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Instituto Bairral: Espiritismo e PsiquiatriaGilberto Schoereder Modelo na área da psiquiatria, o Instituto Bairral vem operando desde 1937, sempre se mantendo dentro da filosofia espírita de seus fundadores. Quando se fala sobre “o Brasil que o Brasil não conhece” estamos nos referindo, entre outras coisas, a uma série de empreendimentos que – apesar de realizados num país que já foi “do terceiro mundo”, “em desenvolvimento” e que agora leva o título de “emergente” –, têm a grandeza própria do primeiro mundo, dos centros mais avançados do planeta. Um desses empreendimentos surpreendentes encontra-se na cidade de Itapira, no Estado de São Paulo. Trata-se do Instituto Bairral, a maior clínica psiquiátrica particular da América Latina, inovadora no tratamento de distúrbios mentais. Mantido pela Fundação Espírita Américo Bairral, o hospital vem assumindo uma postura pioneira desde sua fundação, em 1937, sempre fundamentada na filantropia e nos princípios humanitários, sem abrir mão de uma altíssima qualidade no tratamento psiquiátrico. O Inst. Bairral ergue-se em meio a um verdadeiro horto florestal com quatrocentos mil metros quadrados, e criou um sistema pioneiro que consiste num sistema de unidades de tratamento específicas, considerado uma verdadeira revolução no tratamento psiquiátrico. Essa divisão propiciou uma racionalização dos serviços, com tratamento adequado a cada categoria de distúrbio mental. O resultado prático desse sistema foi a formação de seis unidades de tratamento específicas: Mirante, para alcoolismo, transtornos neuróticos, psicoses leves e drogadicção; Vivenda, para pacientes psicóticos agudos; Esplanada, para psicóticos crônicos; Recanto, para quadros psiquiátricos regressivos do sexo masculino; Estância, para quadros senis e pré-senis com independência para atividades da vida diária; Vale Verde, para quadros senis com inteira dependência de cuidados de enfermagem. As unidades foram organizadas como comunidades terapêuticas autônomas, funcionando como micro-hospitais com estrutura para atender até sessenta pacientes com perfil diagnóstico semelhante. Segundo Alberto Luís de Mello Rosatto, presidente do Conselho Diretor da Fundação, esse sistema “evita a indesejável convivência de pessoas portadoras de transtornos mentais que nada têm em comum, da mesma forma que não se concebe uma sala de aula freqüentada ao mesmo tempo por alunos do primário, secundário e da universidade. Renomados especialistas afirmaram ser essa uma característica inédita na área da psiquiatria. Isso nos deixa muito felizes por ser o reconhecimento de uma iniciativa pioneira adotada pelo Bairral”. Alta QualidadeCada unidade conta com uma equipe multidisciplinar exclusiva que planeja e executa os projetos terapêuticos específicos para cada grupo de pacientes. A integração dessas unidades de tratamento autônomas ocorre através de reuniões periódicas nas quais os processos de tratamento são avaliados e as experiências próprias de cada equipe são compartilhadas. A integração também ocorre por meio das atividades sociais, esportivas e recreativas. Segundo a diretora clínica do Bairral, dra. Priscila C. Fernandes, um dos destaques do instituto está nos resultados conseguidos com a participação ativa dos pacientes no processo terapêutico, de modo que o paciente deixa de ser o objeto para se tornar o sujeito do seu próprio tratamento. Dessa forma, o processo também fica mais dinâmico e em constante reestruturação. A comunidade terapêutica é vista, então, como uma mini-sociedade que, apesar de protegida, tende a se estruturar de tal forma que os indivíduos tenham iniciativa, tenham resoluções em assembléia e assumam responsabilidades com relação a essas resoluções. O dr. Sérgio Paulo Rigonatti, médico supervisor do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, diz que o Inst. Bairral “conseguiu materializar essa divisão por categorias de doentes, montando micro-sociedades dentro do hospital, com todo o conforto, com toda a assistência médica, com toda a assistência psicológica, pedagógica e social, que faz com que o paciente retorne mais rapidamente à sociedade, sem grandes traumas”. Com praticamente um profissional para cada paciente, o instituto dispõe de departamentos de psicologia, terapia ocupacional, enfermagem, serviço social, nutrição e dietética, fisioterapia, educação física, atendimento clínico, eletroencefalografia, odontologia, farmácia e serviço terceirizado de análises clínicas. Os tratamentos oferecidos pelo Bairral são complementados por um serviço de hotelaria de primeira qualidade: apartamentos grandes, profissionais treinados em hotéis de categoria internacional e uma cozinha de classe com padaria, confeitaria e sorveteria próprias para servir aos pacientes, além de um conjunto poliesportivo, piscinas e infra-estrutura voltada para o lazer, aprendizado e entretenimento. O corpo técnico do Inst. Bairral é composto por 24 médicos psiquiatras, 5 médicos clínicos, 23 enfermeiros, 12 psicólogos, 10 assistentes sociais, 11 terapeutas ocupacionais, 4 professores de educação física, 1 fisioterapeuta, 2 cirurgiões-dentistas, 1 farmacêutico e 1 nutricionista. Com essa equipe, o instituto tornou-se uma referência em psiquiatria, mas as coisas nem sempre foram muito fáceis. Américo BairralEm seus primeiros tempos de funcionamento, o Bairral atendia apenas enfermos indigentes que chegavam de regiões distantes, sem consulta prévia, complicando ainda mais a atuação dos profissionais da obra, que não contava com qualquer fonte de renda a não ser os donativos das pessoas que se interessavam em ajudar a instituição e pequenos donativos das prefeituras. Américo Bairral, que deu início aos trabalhos que resultariam na fundação, era um católico interessado na leitura da Bíblia, mas intrigado pelas divergências entre o que estava na Bíblia e o que o catolicismo dizia. Um dia, quando estudava uma passagem do livro sagrado, escutou uma voz dizer-lhe para estudar o magnetismo. Apesar de não saber muito bem o que estava acontecendo, resolveu seguir a orientação e, mais que isso, passou a realizar experiências com magnetismo. Em outra oportunidade, quando refletia como fazer para conseguir uma interpretação básica da Bíblia, escutou a mesma voz dizendo para estudar o espiritismo. Foi o que ele fez, conseguindo inclusive despertar a capacidade psicográfica. Numa mensagem recebida, o espírito que se comunicava com ele indicava oito pessoas que deveriam ser convidadas para compor um grupo de estudos. Foi assim que, em 1914, surgiu o Centro Espírita Luís Gonzaga, em Itapira. Dentre as preocupações de Américo Bairral estavam os doentes mentais, que na época não recebiam tratamento adequado e viviam trancados em cadeias públicas. O grupo de companheiros fundou a Caixa de Assistência aos Necessitados e, num terreno que estava sendo loteado, deu início ao hospital. Américo Bairral desencarnou em 1931, com apenas 46 anos, mas os trabalhos prosseguiram e, em 1936, Onofre e Gracinda Batista deram início à Fundação Espírita Américo Bairral. CrescimentoAinda por volta da década de 20, o grupo já ajudava as pessoas necessitadas, visitando os doentes em suas casas, aplicando a terapia fluidoterápica e a desobsessão terapêutica, além das sessões mediúnicas no centro espírita. A idéia de Américo era construir o hospital para poder ajudar de forma mais efetiva os enfermos que não podiam ser atendidos por falta de transporte, que era bastante complicado na época. Com a perda do líder, a obra do hospital ficou temporariamente paralisada. Posteriormente Onofre Batista conseguiu o terreno em que começaria a construção do sonho de Américo, o que ocorreu em 1936, com um prédio bem modesto. Batista, que trabalhava para o jornal O Clarim e para a Revista Internacional de Espiritismo, de Matão, começou a percorrer o país à procura de donativos, tarefa que se estendeu até a década de 50. Segundo explica César Bianchi – que fez parte do primeiro grupo de trabalho – em seu livro A História do Sanatório Américo Bairral, até 1945 esse trabalho era dificultado pelo fato da instituição ainda ser desconhecida e pela falta de documentos que atestassem se tratar de uma entidade filantrópica. Era uma estrada de duas mãos, uma vez que, assim que se tornava mais conhecido e obtinha mais doações, também começava a abrigar pacientes de mais localidades, de modo que o hospital começou a ter um número de internações acima de sua capacidade. Já a partir de 1953, passou a funcionar o Conselho Estadual de Assistência Hospitalar, com a assistência às instituições filantrópicas melhorando gradativamente. A partir dos anos 60, com uma nova equipe assumindo a direção do hospital e o estabelecimento de um convênio com o INPS, os recursos do hospital melhoraram bastante. Com a entrada de mais recursos foram contratados mais funcionários e as instalações foram melhoradas, de modo que o atendimento aos pacientes foi aperfeiçoado. Nessa época foram abolidas práticas antiquadas como o uso de pátios, quartos-fortes e camisas-de-força. Apesar das melhorias, a fundação chegou à conclusão de que também seria necessário criar um setor de pacientes particulares, para que o hospital não dependesse de uma única fonte de recursos. Centro EspíritaIronildo Boselli, pertencente ao Conselho Curador da Fundação Espírita Américo Bairral, diz que existe também um centro espírita no Bairral que presta assistência limitada pelo material humano de quem dispõe. “O voluntariado de Itapira é relativamente pequeno para o tamanho das obras que temos aqui”, explica. “Além do Bairral e da Casa de Repouso Allan Kardec, temos uma creche e quatro centros espíritas com uma parte assistencial bastante desenvolvida. É pequeno o número de pessoas que costuma se envolver ao mesmo tempo com mais de uma obra. O nosso grande problema é material humano, mas, dentro dos limites, é dada toda a assistência espírita aos internos. Cada local, prédio central e unidades externas, tem uma biblioteca espírita à disposição dos pacientes. Nós temos dois funcionários que se dedicam exclusivamente à parte espiritual junto aos funcionários”. Além disso, também são realizadas reuniões públicas no anfiteatro, que já chegou a contar com a presença de até trezentos pacientes, nas quartas-feiras de noite. Assim, dentro do campo doutrinário, tudo o que é possível é feito. O próprio Ironildo, há 25 anos, dirige um grupo no Centro Espírita Luís Gonzaga, trabalhando, entre outras coisas, com tratamentos de desobsessão. Mas o problema é o mesmo: falta de material humano. “Esse grupo conta agora”, ele diz, “com meia dúzia de médiuns, e o hospital tem oitocentos pacientes. Não dá pra atender”. É bom que se saiba que o tratamento no Bairral é exclusivamente clínico; no entanto, os pacientes que procuram a parte espiritual são atendidos. “Nós não impomos nada”, explica Ironildo Boselli. “O paciente que procura é assistido. Agora, na parte que dependa de iniciativa do plano espiritual, nós não temos controle. Eles é que selecionam e direcionam o grupo daqui e os grupos que funcionam na cidade. Aqui o indivíduo se interna e passa exclusivamente para a parte técnica. Alguma coisa da parte espiritual acontece depois, mas não existe possibilidade de diagnóstico diferencial. Tudo isso ainda é um sonho. O que acontece depois é por decorrência da iniciativa do voluntariado e, por outro lado, por iniciativa do plano espiritual, quando for o caso. Mas na internação, o indivíduo é tratado exclusivamente no lado técnico”. Dessa forma, apesar de se manter fiel à filosofia com que foi fundado, existe uma separação de atividades entre a área clínica e a espírita. A maioria dos médicos não é espírita. “Na parte técnica”, conta Ironildo, “temos dois ou três médicos que são da doutrina. A diretora clínica é espírita, um dos médicos assistentes, e têm alguns simpatizantes. Os diretores e a maioria dos integrantes do conselho curador são espíritas e representantes de entidades espíritas”. Nessa área espírita, Ironildo Boselli também está envolvido em algumas experiências científicas com relação à fotografia Kirlian e fenômenos como os poltergeist. Essas pesquisas vêm sendo realizadas na medida do possível, sempre procurando atualizar e ampliar os conhecimentos. Quem vê o Bairral pelas fotos já fica maravilhado com a qualidade das unidades terapêuticas. Mas quem visita o local percebe que essa preocupação constante com a qualidade vai muito além do que se pode imaginar, com cada detalhe das instalações merecendo uma atenção constante. É um alívio saber que, numa área tão delicada quanto a da psiquiatria, e que tem despertado tantas discussões acaloradas – especialmente no que diz respeito ao fechamento de clínicas e asilos psiquiátricos – o Inst. Bairral dá uma mostra muito clara de que é possível fazer um trabalho de primeira qualidade no Brasil. Os Primeiros Trabalhos EspirituaisEm seu livro, César Bianchi refere-se à atuação dos mentores espirituais para a existência da instituição. Nos primeiros tempos, os tratamentos seguiam pelo caminho da medicina e do espiritismo, com o fornecimento de assistência material e espiritual. Assim, eram realizados passes, sessões de desobsessão e evangélicas. “Desde o primeiro doente recolhido no modestíssimo hospital”, escreveu Bianchi, em A História do Sanatório Américo Bairral, “notou-se a eficiência do tratamento conjugado. Américo Bairral já se encontrava na vida espiritual quando a obra por ele idealizada entrou em funcionamento. Servindo-se, no entanto, das faculdades mediúnicas de nossa esposa (Dalila Batista Bianchi) e de dona Gracinda, Américo desenvolveu um trabalho intensíssimo em prol da cura dos enfermos e da orientação da instituição. Em colaboração com os espíritos da alta esfera espiritual, os fenômenos se desenvolviam surpreendentemente”. Esses tratamentos espirituais eram ainda mais importantes na época, uma vez que os médicos então encontravam inúmeras dificuldades, inclusive por falta de conhecimentos psiquiátricos e de recursos terapêuticos. Quando Dalila Bianchi desenvolveu a faculdade mediúnica psicográfica, Américo Bairral também começou a transmitir mensagens de ordem doutrinária e contos mediúnicos dedicados aos alunos da escola dominical do Centro Espírita Luís Gonzaga. |
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