que as palavras.

O pensamento e a vontade representam em nós um poder de ação que alcança muito além dos limites da nossa esfera corporal. A prece que façamos por outrem é um ato dessa vontade. Se for ardente e sincera, pode chamar, em auxílio daquele por quem oramos, os bons Espíritos, que lhe virão sugerir bons pensamentos e dar força de que necessitem seu corpo e sua alma.

As nossas provas estão nas mãos de Deus e algumas há que têm que ser suportadas até o fim; mas, sempre Deus leva em conta a resignação. A prece traz para junto de nós os bons Espíritos e, dando-nos estes a força de suportá-las, corajosamente, menos rudes elas nos parecem.

Os desígnios de Deus não podem ser mudados, mas a alma por quem se ora experimenta alívio, porque recebe assim um testemunho do interesse que inspira aquele que por ela pede e também porque o desgraçado sente sempre um refrigério, quando encontra almas caridosas que se compadecem de suas dores. Amai-vos uns aos outros, disse o Cristo. Esta recomendação contém a de empregar o homem todos os meios possíveis para testemunhar aos outros homens afeição, sem haver entrado em minúcias quanto à maneira de atingir ele esse fim. Pode-se também orar aos bons Espíritos, como sendo os mensageiros de Deus e os executores de sua vontade.

Uma das crenças mais antigas e espalhadas pelo mundo, foi o politeísmo. A concepção de um Deus único não poderia existir no homem, senão como resultado do desenvolvimento de suas idéias. Incapaz, pela sua ignorância, de conceber um ser imaterial, sem forma determinada, atuando sobre a matéria, conferiu-lhe o homem atributos da natureza corpórea, isto é, uma forma e um aspecto e, desde então, tudo o que parecia ultrapassar os limites da inteligência comum era, para ele, uma divindade. Daí crer em tantas potências distintas quantos os efeitos que observava. Em todos os tempos, porém, houve homens instruídos que compreenderam ser impossível a existência desses poderes múltiplos a governarem o mundo, sem uma direção superior, e que, em conseqüência, se elevaram à concepção de um Deus único.

Remonta à mais alta antigüidade o uso dos sacrifícios humanos, e isso se explica porque o homem não compreendia Deus como sendo a fonte da bondade. Nos povos primitivos, a matéria sobrepuja o Espírito; eles se entregam aos instintos do animal selvagem. Em segundo lugar, é natural que os homens primitivos acreditassem ter uma criatura animada muito mais valor, aos olhos de Deus, do que um corpo material. Foi isto que os levou a imolarem, primeiro, animais e, mais tarde, homens. Não foi de um sentimento de crueldade que se originaram os sacrifícios humanos e sim de uma idéia errônea quanto a maneira de agradar a Deus. Com o correr dos tempos, os homens entraram a abusar dessas práticas, imolando seus inimigos comuns, até mesmo seus inimigos particulares. As Guerras Santas, por exemplo, são feitas por homens impelidos pelos maus Espíritos que contravêm à vontade de Deus. Todas as religiões, ou, antes, todos os povos adoram um mesmo Deus, não se justificando uma guerra sob o fundamento de ser a religião destes diferente da daqueles. Deus abençoa sempre os que fazem o bem, e o melhor meio de honrá-lo consiste em minorar os sofrimentos dos pobres e dos aflitos. O homem que se atém às exterioridades, e não ao coração, é um Espírito de vistas acanhadas.

– Capítulo III –

Da lei do trabalho

1 Necessidade do trabalho. 2 Limite do trabalho. Repouso.

O trabalho é lei da natureza, por isso que constitui uma necessidade, e a civilização obriga o homem a trabalhar mais, porque lhe aumenta as necessidades e os gozos. O Espírito trabalha, assim como o corpo. Toda ocupação útil é trabalho.

O trabalho se impõe ao homem por ser uma conseqüência da sua natureza corpórea. É expiação e, ao mesmo tempo, meio de aperfeiçoamento da sua inteligência. Em mundos mais adiantados também existe o trabalho, porém a sua natureza está em relação com a natureza das necessidades. Quanto menos materiais são estas, menos material é o trabalho. Mesmo neste mundo, o homem que possua bens suficientes para lhe assegurarem a existência, não está isento do trabalho. Deve ser útil aos semelhantes conforme os meios de que disponha. Os filhos devem trabalhar para seus pais, do mesmo modo que os pais têm de trabalhar para seus filhos, pois os membros de uma família devem ajudar-se mutuamente.

O repouso é uma lei da Natureza, pois serve para a reparação das forças do corpo e também é necessário para dar um pouco mais de liberdade à inteligência, a fim de que se eleve acima da matéria. O limite do trabalho é o das forças e a esse respeito Deus deixa inteiramente livre o homem, porém, todo aquele que tem o poder de mandar é responsável pelo excesso de trabalho que imponha a seus inferiores, porquanto, assim fazendo, transgride a lei de Deus. O homem tem direito de repousar na velhice. Não tendo este família, a sociedade deve fazer as vezes desta. É a lei da caridade.

– Capítulo IV –

Da lei de reprodução

1 População do globo. 2 Sucessão e aperfeiçoamento das raças. 3 Obstáculos à reprodução. 4 Casamento e celibato. 5 Poligamia.

É lei da Natureza a reprodução dos serves vivos, sem o que o mundo corporal pereceria. Mesmo com a progressão crescente que vemos, a população não chegará a ser excessiva, pois Deus a isso provê e mantém sempre o equilíbrio. Ele coisa alguma inútil faz. O homem, que apenas vê um canto do quadro da Natureza, não pode julgar da harmonia do conjunto.

Há raças humanas que decrescem, mas outras lhes terão tomado o lugar, como outras um dia tomarão o lugar das atuais. Os homens atuais não formam uma criação nova, pois são os mesmos Espíritos que voltaram, para se aperfeiçoar em novos corpos, mas que ainda estão longe da perfeição. Assim, a atual raça humana, que, pelo seu crescimento, tende a invadir a Terra e a substituir as raças que se extinguem, terá sua fase de crescimento e de desaparição. Substituí-la-ão outras raças mais aperfeiçoadas, que descenderão da atual, como os homens civilizados de hoje descendem dos seres brutos e selvagens dos tempos primitivos. A origem das raças se perde na noite dos tempos. As raças animais e vegetais podem ser aperfeiçoadas pela Ciência. Sendo a perfeição a meta para que tende a Natureza, favorecer essa perfeição é corresponder às vistas de Deus.

Tudo o que embaraça a Natureza em sua marcha é contrario à lei geral. Deus concedeu ao homem, sobre todos os seres vivos, um poder de que ele deve usar, sem abusar. Pode, pois, regular a reprodução, de acordo com as necessidades. Não deve opor-se-lhe sem necessidade. A ação inteligente do homem é um contrapeso que Deus dispôs para restabelecer o equilíbrio entre as forças da Natureza e é ainda isso o que o distingue dos animais, porque ele obra com conhecimento de causa. Mas, os mesmos animais também concorrem para a existência desse equilíbrio, porquanto o instinto de destruição que lhes foi dado faz com que, provendo à própria conservação, obstem ao desenvolvimento excessivo, quiçá perigoso, das espécies animais e vegetais de que se alimentam. Quanto, porém, aos usos cujo efeito consiste em obstar à reprodução, para satisfação da sensualidade, trata-se da predominância do corpo sobre a alma, o que demonstra quanto o homem é material.

O casamento representa uma medida para a marcha e progresso da humanidade. Sua abolição seria uma regressão à vida dos animais. A indissolubilidade absoluta do casamento é uma lei humana. Mas os homens podem modificar suas leis; só as da Natureza são imutáveis. O celibato voluntário, entretanto, representa egoísmo e desagrada a Deus e engana o mundo. Não se deve confundir o celibato voluntário com aquele que é feito, como sacrifício, a serviço da humanidade, porque todo sacrifício pessoal é meritório, quando feito para o bem. Quanto maior o sacrifício, tanto maior o mérito.

A poligamia é lei humana cuja abolição marcou um progresso social. O casamento, segundo as vistas de Deus, tem que se fundar na afeição dos seres que se unem. Na poligamia não há afeição real: há apenas sensualidade.

– Capítulo V –

Lei de conservação

1 Instinto de conservação. 2 Meios de conservação. 3 Gozo dos bens terrenos. 4 Necessário e supérfluo. 5 Privações voluntárias. Mortificações.

Todos os seres vivos possuem o instinto de conservação, seja qual for o grau de sua inteligência. Nuns, é puramente maquinal, racionado em outros. Todos os seres têm que concorrer para o cumprimento dos desígnios da Providência, daí porque Deus lhes outorgou o instinto de conservação. Acresce que a vida é necessária ao aperfeiçoamento dos seres. Eles o sentem instintivamente, sem disso se aperceberem.

Tendo dado ao homem a necessidade de viver, Deus lhe facultou, em todos os tempos, os meios de o conseguir. Essa a razão porque faz que a Terra produza de modo a proporcionar o necessário aos que a habitam, visto que só o necessário é útil. A Terra produziria sempre o necessário, se com o necessário soubesse o homem contentar-se. Se o que ela produz não lhe basta a todas as necessidades, é que ele emprega no supérfluo o que poderia ser aplicado no necessário. O solo é a fonte primacial donde dimanam todos os outros recursos, pois que, em definitivo, estes recursos são simples transformações dos produtos do solo. Se a uns faltam os meios de subsistência, ainda quando os cerca a abundância, deve-se atribuir isso ao egoísmo dos homens, que nem sempre fazem o que lhes cumpre. Depois, e as mais das vezes, devem-no a si mesmos. Buscai e achareis, estas palavras não querem dizer que, para achar o que deseje, basta que o homem olhe para a Terra, mas que lhe é preciso procurá-lo, não com indolência, e sim com ardor e perseverança, sem desanimar ante os obstáculos, que muito amiúde são simples meios de que se utiliza a Providência para lhe experimentar a constância, a paciência e a firmeza.

Nos mundos de mais apurada organização, os seres vivos também têm a necessidade de alimentar-se, porém seus alimentos estão em relação com a sua natureza. Tais alimentos não seriam bastante substanciosos para os nossos estômagos grosseiros; assim como os deles não poderiam digerir os nossos alimentos.

O uso dos bens terrenos é um direito de todos os homens. Deus não imporia um dever sem dar ao homem o meio de cumpri-lo. Pôs atrativos no gozo dos bens materiais, objetivando, assim, desenvolver-lhe a razão, que deve preservá-lo dos excessos.

O homem que procura nos excessos de todo gênero o requinte do gozo, coloca-se abaixo do bruto, pois que este sabe deter-se, quando satisfeita a sua necessidade.

Aquele que é ponderado conhece o limite do necessário por intuição. Muitos só chegam a conhecê-lo por experiência e à sua própria custa. Por meio da organização que lhe deu, a Natureza traçou ao homem o limite das necessidades; porém, os vícios lhe alteraram a constituição e lhe criaram necessidades que não são reais. Os que açambarcam os bens da Terra para se locupletarem com o supérfluo, em prejuízo daqueles a quem falta o necessário, olvidam a lei de Deus e terão de responder pelas privações que houverem causado aos outros.

A lei da conservação obriga o homem a prover as necessidades do corpo, porque, sem força e saúde, impossível é o trabalho. É natural que o homem procure o bem-estar. Deus só proíbe o abuso, por ser contrário à conservação.

Há privações voluntárias que são meritórias, como a dos gozos inúteis, porque desprende da matéria o homem e lhe eleva a alma. Meritório é resistir à tentação que arrasta ao excesso ou ao gozo das coisas inúteis; é o homem tirar do que lhe é necessário para dar aos que carecem do bastante. A vida de mortificações ascéticas, se somente serve para quem a pratica e o impede de fazer o bem, é egoísmo, seja qual for o pretexto com que entendem de colori-la. Privar-se a si mesmo e trabalhar para os outros, tal a verdadeira mortificação, segundo a caridade cristã. Não é racional a abstenção de certos alimentos, pois, permitido é ao homem alimentar-se de tudo o que não lhe prejudique a saúde. Alguns legisladores, porém, com um fim útil, entenderam de interdizer o uso de certos alimentos e, para maior autoridade imprimirem às suas leis, apresentaram-nas como emanadas de Deus. A alimentação animal, com relação ao homem, não é contrária à lei da Natureza, pois, dada a sua constituição física, a carne alimenta a carne. A lei de conservação lhe prescreve, como um dever, que mantenha suas forças e saúde, para cumprir a lei do trabalho. Ele, pois, tem que se alimentar conforme o reclame sua organização.

Os sofrimentos naturais são os únicos que elevam o homem, porque vêm de Deus. Os sofrimentos voluntários de nada servem, quando não concorrem para o bem de outrem. Não se adiantam no caminho do progresso os que abreviam a vida, mediante rigores sobre-humanos, como o fazem os bonzos, os faquires e alguns fanáticos de muitas seitas. Sofrer alguém, voluntariamente, apenas por seu próprio bem, é egoísmo; sofrer pelos outros é caridade: tais os preceitos.

– Capítulo VI –

Da lei de destruição

1 Destruição necessária e destruição abusiva. 2 Flagelos destruidores. 3 Guerras. 4 Assassínio. 5 Crueldade. 6 Duelo. 7 Pena de morte.

Preciso é que tudo se destrua para renascer e se regenerar. O que chamamos de destruição não passa de uma transformação, que tem por fim a renovação e melhoria dos seres vivos. Para se alimentarem, os seres vivos reciprocamente se destróem, destruição esta que obedece a um duplo fim: manutenção do equilíbrio na reprodução, que poderia tornar-se excessiva, e utilização dos despojos do invólucro exterior que sofre a destruição e que não é parte essencial do ser pensante. A Natureza cerca os seres de meios de preservação e de conservação a fim de que a destruição não se dê antes do tempo. Toda destruição antecipada obsta ao desenvolvimento do princípio inteligente. Por isso foi que Deus fez que cada ser experimentasse a necessidade de viver e de se reproduzir. Ao lado dos meios de conservação, a Natureza colocou os agentes de destruição para manter o equilíbrio e servir de contrapeso. A necessidade de destruição não é idêntica em todos os mundos: guarda proporções com o estado mais ou menos material desses mundos. Cessa, quando o físico e o moral se acham mais depurados. Entre os homens da Terra, a necessidade de destruição se enfraquece à medida que o Espírito sobrepuja a matéria. Assim é que, como se observa, o horror à destruição cresce com o seu desenvolvimento intelectual e moral. Em seu estado atual, o direito de destruição se acha regulado pela necessidade que tem o homem de prover ao seu sustento e à sua segurança. O abuso jamais constitui direito. Toda destruição que excede os limites da necessidade é uma violação da lei de Deus. Os animais só destróem para satisfação de suas necessidades, enquanto que o homem, dotado de livre-arbítrio, o faz sem necessidade. Terá que prestar contas do abuso da liberdade que lhe foi concedida, pois isso significa que cede aos maus instintos.

Deus fere a humanidade por meio de flagelos destruidores para fazê-la progredir mais depressa; emprega também outros meios, mas o homem não aproveita desses meios, daí ser preciso castigar o seu orgulho e fazê-lo sentir a fraqueza. A vida terrena pouco representa com relação à vida espiritual; por isso, pouca importância têm para o Espírito os flagelos destruidores, sob o ponto de vista do sofrimento. Por ocasião das grandes calamidades que dizimam os homens, o espetáculo é semelhante ao de um exército, cujos soldados, durante a guerra, ficassem com os seus uniformes estragados, rotos, ou perdidos.

O general se preocupa mais com seus soldados do que com os uniformes deles.

O que impele o homem à guerra é a predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e trasbordamento das paixões. À medida que ele progride, menos freqüente se torna a guerra. Quando os homens compreenderem a justiça e praticarem a lei de Deus, a guerra desaparecerá da face da Terra. Grande culpado é aquele que suscita a guerra, e muitas existências lhe serão necessárias para expiar todos os assassínios de que haja sido causa, porquanto responderá por todos os homens cuja morte tenha causado para satisfazer à sua ambição.

Aos olhos de Deus, é grande crime o assassínio, pois que aquele que tira a vida ao seu semelhante corta o fio de uma existência de expiação ou de missão. Só a necessidade de legítima defesa o pode escusar da responsabilidade. Mas, desde que o agredido possa preservar a sua vida, sem atentar contra a de seu agressor, deve fazê-lo. Também será escusado no caso de constrangimento pela força, como na guerra, mas será culpado das crueldades que cometa, sendo-lhe também levado em conta o sentimento de humanidade com que proceda.

A crueldade é o instinto de destruição no que tem de pior, porquanto, se, algumas vezes, a destruição constitui uma necessidade, com a crueldade jamais se dá o mesmo. Ela resulta sempre de uma natureza má, a crueldade forma o caráter predominante dos povos primitivos, porquanto nestes a matéria prepondera sobre o Espírito. A crueldade se encontra também no seio da mais adiantada civilização, do mesmo modo que numa árvore carregada de bons frutos se encontram verdadeiros abortos, pois Espíritos de ordem inferior podem encarnar entre homens adiantados, na esperança de também se adiantarem. Mas, desde que a prova é por demais pesada, predomina a natureza primitiva. Entretanto, como a humanidade progride, um dia esses homens desaparecerão, como o mau grão se separa do bom, quando este é joeirado. Mas desaparecerão para renascer sob outros invólucros.

O duelo não pode ser considerado como legítima defesa; é um assassínio e um costume absurdo, digno dos bárbaros, e aquele que o praticar, conhecendo a sua própria fraqueza, será considerado um suicida. O que se chama ponto de honra, em matéria de duelo não passa de orgulho e vaidade.

Um dia, quando os homens estiverem mais esclarecidos, desaparecerá da face da Terra a pena de morte. Há outros meios de se preservar do perigo, que não matando. Demais, é preciso abrir e não fechar ao criminoso a porta do arrependimento. Jesus disse: "Quem matar com a espada, pela espada perecerá". Com efeito, a pena de talião é a justiça de Deus. É ele quem a aplica. Todos nós sofremos essa pena a cada instante, pois que somos punidos naquilo em que houvermos pecado, nesta existência ou em outra. Aquele que foi a causa do sofrimento para seus semelhantes virá achar-se numa condição em que sofrerá o que tenha feito sofrer. Este o sentido das palavras de Jesus. A pena de morte é um crime, quando aplicada em nome de Deus, e os que a impõem se sobrecarregam de outros tantos assassínios.

– Capítulo VII –

Da lei de sociedade

1 Necessidade da vida social. 2 Vida de insulamento. Voto de silêncio. 3 Laços de família.

Deus fez o homem para viver em sociedade. O isolamento absoluto é contrário à lei da Natureza, pois que, por instinto, os homens buscam a sociedade e todos devem concorrer para o progresso, auxiliando-se mutuamente. O homem tem que progredir. Insulado, não lhe é possível. Por não dispor de todas as faculdades. No insulamento, ele se embrutece e estiola.

Isolamento absoluto é uma satisfação egoísta. Não pode agradar a Deus uma vida pela qual o homem se condena a não ser útil a ninguém. Fugir ao pernicioso contato do mundo é duplo egoísmo; esse retraimento não dá mérito nenhum, pois fazer maior soma de bem do que de mal constitui a melhor expiação. Evitando um mal, aquele que por tal motivo se insula cai noutro, pois esquece a lei de amor e caridade. Entretanto, os que fogem do mundo para se votarem ao mister de socorrer os desgraçados, se elevam. Têm o duplo mérito de se colocarem acima dos gozos materiais e de fazerem o bem, obedecendo à lei do trabalho.

Entre os animais, os pais e os filhos deixam de reconhecer-se, desde que estes não mais precisam de cuidados, porquanto vivem vida material e não vida moral. A ternura da mãe pelos filhos tem por princípio o instinto de conservação dos seres que ela deu à luz. Logo que esses seres podem cuidar de si mesmos, está ela com a tarefa concluída. No homem há alguma coisa a mais, além das necessidades físicas: há a necessidade de progredir. Os laços sociais são necessários ao progresso e os de família mais apertados tornam os primeiros. Eis porque os segundos constituem uma lei da Natureza. Quis Deus que, por essa forma, os homens aprendessem a amar-se como irmãos.

– Capítulo VIII –

Da lei do progresso

1Estado de natureza. 2 Marcha do progresso. 3 Povos degenerados. 4 Civilização. 5 Progresso da legislação humana.
6 Influência do Espiritismo no progresso.

O estado de natureza é o estado primitivo. A civilização é incompatível com o estado de natureza, ao passo que a lei natural contribui para o progresso da Humanidade. O homem não pode retrogradar para o estado de natureza, pois ele tem que progredir incessantemente. Desde que progride, é porque Deus assim o quer. Pensar que possa retrogradar à sua primitiva condição, fora negar a lei do progresso.

O Homem se desenvolve por si mesmo, naturalmente. Mas, nem todos progridem simultaneamente e do mesmo modo. Dá-se então que os mais adiantados auxiliam o progresso dos outros, por meio de contato social. O progresso moral decorre do intelectual, mas nem sempre o segue imediatamente. O progresso intelectual faz compreensível o bem e o mal, e o homem, assim, pode escolher. Os povos, porém, como os indivíduos, só passo a passo o atingem. Enquanto não se lhes haja desenvolvido o senso moral, pode mesmo acontecer que se sirvam da inteligência para a prática do mal. A moral e a inteligência são duas forças que só com o tempo chegam a equilibrar-se.

O homem não tem o poder de paralisar a marcha do progresso, mas tem, às vezes, o de embaraçá-la. Os que assim procedem, serão levados de roldão pela torrente que procuram deter. Há o progresso regular e lento, que resulta da força das coisas. Quando, porém, um povo não progride tão depressa quanto devera, Deus o sujeita, de tempos a tempos, a um abalo físico ou moral que o transforma. O maior obstáculo do progresso moral é o orgulho e o egoísmo, porquanto o intelectual se efetua sempre.

Mostra-nos a História que muitos povos, depois de abalos que os revolveram profundamente, recaíram na barbaria. Pois bem, os Espíritos que, encarnados, constituem o povo degenerado não são os que o constituíam ao tempo de seu esplendor. Os de então, tendo-se adiantado, passaram para habitações mais perfeitas e progrediram, enquanto os outros, menos adiantados, tomaram o lugar que ficara vago e que também, a seu turno, terão um dia de deixar. As raças rebeldes vão se aniquilando corporalmente, todos os dias.

Os povos, que apenas vivem a vida do corpo, nascem, crescem e morrem, porque a força de um povo se exaure, como a de um homem. Mas, aqueles, cujas leis se harmonizam com as leis eternas do Criador, viverão e servirão de farol aos outros povos.

A civilização é um progresso incompleto, porque o homem não passa subitamente da infância à madureza. Quando a moral estiver desenvolvida quanto à inteligência, a civilização alcançará condição para fazer com que desapareçam os males que haja produzido.

A civilização, como todas as coisas, apresenta gradações diversas. Uma civilização incompleta é um estado transitório, que gera males especiais, desconhecidos do homem no estado primitivo. Nem por isso, entretanto, constitui menos um progresso natural, necessário, que traz consigo o remédio para o mal que causa. À medida que a civilização se aperfeiçoa, faz cessar alguns dos males que gerou, males que desaparecerão todos com o progresso moral.

Se todos compreendessem as leis naturais, não seriam necessárias as leis especiais. Uma sociedade depravada certamente precisa de leis severas. Infelizmente, essas leis mais se destinam a punir o mal depois de feito, do que a lhe secar a fonte. Só a educação poderá reformar os homens que, então, não mais precisarão de leis tão rigorosas.

O Espiritismo tornar-se-á crença geral e marcará nova era na história da humanidade, porque está na natureza e chegou o tempo em que ocupará lugar entre os conhecimentos humanos. Terá, no entanto, que sustentar grandes lutas, mais contra o interesse, do que contra a convicção, porquanto não há como dissimular a existência de pessoas interessadas em combatê-lo, umas por amor-próprio, outras por causas inteiramente materiais. Porém, como virão a ficar insulados, seus contraditores se sentirão forçados a pensar como os demais, sob pena de se tornarem ridículos. O Espiritismo contribui para o progresso destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade. Deixando a vida futura de estar velada pela dúvida, o homem perceberá melhor que, por meio do presente, lhe é dado preparar o futuro. Abolindo os prejuízos de seita, de casta, e de cor, ensina aos homens a grande solidariedade que os há de unir como irmãos.

Os Espíritos não ensinaram em todos os tempos o que ensinam hoje, porquanto, cada coisa vem a seu tempo. Eles ensinaram muitas coisas que os homens não compreenderam ou adulteraram, mas que podem compreender agora. Com os seus ensinos, embora incompletos, preparam o terreno para receber a semente que vai frutificar.

– Capítulo IX –

Da lei de igualdade

1 Igualdade natural. 2 Desigualdade das aptidões.3 Desigualdades sociais. 4 Desigualdade das riquezas. 5 As provas de riqueza e de miséria. 6 Igualdade dos direitos do homem e da mulher. 7 Igualdade perante o túmulo.

1 Igualdade natural

Todos os homens são iguais perante Deus e estão submetidos às mesmas leis da Natureza. Deus a nenhum homem concedeu superioridade natural, nem pelo nascimento, nem pela morte: todos, aos seus olhos, são iguais.

2 Desigualdade das aptidões

Deus criou iguais todos os Espíritos, mas cada um destes viveu mais ou menos tempo, e, conseguintemente, tem feito maior ou menor soma de aquisições. A diferença entre eles está na diversidade dos graus de experiência alcançada e da vontade com que obram, vontade que é o livre-arbítrio. Daí aperfeiçoarem-se uns mais rapidamente do que outros, o que lhes dá aptidões diversas. Assim é que cada qual tem seu papel útil a desempenhar. Demais, sendo solidários entre si todos os mundos, necessário se torna que os habitantes dos mundos superiores, que, na sua maioria, foram criados antes do nosso, venham habitá-lo, para nos dar o exemplo. Passando de um mundo superior a outro inferior, conserva o Espírito, integralmente, as faculdades adquiridas, porém, poderá escolher, no estado de Espírito livre, um invólucro mais grosseiro, ou posição mais precária do que os que já teve, porém tudo isso para lhe servir de ensinamento e ajudá-lo a progredir.

3 Desigualdades sociais

A desigualdade social não é lei da Natureza. É obra do homem, e não de Deus. Um dia desaparecerá quando o egoísmo e o orgulho deixarem de predominar. Restará apenas a desigualdade do merecimento. Dia virá em que os membros da grande família dos filhos de Deus deixarão de considerar-se como de sangue mais ou menos puro. Os que abusaram da superioridade de suas posições sociais, para, em proveito próprio, oprimir os fracos serão, a seu turno, oprimidos: renascerão numa existência em que terão de sofrer o que tiverem feito sofrer aos outros.

4 Desigualdade das riquezas

A desigualdade das riquezas origina-se, quase sempre, da velhacaria e do roubo. Mesmo a riqueza herdada, muitas vezes se originou de uma espoliação ou de uma injustiça. É fora de dúvida que os que herdam uma riqueza mal adquirida não são responsáveis pelo mal que outros hajam feito, sobretudo se eles o ignoram, como é possível que aconteça, mas sabemos que, muitas vezes, a riqueza vem às mãos de um homem para lhe proporcionar ensejo de reparar uma injustiça. Se a fizer em nome daquele que cometeu a injustiça, a ambos será a reparação levada em conta, porquanto, não raro, é este último quem a provoca. A igualdade das riquezas não pode existir, pois a isso se opõe a diversidade das faculdades e dos caracteres. Aqueles que julgam ser esse o remédio aos males da sociedade, não compreendem que a igualdade com que sonham seria a curto prazo desfeita pela força das coisas. Com o bem-estar não se dá a mesma coisa, mas é relativo e todos poderiam dele gozar, se se entendesse convenientemente, porque o verdadeiro bem-estar consiste em cada um empregar o seu tempo como lhe apraza e não na execução de trabalhos pelos quais nenhum gosto sente. Como cada um tem aptidões diferentes, nenhum trabalho útil ficaria por fazer. Em tudo existe o equilíbrio; o homem é quem o perturba.

5 As provas da riqueza e da miséria

Deus concede a uns as riquezas e o poder, e a outros, a miséria, para experimentá-los de modo diferente. Além disso, como sabemos, essas provas foram escolhidas pelos próprios Espíritos, que nelas, entretanto, sucumbem com freqüência. As misérias provocam queixas contra a Providência e a riqueza incita a todos os excessos. Com a riqueza, as necessidades do homem aumentam e ele nunca julga possuir o bastante para si unicamente.

6 Igualdade dos direitos do homem e da mulher

Deus outorgou, tanto ao homem como à mulher, a inteligência do bem e do mal e a faculdade de progredir. A inferioridade da mulher em certos países provém do predomínio injusto e cruel que sobre ela assumiu o homem. A mulher é mais fraca, fisicamente, e por isso os seus trabalhos são mais leves. Ao homem, por ser mais forte, cabem-lhe os trabalhos mais rudes, mas ambos devem ajudar-se mutuamente a suportar as provas de uma vida cheia de amargor.

Por outro lado, as funções a que a mulher é destinada pela Natureza, têm maior importância que as do homem, pois é ela quem lhe dá as primeiras noções da vida. A lei humana, para ser eqüitativa, deve consagrar a igualdade dos direitos do homem e da mulher. Todo privilégio a uma ou a outro concedido é contrário à justiça. A emancipação da mulher acompanha o progresso da civilização.

7 Igualdade perante o túmulo

O desejo que o homem sente de perpetuar sua memória por meio de monumentos fúnebres é o último ato de orgulho dos parentes, desejosos de se glorificarem a si mesmos. Entretanto, não é reprovável, de modo absoluto, a pompa dos funerais, quando se tenha em vista honrar a memória de um homem de bem, pois isso é justo e de bom exemplo.

– Capítulo X –

Da lei de liberdade

1 Liberdade natural. 2 Escravidão. 3 Liberdade de pensar. 4 Liberdade de consciência. 5 Livre-arbítrio. 6 Fatalidade. 7 Conhecimento do futuro. 8 Resumo teórico do móvel das ações humanas.

1 Liberdade natural

Não há no mundo posições em que o homem possa jactar-se de gozar de liberdade absoluta, porquanto todos precisam uns dos outros, assim os pequenos como os grandes. Só na posição do eremita do deserto é que o homem poderia gozar de absoluta liberdade, há entre eles direitos recíprocos que lhes cumprem respeitar.

2 Escravidão

A escravidão é contrária à lei de Deus, porque é um abuso da força. Desaparece com o progresso, como gradativamente desaparecerão todos os abusos. A desigualdade natural das aptidões coloca certas raças humanas sob a dependência das raças mais inteligentes, para que estas se elevem, não para embrutecê-las ainda mais pela escravização.

3 Liberdade de pensar

No pensamento goza o homem de ilimitada liberdade, pois que não há como pôr-lhe peias. Pode-se deter o vôo, porém, não aniquilá-lo, mas, perante Deus é responsável pelo seu pensamento.

4 Liberdade de consciência

A consciência é um pensamento íntimo, que pertence ao homem, como todos os outros pensamentos. A liberdade de consciência é um dos caracteres da verdadeira civilização e do progresso. Com referência à crença, toda ela é respeitável, quando sincera e conducente à prática do bem. Condenáveis são as crenças que conduzem ao mal. Aquele que escandalize com a sua crença um outro que não pensa assim, está faltando com a caridade e atentando contra a liberdade de pensamento. Devemos, entretanto, trazer ao caminho da verdade os que se transviam, obedecendo a falsos princípios, mas servindo-nos da brandura e da persuasão e não da força, o que seria pior do que a crença daquele a quem desejaríamos convencer. As doutrinas que são expressão única da verdade, são aquelas que mais homens de bem e menos hipócritas fizerem, isto é, pela prática da lei do amor na sua maior pureza e na sua mais ampla aplicação.

5 Livre-arbítrio

O homem tem o livre-arbítrio de seus atos, pois que tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar. Sem o livre-arbítrio o homem seria máquina. Já não é senhor do seu pensamento aquele cuja inteligência se ache turbada por uma causa qualquer e, desde então, já não tem liberdade. Essa aberração constitui, muitas vezes, uma punição para o Espírito que, porventura, tenha sido, noutra existência, fútil e orgulhoso, ou tenha feito mau uso de suas faculdades. O Espírito, porém, sofre por efeito desse constrangimento, de que tem perfeita consciência. Está aí a ação da matéria.

6 Fatalidade

A fatalidade existe unicamente pela escolha que o Espírito fez, ao encarnar, desta ou daquela prova para sofrer. Escolhendo-a, institui para si uma espécie de destino, que é a conseqüência mesma da posição em que vem a achar-se colocado. No que se refere às provas morais e às tentações, o Espírito, conservando o livre-arbítrio quanto ao bem e ao mal, é sempre senhor de ceder ou de resistir. Ao vê-lo fraquear, um bom Espírito pode vir-lhe em auxílio, mas não pode influir sobre ele de maneira a dominar-lhe a vontade. Qualquer que seja o perigo que nos ameace, se a hora da morte ainda não chegou, não pereceremos, mas não serão inúteis as precauções que devemos tomar para evitá-la, pois elas são sugeridas com o fito de evitarmos a morte que nos ameaça. Muitas vezes, sabe o Espírito antecipadamente de que gênero será a sua morte. Sabe igualmente quais as lutas que terá de sustentar para evitá-la e que, se Deus permitir, não sucumbirá. Muito amiúde tem o homem o pressentimento do seu fim, como pode ter o de que ainda não morrerá. Esse pressentimento lhe vem dos Espíritos seus protetores, que assim o advertem para que esteja pronto a partir, ou lhe fortalecem a coragem nos momentos em que mais dela necessita. Com todos os acidentes, que nos sobrevêm no curso da vida, não se dá o mesmo que com a morte, pois são, de ordinário, coisas muito insignificantes, de sorte que podem nos prevenir deles e fazer que os evitemos algumas vezes. Isso, porém, nenhuma importância tem na vida que escolhemos. A fatalidade, verdadeiramente, só existe no momento em que devemos aparecer e desaparecer deste mundo. Há fatos que forçosamente têm que se dar, mas não devemos crer que tudo que sucede esteja escrito, como costumam dizer. Um acontecimento qualquer pode ser a conseqüência de um ato que praticamos por nossa livre vontade, de tal sorte que, se não houvesse praticado, o acontecimento não se teria dado. Pode o homem, pela sua vontade e por seus atos, fazer que se não dêem acontecimentos que deveriam verificar-se reciprocamente, se essa aparente mudança na ordem dos fatos tiver cabimento na seqüência da vida que ele escolheu. Não se deve acreditar que tudo o que nos acontece estava escrito. Um acontecimento qualquer pode ser a conseqüência de ato praticado por livre vontade. Aquele que delibera sobre uma coisa é sempre livre de fazê-la ou não. Se soubesse previamente que, como homem, teria que cometer um crime, o Espírito estaria a isso predestinado. Ninguém há predestinado ao crime e todo crime, como qualquer outro ato, resulta sempre da vontade e do livre-arbítrio. O que chamamos fatalidade decorre do gênero da existência escolhida, portanto não há fatalidade absoluta. Dizer-se que alguém nasceu sob uma boa estrela é uma superstição antiga que prendia às estrelas os destinos dos homens. Alegoria que algumas pessoas fazem a tolice de tomar ao pé da letra.

7 Conhecimento do futuro

Em princípio, o futuro é oculto ao homem e só em casos raros e excepcionais permite Deus que seja revelado. Se o homem conhecesse o futuro, negligenciaria do presente e não obraria com a liberdade com que o faz, porque dominaria a idéia de que, se uma coisa tem que acontecer, inútil será ocupar-se com ela, ou então procuraria obstar a que acontecesse. Assim é que nós mesmos preparamos, muitas vezes, os acontecimentos que hão-de sobrevir no curso de nossa existência. Às vezes, Deus permite que o futuro seja revelado, porquanto o seu conhecimento prévio facilita a execução de uma coisa, em vez de a estorvar, obrigando o homem a agir diversamente do modo por que agiria, se lhe não fosse feita a revelação. Não raro, também é uma prova.

8 Resumo teórico do móvel das ações humanas

O homem não é fatalmente levado ao mal; os atos que pratica não foram previamente determinados; os crimes que comete não resultam de uma sentença do destino. Desprendido da matéria e no estado de erraticidade, o Espírito procede à escolha de suas futuras existências corporais, de acordo com o grau de perfeição a que haja chegado e é nisto que consiste, sobretudo, o seu livre-arbítrio. Se ele cede à influência da matéria, é que sucumbe nas provas que por si mesmo escolheu. Para ter quem o ajude a vencê-las, concedido lhe é invocar assistência de Deus e dos bons Espíritos.

Sem o livre-arbítrio o homem não teria nem culpa por praticar o mal, nem mérito em praticar o bem. Nenhuma desculpa poderá o homem buscar, para os seus delitos, na sua organização física, sem abdicar da razão e da sua condição de ser humano, para se equiparar ao bruto.

A fatalidade, como vulgarmente é entendida, supõe a decisão prévia e irrevogável de todos os sucessos da vida, qualquer que seja a importância deles. Se tal fosse a ordem das coisas, o homem seria qual máquina sem vontade. Contudo, a fatalidade é uma palavra vã. Existe na posição que o homem ocupa na Terra e nas funções que aí desempenha, em conseqüência do gênero de vida que o Espírito escolheu como prova, expiação ou missão. Ele sofre fatalmente todas as vicissitudes dessa existência e todas as tendências boas ou más, que lhe são inerentes. Aí, porém, acaba a fatalidade, pois de sua vontade depende ceder ou não a essas tendências. Os pormenores dos acontecimentos, esses ficam subordinados às circunstâncias que ele próprio cria pelos seus atos, sendo que nessas circunstâncias podem os Espíritos influir pelos pensamentos que sugerirem.

No que concerne à morte, é que o homem se acha submetido, em absoluto, à inexorável lei da fatalidade, por isso que não pode escapar à sentença que lhe marca o termo da existência, nem o gênero de morte que haja de cortar a esta o fio.

Quanto ao mais, o homem pode pedir a Deus a força necessária, reclamando, para tal fim, a assistência dos bons Espíritos. E foi o que Jesus nos ensinou por meio da sublime prece que é a Oração dominical, quando manda que digamos: "Não nos deixeis sucumbir à tentação, mas livrai-nos do mal".

– Capítulo XI –

Da lei de justiça, de amor e de caridade

1 Justiça e direitos naturais. 2 Direito de propriedade. Roubo. 3 Caridade e amor do próximo. 4 Amor materno e filial.

1 Justiça e direitos naturais

O sentimento de justiça está na natureza, porém, é fora de dúvida que o progresso moral desenvolve esse sentimento, mas não o dá, pois Deus o pôs no coração do homem. Daí vem que, freqüentemente, em homens simples e incultos se nos deparam noções mais exatas da justiça do que nos que possuem grande cabedal de saber. Os homens entendem a justiça de modo diferente, porque a esse sentimento se misturam paixões que o alteram, fazendo que vejam as coisas por um prisma falso. A justiça consiste em cada um respeitar os direitos dos demais. Esses direitos são regulados por duas leis: a humana e a natural. Tendo os homens formulado leis apropriadas a seus costumes e caracteres, elas estabeleceram direitos mutáveis com o progresso das luzes. As leis naturais são reguladas pelas leis divinas, resumidas nesta sentença: "Queira cada um para os outros o que quereria para si mesmo".

Da necessidade que o homem tem de viver em sociedade, é que nascem-lhe obrigações especiais, e a primeira de todas é a de respeitar os direitos de seus semelhantes. Os direitos naturais são os mesmos para todos, desde os de condições mais humildes até os de posições mais elevadas. Esses direitos são eternos. Os que o homem estabeleceu perecem com as suas instituições.

O caráter do homem que pratica a justiça em toda a sua pureza é o do verdadeiro justo, a exemplo de Jesus, porquanto pratica também o amor ao próximo e a caridade, sem os quais não há verdadeira justiça.

2 Direito de propriedade Roubo

O primeiro de todos os direitos naturais do homem é o de viver. Por isso é que ninguém tem o direito de atentar contra a vida de seu semelhante, nem de fazer o que quer que possa comprometer-lhe a existência corporal. O direito de viver dá ao homem o de acumular bens que lhe permitam repousar quando não mais possa trabalhar, mas ele deve fazê-lo em família, como a abelha, por meio de um trabalho honesto, e não como egoísta, e tem o direito de defender esses bens. Não deve, porém, exagerar o desejo de possuir, nem deve possuir para si somente e para sua satisfação pessoal. A propriedade legítima é aquela que foi adquirida sem prejuízo de outrem. Tudo o que se adquire legitimamente constitui uma propriedade, mas a legislação dos homens, porque imperfeita, consagra muitos direitos convencionais, que a lei de justiça reprova. Essa a razão porque eles reformam suas leis, à medida que o progresso se efetua e que melhor compreendem a justiça. O que num século parece perfeito, afigura-se bárbaro no século seguinte.

3 Caridade e amor do próximo

O verdadeiro sentido da palavra caridade é benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.

O amor e a caridade são o complemento da lei de justiça, pois amar o próximo é fazer-lhe todo o bem que nos seja possível e que desejáramos nos fosse feito. Tal o sentido destas palavras de Jesus: "Amai-vos uns aos outros como irmãos". É certo que ninguém pode votar aos seus inimigos um amor terno e apaixonado. Não foi isso que Jesus entendeu de dizer. Amar os inimigos é perdoar-lhes e retribuir o mal com o bem. O que assim procede se torna superior aos seus inimigos, ao passo que abaixo deles se coloca se procura tomar vingança.

Uma sociedade que se baseia na lei de Deus e na justiça deve prover à vida do fraco, evitando que este peça esmola, pois, nesta condição, o homem se degrada física e moralmente: embrutece. Há homens que se vêem condenados a mendigar por culpa sua, mas, se uma boa educação moral lhes houvera ensinado a praticar a lei de Deus, não teriam caído nos excessos causadores da sua perdição. Disso, sobretudo, é que depende a melhoria do nosso planeta.

4 Amor materno e filial

O amor materno é, não só uma virtude, como também um sentimento instintivo comum aos homens e aos animais. A natureza deu à mãe o amor a seus filhos no interesse da conservação deles. No animal, porém, esse amor se limita às necessidades materiais; cessa quando desnecessários se tornam os cuidados. No homem, persiste pela vida inteira e comporta um devotamento e uma abnegação que são virtudes. Sobrevive mesmo à morte e acompanha o filho até ao além-túmulo. Há, entretanto, mães que odeiam os filhos, mas isso decorre de uma prova que o Espírito filho escolheu, ou uma expiação, se aconteceu ter sido mau pai, ou mãe perversa, ou mau filho, noutra existência. Em todos os casos, a mãe má não pode deixar de ser animada por um mau Espírito que procura criar embaraços ao filho, a fim de que sucumba na prova que buscou. A missão dos pais é sublime e devem esforçar-se para encaminhar seus filhos para o bem. Demais, esses desgostos são, amiúde, a conseqüência do mau feitio que os pais deixaram que seus filhos tomassem desde o berço. Colhem o que semearam.

– Capítulo XII –

Da perfeição moral

1 As virtudes e os vícios. 2 Paixões. 3 O egoísmo. 4 Caracteres do homem de bem. 5 Conhecimento de si mesmo.

1 As virtudes e os vícios

A virtude mais meritória é a que assenta na mais desinteressada caridade. Toda virtude, entretanto, tem seu mérito próprio, porque todas indicam progresso na senda do bem. Há virtude sempre que há resistência voluntária ao arrastamento dos maus pendores.

O interesse pessoal é o sinal mais característico da imperfeição do homem. Freqüentemente, as qualidades morais são como, num objeto de cobre, a douradura que não resiste à pedra de toque. O verdadeiro desinteresse é coisa ainda tão rara na Terra que, quando se patenteia, todos o admiram como se fora um fenômeno. O desinteresse é uma virtude, mas a prodigalidade irrefletida constitui sempre, pelo menos, falta de juízo. A riqueza, assim como não é dada a uns para ser aferrolhada num cofre forte, também não o é a outros para ser dispersada ao vento. Representa um depósito de que uns e outros terão de prestar contas, porque terão de responder por todo o bem que podiam fazer e não fizeram, por todas as lágrimas que podiam ter estancado com o dinheiro que deram aos que dele não precisavam.

O bem deve ser feito caritativamente, isto é, com desinteresse, e aquele que o faz sem idéia preconcebida, pelo só prazer de ser agradável a Deus e ao próximo que sofre, já se acha num certo grau de progresso, que lhe permitirá alcançar a felicidade muito mais depressa do que seu irmão que, mais positivo, faz o bem por cálculo e não impelido pelo ardor natural de seu coração. Procede como egoísta todo aquele que calcula o que lhe possa cada uma das boas ações render na vida futura, tanto quanto na vida terrena. Nenhum egoísmo, porém, há em querer o homem melhorar-se, para se aproximar de Deus, pois que é o fim para o qual devem todos tender.

Não é reprovável que cobicemos a riqueza para fazer o bem, pois tal sentimento é, não há dúvida, louvável, quando puro. Mas, será sempre bastante desinteressado esse desejo? Não ocultará nenhum intuito de ordem pessoal? Não será de fazer o bem a si mesmo, em primeiro lugar, que cogita aquele, em quem tal desejo se manifesta?

O homem que se põe a estudar os defeitos alheios incorre em grande culpa, porque será faltar com a caridade, principalmente se o fizer para criticar e divulgar. Antes de censurarmos as imperfeições dos outros, vejamos se de nós poderão dizer o mesmo. Tratemos, pois, de possuir qualidades opostas aos defeitos que criticamos no nosso semelhante. Se o escritor apenas visa produzir escândalo, não faz mais do que proporcionar a si mesmo um gozo pessoal, apresentando quadros que constituem antes mau do que bom exemplo. Demais, se tem empenho em provar a sua sinceridade, apoiemos o que disser nos exemplos que dê.

2 Paixões

A paixão está no excesso de que se acresceu a vontade, visto que o princípio que lhe dá origem foi posto no homem para o bem, tanto que as paixões podem levá-lo à realização de grandes coisas. O abuso que delas se faz é que causa o mal. Uma paixão se torna perigosa a partir do momento em que deixamos de poder governá-la e que dá em resultado um prejuízo qualquer para nós mesmos, ou para outrem.

O homem, pelos seus esforços, pode vencer as más inclinações. O que lhe falta é a vontade, mas, se pedir a Deus e ao seu bom gênio, com sinceridade, os bons Espíritos lhe virão certamente em auxílio, porquanto é essa a missão deles.

3 O egoísmo

Dentre todos os vícios, o mais radical é o egoísmo. Dele deriva todo o mal. Quem quiser, desde esta vida, ir-se aproximando da perfeição moral, deve expurgar o seu coração de todo sentimento de egoísmo, visto ser ele incompatível com a justiça, o amor e a caridade. Ele neutraliza todas as outras qualidades. O egoísmo funda-se no sentimento do interesse pessoal, mas, à medida que os homens se instruem acerca das coisas espirituais, menos valor dão às coisas materiais. Quando os homens se houverem despojado do egoísmo que os domina, viverão como irmãos, sem se fazerem mal algum, auxiliando-se reciprocamente, impelidos pelo sentimento de solidariedade.

4 Caracteres do homem de bem

Verdadeiramente, homem de bem é o que pratica a lei de justiça, amor e caridade, na sua maior pureza. Possuído do sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem pelo bem, sem contar com qualquer retribuição, e sacrifica seus interesses à justiça. É bondoso, humanitário e benevolente para com todos, porque vê irmãos em todos os homens, sem distinção de raça, nem de crenças. Respeita, enfim, em seus semelhantes, todos os direitos que as leis da Natureza lhes concedem, como quer que os mesmos direitos lhe sejam respeitados.

5 Conhecimento de si mesmo

O meio mais prático e mais eficaz para o homem se melhorar nesta vida e resistir à atração do mal, é o que indicou um sábio da antigüidade, quando disse: Conhece-te a ti mesmo.

O conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do progresso individual. Muitas falhas que cometemos nos passam despercebidas. Se, efetivamente, interrogássemos mais amiúde a nossa consciência, veríamos quantas vezes falimos sem que o suspeitemos, unicamente por não perscrutarmos a natureza e o móvel dos nossos atos. A forma interrogativa tem alguma coisa de mais precioso do que qualquer máxima, que muitas vezes deixamos de aplicar a nós mesmos. E, pela soma que derem as respostas, poderemos computar a soma de bem ou de mal que existe em nós.